segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Publicidade institucional with an overproduced twist

«Espantem-se as hostes, há em Portugal mais e diversa música que os cânones ou as playlists consagraram. E quando a sua proposição estética consegue escapar aos fechamentos que tendem a garantir a sua sobrevivência no exclusivo das tribos de iniciados, isso é bom. Vem isto a propósito do facto de, após auspiciosa estreia com o críptico “Redra Ändra Endre de Fase”, estar recentemente disponível o segundo opus ("Rima") de um tal Samuel Jerónimo, do qual breve tomei conhecimento, e sobre o qual breve escrevinho o que se seguirá, sob o beneplácito, por uma vez impoluto, do amiguismo pseudo-editorial.
Nesse primeiro esforço destacava-se desde logo o desafio de um idioma que congregava numa entidade composicional híbrida as possibilidades contemporâneas da electrónica com uma disponibilidade expressiva ancorada, mas não saturada, por algumas correntes de dita música erudita, com particular apelo para certos procedimentos minimalistas (como explanado no quasi-exercício de exploração técnica que encerrava o disco), mas que na peça inicial que constitui o corpo central do disco ousavam uma clara vontade de construção dramática e envolvente da expressão musical. Aí se progredia numa imbricação densa de texturas emanadas de um aliciamento rítmica e harmonicamente ancorado em teias urdidas de movimentos sobrepostos, rápidos e sequenciais, de piano e marimbas, a conseguir ganhar forma não tanto na directa expressão harmónica ou melódica, quanto num movimento de terceiro grau, por assim dizer, que essas expressões agregadas numa grelha de sequenciação e desenvolvimento conseguiam operar.
Neste segundo disco, “Rima”, se reconhecíveis certas dinâmicas de construção sonora e composicional, ressalta uma clara vontade de explorar formas expressivas, que ainda que assentes nas bases conceptuais que organizaram o anterior disco (particularmente as que marcavam, então sincreticamente, a segunda peça que o integrava), aqui materializam o corpo da obra (dividida em quatro “versos”) numa literal rima conceptual entre um certo discurso contemporâneo de emanações electrónicas evanescentes, e a “recuperação” (inclusive na instrumentação: o orgão) de elementos expressivos derivados de certa herança erudita (sensorialmente entre o barroco e o romântico).
Claro que nada sendo tão simples, escapando-se a tal (explicitamente) programada e ostensiva divisória, pode-se em alguma medida também entrever essa rima conceptual em cada uma das faixas individualizadas. Nas faixas de inspiração electrónica ressalta, apesar da unicidade dos meios, a diversidade dos seus plurais referenciais. Por um lado, se é de electrónica contemporânea que a produção dessas faixas se veste, numa como que se evoca a paisagística etérea no limiar do palpável na textura de uns Tangerine Dream em dia de exiguidade volumétrica; enquanto noutra sobressaem antes ecos industriais distantes da imaginação de uns Faust entregues ao space rock, sem rock. Por outro lado, culminam ambas na reminiscência fantasmática da porção da obra de Ligeti apostada no impressivo tratamento das vozes (corais), aqui electronicamente refractadas, relembrando mais explicitamente a sua convocação por Kubrick, para a pintura das paisagens sonoras do seu “2001”. Tal mote, aliás, não surge gratuito, dado não ser estranho à ambiência desses dois “versos”, como que fazendo ecoar a propagação em anos-luz das ondas de som na esteira do tempo das vozes do planeta.
Por sua vez, a ressonância mais erudita das outras duas faixas, não se limita também ela a uma construção aturada de dinâmicas para orgão, ora de ressonâncias mais barrocas na urdidura, ora mais grandiloquentemente românticas, a contrapôr-se à contrastante lassidão tensa das investidas electrónicas. Não só, aliás, em relativa semelhança processual com o disco anterior, essa ressonância é inseminada em procedimentos composicionais do (supostamente) mais contemporâneo minimalismo, na repetição e na sequenciação de frases musicais, através de cuja modulação diversa (em termos harmónicos, tonais, ou de inversões e reversões formais quasi-matemáticas) se vai elaborando a estruturação do discurso musical; como esses procedimentos também não alimentam um mecanicismo auto-suficiente da expressão musical, dado que esse discurso, nesta composição, se investe numa expressividade que reclama margens e relevos de enunciação, arroubo e respiração, que inclusive se acomete, a espaços, a certas ressonâncias das investidas progressivas de um Keith Emerson (em dia bom...), como seja nas sequências de acordes, ou nas imbricações temáticas que vão organizando e sugestionando diversamente a percepção (não se quedando pois nos efeitos hipnóticos da constância de minimalismo de escola). Imagine-se que resulta numa espécie de possessão musical em anacronismo invertido, como que agregando a diferentes espaços a inspiração de um Rameau, de um Vivaldi e de um Liszt, com como que o espectro de uma quase pulsação antecipada de rock (sem rock...) progressiva e minimalisticamente filtrado, assim voluntariosamente querendo sorver vários tempos de que o tempo musical presente se fez num só receptáculo demonstrativo dessa espessura histórica.
Nessa lógica de um discurso dualizado, pode dizer-se que, ao invés do primeiro idiossincrático disco (apesar de compósito de três composições de âmbito, concepção e ambição diversa), aparenta daqui resultar mais a propugnação de um programa musical (explicitamente, a sustentar o seu relativo fechamento, assumido) que a afirmação de uma identidade. Ou poderá porventura, requisitando confirmação em mais registos, afirmar-se antes um discurso de franca alteridade. O que já certamente se pode recolher da reunião dos dois tomos que assistem à sua produção, é a impressão de uma tão mais louvável quanto inusitada procura de uma voz idiomática que se não cristalize na facilidade das fórmulas que a dado momento lhe sejam familiares (não obstante o não serem no seu espaço criativo de recepção), o que não faz senão alimentar a expectativa do seguimento. Convenhamos, desde logo, que se não trata de nada menos que muito estimável.»

in Recensões a Rima

(To whom it may concern, e aproveitando o embalo, mais se informa que, para outras aproximações a esta matéria sonora, terá início esta semana o périplo de apresentações do disco por diversas Fnac's, e que o mesmo, entre outras opções, se pode encontrar na, for my money's worth, melhor loja de Lisboa, Internet e arredores, a ProgCds, à Rua do Carmo. Over and out)

2 comentários:

cj disse...

decerto que ainda haveria mais qualquer coisa a dizer...

julinho disse...

Decerto... mas seria refrescante variar, quando nestas paragens o problema sói ser o inverso...