terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

We have no more beginnings: Buster galore


 
 
 










  

 

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Quando pensava que o meu contentamento com o presente director da Cinemateca não podia ser maior

«trata-se da já célebre "história dos preservativos" que Jack Arnold várias vezes teve o prazer de narrar. Perante a impossibilidade de conseguir por simples ampliação o efeito das monstruosas gotas de água (que caem sobre Scott Carey quanto este está, na cave, reduzido ao tamanho de insecto), Arnold lançou mão de um insólito mas perfeitíssimo recurso: nada mais nada menos do que preservativos cheios de água que, ao caírem, depois de ampliados, davam a exacta imagem de gotas gigantes que, no fim, rebentavam em redor do actor. E quando, no fim da rodagem, o gabinete de produção notou que uma das parcelas do orçamento dizia respeito à compra de 1 500 dos "ditos cujos", Arnold achou mais convincente retorquir: "É que a rodagem foi de tal modo extenuante que, uma vez terminada, resolvemos todos fazer uma festa especial..."»

Folha de sala de The Incredible Shrinking Man

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

We have no more beginnings: the eighteen hundred year itch

«exibia uma beleza perfeita num corpo nu e completamente despido, a não ser por um pequeno véu de seda que lhe sombreava a púbis admirável. Aliás, um ventito curioso bafejava-a, por vezes, com amorosa lascívia, afastando o véu para deixar à vista a flor da sua tenra idade»

O burro de ouro, Apuleio (trad. Delfim Leão)
 


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

We have no more beginnings: Trash talk

«Antes o Simeonte fluirá às arrecuas e o Ida se perfilará
sem folhagem, e a Aqueia prometerá auxílio a Tróia,
do que, caso a minha inteligência cesse de zelar por vós,
a esperteza do bronco Ájax trará proveito aos Dánaos.»

 Metamorfoses, Ovídio (trad. Paulo Farmhouse Alberto)

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We have no more beginnings: No pun intended

«O rei Latino, já envelhecendo,
governava umas terras e cidades
que longuíssima paz adormecera.
Nascera ele de Fauno e de Maricas,
a ninfa laurentina, sendo Fauno
um dos filhos de Pico, o que dizia
que era mesmo Saturno o deus seu pai.»

Eneida, Virgílio (trad. Agostinho da Silva)

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domingo, 12 de outubro de 2014

We have no more beginnings: Peace out

«(...) Omi, perdida de admiração por aquele homem, austero entre todos, cochichou com a sua voz aguda, tão alto que todos podiam ouvi-la:
-É ele! É ele!
E, não se importando com o embaraço das mulheres, declamou alto e bom som:

Barca perdida no mar
À mercê das ondas
Diz-me em que porto
Pensas atracar
Para eu te ir buscar

"Barca que vai e vem e volta sempre para a mesma dama! que mau gosto!"
Intrigado, Yugiri pensou quem poderia ser aquela dama que se expressava ali de forma tão crua e, divertido, ao perceber que devia ser a jovem de quem lhe tinham falado, respondeu:

Mesmo balouçado
Ao sabor dos ventos
O bateleiro indeciso
Decerto não passará
Por costas indesejáveis

Dizem que estas palavras a calaram.»

 
O Romance do Genji, Murasaki Shikibu (trad.Carlos Correia Monteiro de Oliveira)

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sábado, 11 de outubro de 2014

We have no more beginnings: Masterchef Roma

«Assim aumente eu em riqueza – não de peso! – como tudo isso o meu cozinheiro o fez de um porco. Não pode haver homem de mais valia. Basta quereres, e ele de uma barriga de porca fará um peixe, de um toucinho um pombo, de um pernil uma rola, de uma almôndega uma galinha. De forma que, graças à minha carola, foi-lhe dado um nome todo janota; na verdade, chama-se Dédalo. E como tem boa catadura, trouxe-lhe de Roma, como presente, umas facas de ferro da Nórica.»

Satyricon, Petrónio (trad. Delfim F. Leão)

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We have no more beginnings: Enhanced interrogation

"Agora é a melhor altura para interrogar os estrangeiros,
perguntando quem são, uma vez que já se deleitaram com comida.
Ó estrangeiros, quem sois? (...)"

Odisseia, Homero (trad. Frederico Lourenço)

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We have no more beginnings: Slapstick

«Ora quando estava prestes a chegar aos prémios,
Foi então que Ajáx escorregou (pois Atena o prejudicara)
no local onde estava o esterco dos bois de fortes mugidos,
que em honra de Pátroclo matara Aquiles de pés velozes.
E com o esterco dos bois ficou cheia sua boca e narinas.
Assim sendo, o sofredor e divino Ulisses pegou na bacia,
visto que chegara primeiro; e o glorioso Ajáx ficou com o boi.
De pé a segurar com as mãos o chifre do boi campestre,
cuspiu o esterco e assim disse no meio dos Argivos:

"Ah, foi a deusa que me prejudicou os pés, ela que sempre
está ao lado de Ulisses como uma mãe a ajudá-lo."

Assim falou; e aprazivelmente todos se riram dele.»


Ilíada, Entidade indeterminada convencionado chamar Homero (trad. Frederico Lourenço (ou entidade determinada convencionado... mas não vamos por aí))

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

I did not see this coming

A única interpretação que me ocorre para a existência deste mais inesperado dos artefactos culturais é que, na veia suicidária da indústria discográfica - que inclui episódios tão auto-destrutivos, na dissipação do meu voluntarismo em continuar a comprar discos, como fazerem reedições (e.g. a edição do Mingus Ah Um que comprei, de todas as coisas, para substituir uma cópia do exemplar disponível na biblioteca municipal do pedaço) em que para do mais básico a ser provido pelo invólucro de um disco, como seja a informação do personnel (excepção feita se estivéssemos a falar dos Residents há uns anos atrás), me mandam, de todas as coisas, ir ver à internet, onde, se era para isto


, mais valia ter-me abastecido de tudo; ou fazerem edições especiais recheadas com bonus tracks de um disco 6 meses depois de ter saído, colando uma etiqueta retrospectiva de "Special otário edition" no exemplar de quem o comprou logo quando saiu -, isto só pode ser uma nova estratégia editorial constituída como uma espécie de instância auditiva do antigo passatempo do Late Night with Conan O'Brien intitulado "If they mated", exemplificação abaixo

 
, sendo que, no caso em análise, o equivalente gráfico do acasalamento sónico dos dois espécimes seria este:


(caso não estejam ainda a rir a bandeiras despregadas, deixem-me explicar-vos que isto é na realidade uma piada visual altamente sofisticada: esta imagem é da cara do Roedelius; portanto, eu estar a dizer que o resultado do acasalamento do Lloyd com o Hans-Joachim resulta em progénie composta apenas do material genético do Hans-Joachim equivale a dizer que o papel do Lloyd foi tão fecundo quanto uma orgia de grinding vaginas (embora, suspeito, não tão lúdico))

Piadas visuais altamente sofisticadas aside, fico excitadíssimo por ver o que mais sairá desta senda editorial. A minha sugestão para o próximo acasalamento? Leonard Cohen-Yngwie Malmsteem. Selected headbangers Vol. 1. Right on.

Les beaux esprits...


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

sábado, 17 de maio de 2014

History repeats itself


Quando assentou a poeira da comoção Dylan goes electric Judas, esse tornou-se o caso em torno do qual se foi blindando argumentativamente a guinada bem-pensante da coisa pop no sentido da desconsideração da chamada canção de intervenção (ou outra merda qualquer), e que, como o geral das guinadas, pouco mais fez que redireccionar o derrape da imbecilidade.
Haverá argumentos sociológicos para a valia social desse "formato" enquanto mecanismo de ampliação e dinamização de qualquer coisa assimilável a uma consciência política na coisa pública: se há um desequilíbrio colossal entre as agremiações que produzem e disseminam essas formas de expressão e as agremiações a quem a sua menção causa choques anafiláticos; ou, dito de outra forma, se a canção de intervenção tem historicamente versado mais sobre a paz, o pão, habitação, saúde, educação, do que sobre os amanhãs que cantam da trickle-down economics, não é necessariamente por haver sempre um lado certo da história para se cantar, mas por o cantar ser dos poucos veículos expressivos certos para quem está do lado desapossado da história. Contudo, não seria por esses argumentos que, por exemplo, avançaria como mais-valia da arte do imenso Fausto o «Venha cá sr. burguês». Pela mesma ordem de razões, mesmo que possamos sociologicamente ponderar o vilipêndio da canção de intervenção como forma musical como uma decorrência estética de um posicionamento socio-ideológico, justifica-se atermo-nos à discussão do seu argumentário como gozando de uma autonomia crítica. Contudo, rodopiando em torno da invocação dos limites constitutivos da instrumentalidade social do formato, esse argumentário sai furado do redondel.
Argui-se a simplificação estética que essa instrumentalidade demanda - desde logo, como se isso a distinguisse da matriz genética da música pop(ular) em geral e a malta fosse toda empinados do prog - mas depois basta cotejarmos as merdas que se têm inimputavelmente nas prateleiras (eu sei) com o filão cujo iniciático proselitismo político de esgravatar a música tradicional produziu, de longe, a maioria do que de melhor, mais singular e complexo (if need be) se criou musicalmente neste território, de José Afonso (cuja sujeição a um reducionismo político na sua apreciação é das mais lamentáveis miopias culturais deste país) aos Gaiteiros de Lisboa. Mesmo que o quantitativo dos acidentes de percurso desse filão largamente excedesse as suas excelsas recompensas, um raciocínio crítico cuja lógica se cingisse à ponderação probabilística do rácio de boa música que pode emergir de um dado formato ou temática desembocaria logo na constatação - por virtude da singularidade cósmica aleatória na ordem das coisas de terem existido os Van der Graaf Generator - de que as canções sobre faroleiros (independentemente de serem a melhor ocupação do mundo (relembre-se às autoridades competentes e seus simpatizantes a minha perenemente continuada candidatura a qualquer vaga que possa surgir nesse meio)) seriam o hottest topic para escrever grande faixas aí na cena musical.
Argui-se igualmente que a sua instrumentalidade torna essas canções intrinsecamente datadas às circunstâncias sociais que as espoletam, o que leva a presumir que os proponentes de tal proposição, com o final de cada relação amorosa, tendem a carpir ao som de toda e qualquer heartbreak song, para logo as abjurar como espécie musical no momento em que descolam nova pita e assim ciclotimicamente sucessivamente. Na verdade, ao que a canção de intervenção é propícia é à dificuldade de destilar a datação derivada da incapacidade estética de algumas canções ecoar para lá da sua circunstancialidade, da datação histórica e social dos seus receptores, incapazes de se desimplicarem do enjeu daquela circunstancialidade, e facilmente revertendo para a valia estética da obra esses seus (legítimos) limites perceptivos - pode certamente compreender-se que à generalidade das almas latifundiárias uma certa porção da produção cançonetista do PREC não seja particularmente querida, independentemente do nosso afecto pela Lei Barreto. Contudo, isso revela precisamente a visão equivocada, nestas discussões, do que faz a instrumentalidade de uma canção; visão, aliás, partilhada pelos mais voluntaristas dos dois lados da barricada do que convencionam, para os respectivos bem e mal, ser canções de intervenção. Por mais que um artista de máquina de matar fascistas de seis cordas a tiracolo se invista programaticamente em fazer da cantiga uma arma (no que a figura da topical song pode ser descritivamente mais útil), a efectiva instrumentalidade do seu percussor é sempre uma figura da sua apropriação social. Isso implica que não só a datação circunstancial não é constitutiva de uma canção de intervenção, como a abstracção dos seus referentes as torna mais apropriáveis para diferentes mobilizações; que é como quem diz, canções de protesto, são as que o Homem quiser. Lição cuja manifestação mais fina foi inevitavelmente providenciada pelo Robert Wyatt, num álbum programático de canções de, pois, intervenção, emparelhando picos de circunstancialidade política como «Stalin wasn't stallin'», com o «At last I am free», das Chic (um dos factóides mais satisfatórios da História, a todos os níveis).
Mas mesmo que concedêssemos que a circunstancialidade pudesse carimbar o prazo de validade de qualquer canção investida no presente, e pô-la na prateleira dos bens estéticos mais perecíveis, a data de hoje, of all days, chega, ao final do cronómetro, como o contra-argumento mais feroz para uma visão da história que decreta uma crença na perecibilidade das circunstâncias que fazem, em dado momento, uma canção ser de protesto, alimentando a sobrevida discreta das circunstâncias, sobre a carcaça das canções. Que é como quem diz que, no reverso da rêverie desesperada de que lá não tivesse aterrado em 1977, o FMI nunca terá é descolado da Portela, e a reserva do José Mário Branco em continuar a interpretar o seu impossivelmente catártico (e (mesmo descontextualizadamente) genial) «FMI» para lá de uma certa distância temporal da sua circunstancialidade, constitui, para além de um acto pessoal da mais razoável preservação psicológica, um acto micro-histórico de uma ironia spengleriana lacerante. Que é como quem diz:

Has it been that long?

 
Обломов, c'est moi.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Conversa pré-acabada

É sintomático, na minha medida, de uma ausência culturalmente anunciada, que já tivesse um rascunho disto há uns anos quando, vendo-o de passagem num veículo televisivo qualquer me lembrei como, typecast em jovem adulto em apascentada deriva (esse patético e extensivo paradoxo socio-geracional que nos deveria instar a olhar duas vezes para quem subitamente crê que as estacas de campismo foram concebidas para perfurar betão), o Timothy Hutton foi quase o Pedro Hestnes do cinema estadunidense; quase, primordialmente porque, infelizmente para certo cinema estadunidense (ainda que seja questão mais ampla), sem a insondabilidade. Espantou-me depois ver que a filmografia do Hestnes não tem tantas lacunas temporais (ou um absoluto vácuo com a entrada dos 1990's) como eu presumia. Na minha pupila, tinha havido Hestnes em basicamente Botelho, Costa, Silva Melo (com o Mozos fatalmente, e nos seus sentidos sociólogicos não desapropriadamente, adiado), e depois ter-se-ia esfumado fora do húmus de um certo coming of age, também estilístico, do cinema português. Em boa verdade, outra coisa não seria de esperar de tamanha encarnação cinematográfica do zeitgeist geracional de um país. Havia naquele rosto fechado uma translúcida história simbólica das subjectividades por fazer e, convenhamos, a toda a fixação simbolista a exposição à intempérie dos tempos só atrapalha.
Nesse sentido, não será talvez muito de estranhar que o desvanecimento do corpo de uma profecia que já se cumprira (ou fizéramos cumprir - um certa reserva de respeito pela inexpugnabilidade ontológica de outrem, e uma certa assumpção dos reducionismos perceptivos em que os encarceramos, convêm) a si mesma não cause tanta estranheza quanto a nossa boa consciência sensível possa desejar (e começam a assomar os sumiços existenciais em que o nosso silêncio é redefinível, na ficção destes dispositivos descarnados de interacção como nano-púlpitos, em perversos trejeitos culposos como "deixar passar"), mas não é bem isso. O que sucede aos seres desde sempre sequestrados no seu corpo presente por alguma ausência que nos torna a sua convivência irreparavelmente lacunar e já meio consumida - ainda ao alcance do toque - por uma névoa indissipável de perda, é que já só se aplica dizer, ao tempo da sua passagem, que vamos continuar a sentir a sua falta.

sábado, 14 de novembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Pax

Não que com a exponenciação dos mecanismos de citação cinéfila as odds não comecem antes a reverter para conseguir encontrar dois filmes desirmanados por qualquer citação (a new Kevin Bacon test looms on the horizon...), mas, for the moment, what are the odds de ter apanhado e visto pela primeira vez o Donovan's Reef e A Cara Que Mereces no mesmo dia (por sinal, fita eminentemente mais loveable (a ponto de não conseguir senão desembaraçar-se calorosamente do formalismo da situatio narrativa, como aquelas merdas que os shuttles vão deixando para trás) do que há quem diga (que fazer?, sou por definição um nostálgico sentimental), mesmo com a primeira parte a fazer papel de pau de cabeleira. E, pelos céus, já que nas lides derrière é a malapata que se sabe, nas décadas de intervalo alguém aproveite para me ir pondo o Manuel Mozos à frente da câmara mais vezes (o que há, aliás, Tarantino confirma a regra, nessa coisa de os realizadores serem tão apetecíveis frente às câmaras? Francamente, trocava quase toda a carreira do Pollack por vê-lo a despachar mais uma pêga no Eyes Wide Shut). E como estamos nisto, devo dizer que sou absolutamente contra andarem a pôr o Airosa a explorar novos registos. Vi-o a primeira vez no Torquato Tasso pelo Silva Melo e não me calei a elogiá-lo àquela velhota que foi a única da assistência que à saída não tinha pedalada para evadir-se à minha cadência opinativa (é certo que as macacadas do Miguel Borges na época (para quem a arte da cenografia consistia em dotar qualquer adereço teatral da capacidade de trapézio), passíveis de transformar qualquer encenação de Goethe num episódio do Criss Angel (vi tanta televisão este Verão. Precisava de resolver a minha vida para poder enfim tentar ser menos desesperadamente infeliz, e quase só vi televisão. Ninguém me pode odiar mais que eu neste momento, e não imaginam as reservas insuspeitas desse sentimento que eu seria capaz de bombear de vós, gente abestalhada. Vi duas temporadas do Dexter ao mesmo tempo, com a terceira a estragar-me todas as surpresas da segunda, e eu impávido. Vi a encenação do Siegfried gravada no São Carlos (all four hours of it), com germanos vestidos de hooligans a falar com passarinhos dependurados de uma vara movida por uma badass chick (ah, sim, a desconstrução, murmurei, impávido) e valquírias com pinta de knackwurst embrulhada em lingerie a receber um extra por baixo do camarote ao fazerem em palco o teste industrial dos limites de elasticidade dos modelos da Victoria's Secret e que só saíam out of character (ah, pois, a desconstrução da desconstrução, cogitei, involuntariamente, impávido) pela ausência de um fiozinho de sauerkraut infiltrado no canto da boca; e o analista que não tenho sabe que não me submiti às all four hours of it pelo meu amor pelas intentonas cromáticas à hegemonia tonal, embora a minha enciclopédia de música contemporânea saiba o quanto gosto das intentonas cromáticas à hegemonia tonal. Ah, e o Cops, oh estupefacção degenerada, o Cops, como é que me tinha escapado e como é possível esse pináculo insidioso da exploitation de qualquer género em qualquer formato. E só não vi o seu spin-off Jail, porque andam (juro) a promovê-lo como o desenvolvimento natural do cinéma verité (coisa hilariante para designar, a tomar pelo modelo, um produto visual cujas condições de verdade são precisamente o que deliberadamente se mantém fora de campo, o que a torna mais tv aldrabée que a ficção mais artificiosa; mas que, enfim, até dá para o cinéma vérité que se intitulou cinéma vérité aprender no que é que dá intitular-se cinéma vérité) e eu não gosto que cauções intelectuais (não há nada mais abjecto do que pretender traficar elevação junto com o contrabando vaginal em dia de visitas) interfiram na minha fruição de exercícios panópticos propedêuticos sobre massa crocante de estereótipos sociais (só o genérico, com uma música, reggae, intitulada Bad Boys, e os seus disclaimers de innocent until proven guilty in a court of law, devem ocupar a totalidade da cadeira de Dimwit Semiotics na UCLA). Não, a sério, estou a um conseguir ver um Tyra Banks Show para definitivamente arietar lá o cátodo com o crânio e acabar, em idiotia poética, de vez com isto. Enfim, pronto, e um dia cruzei-me brevemente (juro, não vi até ao fim) com um tal Criss Angel Mindfreak (juro, aquelas merdas da Sick* Radical), mas não quero falar disso), eram capazes de fazer sobressair qualquer contra-intérprete (há uma palavra para isto, não há?... socorro...) como modelo de sobriedade, mas tanto?), e portanto deve continuar a ocupar-se de variações em torno desse carácter. A versatilidade é lamentavelmente sobrestimada, com a presunção da unidimensionalidade da empatia emocional dos espectadores, passível de ser capturada pela transfiguração de um bom actor em qualquer personagem. O espectador não é completamente imbecil, consegue funcionar em vários planos, e o que vê, e amiúde quer ver, são actores (um plano) a desempenhar personagens (outro plano), e é da congruência de ambas as dimensões (e não da anulação extraordinária de uma pela outra) e, reconheçamos, do seu afunilamento diacrónico, que a empatia (mesmo para a repulsa) e adopção figurativa se geram, e tal, não sendo tudo, é a big deal (John-Wayne-like, por supuesto). Portanto, não forcem o moço, até porque é uma raridade alguém ter jeito para esse paradoxo que é projectar uma figura ensimesmada. É certo que a figuração pública desse paradoxo pode ter a consequência não pretendida de fortalecer iconicamente a auto-modelação de uma geração como overunderachievers mas, não me twittem, isto ainda é a blogosfera, onde, qual Litmus Test, se assiste à cena final do Vive l'Amour e o que se articula espontaneamente após é um "I can top that", pelo que creio podermos acordar que aquele é já um problema fatalmente datado. Dito isto, e quanto ao que daí decorre, alguém vos ajude, que eu continuo ocupado)?

*© Agrafo, se bem, chuiff, me lembro...

P.S. - Mozos, não se esqueçam. I miss Harry.

(o senhor na segunda frame, como sabemos, não é o Harry, porque não há frame dele - nem de nenhuma das pax's propriamente ditas, claro (a absoluta desaquação da circulação de frames na internet face àquelas que eu quero encontrar é a mais chocante desautorização do princípio da oferta e da procura, não acham?) - mas o Simões, o que não faz mal, pois é de longe a minha segunda projecção psicanalítica terapeuticamente regressiva favorita - ahhh, o que é que as projecções psicanalíticas terapeuticamente regressivas têm?... )

Adenda - acabo de verificar casualmente ter-me esquecido que já tinha gravado A cara que mereces noutra qualquer ocasião, esquecimento e concomitante não visionamento sendo inerentes ao próprio facto de o ter gravado, correlação curiosa sobre a qual poderia dizer qualquer coisa que não direi, obviamente sob pena de beliscar inusitadamente com desvios discursivos erráticos o algébrico rigor formal que assistiu à composição deste post. Anyway, dali resulta que one pax (with Harry) down, one pax to go:

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Estou constipado

Não é a saudade, é a ausência; não é a borbulha, é a crisálida da pústula; não é o silêncio, é a linha que cerze os lábios; não é o fígado arredio, é esfumar-se a miragem do éter; não é o horário, é o que se esqueceu sem tempo de voltar atrás; não é o que conta na privação do ar, é o olvido e a apatia nas melodias que restam; não é o adeus, é o olá ser indiferente; não é a asma, é o sufoco na erva de São Domingo; não é o mainstream, é a vacuidade; não é a vertigem, é sequestrar a horizontalidade derradeira do repouso; não é a dependência química, é a dependência do fornecedor; não é a restrição, é a maleabilidade da incerteza do jugo; não é a extra-sístole, é partir comprimidos nas tardes de domingo; não é a sentença, é o calendário em branco e sem escolha de garrote; não é a menopausa, é a terapia de substituição; não é a carência, é a insuficiência; não é o fim irredimível, é a capitulação ao espectro.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Da rasura


(don't get me wrong, o branqueamento da peculiar vox populi no recanto escatológico da cinemateca é rotineiro, e, lá por isso, os falos no outro lado do tabique também foram de aviada. É só que pode haver uma pungência particular nos clamores que sucedem em infiltrar-se e inscrever-se comunicantes nos recolhimentos mais inconfessáveis, que o calculismo social da memorialística pública e a sua ponderosa exibição nunca grangearia, e que os torna, de longe, veículos mais sensíveis de reconhecimento partilhado de uma falta, numa vulnerabilidade arreada, onde a reiteração de um long goodbye cala mais fundo. Certamente ninguém pretende contender com o facto de a sinceridade de um garatujante com as calças na mão (não é num Ford deliciosamente off-key, como eu julgava (se alguém tiver informações que possam conduzir à identificação da génese da line a ser citada, é favor contactar este vosso agente e poupá-lo da terrível exponenciação da degeneração obsessiva da sua vida na perseguição da instância onde biograficamente se cruzou com esse perversamente memorável dito (is it just me?...), para poder dedicar tranquilamente o seu tempo a actividades mais sãs como desenvolver um dignified drug use problem), mas é algures, que um "police" inglês ensaia como expressão mais feliz de sempre do clássico declinar da compassividade que, pelo coberto da farda a ditar a impassibilidade do dever nos gestos, não deixa de lhe animar o espírito, que «these trousers come off at night too»), no habitáculo de todas as saídas de armário mesmo fingindo que não são saídas de armário precisamente por tanto fingirem ser saídas do armário, em circunstância alguma poder ser disputada pelo rigor institutio mortis que necessariamente deve acometer quem tem ordens do infante para despachar (para lá da mais-valia lúdica que as leis da gravidade concederiam nos atilhos do primeiro cenário transpostos para o segundo cenário na circunstância de reclamar continência). Assim de repente, não sei mesmo de formas muito mais bonitas e prementes (um vero privilégio público) de se ser reclamado do que há de resgatável na ausência, para quem só pode lembrar (para lá de quaisquer outras considerações racionais que possam e devam suceder-se), que um primal aceno à remanescência de uma presença, algo infinitamente mais orgânico que o enrolanço com strange bedfellows (desde logo na compostura) no elenco de inscrições impessoais para a posteridade. Enfim, que querem?, a mim comovia-me)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Let's hear it for a tasteful beheaded demi moore

Dizia-me o camarada do outro lado da mesa que só lhe faltava um disco dos Tindersticks, "o da mama". Reparei: mama não; o desnudo torso secreto de mulher grávida (e, logo, como obliterar a promessa reclinada na prega da pélvis?), a fazer mais pela vida sexual das fêmeas prenhas do mundo do que hordas de sexólogos de bigodes eriçados (já repararam?) a desiludir os varões seguros de que a sua metonimização métrica só pode trespassar tudo o que se lhes intrometa à frente, ou de que uma grávida seja redutível extemporaneamente a uma condição de periclitante parturiente sempre prestes a expelir (foram, aliás, todas estas as minhas palavras exactas no exacto momento).
No entanto, reducionismo por reducionismo, entre o fetiche das grávidas (cf. Patrick em Coupling - não sou eu que penso nestas coisas, se faz favor (só as fixo)), e o automatismo libido-mental ilustrado pelo meu co-assentado de truncar aquela imagem de sensualidade chiaroscura exclusivamente ao 1/4 superior que oferece a mama, parece que, para alívio e prevenção das moçoilas folgazonas hesitantes em se devotarem à curtição da maternidade, se pode avançar não só com a hipótese (em trejeito darwinista mas com o toque de reflexividade para acautelar a deriva chapada, essa sim lesiva (oh theology, schmeology), para a acefalia do sociologismo etológico) de que o macho (heterossexual?) will always find a way, mas também que o melhor mesmo é ficar fora do caminho desses twisted freaks.
Bom, considerando que isto acabou por deslizar (sou tão sugestionável) para uma imprevista (juro) evocação darwiniana (cuja casualidade combinou tão bem com a perspectivação plástica da sua causalidade), e como é bem sabido que não foi dos menores legados do velho Charles ter inspirado um excelente disco dos Banco del Mutuo Soccorso, deixo-vos com um espectro de nostalgia invocado por esta cançoneta tão batida que todos nós tanto entoámos em coro angelical nos recreios da nossa infância enquanto imprimíamos para as gerações futuras um decalque fóssil das vestigial tails dos nossos cóccixs sentando-nos na cabeça de coleguinhas caixa-d'óculos.


With a whimper

Dá para soerguer vagamente o sobrolho constatar que no acumular de semanas ou meses de fuga para a vida lá fora, como se fosse neste esconso abrigo socio-nuclear que afinal a ressonância atómica desta projecção de corpos pensantes fosse mais sensível às mínimas oscilações retóricas de existência, não venho amealhando nenhum rant para ressarcir um compromisso não escrito, pedido ou desejado, da distância que quem quer saber se lhe impôs. O que não quer dizer, infelizmente, que tenha sido tempo perdido. Será talvez, entre outras mundivisões modernas, até uma das contradições intestinas da contabilidade materialista do tempo. Ao mesmo tempo que moralizamos os minutos sem emprego pragmático como perda de tempo, a verdade contabilística é que o seu valor se inscreve numa nota metafísica de dívida. Em instância alguma o tempo se perde. Acumula-se, doseia-se, rentabiliza-se, mas é a sua promessa intrínseca de se conceder para uma finalidade, que nem seja resignado vê-lo passar, que, ao invés, pode perder alguém. Todo o tempo por empregar em desígnios nomeáveis se atarda aos pés e se enrodilha no corpo, agiganta e pede meças ao descaramento dos gestos improdutivos, articulados numa inexistência funcionalmente categorizada. Terrível projecção holográfica de actos não-tentados, esse tempo escoado irradia cada vez mais ofuscante o rosto e descarna os ossos dos seus envoltos para sopesar a falência; horas e dias, semanas e meses, a anafá-la, moldá-la à sua rotunda atracção ergonómica pelo solo, assim a verticalidade em que se projectam os seus blocos de concretitude incumprida se vai avolumando, numa rigorosa metodologia comparativa, ao lado da expansão disforme da inércia. Até decretar metodicamente que a densificação morfológica da estagnação tem um limite para a acreditação da esperança de ainda alcançar as promessas adiadas da sua sombra de possibilidades oh tão altiva e erecta, coisa cruel a promessa de um Homem.
Nope, já não há rants que façam render a durée da noite, e na sua dilatação já insensível aos ciclos intervalados da rotação, as suas luzes episódicas são mero contraste para relançar interminavelmente o breu. Há assim um momento no tempo, em que o tempo tanto se arribou, que conceber dar realmente mais um passo e re-diferenciar funcionalmente esta gosma de retracção existencial, novamente dotada de membros articulados e polegares oponíveis, implica conceder por perdidos todos os dias que nos contemplam prometidos do sorvedouro de passados que há tanto nos centrifuga num remoinho eviscerante. E assim, concede-se. Abre-se falência dos activos temporais e seus épicos em moratórias abortadas. Mas a nós, senhores, a nós quem nacionaliza?

Da orfandade


(se não se importam, agradecia que cessassem as especulações injuriosas, que assim declaro abertas, versando as minhas motivações para introduzir dispositivos fotográficos nos lavabos da Cinemateca. Haja respeito)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Identificazione di un stronzo

Com uma temeridade quase a trespassar a fronteira do reckless, não fôra a magnânimidade cristã de reaching out aos self-inflicted hobos do pedaço (quer dizer, não estou a fazer juízos sobre as outras criaturas do saco, mas tão só a cobardemente não me deixar só na minha auréola de duvidosa (vide...) auto-exclusão, dessa forma pretendendo desencarcerá-la de acusações de auto-sagração moral martirológica ao mesmo tempo que torno a sua matéria de arguição mais factível (nailed it?)), a Sara, gentil como sempre precisamente para com quem sistematicamente faz por o não merecer, agrega a minha irrepresentável pessoa (daí o bezerro, como todos os exegetas bíblicos que me entopem a caixa de correio já perceberam) ao mais recente desafio de figuratividade blogosférica, tão caloroso como frustrante. É sem dúvida acolhedor que se queira sempre ir um passo adiante na corporificação das vozes soltas que se enrodilham nos humores quotidianos da nossa carne por via destes estranhos signos que vamos endereçando em vago compromisso aos viandantes de muitos algos por vias destes estranhos algures. Eu, claro, sempre resisti a essa virtuosa tentação, cônscio na minha própria carne e consciência que o arremedo de pessoa que se pode agregar da inferência subjectivante deste discurso localizado não só está perfeitamente distante como literalmente às turras com aquele apenso às mãos que digitalizam isto neste momento (lá foi mais um tabefe - I hate my guy). Presumir um corpo por trás de uma escrita com a qual, numa medida ou noutra, já nos aninhámos, é sempre a convocação de uma violenta dissonância cognitiva que só (concebo) deve poder ser bem resolvida por um cândido wishful thinking (para o bem e para o mal: estou certo que imensa gente deve suspirar shallowmente de alívio por o Pereira Coutinho parecer um infante acabado de desmamar e já a querer (ou a querer afirmá-lo, isso sim mais problemático) com os seus deditos gorduchos enfiar Dunhills nos beiços - dissonância estética não menos fatídica que a outra) de congruência fenomenológica, ou imensa capacidade de adaptação à vil balbúrdia empirista que destrambelha os corpos, passos e palavras que quereríamos unitariamente encorpados num espadaúdo palmo de cara com palavras caras nos bastidores à espera de trotar melifluamente da abertura somática correcta, para portanto, face ao desvelar da "dimensão oculta", gostar de nós mesmo assim (céus, so many issues).

Still, sendo reconhecidamente a pessoa aqui escrita tão dada, ao ponto de se perigar expondo a pessoa que a escreve, e sendo o verter corpóreo na morfologia Simpson um dispositivo tão genial de exposição mediada (ou check-out blogosférico) a permitir mesmo a uma manifestação de repulsa vir enlaçada num but it looks cute assim combinando de uma assentada o aviso cautelar de go no further com a caridade interactiva de não precisar de fazer uma u-turn espavorida, a minha pessoa escrita ordenou à que a escreve que sim senhor, tal encomenda de corpo (a alma lá se verá) não poderia ser mal-agradecida e vilmente desconsiderada. Portanto, lá enviei a única representação fotográfica da segunda pessoa (ainda que para efeitos não blogosféricos se considere a primeva, presunçosa) que possuía (pessoa (oh sim, se me possuo) e representação) aos senhores dos Simpsons. Ironicamente, fizeram os senhores questão de demonstrar que a congruência fenomenológica sometimes finds a way, principalmente quando lhe esticamos a implausibilidade do desafio, e recusaram terminantemente reconverter-me graficamente, com a desculpa esfarrapada de que não aceitavam full-nudes. Ora, primeiro, não tenho culpa que o meu auto-horror me tenha deixado como única, involuntária, captura fotográfica do meu fugidio self a imagem que no meu primeiro e último check-up o médico impulsivamente registou exclamando insensivelmente "tenho de documentar isto!". E depois disto, obviamente não serei cúmplice do autoritarismo estético que sistematicamente se crê autorizado à normativização de que corpos podem ou não ser sujeitos de exposição descomprometida.

Não obstante, fizeram esses senhores questão politicamente correcta de não transmitirem a mensagem que "pessoas como eu" (o que faz de mim a minha própria minoria - a seguir é a presidência, bitches) não teriam lugar no mundo Simpson, e como tal ofereceram-me a seguinte representação como modelo para qualquer futura apresentação no programa.
Como é evidente, com a minha resplandecente honestidade intelectual, queria retorquir-lhes que essa representação gráfica do anonimato estava, ainda mais ironicamente, já iconicamente tomada, certamente com outros candidatos presuntivos mais autorizados a eventualmente escudarem-se para os seus propósitos sob a sua derivação de celulose, e como tal incorporando uma notoriedade secretista de que a minha presunção não se sentia confortável em se ungir, facto de que misteriosamente pareciam os ditos cavalheiros antecipatoriamente conscientes, quando, sem qualquer emanação verbal da minha parte tendo-lhes tão somente enviado a famigerada foto sem mais comentário, ao enviarem-me a sua representação simpsoniana alternativa e sua justificação, terminam a exposição com um there you go, cocky prick (aliteração semântica batida que também estava para censurar, não se desse o caso curioso de também logo me parecer algo que eu seria perfeitamente capaz de escrever).

No fim de contas, ao expôr-me à vontade de uma identidade plena, dou-me conta de que a representação do anonimato já havia sido sequestrada, e de como a não-pessoa se tornou apenas outro caso particular de identificação. Como é cada vez mais evidente, a existência é um modo de captura expositiva, e a minha figuração, felizmente ao largo de qualquer caça lepidóptera antropomórfica, poderá quedar-se uma representação genérica de espécie hominídea desconhecida quem quer saber se errónea num volume borgesiano de História Natural Irrelevante. Algo com que, apesar de tudo, posso viver. Já que, como o Nicholson under Antonioni soube vislumbrar, a melhor coisa para sermos nós próprios, a seguir a nenhuma identidade, é uma identidade errónea. Portanto eis-me, e para me poupar à trágica ironia de, daqui a dez anos, errante, ao falhar yet another abordagem a um vagão no midwest, um outro inepto espalmado de boca na poeira se virar para mim e perguntar «you don't look familiar: didn't you write that yesterday man thing?», cá equivocamente me fico.

Diggin' old geezers

Os velhos porcos serão uma categoria nosológica de nostalgia sexual significativa na epidemiologia lúbrica contemporânea, certo. Mas convém, como para outras associações epidemiológicas grosseiras, não confundir a categoria social com as práticas problemáticas a que pode estatisticamente associar-se sem produzir uma reificação causal dessa correlação. O caso dos velhos porcos é particularmente interessante para contestar o fetichismo da correlação, na medida em que é ao partilhar da categoria etária sem ser absorvido pela encenação comportamental da denegação do seu declínio que se pode produzir um olhar mais lúcido sobre os mecanismos operativos do condicionalismo libidinoso. Foi pelo menos isso que, confessadamente, mais me interessou no último Lumet, e de que constantemente me relembrei ao tapar alguns buracos da minha oliveireana pessoal na cinemateca.
Como todo o Portugal tem uma opinião resolutamente autoritária sobre o Oliveira (e que melhor consagração de incontornabilidade cultural?, os parabéns que se fodam), não há-de ser grave que eu meta uma colherada muito direccionada para a presunção de que, tendo o nosso decano cinematográfico sido sempre graficamente (mas não inconsequentemente) maroto (a sério, não sei mesmo de que é que o pessoal se queixa, com sortidos mariolas e tudo (neste tudo condensando-se, para a minha carência de appetizers audiovisuais, a obra indubitavelmente mais espirituosa do cinema português aquém do César Monteiro, ainda que em alguns planos diferentes (piada ou não, é no Oliveira onde vejo assomar tremenda veia burlesca que a gente devida já lhe apontou)) para o entretém), tenho para mim que a exposição explícita (na exacta medida do rigorosíssimo pudor de quem sabe milimetricamente aquilo que quer mostrar) do corrimento dos veios lúbricos da vida só se começa a reverter em movimento interno para o registo da perversão supurativa dos desejos (mal-)contidos, na sua terceira idade de cineasta (sendo que, por alguns dos buracos mais recentes que cobri, na minha periodização subjectiva ele já irá na quarta, onde tais fantasmas internalizados provavelmente terão já passado mais para o banco de trás).
Foi a possibilidade situada desse olhar distanciado de quem esteve implicado no jogo e hoje lhe reconhece de fora a clausura que me surpreendeu no Lumet que, precisamente com os seus oitentas, está exactamente na fresca idade de explorar as possibilidades perceptivas de que tanto o Oliveira fez mister, e que tornam estes cineastas potenciais projectores das mecanicidades comportamentalistas que o cio acolhe como quem respira, e das perversidades perceptivas que engendram. Pareceu-me verdadeiramente emanar de um sítio de observador privilegiado (enfim, a respectiva pode não concordar comigo nisto) a plácida artesania corrosiva de jogar com a frustração perceptiva, a jusante e a montante, daquilo que julgamos ter visto e do que julgamos vir a ver (nomeadamente, mostrando uma lúbrica garina qualquer a levar trancada de quatro (e isto não sou eu a ser porco, é a descrição daquilo que representa e a que corajosamente se entrega) e só depois do acto consumado perceber que era a Marisa Tomei, que assim vimos e não vimos querendo retrospectivamente ver; e, ainda que menos ardiloso, mostrando o Seymour Hoffman a despir-se lentamente por uma casa, de recantos para si familiares, de um efebo requintadamente efeminado de andrajos ergonómicos para a intimidade, para se deitar na cama e acabar aí a levar a trancada por que pagara, nomeadamente, de narcóticos, por via endovenosa, que não outra), fazendo essa frustração reflectir sobre o espectador a consciência da perversidade formatada do seu olhar, e das suas expectativas adquiridas e naturalizadas, sobre que imagens lhe deviam ser dadas a ver, em que ordem, para que tipo de satisfação.
Quando os modos de produção cinematográfica mais desesperadamente se apegam à deception como mero procedimento de materializar artificiosamente uma cenoura por cima das poltronas dos multiplécses, alguém que exponha quanto a deception já está inclusa no pacote domesticado do papel de espectador, e por essa forma o devolva conscientemente (se necessário, envergonhadamente) a essa condição, merece não os parabéns indulgentes da mera morosidade diacrónica, mas os de a fazer cumprir plenamente em todas as suas estações. Ainda que por vias travessas, não conheço melhor elogio a fazer a um centenário.

Burning down the house

Triste que, nos dias em que por lá passei, a excepcional iniciativa da integral das obras para orgão de Messiaen, na Sé de Lisboa, tenha estado quase às moscas (e ao, não é certo, peregrino/hobo (no Fátima nestas paragens) que, uma vez, de passagem, arremessou com souplesse esquissando uma parábola oferendária dois objectos inidentificáveis, mas produzindo sugestivos ruídos aproximados daqueles embrulhos crepitantes de chocolate, para um vaso de flores no altar - e quão caloroso poderia ser que tal divindade adoptasse certos caprichos devotos mais associados aos seus confrades de panteão hindu e se tornasse sensível à satisfação piedosa de um seu sweet tooth?). Ainda assim, tal terá provavelmente contribuído para insuflar ainda mais o meu sentimento de colisão entre a transcendência alternadamente esotérica e tonitruante da música pulsada por aqueles tubos a assomarem-se a Jericó e o formalismo hierático com que se parecem ter recoberto estes espaços religiosos quase museificados, sufocados num apagamento tumular. Não admira que, porventura na excepção de um proselitismo chão a la padre Borga (também sempre o mesmo a apanhar, coitado), boa parte dos ministros da igreja católica (ou lá quem de direito) pareçam ter desbaratado o património musical e instrumental que são provavelmente a sua melhor herança (para os descomprometidos, claro está), o que torna esta associação da Sé à performance da piíssima, mas potencialmente desconfortável à mansa piedade ritualizada dos tempos, obra organística de Messiaen, talvez mais que louvável, corajosa (ainda que sem deixar de rentabilizar a ocasião para evangelizar um pouco de boleia, com comentários do cónego inclusos). É que não me parece mesmo que haja hoje, para lá deste repertório, melhor forma de ressentir, na configuração de indeterminação que seja (e mais fôra) a existência, o encantamento favorecido pelos passos em falso da inquirição cósmica, a promessa, o furor e o terror que instilariam a experiência religiosa do cristianismo primitivo (se me permitem). O Deus que toda a gente anda hoje a inferir na música de Bach seria, bem entendido, quase um Deus demonstrado como hipótese teórica matematicamente sustentada no fio rigoroso do movimento perpétuo na harmonia das esferas, um consolo metafísico racionalista. Mas o de Messiaen é mesmo o Deus sujo de moldar a lama, o dos mistérios incognoscíveis a meças paroxísticas com a carnalidade esfolada, o da revelação e da revolução, da interpelação e afronta. Deus que, sugere o meu desconforto com a convocação directa naquele espaço talhado em naftalina dos mistérios e revelações da fé pelas trompas de um orgão que é provavelmente o dispositivo de belicismo anímico (sua função primeira, pouco duvido) mais devastador que conheço, não será um que a igreja instalada na modernidade queira convocar para privar com apaniguados e curiosos. Não tenho assim tanto interesse e menos calejo no assunto para dizer que é pena ou alívio, mas o lamento revisionista momentâneo de não ter feito carreira de organista, como a forma eventualmente mais benigna de playing God à velha maneira disseminando temor e tremor nos novos tempos, insinua, com o arrepio de bem a candura poder emparelhar com a implacabilidade, o quanto há a dizer sobre fés que (ainda ou já) não têm pejo em trombetear, como esteja o Apocalipse ao virar da esquina, aquilo a que vêm.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Melhor contracapa até outras pessoas começarem a valorizar contracapas com algo mais que marketing genérico?

(mesmo que o raccord interfílmico não fosse dos meus exercícios críticos ou cinéfilos favoritos (o que o não desdignifica lá por as minhas razões para o favorecer poderem continuar a estar na sequência das que me fazem eleger preferencialmente livros com bonecos), a thoughtfulness que plantou este raccord triplo compósito 2-em-1 (que é um mimo, por muito que todos os would-be cinéfilos à minha imagem mas sem a minha cúpula de impunidade auto-depreciativa (amadores...) queiram protestar que seja "óbvio" - eu cá confesso inane que não me tinha lembrado da colagem com o Christine que faz tanto sentido que é quase pornográfico) na contracapa do catálogo do ciclo da Cinemateca dedicado ao Carpenter (ironicamente, com um título e uma capa não tão louváveis, mas novamente redimidas pela excelente valorização icónica das badanas - vide os meus guardiões de templo aqui ao lado, go on, make a move) só pode afiançar ilustradamente (para quem, como eu, precisa mesmo que façam o desenho) que este volume merece toda a confiança (e em particular a retribui ao exemplificar o Carpenter como barómetro por excelência, na amostragem da coabitação do consenso crítico contemporâneo do homem como autor com a dissensão ampla relativamente ao mérito dos filmes concretos afora os dois ou três pivotais, das possibilidades e limites da política de autores, como dimensão cinéfila analítica específica - possibilidades e limites que para a minha obtusidade sempre funcionaram principalmente como nominalização pedagógica de cautionary tales para presumir que se não gosto de algo presumivelmente gostável (pela crítica que não alcanço) a culpa deve ser provavelmente minha, posição de cinefilia pusilânime atracada algures entre a incompetência hermenêutica e uma correlata e sobrepujante política de afectos (e eu sei que é herético, ou letal se o homem ainda estivesse nas redondezas, passar da cinefilia aos wet dreams com o Ford, mas pecaminizar o insconsciente, para mais com palas e whisky ao barulho, é absolutismo moral insubscritível)), razão pela qual, provavelmente, cometi a imprudência inusitada de o papar num fim-de-semana, excesso que, por ter sucedido uma vez em mais de uma década, garanto não tornará a suceder: o vosso escárnio e correlata auto-confiança literatos continuam seguros comigo (que giro, tornei-me na miúda do liceu que mostrava as prebendas para que os miúdos gostassem dela, apesar de (precisamente por) não ter nada para emoldurar - oh poetic comeback, you're a spiteful cunt))

Greatest book cover ever?

(por entre as várias ironias que esta capa do The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction do Benjamin evidencia numa materialidade estética cristalina, não será a menor que se sinta a compulsão para singularizar o autor e sua criação, e o objecto que a viabiliza, por plasmarem como seu conteúdo e concretude estéticos a própria indiferenciação replicante inerente ao seu meio expressivo. É pela clarividência com que explicita e materializa esteticamente como sua matéria-prima e conceito a condição que é suposto dissolvê-la como todas as demais que esta capa entre capas absolutamente única não se repetirá: ela sucede em distinguir-se e resgatar uma espécie de meta-aura, qual facho derradeiro, precisamente ao encarnar simbolicamente ao limite a materialidade do processo reprodutor pelo qual a sua encarnação estética é dada à existência e que precisamente lhe nega o tipo de sagração ritual aurática, da obra única, de que Benjamin faz as exéquias; ao mesmo tempo que ilumina, pelo próprio irónico triunfo estético da auto-elegia da tese que condensa, como novas formas de unção das obras por nova aura, como seja pela acessibilidade condicionada (condição de possibilidade do fetichismo) do exemplar raro, se consagram hoje, via que este mesmo canto do cisne abre até à sua foz fenomenológica. Assim se constitui tão manifestamente ponto de charneira este vero manifesto de uma condição expressiva (de arte comodificada), a qual sublinha paroxisticamente ao singularizar-se nela incorporando-a como sua matéria-sujeito, que necessariamente a perfeita consubtancialidade que alcança na confluência trinitária de um meio expressivo, de um discurso sobre esse meio expressivo, e da sua formalização estética num só objecto, foi tomada e finalizada, irrepetível, momento que tem uma ressonância como que absolutizante para a diacronia da expressão estética humana (momentos que podemos retrospectivamente, genealogisticamente, tentar recuperar, o que é constitutivo do raisonnement crítico canónico, mas de que não é, et pour cause, tão evidente apercebermo-nos no seu momento de surgimento, o que provavelmente leva a que mais facilmente se manifeste contemporaneamente em empresa estética servil, de recursos limitados concentrados num formato que demande um gesto estético, ironicamente, mais depurado, imediato, e que, também ironicamente, mais facilmente se perca por essa imediatez na temporalidade resguardada pelos exegetas aturados dos greater schemes of expression), como algo que tão claramente encerre um item do catálogo das coisas que o ser humano pode exprimir (o que não quer dizer que o catálogo não seja sistematicamente reformulado ou ampliado com a transformação das mundividências e vivências humanas). Claro que amanhã poderão esclarecer que já tinha sido feito, e poderão vir a fazer sem saber que já havia sido feito. Mas acho que na tristemente evidente mirradíssima diacronia estética que carrego na cabeça, que para o efeito retórico não deixa de replicar a função das institucionais, nunca tinha percebido tão translucidamente como a marca d'água da perfeição é literalmente o esgotamento. Estava pasmado e algo assustado, para ser franco, até me aperceber que a marca d'água do discurso reificante esticado aos limites é perder todo o contacto com a expressividade própria (e indissociável) da coisa material, e portanto, umas linhas após, a minha posição talvez tenha passado dos ditirambos que vos, suponhamos, passaram pelos olhos, para uma mais modesta "yá, é gira", ou um pouco mais entusiasta mas ainda arrepelando o blasé "humm, clever" (e talvez devesse ter começado por aqui). De qualquer forma, como expus nesta minha ilustríssima galeria a coisa material e o pecado fica atenuado, acrescente-se quanto não deixa de ser ainda um indicador de monta da monta do objecto o quanto embandeirei em arco à conta da bodegueira de um invólucro de matéria tipográfica prensada, coisa que, sintomaticamente, já me havia retraído de comprar uma edição de uma obra, mas nunca incentivado a fazê-lo, para mais por si só, como obra de arte pois (reproduzida mecanicamente pois), sendo já proprietário do seu conteúdo, drapejado noutra toilette. Enfim, o seu a seu dono: David Pearson, o único nome de designer que espero vir a registar)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Bitch House

Isto não é, evidentemente, nenhuma sugestão para que vão ver (nem para que não vão ver) os Beach House ao cabaret Maxime (got it?, hã?, hã?, casa de putas, hã?) (mau gosto o tanas), quanto mais não fosse, porque no que toca à relação dos homens (e das mulheres, note-se) com pitas chanteuses (algo diverso de chanteuses pitas, mas não me peçam agora, ou vez alguma, considerações sobre a matéria, ou qualquer outra), como mais irredutível e persistente forma de embrulho mercantil de bens melódicos na história da música popular, qualquer pretensão de produzir juízo estético é perfeitamente extemporânea (o que não equivale a dizer que todas as pitas chanteuses se equivalem).
Serve pois este meu aceno vago na vossa direcção, em jeito de Rainha Isabel (convinha que fizessem o jeito de visualizar mesmo o gesto distintivo da senhora, quanto mais não fosse por deferência para com o facto de eu não conseguir parar de o replicar em frente ao ecrã, idealmente como que para me imbuir das palavras para sua tradução iconográfica (didn't work), mas efectivamente apenas tendo tido o efeito indicativo de que qualquer regramento dos jogos de associações em mim se desvaneceu, ao ver-me retirar do meu auto-sugestionamento gesticulo-vocabular após abanar as bochechas em trejeito de sacudir o torpor (também fiz agora mesmo este gesto, sou tão adorável, que pena não o poderem ver) apenas a intuição fulgurante de que as cobras capelo só não esburacam impiedosamente os seus domadores por ficarem fascinadas (um fascínio de evidente condescendência e presunção de hipcefalia feita), não pelos seus gestos hipnóticos, mas com a magnitude do convicto patético que neles investem de invulnerabilidade simbólica as criaturas demasiadamente elimináveis em face) enquanto a descendência enceta novas divisões do palácio para esconder esqueletos, apenas como manifesto de que só the dumbest (e como tal indesperdiçável) and innocently tasteless not-even-pun me poderia fazer reincidir num simulacro de vida pública, o que é bem indicativo da distopia que seria a esfera pública habermasiana com a minha agenda de interesses.
Confirma-se, portanto, o silêncio como a minha residual expressão de responsabilidade cidadã. Deus, ou o at long last nosso negro in chief em seu lugar, sabe quanto a vida política anda precisada de mais como eu: é tanto mais uma função da democracia dar voz aos cidadãos, quanto eles fechem a matraca até terem algo para dizer.