sábado, 29 de abril de 2006

Elegia para um vivente


«I want a good life
with a nose for things
a fresh wind and bright sky
to enjoy my suffering
a hole without key
if I break my tongue
speaking of tomorrow
how will it ever come
all my lies are always wishes

I know I would die
if I could come back new
»



«Numa daquelas epifanias estranhamente unanimistas, de repente, com “Yankee Hotel Foxtrot”, os Wilco foram louvados como significativos renovadores contemporâneos de uma linguagem de songwritting cujas derivações de uma amálgama americana fincada se equilibravam em certo caleidoscópio de tendências do contemporâneo panorama musical (re)emergente. Contudo, o tónus do elogio talvez não fosse sito tanto no songwritting per se, mas precisamente na envolvente da canção, e aí tomava peso desmedido o dedo do viva-o-pós-rock-ou-coisa-que-o-valha Jim O’Rourke na produção.
É facto que o álbum destila O’Rourke abundantemente, mas é também facto que a estrutura matricial da canção permanece resoluta. Estranho mas funcional paradoxo. Porque a estrutura da canção é aqui, ela própria, matéria de inquirição. O pós-rock de O’Rourke terá a principal valência de sugerir (sustentando no éter da sugestão sonora os objectos que se encontram) os movimentos de contracção, expansão e experimentação que aqui se desenvolvem em torno do que seja o processo infinitamente explorado, e estranhamente nunca esgotado, de dar à luz uma canção. E o facto é que essa empresa encontra aqui estímulo apreciável.
Que a destreza, em boa parte, pop do empreendimento consiga articular-se com a assumidamente rude instrumentália de uma certa americana amalgamada com cutucada rock, às vezes com patilha (mas não mais que patilha) de indirecta reminiscência DIY a esgroviar as 6 cordas da guitarra acústica (a lembrar “those heavy-metal bands”), e com as envolventes sonoras ou ambientais de um pós-rock light, diz bem da solidez das fundações do hotel. “Kamera”, “War on War”, “Heavy Metal Drummer”, “I’m The Man Who Loves You” (gostosa fanfarra e sabida construção, em mutação harmónica, de um clímax – e um dos cheirinhos beatlescos que por aqui também cirandam), conseguem efectivamente submergir em desfrute pop aquela aparente miscelânia que, não obstante, as organiza.
Mas se tem mérito a sedução melódica instalada em película rugosa de matriz e arranjos, não seria só por ela que este disco mereceria todos os encómios, sendo que os que merece muitas vezes não são propriamente os que lhe são dados. O que esse discreto desconcerto oculta, principalmente nas mais descontraídas instâncias, é também uma dualidade enunciativa, em que só naquela dissonância sonora se tem o vislumbre da suspeita do quanto as palavras estão a meças com a melodia que as embala, e inseminam discreto um quase perene tom elegíaco de vida em estanque suspensão e incerta fundação, que se dissimula na indiferente limpidez solarenga do canto (a constante imagética de isolamento, as necessidades e enviesamentos da ligação humana, imbricados na própria acção e palavras subjectivos: como na recorrência da percepção da mentira como constitutiva dos passos tomados ou almejados – “I need a camera to my eye/to my eye reminding/which lies have I been hiding/which echoes belong”). Isto perpassando as declinações mais à queima-roupa (“I myself have found a real rival in myself/I am hoping for the rearrival of my health”), como as mais (só aparentemente) anedóticas (“I miss the innocence I’ve known/playing Kiss covers/beautiful and stoned”).
Muito mérito igualmente se descortina, de facto, na inventiva estrutural, que do apelo mais pop ao amargor menos refundido, está sagazmente subsumida na generalidade deste registo, embora mais notável nos passos mais desarmados da imediatez melódica.
À cabeça, esta colecção incorpora uma jóia da coroa, cintilante de tão óbvia, que não carece de peritagem para aquilatar o valor. “Jesus, etc.”, cumular de requinte e simplicidade (para isto não se carece de pós-rock), desde a introdução a violino (e o arrepio da entrada do segundo violino em contraponto na repetição a aspirar “um pouco mais de azul”...), a melodia imaculada, a placidez harmónica (no compasso constante do orgão), é certamente das mais belas canções do ano que primeiro a conheceu.

Para além disso, menos cintilante, mas no seu anti-classicismo, de outra classe de estimulante, é “Poor Places”. A estrutura é de incomum inteligência comovente, da qual a canção de abertura “I am trying to break your heart” constitui quase um ensaio, que aqui ergue canção mais secreta e límpida. Um lento declinar de versos, uma melodia rarefeita repetida ad eternum terminando sempre em suspensão carente de conclusão, um geológico acumular de sons e diferenciar de espaços percebidos, uma estrutura de subtil densificação, até finalmente se dar a brilhante abertura de campo, a abrir em força, sem dor, a laringe para respirar o novo ar, numa sucessão cintilante de acordes a merecer patente, incluindo o pequeno truque de o verso final ser antecipado por uma escala introduzida a tempo no compasso, em vez do contra-tempo esperado (em tempos, o truque seria o inverso: a percepção tem história), até um mantra de piano clarear a vista a todo o horizonte.
Das outras habitações edificadas, sempre cativantes no seu matizado desafio, “Radio Cure” consegue ainda deter-nos na cardíaca espera de quem, atascado, ainda vislumbra outro ritmo para a vida em suspenso nas ondas que perpassam de distâncias outras o ar; tal como “Ashes of American Flags”, a dar corpo escorrente a material elegia do solo onde se enraízam as promessas e as desilusões, reflexas num corpo falhado.
Um disco de bicéfala eficácia (tamanha que pode ameaçar raiar o desequilíbrio auditor), em que no vinco das suas raízes não tropeça a imediatez, mas em que o mais (o que conta), está mais escondido do que a virtude subtil dos ornamentos e a diligência orelhuda da primeira audição sugerem. Como a imagem da capa podia sugerir – e ao contrário do que os diligentes papas de sugestão de novas eras se afadigaram a aventar na manta de eterealidades e apontamentos O’Rourkeanos (engraçado como os mellotrons hoje em dia enganam qualquer um) – olha-se para cima com os pés na terra.»


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