segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Antes o sopro no Berardo

Só para dizer que, já eu, estruturalmente fazendo-me ao piso, visitando um dia o agora Queer Lisboa, para ver um debate degustável sobre o Wilde e, à boleia, um filmeco (why did I bother?)a arrebanhar uns tiques visuais para a caução dessa grande meretriz que é o "experimental", não fui interpelado nem com um afago no rechonchudo nem sequer um esguicho ocular do urinol vizinho, o que, julgando que a sei toda, suscitaria a presunção de que a fauna queer desencaixotada não tem graça nenhuma, ou de que, sabendo-a toda toda a gente, pode ter qualquer coisa assemelhável a bom gosto para homens. O que seria lamentável para o mito da fallback option para todos os I-can't get-any da humanidade.

Efeitos não antecipados da caução de uma língua morta

Ípsilon, ponto e vírgula

O que (não) vale é que sendo a incúria recorrente e plural, não haverá propriamente ninguém a assacar culpas: toda a gente erra, o fascinante é quando muita gente erra ao mesmo tempo ou erra de forma a dissolver o locus da azelhice. Isto, a menos que a metamorfose para um modelo de suplemento cultural mais stiff upper-lip do Ípsilon do Público, tenha como fiapo de ironia preso na porta o descartar das plurais minúcias e procedimentos intricados que contribuem silenciosamente para a integridade física de um objecto jornalístico, tornando-o uma espécie de performance art em forma impressa (se vier a ser este o fundamento da vossa desculpa pública, quero os meus royalties).
A edição de há duas (três?) semanas foi um alegre descalabro. Para já, reconfirmavam o recauchutar editorial de críticas de cinema (das pequeninas...) de semana para semana (será assumido, e não terão mais em que gastar papel?). Depois - e saltando por sobre a minha implicação com essa maleabilidade jornalística (e não crítica) de pôr toda a gente a escrever sobre tudo, geralmente (geralmente), se colando-se aos cânones primários do campo e não à produção de um insight pessoal, com a inevitável verve de um copista da wikipedia - escrevendo sobre reedições em DVD de Bresson, Pedro Mexia, não se demitindo de pintar as estrelinhas a atribuir a cada objecto cinemático, informa-nos, em jeito de cenas dos próximos capítulos, que, sobre a obra maior declarada do conjunto, escreveria na sua coluna pessoal(!), no dia seguinte(!!), espécie de entroncamento de publicidade enganosa, auto-promoção e um serão com Roque Santeiro.
Mas entrando nos detalhes técnicos e menos implicativos (conquanto não menos compelling) (e quase não contando com a revelação ao mundo da existência, por contracção nominal, de um disco dos Animal Collective chamado Tungs, por certo um exclusivo carinhoso possibilitado pela questionável familiaridade da pandilha com as lides lusitanas), há duas pérolas rutilantes nesta edição. Uma, consegue a proeza processual de fazer uma potencial tripla, sendo citado um escritor português a atribuir a autoria do Anna Karenina a Dostoiévski (também, os clássicos russos all look the same), e ficamos na dúvida se foi lapso (ou contra-informação?) do escritor, sobre-lapso ou abstenção correctiva do jornalista, e/ou sobre-sobre-lapso ou sobre-abstenção do revisor (a menos que tivesse corrigido a autoria correcta, o que tornaria o processo ainda mais entrópico). A segunda, e sem sequer termos que sair da mesma página, apresenta-se como o uncredited furo iconográfico das últimas décadas, ao surgir uma fotografia límpida e profissionalíssima, contando com toda a disponibilidade do fotografado, legendada com o nome do sumo recluso e incógnito visual das letras estadunidenses, tchan-tchan,Thomas Pynchon. O Alexandre Andrade já havia explicado, e esclarece tratar-se do Updike. Parece-me má-fé no insight do Público. O que está ali é outro furo subliminar: o John Updike É o Pynchon (ou vice-versa). E não é o próprio Alexandre Andrade que escreve «E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior»? Uuhhhh... (a esse propósito, dir-se-ia que o Casanova discordaria, mas ah!, precisamente, quantos homens não há num vazio?... inclusive nesse...mesmo que um de cada vez...)
Infelizmente, a edição da semana passada não propiciou leitura tão gostosa. Só reparei no regresso à prática recauchutada de truncarem textos, o que é indubitavelmente a forma mais pragmática de fazer respeitar a paginação; no facto de Saramago ser dito em destaque sentir-se "desconsertado" com as revelações autobiográficas do Grass, qual estante de pinho nórdico do IKEA montada com instruções em sueco (o Saramago é muito piquínhas quanto à forma como se desconserta); e na sugestão de contornos siameses de porem uma fotografia do Janita Salomé identificada como Vitorino (também, os alentejanos, para mais siblings, all look the same).
Mas porque me inquieta isto, perguntais? É que, atente-se: no Ípsilon escreve o meu Lester Bangs de sobrecompensação (porque o meu, avé, Fernando Magalhães não cessa de me faltar), bem como dos poucos críticos de cinema a sério, neste país de jornalistas culturais, dispostos a pensar publicamente um filme. E se o Público agora vai dedicar-se colectivamente a uma vertente performativa de auto-irrisão de elite, não só me deixa entalado entre a santidade das minhas minhas leituras fiéis e o non-sense profano de desautino institucional, como deve pôr-se cônscio de que se depara com concorrência de peso. Só de passar os olhos a semana passada pela revista Única do Expresso, vejo que ressuscitaram o João Cabral de Melo Neto ao anunciá-lo a fazer leituras pela liberdade na Ler Devagar, juntinho com o Mia Couto (também, os ex-colonizados all look the same, dead or alive).
Já se a pretensamente new-found respeitabilidade cultural do Ípsilon tem sido sujeita a um fascinante processo de descontrução pós-moderna absolutamente involuntária (e nada de maldicência - foi com essa que ultrapassei 5 anos de faculdade), urinando no seu próprio canteiro, então, era só para avisar que, não é por nada mas, pá... há gente a olhar.

Nota: as pequenas inovações, tipo deixar um buraquinho no cimo da página para comentários enviados por leitores, até podiam ser simpáticas, mas considerando que até para quem não costuma reparar nesse espaço, como eu, os leitores começam a parecer ser sempre os mesmos, o resultado começa a soar algo patético. A menos que seja a ombridade de continuar a apostar num losing horse: aí têm toda a minha solidariedade (again, royalties e tal, we understand each other, right?)
Nota 2: in case you're wondering, não, não encontrei no pouco que li desta semana uma argolada para me fazer sentir melhor comigo próprio. Explica-se assim, porquê agora, este ímpeto retardatário e extra (not that I have to make an effort) de à missão humanitária do Público me substituir.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

À Flor do Mar


Passei anos enredado no estribilho de precisar de rever a incandescência que o espelho devolve a Laura Morante, os azuis que a ilusão do horizonte marítimo funde, o lombo firme do robalo, a vida pausada no habitáculo exterior das noites cálidas de verão, as sombras desenvoltas no frescor subterrâneo das casas caiadas, a luz "inclemente" (I didn't know that then) "dos dias perfeitos".
(lembra-me agora o Agosto do Silva Melo próximo estritamente de uma radiância mediterrânica)
Passei anos inclusive com a obsessão recorrente da recorrente sonata de Bach, da qual escrevinhei às escuras no ingresso (ainda deverá estar a faíscar no segredo de alguma gaveta cerca, memória de exclusivíssima ocasião de um mortal ali mergulhar - no Ávila, se bem me lembro... em estreia dez anos após a produção, e uma passagem na RTP), a informação que apanhei da tela, mas à qual faltava a chave BWV para resgatar a identidade da partitura.
Lembrava-me de muitíssimos planos (coisa raríssima), quase todos fidelíssimos na memória. Mas logo a efígie de Laura no espelho não se esfumou como tanto a recordava, e agora, maldição inexpurgável do retorno, antecipava.
Lembrava-me de toda a jouissance dos gestos, dessa abertura fluida e ininterrupta às coisas vivas, à sensação táctil de cada plano, aos prodígios evocativos das mais terrenas evidências sensitivas (não me larga o som de uma bilha de água pousada no chão da açoteia). Inclusive aos corpos (não pudesse, sim, passar por aqui um mote de teorema pasoliniano mais comedido e empirista). Que não primeiramente a breve ninfeta de Teresa Villaverde, nem exclusivamente o bronze da oclusão solar de Laura Morante (dos escassos retratos de mulher a me raptar) e o esplendor macerado de Manuela de Freitas, mas a plenitude de existir no momento, como na justeza do júbilo e desarme infantil, como a ode aos olvidados no plano da criada Senhora Amélia suspensa, apesar da familiaridade, ainda em atavismo mudo e servil, da aprovação comensal da sua caldeirada.
Mas não me lembrava, ou não o vi, como todo este alento vitalista compassava um andamento sepulcral. O superavit mais ou menos subtil de citações (incluindo os cameos de si mesmo, a anunciar-se persona, do César Monteiro) de toda a filiação artística (de Piero Della Francesca a "How green was my valley", de (Robert) Browning (.38) a "Suddenly last summer", de Virgílio e Ulisses a Roberto Rossellini (lembremos as coisas), de de...) era de desconfiar: toda a memória puxa a montante, para o lastro escondido no porão do tempo, onde também se busca trancar a morte e o crime, como coisas que já passaram e nos vedam mais caminho. E nesse exumar de um passado conquanto irrevisitável, a fazer desse fora-de-campo temporal uma presença inescapável e tutelar do movimento que vemos e ainda nos concedemos, aí sem precisão de citação cinéfila, uma vaga reminiscência manietada dos fantasmas de um tal Ethan Edwards me assomou.
Contudo, no reverso, é precisamente também o signo de uma ars moriendi que torna sumamente vibrante a colheita experiencial que cada fotograma comporta (ritualidade constitutiva da obra futura), como a última frase de Manuela de Freitas (que não ouvi bem, como de qualquer forma seria de rigueur em filme meio falado em português projectado ao ar livre, mas de que estou seguro - qualquer coisa como, fruir a felicidade que resta*) sentencia. E na pequena morte sepultada em cada casa que se fecha, o último plano em que nela se extinguem as luzes de vigia da vida em fuga pelo mar, tem tanto de terminal e ressonante para o tempo, como o encerrar tumular de uma pirâmide em Land of the Pharaohs.
Foi um filme em que havia enterrado fundo um mistério, portanto um daqueles a que poderá não convir abrir a luz. Seja como fôr, revê-lo projectado numa noite de Verão na esplanada da Cinemateca num ciclo intitulado Filmes de Praia só pode ser a minha escolha de programação de eleição deste ano. Esta noite não serei mais feliz. Mas sou mais grato.

*segundo a Folha da Cinemateca, «"aprender a gastar a infelicidade que nos resta" (ou a felicidade)», acrescenta o Bénard. Não é grave portanto, mas é no que dá não ser sequer um copista sério.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Semiótica à queima-roupa 3 (aprioristic mode)

A moça do supermercado entrega-me o troco, e quando a miro pisca diligente a pálpebra e sorri. Miúda valente. Um cisco no olho é sempre chato.

Casanova Does Portugal

E, como o título, única razão de existência desta desculpa de post para nutrir o meu gáudio infantil (an improvement, granted) com playground wordplay, aponta, os fins-de-semana lusitanos nunca mais serão os mesmos.