quinta-feira, 23 de novembro de 2006

I hate myself, but I hate everyone else more

«Bob Mould tornou-se provavelmente dos artistas mais ironicamente egocêntricos à face da terra, a julgar por esta amostra (embora se creia não ser esse o fundamento, convenhamos que a idolatria do supremo Pixie Frank Black Francis seria certamente justificação para ego indomável). O que é interessante e minimamente redentor nesse facto, é que é um egocentrismo de música feito, enredado no percurso do qual se fez pioneiro e do qual se vê incompreensivelmente arredado sem que considere lhe seja dado justo crédito por esse valor. O pioneirismo, bem entendido, foi o de, com os Hüsker Dü, ter iniciado a senda do que nos anos oitenta se configurou como a urbanização alargada do rock de garagem e new wave mais corrosiva (não necessariamente corroente) que viria a configurar as margens para brotar o rock alternativo que faria as delícias dos adolescentes rebeldes de araque na transição para os noventa. Representando genealogia da faixa mais agreste dessa invenção classificatória, que muito peso teria, de muita regurgitação feita, os argumentos sónicos dos Hüsker Dü foram-se no entanto suavizando, ao ponto de em «Candy Apple Grey», o metal “Grey” estar muito matizado pelo cházinho com mel “Candy”. A história seguiu-se como muitas. Ruptura conflituosa, amuos, insultos, egos feridos, nova banda (Sugar), nova banda também não serve, discos a solo editados abaixo do radar (até aí Frank Black se reconheceria).
E chegamos a este disco a solo, onde Bob Mould leva a cumes programáticos o resmoneio de artista indignado, em exposição despudorada do injusto que considera a sua não-consagração como pai dessa gentalhada toda que anda a brincar ao rock alternativo sem reconhecer o justo Papa. Vai daí, «I hate alternative rock». Faz sentido, confirmado posteriormente na clássica afirmação «Everything you hate/is everything that you’ve created». E merece logo algum capital de simpatia, a pôr a canalha na linha (se ela ainda o escutasse). Ainda que o homem faça o possível por o esvair, por exemplo, com as anotações umbiguistas a cobrirem todo o livrete, onde, inclusive, auto-classifica o seu próprio disco. Antes que lhe baixem as calças no recreio, Mould sai logo de casa sem elas. É estratégia original e curiosa. A eficiência é que pode ser duvidosa, ainda para mais em moço já de seu maduro: mas esta produção também não era para se deixar dissipar em subtilezas, no receio de a desatenção deixar escapar a sanha bem direccionada.
No entanto, no difícil equílibrio de fruir esta música entre o excesso dessa auto-exposição, e a especificidade sonora que a sua configuração lhe confere, a verdade é que para lá de intencionalidades de vendetta sonora, o registo é meritório de estrita audição. A verdade é que Mould é um melodista (pecado!) jeitoso (e muito classicista, vá-se lá ver, para quem não o descortinasse no chuveiro Hüsker de distorção). A verdade é que no velho egocentrismo programático de tocar todos os instrumentos (“ego override”, portanto), para lá das limitações expressivas que tal impõe (as soluções rítmicas, por exemplo, são sempre as mesmas, mas daí, nos Sugar também eram...), e de um certo ressentir anafado da atmosférica sónica com a habituação, consegue sacar uma economia sonora por vezes bem conseguida. Há umas wall of sound de guitarras que conseguem soar bem impressivas, como na bela canção de abertura “Anymore Time Between”. Há recursos sonoros usados para máximo efeito na despida atmosfera de algumas canções, como o som estridente que vai acumulando tensão de forma argutamente gerida na progressão em esforço psicótico de “Hair Stew”. Os riffs conseguem ser de uma simplicidade inventiva agradavelmente eficaz, como em “Art Crisis”. E os momentos mais apaziguados conseguem ser a fuga possível ao rock alternativo, apenas porque amansam o amplificador.
Porque odeia o que fez o rock alternativo sem si como figura tutelar, Mould faz um disco de rock alternativo como empresa pessoal, em que de um suposto movimento procura resgatar uma alma dorida e raivosa a buscar no mais básico das suas raízes o motivo de não negar o que nessas raízes procurou desenvolver, e negar o que delas se desenvolveu sem seu beneplácito. É difícil dizer dos nossos conseguimentos quando o mundo não escuta, mas pelo menos deixou a eficácia da lição de classicista depuração. Na sua auto-classificação deu-se 3 em 5. A humildade e a soberba escolhem formas muito estranhas de se afirmar, para se anularem na virtude do meio recomposto.»

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