domingo, 30 de abril de 2006

Ora...

...porra.

(queriam o quê? Vai-se o lexicógrafo, depaupera-se a elucubração...)

sábado, 29 de abril de 2006

Elegia para um vivente


«I want a good life
with a nose for things
a fresh wind and bright sky
to enjoy my suffering
a hole without key
if I break my tongue
speaking of tomorrow
how will it ever come
all my lies are always wishes

I know I would die
if I could come back new
»



«Numa daquelas epifanias estranhamente unanimistas, de repente, com “Yankee Hotel Foxtrot”, os Wilco foram louvados como significativos renovadores contemporâneos de uma linguagem de songwritting cujas derivações de uma amálgama americana fincada se equilibravam em certo caleidoscópio de tendências do contemporâneo panorama musical (re)emergente. Contudo, o tónus do elogio talvez não fosse sito tanto no songwritting per se, mas precisamente na envolvente da canção, e aí tomava peso desmedido o dedo do viva-o-pós-rock-ou-coisa-que-o-valha Jim O’Rourke na produção.
É facto que o álbum destila O’Rourke abundantemente, mas é também facto que a estrutura matricial da canção permanece resoluta. Estranho mas funcional paradoxo. Porque a estrutura da canção é aqui, ela própria, matéria de inquirição. O pós-rock de O’Rourke terá a principal valência de sugerir (sustentando no éter da sugestão sonora os objectos que se encontram) os movimentos de contracção, expansão e experimentação que aqui se desenvolvem em torno do que seja o processo infinitamente explorado, e estranhamente nunca esgotado, de dar à luz uma canção. E o facto é que essa empresa encontra aqui estímulo apreciável.
Que a destreza, em boa parte, pop do empreendimento consiga articular-se com a assumidamente rude instrumentália de uma certa americana amalgamada com cutucada rock, às vezes com patilha (mas não mais que patilha) de indirecta reminiscência DIY a esgroviar as 6 cordas da guitarra acústica (a lembrar “those heavy-metal bands”), e com as envolventes sonoras ou ambientais de um pós-rock light, diz bem da solidez das fundações do hotel. “Kamera”, “War on War”, “Heavy Metal Drummer”, “I’m The Man Who Loves You” (gostosa fanfarra e sabida construção, em mutação harmónica, de um clímax – e um dos cheirinhos beatlescos que por aqui também cirandam), conseguem efectivamente submergir em desfrute pop aquela aparente miscelânia que, não obstante, as organiza.
Mas se tem mérito a sedução melódica instalada em película rugosa de matriz e arranjos, não seria só por ela que este disco mereceria todos os encómios, sendo que os que merece muitas vezes não são propriamente os que lhe são dados. O que esse discreto desconcerto oculta, principalmente nas mais descontraídas instâncias, é também uma dualidade enunciativa, em que só naquela dissonância sonora se tem o vislumbre da suspeita do quanto as palavras estão a meças com a melodia que as embala, e inseminam discreto um quase perene tom elegíaco de vida em estanque suspensão e incerta fundação, que se dissimula na indiferente limpidez solarenga do canto (a constante imagética de isolamento, as necessidades e enviesamentos da ligação humana, imbricados na própria acção e palavras subjectivos: como na recorrência da percepção da mentira como constitutiva dos passos tomados ou almejados – “I need a camera to my eye/to my eye reminding/which lies have I been hiding/which echoes belong”). Isto perpassando as declinações mais à queima-roupa (“I myself have found a real rival in myself/I am hoping for the rearrival of my health”), como as mais (só aparentemente) anedóticas (“I miss the innocence I’ve known/playing Kiss covers/beautiful and stoned”).
Muito mérito igualmente se descortina, de facto, na inventiva estrutural, que do apelo mais pop ao amargor menos refundido, está sagazmente subsumida na generalidade deste registo, embora mais notável nos passos mais desarmados da imediatez melódica.
À cabeça, esta colecção incorpora uma jóia da coroa, cintilante de tão óbvia, que não carece de peritagem para aquilatar o valor. “Jesus, etc.”, cumular de requinte e simplicidade (para isto não se carece de pós-rock), desde a introdução a violino (e o arrepio da entrada do segundo violino em contraponto na repetição a aspirar “um pouco mais de azul”...), a melodia imaculada, a placidez harmónica (no compasso constante do orgão), é certamente das mais belas canções do ano que primeiro a conheceu.

Para além disso, menos cintilante, mas no seu anti-classicismo, de outra classe de estimulante, é “Poor Places”. A estrutura é de incomum inteligência comovente, da qual a canção de abertura “I am trying to break your heart” constitui quase um ensaio, que aqui ergue canção mais secreta e límpida. Um lento declinar de versos, uma melodia rarefeita repetida ad eternum terminando sempre em suspensão carente de conclusão, um geológico acumular de sons e diferenciar de espaços percebidos, uma estrutura de subtil densificação, até finalmente se dar a brilhante abertura de campo, a abrir em força, sem dor, a laringe para respirar o novo ar, numa sucessão cintilante de acordes a merecer patente, incluindo o pequeno truque de o verso final ser antecipado por uma escala introduzida a tempo no compasso, em vez do contra-tempo esperado (em tempos, o truque seria o inverso: a percepção tem história), até um mantra de piano clarear a vista a todo o horizonte.
Das outras habitações edificadas, sempre cativantes no seu matizado desafio, “Radio Cure” consegue ainda deter-nos na cardíaca espera de quem, atascado, ainda vislumbra outro ritmo para a vida em suspenso nas ondas que perpassam de distâncias outras o ar; tal como “Ashes of American Flags”, a dar corpo escorrente a material elegia do solo onde se enraízam as promessas e as desilusões, reflexas num corpo falhado.
Um disco de bicéfala eficácia (tamanha que pode ameaçar raiar o desequilíbrio auditor), em que no vinco das suas raízes não tropeça a imediatez, mas em que o mais (o que conta), está mais escondido do que a virtude subtil dos ornamentos e a diligência orelhuda da primeira audição sugerem. Como a imagem da capa podia sugerir – e ao contrário do que os diligentes papas de sugestão de novas eras se afadigaram a aventar na manta de eterealidades e apontamentos O’Rourkeanos (engraçado como os mellotrons hoje em dia enganam qualquer um) – olha-se para cima com os pés na terra.»


TV hooks

Apanhei uma série que desconhecia na televisão, aparentemente sobre uma equipa de profilers ou assim do FBI ou assim. Dois momentos cativaram a minha atenção.
Primeiro, o jovem wizz da equipa vai enunciando os autores das citações que dois membros seniores trocam entre si em duelo aforístico: identifica a primeira «Beckett», identifica a segunda «Yoda». Sintomático, mas delicioso.
Segundo, na cena final (inconclusa, como é de cartilha), vemos um plano preenchido a meio pela face do agente de meia-idade meio perturbado (personagem-tipo, claro, apelativo nonetheless - sou muito pavloviano) a sair da loja de uma bomba de gasolina de estrada, cenário semi-ominoso de América rural (aquele eco vago de Texas Chainsaw Massacre ou, enfim, Psycho), a dirigir-se para o automóvel, e no lado direito da imagem vê-se avançar por trás do agente o adolescente vagamente suspeito (naquele cenário) que o tinha atendido, engatilhando uma carabina (do que o agente se apercebe no último segundo pelo reflexo no automóvel, corte de plano final), e ao mesmo passo visual (that's the point) o infernal «Rock Music» dos Pixies começa a ouvir-se em crescendo.
Estou preocupado: a menos que a série consiga ser devidamente miserável, estes pormenores epidérmicos costumam ser desculpa suficiente para the beginning of a beautiful dependency.

(pois, ainda o 25 de Abril)
Serviço Público (não meu, claro) - apanhado de posts

Aqui, um oportuno work in progress de recolecção de posts sobre este 25 de Abril, a providenciar um mosaico blogosférico de sensibilidades e ponderações (que não explorei ainda convenientemente), configurando um documento compósito interessante para a avaliação da agonística apreensão e discussão da data, da história que comporta e dos diversos simbolismos (e seus fechamentos políticos) que se lhe agregaram ao longo de 32 anos. A consultar, agora ou mais tarde.

(atenção ao recolector: há uns links que não funcionam)

sexta-feira, 28 de abril de 2006

(ainda a propósito de 25 de Abril)
Serviço Público (não meu, claro): «FMI»-José Mário Branco

Aqui (que é como um link diz "ali"), têm disponível para consumo público um documento (transcrição do texto e, mui importante, ficheiro áudio no elenco do leitor de mp3 no canto superior direito: busquem lá o ficheiro, que não está à mão de semear) imprescindível para apreender epidermicamente a ressaca pós-revolucionária do 25 de Abril. Apanhado espasmódico e voraz de diversas propostas estéticas e expressivas que se agudizaram no pós-25 de Abril com a politização e consciencialização extrema do significado do gesto estético-expressivo (a incorporar sempre a ponderação do seu efeito social, que os produtos culturais do PREC tendem a exibir de forma clara), o "FMI" do José Mário Branco configura-se como um experimento perfeitamente reconhecível na datação os seus termos compósitos (dos quais configura quase como súmula centrípeta e centrífuga - assim não tenho que saber qual é qual...), mas irrepetível na sua configuração (e quase na sua divulgação: editado em 1982 em maxi-single a prometer auto-destruir-se em 5 segundos, só recentemente foi reeditado no também mais compósito álbum da sua discografia «Ser Solit/dário»), que por efeito histórico translúcido nos devolve um certo ressentir político marcante ainda hoje das leituras e posicionamentos que se digladiam em torno de uma data histórica e da sua conotação política (e possibilitam que actos simbólicos como cravos na lapela sejam apropriados como formas de afirmação ou dissensão políticas).
Música popular decomposta e recomposta (como boa parte da sua obra buscou, a espaços forçadamente, fazer, aqui enunciando a combinatória «pop chula» - «chula» enquanto "forma" musical tradicional, bem entendido), stream of consciousness, emanações de experiências teatrais (arte fundamentalmente politizada à data, de onde havia José Mário Branco derivado a sua obra-prima, em contrastante depuração formal), confessionalismo visceral e encenado (pode haver quem chamasse à apresentação do FMI um happening), lirismo, spoken word, proto-abjeccionismo(?), formalismo da desagregação(?!) (imprecação, interpelação e provocação, no teste da dissolução-manutenção da situação enunciativa), num jacto esgotante de discurso político subjectivado e objectificante, com este FMI José Mário Branco rompeu com, e extremou (contraditório, pois claro), convenções estéticas para reflectir visceralmente a singularidade vivencial de uma conjuntura social, da qual se ressalta já na plena amargura o sentimento de fatal impotência no gesto.
Não é bonito (por assim dizer), é fundamental.

(porque se fez questão no gesto da transcrição - não comparei com outras - acople-se o registo da minha razoavelmente atenta audição e leitura paralelas, onde apenas se denota que lá para o meio há pelo menos uma série de "pá"'s que não estão transcritos. Como é até, se não me engano, uma sequência deles na mesma frase, regurgitados uns após outros, terá a sua relevância expressiva particular, pelo que fica a anotação. E, já agora (esperando não me desvelar grunho), porquê sem hífens?)

quarta-feira, 26 de abril de 2006

25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!

25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
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25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
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25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!
25-de-Abril-só-de-vez-em-quando!


A produtividade deste exercício é tentar fazer-me finalmente perceber na pele qual o estímulo central para a propagação absolutamente anti-malthusiana, pelo espaço público afora, de provocadores em voluntarioso registo de estrepitoso simbolismo dito (e/ou pretendido) reaccionário, em cruzada volvida bem-pensante (com novas auto-nomenclaturas e discipulados teóricos - como os velhos marxistas) e com pretensões heterodoxas, contra um suposto establishment progressista (a política é contradição). Acho que já percebi uma fundamental justificação da coisa: é que isto é divertido!

Estes filhos da revolução são uns frívolos de merda

Por causa da euforia (oui, j'exagére, malgré-moi) das comemorações do 25 de Abril (naquela piccola perversidade incauta de subsumir as datas celebratórias feitas festa e feriado nas suas vésperas) esqueci-me por completo da emissão do primeiro episódio da última série dos Sete Palmos de Terra na 2 (sim, este mono que vos escreve ainda não compra séries em DVD - viva o serviço público!).
Estarei legitimado para arguir que paguei um pequeno preço pessoal pela Revolução de Abril?



domingo, 23 de abril de 2006

Efeitos secundários de trabalhar em casa pela madrugada

Esqueçam a zoofilia, esqueçam o fistfucking, a cópia de segurança da Barbarella e os CDs refundidos Best of Samantha Fox e os últimos dos Madredeus.
Esqueçam o cross-dressing, o esquentamento e a cara da farmacêutica, comprar o DN pelas crónicas do João César das Neves e a secção de classificados Relax (com uma flagelação penitente no entrementes), dar tampas pelo telefone, escavar digitalmente com sistematicidade as cavidades nasais e invectivar contra o Abrupto Pacheco em caixas de comentários.
O anonimato nos blogues foi feito para confessar coisas como esta: no desespero das 5 da manhã, eu assisti na TVI a episódios d’«As Feiticeiras».

Semiologia à queima-roupa (2)

Quando é efectivamente descritivo do alvo em questão, o apodo "elitista de merda" não resulta insultoso mas sim como lisonja.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

(self-deprecating over self-deprecation)
Não se pode parabenizar?...

...Porque é uma porcaria? But I like it...
Portanto, das duas umas: ou se está dizendo que eu estou ao nível da porcaria, ou se está dizendo que a porcaria está ao meu nível. O que seriam coisas completamente diferentes, se eu não fosse quem sou. Na equanimidade dos termos brutos da enunciação, portanto, será melhor que avance outra criatura para não deixar impune o desrespeito pelo leitor derivado desses self-deprecating efforts, e lhe apostem os devidos parabéns no facies. Porque, convenhamos (creio que poderia ter sido o meu único legado para o mundo), até a auto-depreciação/comiseração tem regras de verosimilhança e etiqueta.

Adenda: LMO já publicou dois ou três posts razoavelmente equivalentes (não falamos em critérios de qualidade) a posts que eu tinha engendrados nos meus drafts para uso num dia acéfalo de qualquer estação. Aproveito para deixar o aviso que tenciono deixar decair no olvido essa precedência e cometer hetero-auto-plágio (as Couves e Alforrecas© da Margarida Rebelo Pinto© são brincadeiras de crianças ao pé disto) em certo tempo futuro. Agradece-se pois que a eventual manifestação de oposição ao facto preceda a prevaricação (que, no meu tempo imagético anacrónico, também tem regras de etiqueta, ora pois).

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Absoluto Relativo Da Carne

Tudo é relativo, os nossos corpos apenas podem um tanto. Sabemo-lo, desgostamo-lo, a espaços, à exaustão, excepto se o confortável cinismo já nos atapetou o chão. Mas para quem reteve nas entranhas a porta aberta para o espanto, certas experiências subjectivas que nos devolvam os cumes de outras percepções tomam um carácter de vontade de dizer absoluto e espoletam expressões que reclamam da objectividade que na edificação de uma subjectividade se funda (e se pode entender e crer partilhado: o absoluto não pode ser enunciado sem cautelas epistémicas mesmo com toda a carne investida na sua dicção).
Precisamente desse patamar, objectivo e desautinado, que reúne e transcende tais contrários, hoje, uma semana depois, ainda titubeante, vos digo: não se viveu sem se ter assistido in the flesh a recital a solo do Hammill. Três condições enunciadas, note-se bem (quatro, na verdade - é preciso tê-lo incorporado até às estruturas subatómicas para se perceber a dimensão disto, apercebi-me, quando alguém se riu numa fila atrás de mim do excesso que necessariamente envolve o estrépito gelado para o mistério da existência corporizado num vibrato agonizante).
Para esta experiência não há substitutos nem sucedâneos (bootlegs, DVDs ou CDs ao vivo - e isto não tem nada a ver - tendo tudo a ver - com uma das carreiras discográficas mais complexas que já se viu: isto, do que tentamos organizar umas palavras agora, respeita à carne absoluta). É escusado buscá-los, o cinismo iria larvar (acreditem em quem absolutamente vo-lo diz, quase cinicamente preparado que ia para um encontro simbólico com quem cria já ter incorporado nas suas possibilidades expressivas ao limite. Grato equívoco, grata dúvida, grata dedicação: mesmo a decair, fui - isto é uma lição).
Nada se lhe compara, no que é. Ninguém tem na voz cada nervo do ser e o faz ecoar; ninguém deposita a precisão de uma emoção em cada momento em que a enuncia; ninguém reinventa a cada segundo (isto é literal) o dizer de uma canção, que julgávamos já perfeitamente lapidada, de acordo com o ressentir absolutamente presente do seu âmago; ninguém transtornou a voz à expressão lancinante (no desespero, inquietude, resignação ou pacificação) de cada movimento da carne que sente. Só este homem. Só cara a cara. Só um piano. Só uma guitarra. Este homem, perturbante até na frágil compleição, na face da devastadora tempestade que incorpora e solta nos limites (porque há vários, do urro ao sussurro) do suportável pelo arcaboiço do corpo.
Este pedaço de cínico (eu) de uma só barbacã vo-lo testemunha e confessa, ainda desarmado, no que se chame espírito, pela mão inesperável do inaudito. Salve essa brecha. À cautela de categorias incomensuráveis, ou por réstia de pudor, só digo que não se descreve o que significa poder, por um instante (a latejar-me no corpo, na recorrência de novas formas, tudo o que tornava irracional essa esperançosa ideia), dar pleno sentido às palavras que ecoaram numa das poucas canções que eram menos meu património (preciosa ironia), e cuja memória, mesmo na constância da mesma danada conjuntura, na lonjura do tempo ainda me impele a reavivar:
no, I'll never find a better time to be alive than now.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Exorcizar o ser



cindido,
no além que comporta
no aquém do que aspira



(porfiando contra recorrências sem sentido de mal capturável, conto estar em Gouveia no fim-de-semana para ouvir o cavalheiro em raro e precioso recital. Por isso até para a semana ou coisa assim...)
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«Reza a lenda que Peter Hammill foi atraído para a gravação do primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator quando pensava em editar um primeiro disco a solo. Considerando os resultados incomparáveis da empresa Van Der Graaf, será bastantemente consensual a bondade divina de tal desvio. Contudo, tal gesto não abre grande espaço para considerações do género “e se...”, já que as expressões musicais a solo de Hammill se iniciariam pouco depois, ainda na vigência do reinado Van Der Graaf. E é fácil verificar que, mesmo nos movimentos de reacção e aproximação ao espectro sonoro da banda que se podem ler nos seus primeiros trabalhos, a expressão a solo de Hammill se dedicou a dimensões estéticas (sonoras e líricas) diversas daquelas encetadas, concluídas, irrepetíveis e benditas para todo o sempre, com os seus parceiros de inconcebível aventura transcendental. Facto tanto mais fácil de comprovar quanto temos nos seus trabalhos a solo registos feitos com os restantes Van Der Graaf, e que produzem resultados esteticamente outros daqueles que esperaríamos de um disco pelo colectivo assinado. A marca Hammill inscreve pois um outro universo. E, sem querermos pronunciar-nos sobre a lei que dita que as devoções a ex-membros de agrupamentos seminais são uma reza a um deus menor (mas francamente, como é que se compara o que estes senhores fizeram com qualquer outro som humano?), neste registo encontramos uma curiosa revisitação dos Van Der Graaf que nos sugere que não se compara aquilo para que não há termos de tradução.
Saído em 1974, este disco dista cerca de 5 anos do opus 1 dos Van Der Graaf, “The Aerosol Grey Machine”, no qual ainda eram apenas humanos. E contém, para nós, uma das mais belas peças (chamemos-lhe canção, bolas, que nunca foi arte menor, como este senhor que entreviu mais mundos sempre soube), do repertório a solo de Hammill, a inaugural “Ferret and Featherbird”. Ora, a curiosidade é que ela já havia sido gravada no tempo daquele opus 1 (estando incluída em bónus de algumas reedições em CD desse álbum). E se na genética vive muito potencial, a sua realização humana é outra conversa. E o “Ferret and Featherbird” no In Camera nada tem já a ver com aquele anterior. É certo que não é por Hammill ter feito a solo algo superior a algo que os iniciáticos Van Der Graaf produziram, que a sua senda a solo é redimida (salvo seja). Mas é mais certo que este tipo de expressão sonora já não é algo que os Van Der Graaf realizassem. O seu universo era outro. A questão chave para quebrar o vício da comparação é, como sempre, a diferença. Esta peça transmutou-se em puro Hammill, do mais puro visto. Toda a ambiência da canção (e carece esforçar o tímpano a captar a ressonância de uma guitarra acústica para percebermos o que aqui ainda conserva resquício das regras de ser de uma canção) é feita de cintilares sonoros, fantasmas de guitarras a ecoar de todos os campos em glissandos transcendentes, que constituem fímbrias de matérias outras que apenas ouvimos entrecortadas, para toda uma outra ressonância original respirar. E nesse manto estrelado a voz de Hammill, na mais bela melopeia, resplandece, como que a desenhar a via láctea num céu de luzes humanas impoluto, para mais o contraditório humano sentimento resguardar da dor da sua impressão, já que só “time and distance make a love secure”. Só isto, mas apenas só isto, redimiria toda a obra de Hammill, coisa que dizemos ridiculamente, pois “isto” é amostra do quanto redenção é coisa de que essa obra não carece.
Depois deste deslumbre verifica-se que o álbum não prossegue o encantamento que fugaz, como em todas as profecias, se revela (mas por tal perdura), a pretender guardar-nos na sépia da fantasia do decair da carne. Logo de chapão nas duas faixas seguintes se verifica que aquela maravilha que nos foge era a gémea ameaçada de um húmus de experimentalismos novos no universo de Hammill, na sua vertente mais electrónica. Com praticamente toda a instrumentação a seu cargo, a textura do álbum é toda de um sobrecarregar esborratado de overdubs de instrumentália básica e das electrónicas contemporâneas densas. Todo o modus operandi confere ao disco uma sonoridade espessa ao absurdo, palpável na sua crueza e audível volumetria, em que camadas sonoras se atabalhoam para alcançar primazia, numa espécie de selvática lei do mais ressonante. A própria guitarra acústica, nas suas eventuais aparições a relembrar donde possa ter brotado, iniciática, uma composição, surge deslocada num maëlstrom onde nada tem pé seguro e incorpora reflexos deformados de ameaçadoras transmutações outras que a senda de Hammill encorpará crescente de proporções formas e fôlego ensandecido ao passo dos minutos: “and the vortex sucks me in/Steeped in sin I die/but am reborn”. Métricas, marcos de sinalização, tudo o que ancora a audição se dissolve num pântano ácido de corrosão sonora, numa massa disforme, a imprimir marcas violentas, opacas e inquietantes nas câmaras de som. A própria voz é violentada, violenta (nos extremos expressivos que incorpora o timbre de Hammill), e refractada num processo que enuncia na sua fisicalidade sonora o derrapar quase esquizóide, voluntarioso nas areias movediças da impotência e da consciência (“I’d gladly succumb to the wave/if I thought the water taught the way to light/ (...) and it’s easy to believe what the preacher says/except for the conflict raging between my head/ and my brain”), da busca de âncoras de onde pronunciar o que é esse “ser” humano. O seu exemplar mais eloquente irrompe aberrante na distorção de “Tapeworm”, onde um coro fantasmático de Hammill desmultiplicado de si dá corpo à visão de uma identidade em estilhaços em busca de sentido, desde a criança que preenche de criaturas e paisagens os escuros resguardos do propício quarto nocturno, ao deus incompreendido capturado num hospício ao verter-se e prender-se em corpo terreno para decretar a santidade nas vielas sifilíticas, até ao risco da perdição (perdições) pela possibilidade de um vislumbre do que jaz além (“I am a man from the country of destruction/I am a man a woman and a god/I am my own weapon of kamikaze/And will one day cut through the/hidden knot”).
O portento esmagador deste processo é precisamente a faixa final, em que, nos movimentos ciclópicos e atordoantes de anúncio e recuo de um deus desproporcionado de professa omnipotência, que se desvela ou se cria no temor e devoção emanados do mesmo engano descabelado que organiza a incapacidade humana de lidar com o que lhe escapa, ecoa todo o universo ameaçador em que Hammill a espaços se instala, abarcando assim no seu registo lírico o relevo da mais ínfima dor humana bem como a sua irrisória condição escarnecida por ignotas e pressupostas forças maiores, que o poeta apenas esgravata para mostrar as unhas encardidas de tentar ser. Até que dessas inescapáveis revelações projectadas toneladas ao nosso corpo mindinho, nada resta senão melífluos miasmas sonoros da fatalidade, a relembrar que só na consciência do irreversível dos nossos passos se podem antecipar as quedas nos abismos mapeados. “Depois”, é sempre “too late to smother out the tell-tale footprints/which mark your passage through the greying snow”.
Mas é nas duas faixas anteriores a esta que o experimentalismo que faz a singularidade deste disco se une com o lirismo inescapável do seu autor, que, sendo o outro extremo do seu universo sonoro, também tem aqui o seu exemplar procriador (pois dele se carece para criar o híbrido) em “Again”, pura balada hammilliana de perda constitutiva, no seu registo mais inquisitório dos doridos da existência, a reclamar da dor presente a consciência perene do passado que organiza o ser hoje. Em “Faint-heart and the Sermon”, e “The Comet, the Course, the Tail”, Hammill ejecta para um registo cósmico o existencialismo feroz que, recorrente, incorpora o que o faz autor de excepção. A humana condição, na sua mais íntima e encarniçada inquirição, é o que este homem de si dá. E quanto mais alcança, mais diz estar aquém (“And the knowledge that we gain in part/Always leads us closer to the very start/and to the founding questions”). Ele, connosco. Pois se pudesse ser conformado a um lugar, a uma crença, atribuídos no mundo, “then doubt would never cast a dagger in my back”. Mas sabemos que só o podemos ser na antecâmara da reflexão. Dado o primeiro passo, In Camera, e os ulteriores que este homem não cessou de dar, trôpegos, desesperados, impotentes e irados, as cicatrizes já não têm conta. São o corpo derrotado de antemão pela mesma inquirição que (talvez...) o torna maior. »

Two sides to each teaser (fora de prazo - só agora se me lembrou, e porque não?!, ahhh chatear a prima...)

Uma noite, parando o carro no semáforo traiçoeiro da Praça de Espanha (Lisboa), passado poucos segundos ressinto violentamente o estrondo de um carro que colide com a traseira do dito que eu conduzia. Passados os segundos de me recompôr do susto imprevisto (nem um chiar de travões anunciou o embate) e averiguar da integridade de quem me acompanhava no lugar ingrato, reparo que a condutora do carro atrás não saíra do mesmo e o dito se tinha deslocado uns metros para trás - pelos dados referidos, iria certamente tão distraída que nem reparou na viatura parada à frente. A confirmar tal pressuposição, ao dirigir-me para a viatura perpetradora, começo a deparar-me através do filtro fusco do pára-brisas com uma senhora muito composta com esgar aterrorizado agarrada ao peito. Lentamente, acalmando-a, me aproximei, abri a porta e inquiri, francamente inquieto, da sua condição. Afligiam-na dores no peito, derivadas do puxão do cinto de segurança mas também do próprio susto do impacto que manifestamente ela não antecipou, indiciado pelo seu estado de pânico. Enquanto a acalmávamos, o que estava de facto a ter o efeito de minimizar as suas queixas, acautelávamos a necessidade de chamar uma ambulância, to be on the safe side, ao que quem me acompanhava se lembrou de perguntar se ela teria algum seguro de saúde para averiguar do seu leque de opções de cuidados para lá do ir para a urgência do hospital mais próximo. Ao que a senhora, ainda profundamente abalada, inquieta e dorida, responde automaticamente: «ah sim, ir às urgências não, não».
Quem é da Linha também há-de ser sempre da Linha?...

segunda-feira, 3 de abril de 2006

O choque de civilizações era outro

O único diferencial cultural entre agregados nacionais que alguma vez me fez soçobrar para a defesa da tese de um choque de civilizações foi o emprego (e a mera existência como objecto socialmente integrado nas estruturas espaciais e das práticas socio-corporais do quotidiano) do bidé.
Para que não haja dúvidas quanto à minha arregimentação, para todas as eventualidades derivadas de when the shit hits the fan, anuncio desde já que a minha civilização é a do bidé, dela faço estandarte e porto orgulho (ainda por cima do tipo higienista moralizante), e dele não abdico.
Negligenciado em certas patetas culturas de paranóicas derivações patriarcais (a cultura pode dar para isso: qual acumulação e progresso!) a abdicarem de atenta vigilância a meritória região de variegadas valências (não, não só as duas que pensais ó behaviouristas culturais - sejam elas quais forem, consoante o behaviourismo...), o imaculado traseiro, condição sine qua non do bem-estar civilizado, requer o seu repuxo.
Tenho dito.
Espero lesta polémica e, no mínimo, a embaixada da poluta Grã-Bretanha em polvorosa (também têm direito).

(That'll show Huntington...)

Oh, hobbits make nice music too

«Às vezes vale a pena esperar. Às vezes vale a pena deixá-los esforçarem-se, só mais um pouco, mais um bocadinho, e pode ser que cheguem lá. Não convém dar-lhes ilusões antes de lá chegarem. E como é que eles se sustentam até lá chegarem, é matéria que já nos escapa. Mas como até quem lá chega tem muitas vezes que continuar a comer papas de milho ao jantar, terá que haver outro tipo de recompensa que nos transcende.
Para estes moços, que na verdade é um e venham os mais cinco que estiverem na cercania, haverá certamente outra recompensa que no íntimo reclame. Porque andar com a carrinha com os pneus em baixo para fazer um gig num bar perdido no Texas e desesperar para marcar concertos com promotores indolentes, é só para os dedicados que se auto-sustêm. Ou seja, é verdade, Mike Sary, baixista e senhor French TV himself, chegou lá, provavelmente demorou seis discos a fazê-lo, e não lhe adiantou de nada. Nós, oportunistas com sentido de risco assisado, atiramo-nos ao sexto quase de cabeça, e ficamos a ganhar. O risco era precisamente o opus 5 do cavalheiro, que francamente nunca por nunca prometia este salto qualitativo (tanto o não prometia que cometemos o abuso de presumir que o que está para trás também não seja relevante – mas podemos estar errados, e deve-se assumir essa possibilidade). Algo se deve ter passado, e só Sary pode dizer o quê. Intestinal Fortitude (o tal 5) não aquecia, exasperava, em digressões instrumentais algo insensatas (com vocalizações ainda piores), sem grande sentido de integração composicional e tematizações trôpegas, com guinadas gratuitas cuja intenção lúdica se quedava apenas annoying, e claro, com condições de produção a condizer, como aqueles sintetizadores que deviam estar no caixote de lixo da história e do beco. Nesse sentido, o título do brilhante opus 6, “The Violence of Amateurs” até cairía bem ao opus 5, se o seu título “Intestinal Fortitude” não fosse já interpretável como demasiado gráfico quanto ao seu conteúdo (nem nós íamos tão longe... que artista tão auto-crítico é Sary...).
Como, mas como é que passa para The Violence of Amateurs é mistério que só lhe fica bem. E como é que susteve “carreira” que lhe permitisse chegar ao sexto disco é empreendedorismo que consegue ser quase dignificante dos fracos resultados que (eventualmente) até aí produziu.Factor (positivo) estranho para quem aborde à primeira distraída audição esta música, Sary é um ávido conhecedor e coleccionador de progressivo. Basta dizermos que a matriz instrumental do álbum e a sua solidez composicional e improvisativa conseguiram que só quando a dado passo se comete o give away de juntar uns acordes de sintetizador já um bocado passado pelo meio é que os censores do “eh pá, isto é progressivo” a partir do conhecimento básico (no mau sentido) dos seus clichés se apercebem do logro.
Progressivo, smchogressivo, isto é música de altíssimo gabarito. A agilidade das cambiantes rítmicas e temáticas tornou-se de um organicismo impecável. A dinâmica improvisativa desenvolve-se airosa balizada pelas irrepreensíveis, mutantes e estimulantes estruturas composicionais. A controlada diversidade de registos torna-o imune aos clássicos resmoneios aos solos derivativos.
Num álbum que, se quisermos classificar “progressivamente”, é marcado por dinâmicas vagamente canterburianas e vagamente RIO, a conciliação das duas resulta brilhante e altamente produtiva para os eventuais excessos ou fechamentos de cada uma isoladamente (se bem que tenham sido ou sejam das correntes mais produtivas e estimulantes do género). A parte RIO é a mais devedora do sentido lúdico da família dos agrupamentos de Lars Hollmer. E é curioso que o único ponto fraco do disco seja aquele onde fazem a vénia directa ao mestre, com uma cover de Joosan Lost/The Fate dos Zamla Mammas Manna, que francamente podia ter economizado 10 minutos de estética noise ou free não muito conseguida (felizmente está no final, para não assustar audições iniciáticas). Mas a inspiração indirecta faz maravilhas, agora que o lúdico e o circense se incorporam em matriz de gestão assisada evitando o grotesco e o gratuito dessas expedições. A veia canterburiana surge pela mesma sensatez controlada, e dando asas à imaginação na melhor veia da corrente que era não o descambar em solos meio FM, mas o incorporar a dinâmica instrumental naquela jazzy quirkyness temática (de perfeita imbricação rítmica, harmónica e melódica) que fazia a surpresa e frescura de Canterbury no seu melhor. Neste caso, quirkyness (é que não há tradução...) levada até territórios extra-musicais, com as incursões literárias de Sary nos livretes dos CD’s a pintar retratos sarcásticos das margens do real musical e político, fazendo uso sarcástico da sua condição de outsider de qualquer circunscrição.
A primeira faixa, parece quase uma provocação, ao pegar nos fetiches sonoros centrais mais circenses, quase a relembrar o esforço anterior dos French TV, e em 4 minutos condensá-los e fazê-los resultar sem quebras obtusas num exercício bem sucedido de musical teasing. Para que não restem dúvidas, Zappa também passou por aqui.
O humor, aliás, passa muito por aqui, mas como atitude intrínseca e escorreita, quase de bonomia, sem puxar pavlovianamente pela coisa, em inúmeros fragmentos, como a marcha inicial do segundo tema, espécie de Ponte sobre o Rio Kwai de exército prestes a descambar (e descambará) ao efeito de desbunde das brocas aspiradas na caserna. Ao que se segue inspirado e sincopado tema (aqueles sopros no ponto groovy) que dá o tom da classe deste disco que consegue não se levar a sério de forma seriamente competente.
Todo o álbum, e cada faixa, incorpora um caleidoscópio de inspirações sem esfregá-las na cara do auditor, passando pelo discreto sabor latino do início da quinta faixa, ou o subtil lounge jazz do início da quarta, sendo que cada uma jamais fica refém dessa primeira exposição temática (por isso não se assustem com a descrição, como ela parece requerer). O equilíbrio simbiótico entre temas constantemente sucedâneos e reconfigurados, irrupções inesperadas em surpreendente consonância estrutural, uma riqueza textural de apontamentos instrumentais a subtilmente estruturarem a percepção dos temas, são virtudes constantes em toda esta digressão, que merece os nossos encómios, sendo que a prodigiosa vitalidade temática e seus sabores exquisite conseguem integrar e dinamizar de forma exemplar as prolixas digressões intrumentais e improvisativas de cada faixa. E para quem os tenha visto em Gouveia em 2005, apaziguamos as reservas ao anunciar que a diversidade instrumental do álbum faz empalidecer a relativa pobreza tímbrica que os French TV em trio solitário e depauperado trouxeram cá ao vivo, não sinalizando convenientemente a densidade estrutural das composições.
Mike, podes ter massacrado a (pouca) gente que te tenha ouvido até então, e principalmente a ti próprio, e podes não ter, agora que o mereceste, mais gente a dar-te ouvidos. Mas, pela nossa parte, a esta distância dizemos-te: valeu a pena. Da próxima vez que nos calhar um disco esforçadamente mau na grafonola, prometemos, a nossa reacção será: dá-lhes tempo.»

sábado, 1 de abril de 2006

Alvo em Movimento

Em poucos dias deparei em casa com as duas maiores (gordas, corpulentas, patudas, multi-colores) aranhas que vi na vida.
Há alguma epidemia de que não esteja a par? Já pensei em guardá-las num frasco para mostrar a especialista avisado. Ou estarei numa lista aracnídea de alvos a abater ? Seria bastante desagradável. É que o problema é igualmente a reacção de defesa. Comecei de há uns tempos a esta parte a ter grande restrição no abate indiscriminado de seres vivos que não me causem dano físico (vou abrindo excepções ocasionais para melgas, dada a condição parasitária). Mas estes exemplares andam a pôr em causa a minha determinação.
Sem dúvida que isto pode ser um escancarado teste moral. É essa aliás a cruel perversidade das sendas da virtude: só a partir do momento em que nos acometemos a um princípio é que a tergiversação ao mesmo se torna matéria de angústia moral e justificação racional (que soa sempre falha à fácil evocação retórica do imperativo). O desviante ocasional consciente assume sempre sobrepujante culpabilidade face ao constante desviante estrutural irreflexivo. Ora, não só esta disposição é a-problematicamente ínvia, como para este princípio desconheço teologia (os homicidas, por exemplo, têm a orientação moral bem mais facilitada). Pelo que, auto-infligido pelo meu bom comportamento (e duvido que os gajos do karma façam estas tortuosas contabilidades), mesmo na consciência da colocação de um teste moral, é certo, como sempre, que vou falhar. The nice way, though, tanto quanto se pode aliviar a consciência: pela sanita.