Sábado, 19 de Julho de 2008

With Co-en on our side

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Come, armageddon, come

A piedade pelos personagens também é uma coisa muito bonita

E se os desmandos (ainda que proto-estruturais) fellinianos lhe possam vir machucando certo tipo de posteridade, o excesso de cuore, que aparentemente os fecundou, tornava-se a melhor justificação para o extravasar, precisamente porque destemperado e irrazoável de impenitente generosidade para com a corriqueira desmesura da frágil matéria humana, da sua féerie. Nem é certo que, nesses termos de histrionismo sensório a contornar a convenção e verosimilhança dramática (ou até melodramática), não tenha mesmo funcionado como vera forma de pudor.
Mesmo se filmar a Giulietta Masina seja sempre um truque sujo.

If only we'd kept it pure...

cão d'água português

Sábado, 10 de Maio de 2008

Business as usual

Bom, como não houve vaga de fundo a clamar pelo meu retorno, tomei a deixa de Santana e achei que era seguro voltar a fingir dar sinais dúbios de vida. Nada a narrar, contudo.
Bom, posso dizer que foi muito bom ver a Monk though. Principalmente a revisitação dos primeiros tempos, ainda que o minimalismo mímico mais avantajado e encenado mais recente não seja nada de desdenhar. No entanto, o trabalho conceptual vocal sobre o primalismo do fonema(?) como unidade puramente sónica de sentido ressoa extraordinariamente sobre coisas muito estruturais do nosso entendimento (nunca tinha assistido a um concerto em que a plateia à volta (porque se pude só pagar 5 euros para um lugar em pé, como felizmente houve poucos taraditos para encher o CCB nesta ocasião artsy, recambiaram toda a gente para a plateia para compôr o cenário; e a quem pagou mais cheta pelos seus lugares, pois, ninguém vos mandou ser burgueses ostensivos (suckers), e é assim meus amiguinhos que um sistema minimamente razoável de estratificação social funciona, logo, arrumem a carteira esmifrada, e agradeçam que a minha pandilha de lumpenaudiofruities vos deixe mais uns mesitos de paz social sem ataques insensatos de espasmos vocais na praça pública) se pusesse a tentar reproduzir no intervalo as modulações vocais que acabara de ouvir, como que num jogo de aprendizado mimético infantil). Lidando com a pura expressão do ressentir sonoro primário das coisas do mundo e das suas sensações sobre o entendimento nu, sem o oversight retórico da palavra herdada e formatada, e acoplando-a à sua expressão cinética no corpo (e por isso, a Monk é mesmo também para ver), é como se a mulher estivesse a elaborar um léxico fónico (se não existe, devia) de base, espécie de esperanto vocaliso, para construir um entendimento partilhado das fundações primeiras de se ser humano no mundo. Quando parece que a maioridade artística se anda hoje a medir pelo grau de boschianice na antevisão do apocalipse em preview, é bastante reconfortante saber que já tenha andado alguém a trabalhar nos andaimes para a reconstrução de uma cultura humana.

Eh, já agora também confirmo que o Cave já anda feito um bocado caricatura de si próprio (e a tocar o Into My Arms a rir-se, e a estropiar o Your Funeral,My Trial, senhores...), o que até é chato porque o último disquinho até é um pouco mais que o picar o ponto dos últimos tempos. Mas quando se vislumbrou a sombra do velho (quando era jovem) pregador ainda a memória de um repentful arrepio se avantajou, ainda que naquele contexto seria mais de um gajo se sentir culpado por comer um kit-kat inteiro do que por fornicar com todos os seus familiares no Bayou Country. Tocaram o Tupelo, o que foi bem, e o Mick é um gajo castiço, ainda que me pareça que haja ali uma débâcle surda entre a tradicional facção Bad Seeds e uma eventual facção Warren Ellis. Enfim, deus e o diabo sabem que aquilo está a precisar de um pouco de fricção para atear fogo que não seja de lareira de ecrã ou fritadeira de amplificador. E chamou a audiência de fucking idiots, o que foi o momento mais comungado da noite, supostamente por entrar cedo demais em coro, mas provavelmente mais por estar ali a pagar para estar numa desbunda de compinchas. Ah, and what's with the spitting, Nick?
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Nesse capítulo, o Bargeld ganhou a palma ao pôr-se na alheta dos Bad Seeds, porque se os Einstürzende estão mais fofinhos (já nem tocaram nada anterior a 2000, e o Blixa pôs-se a debater o seu eu antigo e novo (wanky wanky)), só porque trocaram o martelo pneumático pela marreta, a verdade é que se os seus concatenados sonoros têm novas formas mais roliças e eardrum-friendly, o método industrial continua a ser surpreendentemente o mesmo, e continua a transportar mais que uma lamela de uma labuta histórica sobre a linguagem musical popular, que devia fazer parte do b-a-bá (é assim? (e quão cúmulo da ineptitude sentenciosa é perguntar como é que escreve o bê-a-bá, e logo quando se quer verberar sobre o seu cânone vocabular?)) da educação musical das massas, embora tenha ficado a pensar que um dia aquilo ainda pode tornar-se num espectáculo de uns Stomp alternativos.
Deviam mesmo era ter atenção ao dress-code da coisa, porque com o baixista (logo um histórico) a parecer surripiado dos Scorpions, o Blixa em trejeitos emo (é assim?) com a franja, o guitarrista saído de um classic manwear fashion-show passerelle de Nova Iorque, e o teclista e (digamos) baterista expelidos de um vídeo dos Soft Cell, a audiência idólatra estava pejada de destroços de um cataclismo estilístico sem saberem para onde virar o eyeliner. Valha-nos o bom sóbrio clássico do careca bacano nas percussões, que não sei se é do que as miúdas gostam mas é sem dúvida do que as miúdas deviam gostar, se tivessem o bom senso de ouvir os meus conselhos na matéria. Já eu, não pouco descalabro moi-même, mas mais estrutural, o que não torna plasticamente recomendável reforçá-lo redundantemente nos andrajos, fiquei com pena de não poder comprar a t-shirt com a estampa do cavalo ejaculante do Haus der Lüge, mas nem era t-shirt, tinhas as mangas longas e tornava a peça um bocado chunga, mesmo se flanada para me estrear um dia no S. Carlos, mesmo se me pudesse dar jeito para a carreira futura de peão d'obra, mas olhem, não se pode ter tudo. Além de que, se essa coisa de fazer música à margem da indústria, à conta de uns apoiantes carolas, parece uma experiência de organização da produção muito interessante, quando os pôs em concerto constantemente a impingir os produtos exclusivíssimos que tinham lá fora, incluindo a gravação em tempo real do próprio concerto, fez-me por momentos pensar que estava a ouvir o meu merceeiro gabar um fiambre de porco preto (há isso?) enquanto o cortava na máquina. Mas não serei eu nem as minhas meias de rede a ajuizar como é que os outros devem ganhar a vida.
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Entretanto, confesso, sim, et ego(?) Julius, estou mesmo um bocado rendido para ver os National. Não me estou a lembrar de outro concerto para onde não vá com meia costela reaccionária mal-entalada à espera que "toquem as antigas". É bastante triste, embora por vezes insuperavelmente surpreendente (mas o Hammill e os Van der Graaf não contam para estas matemáticas), só passar a vida a gostar de coisas pelo espelho retrovisor. Acho que não me lembro assim de apanhar outra banda em perfeito estado de graça, excepto os Gaiteiros de Lisboa quando lançaram as Invasões Bárbaras (é bom que não haja ninguém aí a pensar que isto é piada), a justificar o espreitar menos cínico pela gelosia de uma euforia contagiada (coisa que provavelmente não me aconteceria se a Beggar's não fosse tão rápida a baixar os preços para padrão paperback (aprende indústria chupista)). Sim, porque se as colheitas anteriores têm também para moi coisas muitíssimo estimáveis (e curiosamente mais nas mais recônditas, sendo que não seria como folk-ou-indie-rockers que me teriam levado ao lugar, mesmo com o pastiche da cindy lauper), e já sugerem os ingredientes apresentados à espera apenas da alquimia das proporções, o salto para o Boxer não deixa de me continuar a soar quase épico (para mais, um em surdina), com aquela inefável sensação quase metafísica, desde os primeiros acordes de piano (que me submeteram um pouco da mesma maneira implacável que os do início da Pyramid Song dos Radiohead), de everything falling into place. Epicidade (isto anda bom) para o que contribui (mesmo não sendo necessariamente aquilo que mais leve para a cama), para minha surpresa dado o que (não) havia lido (conspiração da selectividade?) a esse respeito, a prodigiosa polissemia poética das polaroids barra cupholders de vida americana (sabido, excepto por cineastas estrangeiros só de visita (não os imigrés, atenção), não ser matéria só de território) na subjectivação encarnada dos espectros de um país, um modo, uma condição e um tempo da vida, em crise e em guerra (ao mesmo tempo metáfora e literalidade, porque ambas ominosas no l'air du temps - desculpem lá o frufru), onde a amálgama inextricável do pessoal com o político, na ressonância pessoal de um coming of age, não é uma blague soixante-huitard a desbastar pelo cinismo do fauteuil, mas um dado adquirido dos hangups dos gestos e palavras do quotidiano, o que, não servindo qualquer maniqueísmo ou voluntarismo temático (phiuff (as minhas onomatopeias ainda estão dois acordos ortográficos atrás)), acaba antes por imbuir de uma clenching gravitas as aparentes e efectivas (reiteradamente so) minudências do vivido, colhendo o raro paradoxo de uma contemporaneidade personalizante em dilatação no tempo, espaço e corpos. E deve ter o Springsteen a roer-se um bocado na siderúrgia (notar a minha contenção em não ter optado por escrever antes powerplant). Gostaria também de esclarecer que só escrevi isto tudo para meter a do Springsteen (o que não é menos triste), portanto tirem lá essa cara de enjôo. Ou não.

Pronto, acho que é só isto.
Enfim, claro que desde que rererererevi o Hatari! na televisão no início do mês (e que, claro, ao contrário da merda dos MIB ou do Ishtar ou do Evita, não vai repetir, pelo menos este mês, para poder finalmente gravar, embora nunca veja filmes gravados, mas às vezes gosto de saber que estão lá), tenho andado a ouvir as pessoas na rua a tratarem-me casualmente por bwana. Confesso que me pareceu inusitado de início, mas a verdade é que quando lhes digo para continuarem a fazer a sua vida como se o meu extraordinário poder de atracção carismática sobre eles não existisse, eles cumprem-no escrupulosamente. Estranhamente, quando me faço à população nativa é que a coisa não corre muito bem. Talvez porque não estava no guião, talvez porque não fosse uma fantasia colonial. É o problema de ficarmos cativos, por razões que não nos interessa explorar, em filmes que nos acompanham seguros desde o tempo em que as tardes de fim-de-semana da RTP1 tinham cinema clássico: não há margem de improvisação para um destino cujo fado é o de não se cumprir.
(como é que se grafa o som de um expiro nasal?)

Sábado, 5 de Abril de 2008

Orçamento rectificativo

Para meu bem, e para acabar com todo o bem, parece que este é mesmo o ano de quase todos os concertos. Enfim, de quase todos possíveis. Enfim, de uma porrada deles. Gil (finalmente a solo, sem as bobagens reggae sub-par, para ver se desfrutamos finalmente "apenas" a pura impureza do afro-samba), Galás (shrieking beast), Monk (shrieking high-priestess), National (sem entrar em histerismo, que não combina com a minha pose seráfica, este é de facto o tempo para os ouvir - lembrete de que nem todo o apelo da contemporaneidade é fatela), Cave (o tempo não volta para trás, e para não ser fundamentalista reducionista e não dizer 86, nem, vá lá, 97, digamos que desde 2001 que a cada ano penamos mais pelo facto, pelo que não esperemos mais por muito mais bonança), Einstürzende (o tempo não volta para trás, já não se arrasam palcos para fazer uma sinfonia com vigas, yada yada), Cohen (viva a necrofilia?), Dylan (viva a necrofilia?), ainda mais Young; digam-me, o que é que faço à minha vida?
Enquanto não se decidem, eu vou a Gouveia para desafiar mais uma vez a besta nostálgica com a presença do santo graal dos descobrimentos sónicos de 70's, os ressuscitados (e pela onda de milagres dessa natureza, suspeito que Cristo só podia ter sido um prog-rocker (brrr)) Van der Graaf. Elido, desta feita não só por conveniência de concisão, o Generator do nome, porque, crime de lesa majestade, a equipa suprema do tio Hammill se reuniu sem a valia imprescindível dos sopros do David Jackson (era o segundo a contar da esquerda: façam-lhe uma festinha), coisa que, tivera eu moral, seria motivo para me isentar de ratificar o estupro à memória sacra. Contudo, a cóclea é fraca, e se cada revivalismo é uma despedida, o atraiçoar da memória do clássico quarteto pela ausência do Jackson servirá sempre como desculpa para diferenciar o que se assistirá de uma mímica frouxa do que já foi a essência sonora do inapreensível, não pretendendo resgatá-la do passado seu guardião onde assim poderá permanecer como farol cósmico de apequenamento de quem não mais se soube fundir com a dispersão atómica e sideral dos corpos (parem-me quando começar a falar de duendes, por obséquio). Aliás, como há dois anos assombrosamente aprendi, mais que isso, estar no centro do furacão Hammill a esfrangalhar-se-nos, seja em que encarnação for, será sempre condição fenomenologicamente absolutizante da valia de estar vivo naqueles segundos interminavelmente ressonantes, pelo que, se sigo, será sem dúvida para ter o prazer de ter os meus punhetistas tropeções retóricos arrasados pelos timbres e vibrato mais existencialmente tectónicos que instrumentos sensíveis alguma vez registaram.

Para além disso, e afora o gosto pacífico do neo-classicismo de câmara dos Aranis e seus piazzollismos de empréstimo (e que melhor credor?), há também a grandeza injustiçada dos Thinking Plague para se fazer ouvir nas encostas da serra. Das raras criaturas a arrastar a ferros aquilo a que se chame música popular, e particularmente a melodia, para tempos modernistas (aquele pitch alienado a ressaltar pelas paredes de um hectágono escuro), e permanecerem violenta e epidermicamente engaging (dos raros do ramo que poderiam com a mesma facilidade ter dado (ou deram) um fabuloso new-wave act ou em indie-rockers (brrr) de culto) conseguem sob a batuta dos harpejos aracnídeos do Mike Johnson e de despejos matemáticos de entulho e ritos sonoros exumados em noites de lua cheia, fazer qualquer coisa, das mais díspares, em que toquem soar irredimivelmente entusiasmante, seja a rockar conselhos da Gourmet Magazine sobre como limpar lulas (literalmente: hey, fuck metaphors),

seja a esgalhar alegorias apocalípticas a partir de leitmotifs como a cruzada albigense, coisa com a qual não sei se seria de deixar mais gente safar-se.

Enfim, enquanto não arranjais maneira de eu resolver os dilemas que este dilúvio purificador e fatalista de oportunidades históricas me apresenta, podeis ficar a debicar longamente estes biscoitinhos que vos deixo, que cada efeméride é também sempre uma despedida.

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Obviamente, deslinko-o

Aparentemente, o Da Literatura terá granjeado leitores com desatinos algo bizarros, como apontarem o facto de no seu blogroll (aprendam) não constarem alguns notáveis da primeira liga de blogues (as fronteiras parecem ainda não estar perfeitamente muradas, mas não entrem em pânico, estamos a trabalhar com afinco nesse sentido). Até aí, tudo bem mal. O naco de harmonia mundi que faltava é que, pela resposta, o Da Literatura parece fazer por corresponder aos desatinos desses seus leitores with a vengeance.
Nem concebia que a desautorização desse postulado de uma elite comummente identificada e correlativo imperativo de a entronizar incólume na sua estratificação de evidência imanente em todo e cada blogroll, ou pelo menos nos dos correlegionários de casta, tivesse de se justificar com mais que a saudável pluralidade de afinidades intelectuais, temáticas, e outras, que, dentre todo o espectro de saudável coabitação silente do meio (caramba, não há gangbang capaz de tornar o amor blogosférico, ou outro, democrático), seleccione ou sinalize alguns pináculos ou interlocutores com os quais a sua identidade retórica produtivamente se construa publicamente (e gostaria de crer que poucos desdenharão democraticamente com tanto desafogo tanta parte da blogosfera quanto eu). Mas não; Eduardo Pitta desfia, com o aprumo com que se recita uma lição há muito canónica nos manuais, o devido processo que conduz ao reconhecimento inter pares devidamente dependurado nos links da prache, com inatacável e desempoeirada honestidade (faça-se inteira justiça) que resgata do subentendido, tão partilhado quanto não assumido (porque somos todos adoráveis, evidente), algumas das políticas e dinâmicas sociais de estratificação blogosférica que a parecem fazer regida por lei consuetudinária da Cosa Nostra.
Partindo do pressuposto de que uma lista de links ainda cumpra um papel de associação e recomendação simbólica de interlocutores que, pelos mais diversos e livres critérios que formatam um perfil de blog, se entenda destacar de um campo razoável de possíveis, é certo que a meritocracia abstracta (essa ou outra), em qualquer sistema, é um mito de boas consciências; mas daí a ratificar-lhe os enviesamentos (entre a incorporação ou proposição subjectiva e a sedimentação "institucional") há um salto axiológico que não apenas a mera pragmática de saber ascender ao quadro de honra.
Assim, ao que, para quem não soubesse, consta, não para ter, mas para começar por merecer reconhecimento, qualquer newcomer com ambições deve começar por prestar vassalagem aos senhores da terra e ofertar-lhe o que a tradição convencionou ser um link. Por certo que quem não tenha redes estabelecidas (externas e/ou internas) de passa-palavra para se permitir o distanciamento do sujo mercantilismo dos links (situação de não retorno que já não choca esta política de reciprocidade estratificada, porque não constitui uma omissão electiva, mas como se não sinalizasse já um reconhecimento adquirido refastelado à espera do que lhe é devido) dificilmente poderá dispensar tal etapa para se publicar com propósito, isto se dispensar o distanciamento de recurso de não escrever para ser lido. Mas, tendo-se o bloguista estabelecido com seu respectivo grau de notoriedade (logo, ultrapassada a mera lógica de retorno na produção do seu leitorado e apelo reticular), na lógica que esta política reitera, o seu reconhecimento continua, quando muito, recatado na coluna dos favorites do computador pessoal, se o acto inaugural da vassalagem não tiver sido performado. Ou seja, para lá da mera necessidade de alguém se dar a ser lido para ser conhecido, aqui a manifestação da afinidade é função dependente da reciprocidade, tal como o mecanismo de reconhecimento público opera não pela dádiva mas pela dívida: a dívida original de cada noviço para com os antepassados reinantes, que a não ser redimida pelo beija-mão iniciático, tornará qualquer manifestação autónoma de respeito cativa da disposição instituída do despeito. Coisa que, combinada com a ebriedade do poder, de primeira liga, de enunciação e entronização dos seguidores, passa para a paranóia de politburo (qualquer referência política é inteiramente gratuita, esclareça-se), em que a ausência de vassalagem primeira se interpreta como um acto consciente de dissidência e quase contestação da liderança bloguística no trono («rasura», é o termo). Escolhas que cada um faz, coisa com a qual, naturalmente, ninguém tem nada a ver, já que a indiferença aplicada nem é o controlo dos meios de violência do pedaço. Qual independência de espírito, qual juízo desempoeirado da apreciação desinteressada: qual lei científica da gravitação blogosférica, reitera-se, «não havendo reciprocidade, nada justifica o elo». Gravitação de um mundo onde a meritocracia (se quisermos usar a palavra...) desejavelmente concebível não fosse precisamente uma manifestação plural, descoincidente, de interesses e lógicas diversos, mas apenas a legitimação unitarista em segunda mão de um mecanismo estatutário primordial, centrado antes de mais em controlar a reprodução social de um status quo (ou se preferirem a imortal formulação dos clássicos: "és dos meus, és fixe").
Ora, compreenda-se, se isto fosse um arremesso de sociologia espontânea sobre a mecânica de notoriedade blogosférica, seria uma descrição provavelmente assaz certeira. Todavia, o que aqui se produz não é um juízo de facto, mas um juízo de valor. O que aqui se descreve não é uma inevitabilidade pragmática, mas uma proposição normativa, um avé a uma versão particularmente estratificada da realpolitik de um sistema de castas blogosférico. Tanto o é, que o momento auto-irónico do ano é o seu distanciamento da noção de blogues de primeira divisão: é fácil de ver que, não fosse todo este um raciocínio de primeira divisão, e a política do Da Literatura fosse enunciada para todo o bloguista seguir, se calcula que a "autoridade" de links que lhe será ora outorgada, certamente exponenciadíssima face ao número de links do seu blogroll, descambaria por aí abaixo - sendo ainda mais certo que o Da Literatura não tem culpa que os seus leitores-linkadores unidireccionais (como eu) sejam tansos, para mais quando até tem a ombridade de os alertar para o facto.
Portanto, mesmo com a inércia de não partir a cabeça lançando-me contra factos consumados, não é indiferente não deixar grafada a concepção de possibilidade de outros modos, para lá da circularidade anquilosante, de produzir discurso e reconhecimento reticulares neste meio (é democrático, e também ninguém tem nada com isso, a caixinha de areia dos inconsequentes); pelo que, da inestimável posição de nada ter a perder ou ganhar, deixo apenas registado que o Da Literatura e a política feudal que aqui abnegadamente simboliza e diligentemente reitera deixam, com cordata discordância, de estar na lista de comendações que pelas inefáveis diversas razões me calha assinalar, (des)reconhecimento notwithstanding, nesta promessa cada vez mais truncada de esfera pública.
Gesto, poderíeis argumentar, materialmente injusto considerando a amplitude não denodadamente assumida desta política pelo resto da blogosfera. É certo, mas a sua potência é aqui meramente simbólica, na face de uma oportunidade enunciativa cuja lógica, e não cujo autor que por tal se não vê molestado, é visada. Nada obstará mesmo a que possa reincidir na sua leitura episódica no mesmo recanto ensombrado de um cibercafé remoto, para não deixar vestígios cibernéticos, em que o Da Literatura consultará (ou não) os seus notáveis não-linkados; essoutra, quem sabe mais límpida, forma de recomendação (abrutpus dixit ad exhaustiore(?)). Felizmente, nada há que temer na Bastilha (o mundo real é tão reassuring): hoje somos apenas um, mas amanhã continuaremos a sê-lo.

Sexta-feira, 7 de Março de 2008

E vão bardamerda os senhores da Spark ao serviço da EMEL que me multam logo que passam 5 (ou 10) (ou 15) minutos do tempo do parquímetro

É já fastidioso acompanhar a blogosfera quando descamba nas suas derivas histéricas em resposta à quase sempre explosiva associação da pobreza socio-semântica do meio com a tentativa de o dignificar discursivamente, explorando nos meandros da sua formatação algo mais que a auto-transparente delicodoçura com declaração de interesses apensa e enfeitada de smilies para cintilar no manto do céu epistolar a estrela pindérica das nossas inquestionáveis boas intenções (quase tão fastidioso como a fixação, não menos rígida, de cartilhas de dissensão discursiva ao suposto politicamente correcto).
É por isso de ressalvar sempre uma iniciativa capaz de louvar a produção de discurso enquanto petardo cultural de desarranjo das várias grelhas de objectificação das "evidências" do real, em particular das suas encarnações sociais em torno de grupos ou categorias classificatórias (trata-se, portanto, de algo mais complexo que o politicamente correcto e incorrecto dos provocadores de plantão).
Não é nada menos que isso que diviso numa das recentes (enfim, trabalho em temporalidades proto-geológicas, é sabido) edições do catálogo de ecletismo sonoro, sempre a testar os limites da sua agregação nuclear, que passa pelo (eter): a lenda punk do Pinhal Novo, os Comme Restus. É que, para além da valorização de um formato inclinado, por excelência, para a ruptura com os consensos sociais de discursividade assisada (e muito mais com os consensos, que com os objectos dos consensos (o que os torna discursivamente muito mais à frente)), e mesmo desconsiderando o mérito musical da amostra em questão (o momento free-jazz, com o Ayler em guest-starring (grande e secreto furo internacional), de «Eu xamome Ãtónio», sendo a instância mais eloquente desse facto), aquilo que torna esta divulgação um acto blogosférico exemplar é o facto de, não fôra o divulgador ter a louvável capacidade de distinção entre os objectos de um discurso e os efeitos simbólicos desse discurso (ou seja, ser capaz de operar ao nível do meta-discurso punk), o mesmo teria todas as razões para repudiar a produção desta pandilha como incorporando a incitação ao ódio de uma minoria social à qual ele pertence (como saberá quem tenha acompanhado as digressões sónicas e velocipédicas do cj), na superficialmente infame «Morte aos ciquelistas» (veja-se como, logo pela escolha do objecto de ódio, se descontrói, por efeito de diversificação subjectiva, a tão deprimente e soporífera, de paupérrima, cartilha de desprezo social naturalista que vai mexendo letargicamente, também, a blogosfera (paneleiro pra cá, preto pra lá, e um cigano (não se arranjou nada mais aqui?), ou um judoca (that's not gonna work...) ao longe, if we're bored or Arroja's in town), assim demolindo o menu sensaborão que a história nos legou, a facilidade pavloviana de sinalização do ódio pela veia essencialista, a carga dramática que apenas três ou quatro válvulas de escape social inevitavelmente concentram na nossa arrevesada canalização de maus instintos, e os vícios e iniquidades retóricas de base de serem sempre e apenas os mesmos a serem objecto à vez da sobre-protecção e da contestação do politicamente correcto pelos discursos situados de quem não tem his ass on the line nesse enjeu, assim capacitando-nos para irmanadamente nos reconhecermos pluralmente odientos e odiados e daí retirar as devidas consequências).
É, portanto, por esse exemplo de auto-retracção identitária ao pouco construtivo automatismo de ler um discurso questionante das estruturas semânticas com a mesma grelha automática com que se (não) encaixa um ataque socio-pessoal, que não posso deixar de me associar a esta iniciativa exemplar. E não pensem que o faço gratuitamente, com a descontracção de quem não está implicado na parada. Precisamente, declino exemplarmente o exemplo, sabendo bem que já visado na quinta faixa me encontro eu.

(devo ressalvar que, desta feita, numa provocação muito improfícua, apenas frustrante (como já terá percebido quem seguiu o link prévio e, inevitavelmente, precipitou atabalhoadamente o cursor para o botão "comprar"), ao contrário do anunciado, a obra dos Comme Restus não se encontra disponível no link providenciado. A editora Sandes de Choco (sic, e muito bem) não quererá a considerar uma reedição em digipack de luxo? - já se justificava, caramba. Quanto mais não seja, falos daqueles já escasseiam na montra pedagógica da nossa arte urbana: há que revivificar a sexual awareness da juventude portuguesa - com a propedêutica serôdia dos Morangos com Açúcar, a tornar a crica e o cacete manípulos para realizar TPC's, o presidente da república vai ter muito mais anos para demandar como fazer os portugueses ter mais filhos*)
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*informam-me que nos Morangos já se fode. Lamento, mas não abdico. Esta line deu-me trabalho, suei por ela, e não a descartarei como um reservatório de amor desperdiçado. Sue me. Esse é, aliás, o processo por difamação pelo qual gostaria de ser levado à barra do tribunal.

I say... too much, and not enough

É já evidente que, por baixo deste meu exterior rude, monástico, empedernido, estóico e distanciado (grunho, diríeis), bem como do saiote que o adorna, eu me melo todo quando um desses mecanismos instituídos de reconhecimento social blogosférico derrama a sua magnanimidade sobre o meu cucuruto adepto faz de conta que não de todo o baptismo que o redima do seu exílio indeciso de toda a agremiação humana; quase tanto quanto me amofino à sua vista com a carga de trabalhos com que a atenciosidade me sevicia a natural inércia desconjuntada. Porém, para lá de todo esse imbróglio existencial, esta gentil intimação a inscrever-me no mundo dos vivos, por via da enunciação das minhas 12 palavras favoritas, causa-me sarilhos incontornáveis. Palavras, são nomes de coisas e noções que gente com capacidade expressiva balizada pelo acúmulo sagaz de valências linguísticas civilizacionalmente dispostas emprega com a justeza e imaginação que o domínio criativo de um património comum pode exponenciar à reconversão de toda a paisagem e infinitude de arquitecturas de ser que nos foi dado não poder abarcar numa vida inteira: logo, uma criatividade metafisicamente fútil, mas mais que adequada à distensão de world-views de seres forçados ou acondicinados aos limites existencio-territoriais que lhes desenharam as regras de um mapa-mundi (no meu, madagáscar está neste momento soterrado sob um 1/3 de batata frita). Qual é então o meu problema? É que eu não digo palavras, eu digo dispositivos linguísticos de nomeação; como não digo trela, digo fio de cão. A minha memória está em decadência a uma velocidade cada vez mais alarmante desde que entrei na idade adulta, e o gajo que me assoma em suferfícies espelhadas, e mais ninguém, sabe que já lá vai por demais o tempo. O meu vocabulário a cada momento é o que consta dos textos (e por textos entenda-se legendas de sitcoms) que li nesse dia, e será substituído pelos textos do dia seguinte. Por conseguinte, é com esse diminuto vocabulário em constante substituição que eu tenho de tentar organizar formas expressivas que restituam o sentido comunicacional que o comum dos mortais apreende num só vocábulo, empilhando assistematicamente palavras (como vocês dizem) sobre palavras na vaga esperança de conseguir competir com o potencial descritivo de uma fotografia realizando um retrato-robô tendo tido sempre 3 à rasquinha a educação visual. Como tal, não por acaso, as únicas duas palavras de que posso hoje dizer que gosto mais (porque hoje as li e até me deitar, por enquanto, ainda as recordo), são palavras que amalgamam várias numa para construir o seu sentido, ou que combinam numa um sentido plural ou quase paroxístico: instrumentos reflexos do meu penar expressivo de cada dia. Assim ensimesmado; assim ledo. São palavras que, por diferentes metodologias, contêm praticamente frases inteiras dentro. Ensimesmado, na elegância enternecedora da sua auto-descritividade desarmada, é de uma beleza tão franca e rendida à inteligibilidade que é quase um ideograma (e o meu eufemismo de eleição para masturbação). Ledo (apesar de o Camões a ter galderizado um bocado) é um daqueles pequenos prodígios expressivos de concisão, que em quatro letrinhas apenas contraria a pretensão racionalista (diferente de racional) de decretar a determinação conceptual dos sujeitos a significações inequívocas e unidireccionais, e mais que polissémica, é uma palavra quase paroxémica, capaz de sagrar em unicidade linguística a complexidade existencial de estados contraditórios. Melhor que isso, só a paralinguagem, com a qual realizo com estonteante eficácia 90% das minhas conversas com a pura omnipotência do fonema primal (hummm), espécie de reticências modulares. Imagino que o meu sonho seja que, ao pleno oposto da prática retórica que me molesta e viabiliza, um dia toda a interacção linguística pudesse ser fixada numa minimália de vocábulos singulares, cada frase concebível destilada numa palavra, cada conversa uma troca sequencial de vocábulos isolados. Aí, finalmente, com as minhas lacunas recorrentes, os meus esforços expressivos seriam estruturalmente indeferidos, e poderia legitimamente repousar imperturbado. Mas até lá, fear not, retorquo do fundo do meu dilecto ensimesmamento com toda a possível de rapar do tacho sensação invasiva e expansiva, sem manípulo de contenção, de exultação, que um aceno me confere ("alegria", if you must).

Nous n'avons jamais (pas) étés modernes

Como é, por razões a desconhecer, imperativo, já vou tarde, mas não tarde demais. Parecerá igualmente que o André Dias está a ficar com uma quota fixa no citation index do pedaço, mas garanto que não ando a trocar favores de natureza dúbia senão com todas as outras pessoas com quem ando a trocar favores de natureza dúbia. É que o cavalheiro, após ter reiterado, com o ciclo dedicado à dita Nova Escola de Berlim, a valência dramática da excisão da ostentação dramática, de que este excerto é a evocação mais eloquente, lançou mãos a novo empreendimento de programação, com sentido de oportunidade e dedo aprumados, apontando a um dos ainda e cada vez mais (há quanto tempo não digo que o tio Michel é o maior?) temas candentes do pensamento social contemporâneo (whatever) - a biopolítica. Intitula-se o ciclo "Figuras da Autópsia" e abriu ontem, na cinemateca, com o Primate do Wiseman. Estais bem a ver, certo? Um portento absolutamente impressionante (em todos os impressionantes sentidos) de trabalho sobre a matéria documental, de radical materialidade, capaz de lhe extrair pela razão expressiva uma lucidez conceptual de abstracção fulgurante (sim, isto não quer dizer nada, mas tenta).
Ao debruçar-se sobre os modos de organização da pesquisa de cientistas sobre primatas num centro de investigação, e os modos de relação estabelecidos entre esses dois corpos de agentes no processo da sua interrelação finalista, está-se veramente a fazer uma aproximação eloquentíssima aos modos socialmente consagrados de acesso à "verdade", integrando na factualidade nua da sua via metodológica todas as imponderações que foram socialmente externalizadas para os recintos privados da produção científica, ao mesmo tempo que externaliza da sua abordagem a produção de juízos morais explícitos sobre as processualidades documentadas.
Essa capacidade de resgatar limpidamente todo o agonismo subsumido no paroxismo na acção (humana) será, aliás, porventura a sua maior força. Porque, como efectivamente se reitera nas várias leituras do filme, se ao primeiro olhar, armado pelas grelhas espontâneas em que fomos socialmente criados, há um quadro dicotómico de agentes e possíveis cristalizações axiológicas em seu torno na narrativização estrutural deste processo, aquilo que se explicitará crescentemente é, de alguma forma, a organicidade indivisível de todos esses elementos sistémicos.
Numa estrutura relativamente cíclica, aquilo que vai sendo explicitado numa cadência impiedosa é um processo integrado de objectificação da vida em nome da produção de saber, da pesquisa comportamental à vivissecção, e essa é a primeira iluminação da película: o extremar de pólos sensíveis de relação com os símios entre as manifestações de afecto vivo no início e a dissolução metódica dos seus corpos no final, não demonstra de todo a sua oposição, mas faz discorrer a sua absoluta continuidade. Aquilo que isoladamente são apreensíveis como opostos morais, são neste espectro processual reconduzidos a diferentes etapas de um mesmo processo de objectificação, que pelo poder da sua institucionalização, foi incorporado pacificamente pelos seus actores humanos (muito curiosa, e sintomática para quem se familiarize com a literatura de etnografias de laboratório (de que isto é quase uma adaptação ao cinema... ('Hollywood' não pode ver nada...)), a emergência da expressão estética dos cientistas como primeira reacção ao visionamento microscópico das lamelas de secções de um cérebro após a vivisecção (ainda que aqui a continuidade fílmica reforce a associação dos dois momentos)).
A ironia do título "primata", recobre igualmente a elisão, dir-se-ia, quase latoureana, de qualquer pressuposto de diferenciação entre os primatas em presença, humanos e símios, na sua apreensão documental. Essa distanciação analítica de um dado base da consciência humana, o da sua especificidade (e superioridade) é, aliás, reiterado simbolicamente na captação dos corpos, com sequências, não óbvias mas suficientemente legíveis, de grandes planos dos rostos, quer dos cientistas (alguns, juraríamos que não inocentemente, com puros gestos semioticamente carregados, neste contexto, como a cofiar ou coçar a barba, ao que a política pilosa da época dava amplo terreno), quer dos símios, e captações de sofrimento animal (que nem são as mais "inteligivelmente" chocantes) que configuram perfeitas pietàs zoológicas em nome próprio.
Essa elisão do primado do humano nesta configuração social não é, aliás, mais que a manifestação mais provocante do paradoxo maior e mais genial deste verdadeiro método documental. É que, em larga medida, o que Wiseman faz é quase replicar sobre a documentarização de um processo de objectivação científica, um olhar objectivista (mas, etica e esteticamente, auto-consciente) sobre esse processo e os seus actores; e o poder que essa objectivização tem na transformação da legibilidade da acção de agentes humanos desprovidos de retórica justificativa no exercício de poder objectivista sobre agentes primatas desprovidos de qualquer expressidade legitimada (porque existe, apesar de tudo, um discurso inerente a toda a paralinguagem animal que é, pelos agentes humanos, inteiramente elidido pela incorporação destes objectos vivos numa finalidade absolutamente instrumental) é devastadora. E se, à superfície do olhar, tal pode transparecer como uma violência discursiva exercida sobre os cientistas ao replicar a violência (ainda que tida por neutra, ainda que tida por necessária) muda exercida sobre os símios, essa é uma consequência lógica (não "retórica", porque não propositivamente condenatória, como a inserção de vários fragmentos "auto-explicativos" da pesquisa ilustra, do mais detalhado ao mais carta branca (a "utilidade da inutilidade")) do isomorfismo ontológico que emerge do postulado de continuidade e indiferenciação na fixação da "evidência" documental. O único excerto sob a forma de explícito depoimento justificativo funciona, na verdade, como outra detonação irónica, na medida em que sugere a impotência desse discurso normalizado em poder substituir-se à legibilidade da lógica sistémica e processual que move e integra, numa espécie de igualitarismo radical, os agentes em presença: é nesse sentido, também, que se impõe a abstracção do processo de produção de saber como matéria fílmica, e não o juízo sobre os agentes em questão, ou sequer a sua actividade concreta.
Seria, de qualquer forma, insustentável (por definição) arguir da isenção de um ponto de vista na organização expressiva do material documental; é aliás nótoria, na sua própria ciclicidade e crescendo, uma descida dantesca pelos círculos vários de uma contínua objectivação daquelas formas de vida. Contudo, o facto é que esse ponto de vista, podendo parecer evidente (mas não o é para toda a gente e suas razões, e funcionará, idealmente, como ponto de partida para o restart consciente dos nossos raisonnements), não emerge de uma qualquer exploitation ou retórica moral, mas é, mais uma vez quase em lógica de experimento, o resultado experimental de uma aproximação metodológica a um campo do real, organizada expressivamente. E a sequência mais poderosa de explicitação dessa capacidade de recuperar a unicidade de contrários que estão subsumidos em todos os dados adquiridos que fizeram a "normalidade" deste processo instituído, a cuja visibilitação "indevida" somos atirados, está na sequência pós-vivissecção de um pequeno macaco, quando a sua cabeça decepada, com o cérebro exposto, é colocada num viço, e é alternadamente captada de cima, com a centralidade superior da razão científica focada inteiramente no cérebro, na secção objectivada que lhe fundamenta a acção, e depois num ângulo de baixo, onde ainda está exposto o facies como vestígio simbólico ineludível daquilo que há poucos minutos incorporava uma manifestação de vida.
Por estranho que possa parecer a quem visualize a imagem, isto não é manipulação emocional, mas é o confronto nu, e experimental, da nossa percepção, com campos ópticos/perceptivos que se convencionou manter separados. As consequências de adjudicação social do juízo produzidas pela sua unificação documental são, de alguma forma, a consequência experimental da exposição total da nossa sensibilidade e razão a essa unidade complexa de sentido. Sim, de alguma forma, quem assiste a este filme não é menos parte do seu experimento perceptivo, com o mesmo estatuto ontológico dos agentes que foram fixados no ecrã (com a violenta dissociação e recombinação complexa de reconhecimento com seres, biologica e socialmente, postulados como diferentes que isso implica), e isso faz dele uma experiência ética, política, estética e cognitiva que confere o mais potente sentido à expressão "dar a ver".
Porque são as implicações perceptivas da partição visual da especialização do saber e da prática modernas que são aqui desafiadas como pré-condições socialmente desonestas para a manutenção de modos de vida a expensas da consciência de todos subentendidos necessários à sua reprodução. Facto com o qual, politicamente, se pode querer activamente viver em paz: e serão provavelmente muito poucos os voluntaristas ou temerários capazes de teoricamente (muito provavelmente, o cadeidoscópio segmentado das práticas modernas tê-lo-á também já tornado virtualmente impossível) querer habitar essa plena apropriação consequente das implicações do seu modo de vida. Mas nesse sentido, nesta política da imagem, contra os hábitos inconscientes de selectividade (própria ou instituída) da (in)visibilidade do real, não podemos escapar à assumpção honesta e consequente de que, para aqui, só não olha quem não quer ver; e esse é apenas o primeiro passo para pensar, e não reagir - sendo a replicação behaviorista pelos espectadores de uma univocidade significante lida na película, o resultado experimental falhado deste tipo de método fílmico, que assim contém metodologicamente também a chave da sua própria invalidação.
Para os (depois disto, ainda) interessados, o curto ciclo ainda decorre na Cinemateca, incluindo o monumental (é que não parece haver outro adjectivo) Shoah, este sábado, e incorpora também um ciclo de conferências na Culturgest, de que ainda restam uma ou outra sessão.

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Spam worth getting - readers worth alienating - to end all dick-posts (fat (there we go...) chance)

Todo o internauta queixando-se, desde o século passado, de ter caixas de e-mail entupidas de spam para "enlarge your penis", e eu nem uma mensagem dessas para amostra havia jamais recebido (obviamente os respectivos departamentos de pesquisa de mercado estavam a funcionar impecavelmente). Até que, de há umas semanas para cá, uma enxurrada de mensagens começou a jorrar na minha direcção até à incredulidade organicista. Deixemos para lá quem foi que se descoseu relativamente à minha prótese equídea para uso de balneário (ou foi ela que se descoseu? (stop it)). O que gostaria de assinalar é que, pela amostra, a dignidade de um bom departamento criativo começou finalmente a dedicar-se à causa: assim o vexame de pedir uma amostra grátis (pela manifesta comodificação da morfologia genital (óbvia carência constitucional para uma vera democracia sexual, estádio de problematização da igualdade vergonhosamente ausente do discurso dos diz que politólogos da praça), não duvido que seja uma opção mercantil instituída) dá gosto; para além de que arou um campo de pujante fertilidade para a apreensão das representações mais incisivas da basculante masculinidade contemporânea. Sem mais delongas, o meu folhetim dos últimos tempos:

- blow your lady away with the largest d1ck she has seen in her life (gosto imenso do emprego do primeiro verbo, não só a metonimizar a volumetria como proporcionando uma extensão qualititativa, tipo bacamarte multi-funções agora com bolas e canhão de recarga automática, como a reiterar a metáfora bélica do universo das relações entre os dois sexos, verbalizando quem, dotado de engenho explosivo, será o imediato vencedor - e não me digam que eles não tinham já tudo isto in mind)

- carry yourself with confidence with your new huge schl0ng (nota + para o multiculturalismo fálico)

- you will leave the women begging for more once you reap the benefits of a larger d1ck (mais uma vez, um verbo e um plural inscrevem imediatamente, apenas a uns poucos (ok, não sou o exemplo mais acertado) centímetros de distância, a restauração da plena dominância masculina sobre essa (we knew it) não mais que aubergine©-yogurt-flinger-starved population - sublinhe-se a ameaça subliminar (ISTO é marketing agressivo) de que todos os weenies não serão, logicamente, senão traidores à causa e, a menos que tomem as aconselhadas medidas, candidatos a uma limpeza darwinista activa)

- click here for a all-new growth experience (óbvia desautorização disciplinar do correlato também já popularizado do growth psicológico, como patética metaforização compensatória satélite do verdadeiro "crescimento")

- want rock hard erections? (substantiva apreensão holística de que a métrica sem uma boa sinergia orgânica pode ser o último dos problemas de certos penis-holders)

- leave her speechless with your new legendary c0ck ('cause just printin' THIS legend will never hold - note-se também a extraordinária subtileza de, jogando casualmente com metáforas populares, sugerir, de forma evidente a quem sabe o que sofre, o 2 em 1 mais gratificante e eficaz de fechar a matraca à respectiva)

- she won't be able to keep her mouth off you when you get this (need I say more?)

- let your partner feel more of you, get your new huge dck here (louvável o abraço todo-inclusivo de orientação sexual ou opção relacional pós-matrimonialista (ainda que com o travo da fidelidade monogâmica - não nos podemos libertar de tudo de uma vezada) desta formulação - mais uma medalha emancipatória para o esforço capitalista)

- you and your partner will have many magical moments with this (di(l)do)

- those who doubted you before will marvel at you now (sim, esta é para vocês, gozões - agora não levam com nem um centímetro)

- tired of losing your erect1on halfway, or having a small weener? Change it today (por acaso sempre achei que, resquício de justiça poética, as duas aflições eram antitéticas... não podem, pelo menos nesta, back me up a bit?)

- bored of having same, tiring sex every night? spice up your life, add inches to your d1ck and increase her pleasure (assinale-se a preocupação em cobrir as lógicas de recurso à extensão com todas as motivações/legitimações possíveis, interpelando todas as nuances da frustração. Por exemplo, só a magnanimidade desta fórmula me fez perceber o egoísmo grotesco de andar no mercado sexual com laughable goods, impondo um cativeiro ignóbil a essa gente que ainda se agarra ao que quase nada tem para agarrar, com fantasias emocionais de amor romântico)

- keep your girlfriend by your side when you have this (mais uma vez, uma eye(not that one; especially not now)-opening elucidação da natureza do amor. Quem disse que o amor não é quantificável? Um cientista social diminuto, sem dúvida)

- women love a man with a huge c0ck and spades of confidence (provavelmente a correlação estatística mais inabalável à espera (que eu saiba, embora duvide) de validação psico-biologista)

- don't let hot women laugh at your small tool, because you can change it today (how do they KNOW these things?!...)

- those locker room stares will be for the right reason (come on, jiggle it a little... you know you wanna...)

-wnat the women to crave for you? Make sure you have a hot, large rod in your pants (sagaz promessa de elisão das cansativas estações do processo social de atracção mútua que, respeito pelos direitos e digestão humanos considered, se tem de alimentar até ao lançar do infalível anzol (ou deveria passar-se a andar com ele permanentemente de fora? - bem vistas as coisas (desta feita, essas, sim), facilitava o processo de selecção, tornava redundantes os esforços de ludibriação afectiva (but I'm such a nice guy!... pff), e satisfazia a teleologia morfológica de primeira legitimação do aparelho))

- imagine being able to put on inches PERMANANTELY, SAFELY AND QUICKLY (o direccionamento conceptual às dinâmicas de apelo e incerteza na relação com as instáveis potencialidades da transformação corporal numa sociedade de risco: notável, e indicador pertinente da voluminosa penetração social das problemáticas dos Science & Technology Studies (oh, they have a sizeable knob too))

- i used to have a tiny c0ck and it was embarrasing, now i'm huge and loving it (a comoção do discurso confessional e directo à comunidade de sofredores com uma mensagem de esperança, comunidade essa instaurada desde logo na recorrente totalização ontológica linguística do membro, neste caso, até da adjectivação do membro da pessoa (um reducionismo associativo de terceiro grau!; veja-se bem how huge "I" am) - movimento linguístico exponenciado, à imagem do seu produto, pela pressão para a criatividade que, tal qual produção artística em contexto de ditadura, é induzida pela vil censura dos filtros de spam ou assim a falos-chave (estão-me a acompanhar, repararam nos nºs a substituir letras nos nominalismos penianos, certo?) à bem-aventurada promoção dos schl0ngs everywhere. Em busca de uma causa meritória para apoiar? Look no further)

- fire your gun at full blast (dada a minha não receptividade ao fito comercial da sua empresa (digo eu), entraram agora os meus bobos pessoais numa fase de crescente minimalismo retórico, a alimentar o mistério na plenipotência da metáfora, elidindo cada vez mais a deselegância do referente directo (na verdade, aquela plenipotência de um subtexto fálico tornado matriz de descodificação linguística absoluto de qualquer enunciado começou literalmente a diluir-me todas as fronteiras linguísticas de diferenciação atómica dos objectos do real, que agora me aparece subsumido numa única, massiva e intrusiva glande - não me vão dizer que os gajos do mail com o título "perfectly crafted rolex" me estão mesmo a querer vender, tipo, um relógio, não?). Infelizmente, se a reafirmação prosódica das metáforas primordiais, o reducionismo e elisão dos sujeitos aos predicados na omnipotência da associação semântica mangálhica, e sua reiteração concomitante dos subtextos taxonómicos de classificação humana tendo como único critério operativo a sua relação com o little (só na aparência métrica) man, parecem imparáveis de entretenimento, por espantoso que pareça, e é, já estou cansado, por isso, deixo-vos o work in progress para que o vosso anedotário anatómico induzido possa ter uma conversa séria convosco, falar-vos dos seus anseios, e informar-vos das decisões que tereis que tomar para assegurar a vossa felicidade conjunta, sem dissensões corporais, sempre desagradáveis numa equipa tão unida, ainda que, e não dais conta por que andais iludidos com o vosso palminho de cara, a triste verdade seja que está sempre tudo hanging by a thread - oh yes, diz o zétolas, a teodiceia c'est moi)

- your throbbing missile is ready to fire

- Bam. A rocking baller cock in your pants

- great bedroom stories start with this

- enhance your reputation with this

- pick up a chick anytime with this (uma nota para a desumanização crescente em que a inicial autonomização ontológica do bichano começa a desembocar, tornando-o um atributo técnico - se o virgolino (hey, you have your pet-names, I have mine...) passa a ser substituído instrumentalmente por um mero pronome demonstrativo impessoal, suspeito que isto ainda pode acabar mal...)

(aproveitando a desproporcionalidade compensatória (claramente, outra correlação falocêntrica à espera do seu estatístico de serviço: diz-me o tamanho dos teus posts e dir-te-ei...), gostaria de aproveitar a ocasião para esclarecer que, apesar da minha invulgar open-mindedness teórica (na prática, só concebo fazê-lo como é suposto fazerem judeus hassídicos, por um buraco num lençol (hey, blame Larry David)) que não hesita em acoitar quem incessantemente vem cá buscar refúgio pelas suas preferências por vídeos gratuitos de coroas transando ou variações disto, também eu tenho limites, e ter-me descoberto buscado activamente como quinto no ranking disto is freaking me out. Embora registe a sensatez electrotécnica no emprego do fio-terra, em nome da saúde pública devo deixar claro que este bl(og)ue reprova quaisquer práticas que envolvam atarracharem-se a uma ficha tripla - incapacitar clínicos nas urgências por incredulidade não pode favorecer os esforços de produtividade na saúde)

(há meia-hora que o Blogger me estava sistematicamente a publicar este texto apagando toda a secção produzida a partir deste último e, é certo que, perturbante link, e só a partir dele, ele incluidíssimo, o que me parece evidentemente ainda mais perturbante. Não sei bem qual a explicação para o fenómeno, mas sendo a conspiração censória a resposta mais plausível para qualquer perplexidade blogosférica, há que tomar medidas preventivas; portanto, se a partir daqui alguma coisa der merda ou produzir transformações cataclísmicas neste espaço, encaminhem esta informação para o Oliver Stone s'il vous plaît)

(não estou inteiramente pacificado quanto às veras intenções do internauta do fio-terra, mas, para o meu leitor mais sensível, ofereço a reconfortante informação de que "fio terra" aparenta ser uma expressão brasileira para designar uma das tácticas cunhadas para o iluminismo da fruição plena do potencial erógeno do corpo masculino para lá da territorialização da orientação sexual. Os interessados poderão facilmente informar-se do facto, como eu acabei de fazer. Eu fico por aqui, que hoje já tive iluminismo suficiente para me destrambelhar o ritmo sinusoidal por um mês)

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Des histoires d'amour à moi

- quelle heure est-il?
- assez tôt.
- je veux dire, que faites-vous chez moi? Qui êtes-vous; comment êtes-vous entrée?
- ça fait beaucoup de questions, Julien.
- vous connaissez mon nom?
- hmm: Julien. Moi, c'est Marie.
- Marie...
- Marie, celle que tu aimais.
- ça m'étonnerait mademoiselle... Vous n'êtes pas du tout mon genre.
- c'est ce que vous croyez... Laissez-moi un peux de temps...

Le secret derrière le secret (re)commence
Amanhã à Barata Salgueiro, Careful With That Axe, Eugene...
.
(terão que perdoar o excesso semiótico das frames, cortesia da tv portuguesa;
mas este é um blog lumpencinéfilo, no fim de contas)
.
(a despropósito, se a malta (vocês sabem quem são (ou era bom que soubessem, 'cause I sure don't)) estiver a planear um carpooling para ir ver os Pere Ubu à Casa da Música no sábado, e já tiverem outgrown a achar piada a deixar-me pendurado na estação de serviço de Aveiras, não se esqueçam de mim, valeu?)

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Let's fake I could make an add

Enquanto não blogue de cinema (eles andem aí), mas afim (aliás, o meu estado natural, afim de tudo sem ir ao fim de nada), fingindo que isto não é um meio entrópico e há gente desse lado a ler-me (pausa incómoda) que não receberia esta informação por outras vias mais directas (prossigamos), sendo eu um gajo extremamente afagável e sensível ao patrocinato, não tendo conhecimento de causa para vos pastorear ao redil com argumentos autónomos, mas tratando-se de uma iniciativa programada pelo André Dias (e bem me parecia que havia gente nesta ciranda a fazer mais que fingir adiar a vida) o que, no mínimo, lhe concede contornos instigantes mesmo às escuras, e sobre manifestação cinéfila a brotar (arrisque-se o desafio de se ser conscientemente contemporâneo de vez em quando), não digais agora pelo absentismo que não estáveis informados da passagem pelo S. Jorge de ciclo de cinema dedicado à dita Nova Escola de Berlim, de uh amanhã (31 de Janeiro, pronto) a 6 de Fevereiro (estranhamente, para lá da ausência de solidariedades de classe pelo evento - dir-se-ia que a consciência e seu exercício de classe blogosférica, ironicamente, não passam pelo seu proletariado estatutário, que não simbólico - a informação mais imediatista (esqueçamos os trepidantes plot resumés da prache) do programa deve ser esta daqui).

Claro que os penados do meu purgatório não desconhecem os meus mais imediatos motivos para o incitamento: tenho o S. Jorge como o espaço cultural mais deprimente de Lisboa, e como tenciono passar por lá estes dias (poderiam portanto brincar ao "quem é o diz que blogger", o meu passatempo de frenologia forense invertida favorito), preferia ter aquilo acolchoado de gente (quero-vos como às minhas almofadas, no fundo). Depois do último fiasco de público a que lá assisti, devo porfiar pela prevenção dos efeitos psicopatológicos daquele buraco negro às moscas. Se há algo mais deprimente do que um suicídio em massa, é um suicídio que ponha especialistas a debater num telejornal qual o limiar quantitativo para atribuir o galardão.
Oh pá, e se forem cinéfilos da minha confraria, acrescentem este pensamento: é capaz de haver gente nua (um dia explico).
(now IS there such a thing as bad advertising?...)

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Off to the (movie) show

Se os infindáveis folhetos sob o comportamento infra-civilizacional de gente mal-catalogada sem respeito pelas convenções sociais tácitas de se permanecer uma estadia numa sala de cinema (das estadias curtas, prosaicas e sentadas, bem entendido, não no sentido da ética borderline metafísica de rendição fantasmagórica ao passado projectado que lhe chama sua catacumba nostálgica, tipo Adeus Dragon Inn) , já são quase tão reiteradamente cansativos quanto aquela falta de maneiras (o que o torna o genre de post imediatamente ignorável que tem caído que nem ginjas à minha missão bloguística incógnita), é manifestamente porque não temos atentado suficientemente à subtileza simbólica de tais manifestações nem lemos suficientemente Edward T. Hall (no meu caso seria sempre um understatement, mas para sobrecompensar a banalidade temática temos que carregar no index citacional).
A democratização dessa prevaricação, até por dentro das portas do templo Cinemateca, também não ajudava ao discernimento do método comparativo, já que também aí, com a minha presunção missionária, infalível em admoestar prevaricadores com os meus já lendários esgares de reprovação a fazer murchar as bochechas dos meus alvos já que os seus olhos nunca se atrevem a acusar o embaraço petrificante veiculado pelas minhas pupilas de Medusa, não podia criar o distanciamento semiótico requerido.
Felizmente, o campo propício de mais uma sessão muda, mas esta (no bote Luís de Pina) cheia de gente (o que é invulgar, permitindo-me delegar as manifestações bananas de descontentamento, como os fungares muito diligentes, na vizinhança), criou finalmente, para mim, condições de legibilidade do encastramento e estruturação desses comportamentos aparentemente desviantes como formas de comentário simbólico sobre o que se desenrola na tela, e nesse capítulo, apesar da quase uniformidade dos meus campos de recolha de dados, devo dizer que o público da Cinemateca é um terreno etnográfico assinalável.
Indubitavelmente desaprovando as mansas primícias do slapstick sovietizado d'"A Rapariga da Caixa de Chapéus" do Barnet, apesar da sua manifesta eficácia e inventiva visual, as intervenções da audiência não funcionaram senão como um sistema de compensação (falha-me a metáfora mais gira de engenharia) da insuficiente satisfação das expectativas com que haviam entrado na sala, claramente mais interessadas pela precisão hipodérmica no manuseio desse código importado pelo cineasta, que pela prefiguração do seu idioma na idiossincrasia da sua iniciática apropriação de um estilo relativamente formatado.
Ao invés da banalidade dos comentários exasperados, típicos de um espectador ("oh, duh, is this supposed to be funny, duh"), o "espectador" da Cinemateca já está para lá dessa passividade frustrada, e imediatamente pensa e reage como um cineasta. Vai daí, começa a desenrolar-se colectivamente pela audiência uma sequência, certamente irregular, mas esforçada, de motricidade cómica aplicada, iniciada inevitavelmente pela camerata de telemóveis, um clássico francamente pedestre certamente arrastado por neófitos (que eu tentei, debalde, enriquecer contrapontisticamente com a circulação ruidosa de fluido pelas cavidades sinusoidais ou assim - a minha, até hoje inconsciente, indolente secção das orquestras de protesto - apesar de no caso em apreço estar bastante contentado), e a composição também ainda juvenil de jogos de sombra na tela por espectadores a chegarem atrasados (com os estafados sacos de plástico danados para a brincadeira) e a forçarem filas inteiras a erguer-se para lhes dar passagem, mas seguidos por um curioso sketch (sem chegar a gag) de um casal, com a esposa sentada a ver o filme, e o marido entrando de rompante, medindo o filme de alto a baixo e sentenciando "este não é o filme!", trocando mais 30 segundos de recados desinibidos com a respectiva e voltando a mirar a tela a ver se lhe topava um indício de escárnio por lhe ter trocado as voltas ao que teria de lhe ir às fuças, e voltando a desaparecer intempestivamente porta fora, para 5 minutos mais tarde o bom camarada que pica os bilhetes, ao deixar entrar mais uns retardados, se dirigir directamente (isto está tudo bem pensado) à senhora que ainda lá permanecia encalhada dizendo "parece que o seu marido está a chamá-la", a qual, resignada com o fim da sua guest-appearance, trota para fora da sala.
Contudo, mesmo com esta sofisticação interactiva com a matéria fílmica, é manifesto que o domínio ou a consistência do idioma cinemático deste público apresenta inconsistências ou divergências estéticas, já que entusiasmado com o despique das peripécias, alguém não resistiu a saltar etapas e coroar este crescendo desengaiolando uma canora e arrastada bufa, a que toda a demais gente, quase que já em condições de reapreciar um bom humor escatológico tão longe dele se votaram but (hélas) not yet, votou um desaprovador silêncio. Felizmente, por essa altura, Barnet já tinha decidido aumentar o gás da paródia e a risota reconciliou-se com a projecção sem necessidade de mais ad libs.
Podem arremessar os mais acintosos comentários aos consensos mortos da cinefilia hard-core, que não será na tela que já viu estas manifestações exuberantes de dissensão que eles irão colar. Mas um dia, se me passarem atavismos devastadores para a minha sanidade envolvendo ruídos de manjedoura, prometo que vou assistir a uma sessão no Colombo ou assim para tirar teimas.

P.S.-Ontem, no Nimas, dois cavalheiros engravatados e com idade para ter juízo à frente de quem me sentei (can I pick 'hem or can I pick 'hem?), após sonora comoção com a tarefa imperiosa de desligarem os telemóveis, passam o filme inteiro a dar emprego à matraca ("ah, agora é a Mahalia Jackson", profere entusiasmado um, apenas para manifestar o quanto o considera um momento privilegiado para lhe dar acompanhamento comentarístico): claro enunciado pós-macluhaniano de que a massage (e bem estive para lhes amassar o lombo, se não fossem dois e se não bastasse meio) já não carece do medium. Fiquemos atentos, que estes também prometem.

Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

Oh meus amigos, tereis que ter paciência, é que nem se dá o caso de ter ouvido mais que mão-cheia de

discos deste ano, mas se o tio Wyatt até se deu à maçada de editar qualquer coisinha para nos poupar de continuarmos a reiterar a senhores a oferecer-nos camisas-de-forças que o Cuckooland ainda era o melhor disco de 2007 com recurso a uma dissertação construtivista da calendarização ocidental ou uma teoria física relativista do tempo com a palavra quântica lá pelo meio (shoulda spent more time in wikipedia for this one...), com franqueza, parece-me um pouco, digamos, deselegante andarmos aqui a brincar aos tópes

É que, vamos lá, nem é que alguns de vós não tenhais excelentos trunfos no bolso, eu reconheço. Mas por uma mera questão de cortesia para com quem é desconfortavelmente confrontado com a contemporaneidade com um disco do Wyatt, devíamos deixar as outras coisas estou certo que muito louváveis (e várias amostras dizem-me mesmo que sim) que nesta arbitrária grelha temporal saíram, para o melhor do ano que nos dizem ser 2008 (but we don't buy that, do we?), com a suprema vantagem de por essa altura a pobre indústria aproximar os preços um cochinho mais de 1500% do custo de produção e eu poder de facto ouvi-los com um pouquinho de dignidade. E nem é que o disco seja necessariamente uma obra-prima, mas só porque o homem tem a óbvia superioridade e generosidade de estar acima dessas secreções teleológicas e conceptuais (senão nem se podia entregar jocosamente à not so private joke de tocar uma cançãozinha do Eno à guitarra acústica (ah pois), nem brincar com os amigos às orquestras de gamelão). De resto, mesmo sem desconstruir essa coisa das primas, tem logo a abrir a melhor cover do ano (humildade mais profícua não há), a melhor canção de amor de cândido despudor, a melhor canção panfletária, e a melhor canção utopista do ano. Não vejo propriamente que mais se pode pedir. Portanto, escusais de me estar a desconsiderar com a tarjeta de mecanicista estatutário.

Dá-se, aliás, o facto de o resto dos poucos discos de gente com estatuto prévio (com as devidas décalages gigantescas entre eles, mas enfim) que ouvi não me justificarem o incensar público. O disco dos Radiohead é um tremendo tour de force cultural (em sentido amplo), mas é ao pôr toda a gente a falar da sua estratégia comercial em lugar da raquítica colheita que apresenta, sem sequer terem tido necessidade de recorrer à frase de escape que tinham muito bem dobradinha na carteira pronta a sacar à polícia de costumes "de que é que estavam à espera para música à borla?". Nem é que já nem mostrem resquícios do savoir-faire maníaco desse portento que ainda era o Hail to the Thief, mas a maior parte da matéria-prima é que nem justifica a precisão do escopro (para irmos ao mais longe, "House of cards" é uma pastelice rasa que não esperaria ouvir num disco dos Radiohead depois de 97).

O meu avatar Black Francis achou por bem ressuscitar a sua nominalística sagrada, e mais valia ter estado quietinho, que sob a profana designação Frank Black muito satisfeito eu deglutia a parte (cada vez mais escassa, é certo, mas) de genial menoridade do seu cancioneiro a solo, mas com este sacrilégio de invocar o seu próprio nome em vão (esta mania de os deuses se crerem senhores de si), dá finalmente razão ao epíteto sardónico do Prindle de o bom do Black ser a chubier, dorkier Pixies. Não é que eu não possa vir ao volante a afocinhar numas quantas traseiras automóveis por estar a esgroviar a guedelha ao som do disco. Mas é mesmo só porque I'm weak that way (sempre com a consciência de que posso vir a negar tudo isto).

E embora pareça mal neste seguimento, até os Interpol, que haviam na estreia cometido o prodígio de me titilar as cordas revivalistas, até então e após perfeitamente entorpecidas ao ai Jesus dessa chavalada toda a redescobrir o frisson de uma Fender, e cujo segundo oferecimento ainda era metade muito aceitável, à terceira tentativa produziram uma perfeita estopada, de gravitas de fancaria monocórdica e balofa. A seguir por aqui, mais dois discos e transformam-se nos Keane (se os Keane forem quem eu estou a pensar ter passado por dois segundos num clip na Sic Radical).

Ah não, por acaso agora me lembro para me fazer festinhas à marretada, que, precisamente após um esforço apenas estritamente meio degustável (e logo este após uma obra-primíssima), o meu casal dilecto de mórmons, só eles a me fazerem sentir culpado por fugir dos seus supostos correlegionários em proselitismo de rua, que teve aliás a imensa bondade de vir tocar para mim ao Santiago Alquimista, lançou também este dito ano um bem estimável e bravo disco (ninguém ligou, alimárias), a relembrar que a fazer girar o mundo está não só o vento a soprar nos cabelos da Gena Rowlands, mas a ascensão tremeluzente do vibrato da Mimi (a afagar a angst descalibrada do Alan, não esqueçamos).
E olhem, porque é ano novo, mais vos digo que tanto não me ofereço ao automatismo estatutário e à servidão calendarizada (suck on this, Gregorian) que, verdade seja dita, o homem que mais desamparadamente amei este (dizem que) ano, até ao paroxismo carnal (silenciado da monodia melancólica há 34 anos, e subtraído aos passos deste mundo há 8 anos, ainda se me dá um aperto no coração quando penso nisso), foi o sujeito jeitoso ali de baixo, da rugosa doçura mal-escanhoada que já não há. Se um dia desemperrar as 15 páginas seríssimas e compungidas a clamar pelo mais amável maverick do songwriting americano talvez diga mais qualquer coisa para os unchosen-ones, que não vêem logo ali um irmão e deixam cair quando muito um indiferente "quem é aquele gajo?", que entretanto não quero gente para aí a profaná-lo bafejando uns dignos de pecado mortal "ah sim, isto até é giro" e tal, com a voracidade indiferente do short-attention span. É como digo: isto da internet quase só vos faz mal. Valha-vos eu.

Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Bom ano para mim

Para quem propugna que a invisibilidade social se conquista, tendo tido o invejável sucesso de apenas ser submetido a um telefonema de aniversário este ano, a coisa poderia soar a uma profecia que se cumpre a si mesma (e que benemeritamente me poupa no saldo de respostas no telemóvel). Mas não é bem isso. Eu bem recebi duas ou três mensagens de bom ano. Mas, intrigantemente, nenhuma das pessoas com quem falei ao telefone nos últimos dias, com conversas de passagem de ano inevitavelmente ao barulho, me desejaram bom ano (nem eu tomei a iniciativa, claro está ó supremo pilar da reactividade). Poderia uma perspectiva confessional descortinar aí a remissão dos votos de bom Ano Novo, por homologia descabelada com a luta contra a dessacralização das festas religiosas, para uma esfera de enunciação privada aos fiéis da causa, à communitas (neste caso profano, naturalmente, communitas de bacantes versus misantropos desmancha-prazeres). Como poderia defender a elisão do ano novo como ocasião de desgoverno hedonista, a exponenciar na proximidade do desfrute uma lamentável descaracterização de uma presumível pureza cultural natalícia. Por uma vez, tenho que dar um passo atrás hermenêutico. Dado o centro de gravitação da amostra (euuuu), só posso imaginar que, nesta altura do campeonato, a estes interlocutores tenha já parecido francamente escusado desperdiçar aí um desejo, o que abre a hipótese de este poder ser um campo discursivo propício a um fascinante exercício prático de waste management da boa-vontade de cartão (o que nada tem a ver com nos querermos bem). E agora venham cá dizer que as pessoas não aprendem nada com a história.

Behold and AWE at the spawning of new language from the depths of the loins of my liquid plejades


(gostaria de frisar que isto foi escrito sob coerção directa e ameaça de terríveis represálias caso me furte a lubrificada vangloriação por sabe Deus que não se consegue arranjar melhor (e a secreta esperança de o Hilton ter uma percentagem no testamento para o povo empenhada na promoção do wordplay liceal). Refém contrariado em causa própria (história da minha chama-lhe sobrevivência até aos nossos dias), a declinação ciclópica (e potencialmente desagradável à visualização) da proeza inigualável com que unto lascivamente as meninges, sob a autoridade cósmica de uns Tangerine Dream (nem Roma se fez do nada), é inteiramente da responsabilidade de Yesterday Man. A Yesterday Man o que é de César. Avé nós (una limosna por el amor de Dios))

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Na outra margem, por sobre a calçada portuguesa (faking nagging Vasco Barreto #54)

Parece relativamente evidente que a geografia foi modificada, e a Margem Sul é, no presente, bloguisticamente, um dos mais trendy place to be (ainda que o mercado imobiliário esteja estranhamente um pouco lento a cavalgar a onda migratória de luxo oratório) (Coimbra sendo já um clássico, prestando-se mais a distracções nos mapas turísticos da cena). Mas na ausência (yet) de uma consciência universal do facto, convém refrear as sequelas mundividentes da exuberância cosmopolita a sul do Tejo para a (im)precisão geográfica com que se olhe para o resto desconsiderável do mundo. Sem contestar o ditame vidaliano e o aconchego anímico de postular que a transumância é literariamente produtiva, temos também que reconhecer que mudar de código postal não é exactamente o mesmo que chegar à nova morada a torcer a roupa após cruzar um oceano. E para a restante blogosfera interessada, sem a compassividade de um aforismo goreano à mão para a ocasião, confesso que me espantou o silêncio aparentemente sem apreensão por il ritorno di Vasco Barreto in patria.
A menos que fosse um pacto do não-dito para não materializar a ameaça fantasma, eu por mim confesso que muito temi pelos efeitos baqueantes (de baque, está bem?) da deslocação. Ainda (e porque) mantivesse em Nova Iorque Portugal no coração e na pena (miauu), a buffer zone atlântica de alguma forma parecia nutrir uma não-chega-a-ser-paradoxal omnipresença planante e distanciada sobre as guinadas fenomenológicas aqui do quintal, enquanto lhe evitava o fascínio cabotino com o happening cosmopolita (começo a odiar a palavra) quotidiano das esquinas das avenidas. O descompromisso engajado perfeito, no fundo (o que levava a que nem fosse essa a necessária centralidade do seu opus in progress).
Naufragado agora cá na terra, como não temer que se visse incapacitado, como pelo amor de mãe sufocante, pela impositividade material das manifestações paroquiais de vida que antes poderia, mesmo com maior constância que qualquer nativo, gerir na saudável distância de estrangeirado que as excitações comunicacionais ainda não (felizmente) obliteraram, mas já tornaram pertinentemente transponível? Em certo sentido, esta transferência poderia ter tido bloguisticamente o impacto de um regresso de Nabokov à Rússia.
Francamente, o meu único descanso nesta inquietação toda foi, dada a prolixidade (mesmo com controlo de qualidade) barretiana, que, com toda a probabilidade, tomando a sua futura autobiografia mais facilmente o título de "Shut your yap for just a freakin' second, Memory" que outro assim nessa linha, o único problema que se lhe colocasse, como o próprio indiciou, fosse eventualmente o de ter que seleccionar um pouco mais o material print-worthy dentre o imparável e incompreensivelmente regrado stream of bloguingness. Tendo deixado passar o tempo para nos sentirmos seguros de novo, mesmo assim, para aquietar as almas perturbadas que se não manifestam, deixo aqui o aviso de que me encarrego agora mesmo de iniciar uma vaquinha para, em caso de necessidade, se comprar um bilhete de avião para correr desveladamente com o homem daqui. Quem me quiser ir ao porquinho (para enfiar lá qualquer coisa, that is (much better)), é favor avisar primeiro.

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

Vale morder e arranhar

Eu sei que marcar calendário num blogue com a minha periodicidade renitente é menos que risível e potencialmente mais que enfurecedor caso o aviso seja pertinente para alguém. Mas um qualquer desavisado sortudo justificará o teaser e a frustração infligida aos interessados que falharem a data (quem vos manda poderem passar mais que um dia sem vir desesperadamente em busca de novas minhas?).
Neste mês de Dezembro nada menos que dois-deux-due filmes de António Reis e Margarida Cordeiro passarão na Cinemateca. Afora o valor intrínseco do acontecimento, nem que lá passassem todos os dias, estímulo inquestionável sem carência de mais circunstâncias abonatórias para imediatamente se abandonar a caseira ass-shaped cushion (falo por mim, claro), ocorre que nem DVD nem o diabo a quatro trará, até ver, estas películas a burguesas (e convenientes) mãos (e a minha videocassete doméstica da Rosa de Areia não está para empréstimo, parem de pedinchar, é humilhante) que se fornecem de "cinema" na FNAC ou na prevaricação internética (coisas que podem ser justificáveis, sim, mas só na falta de melhor opção). Por isso, é favor cancelarem as vossas vidas, a começar, esta sexta, porque às 21:30 a primeira instalação da dupla efeméride do mês passa na Sala Dr. (é mesmo assim, tão pitoresco) Félix Ribeiro, e intitula-se «Trás-os-Montes». Dia 11 passa «Ana», às 15:30 (julgavam que o cancelar as vossas vidas era piada, não? - fake a heart-attack, tenham uma recuperação miraculosa na ambulância, e peçam para vos deixarem na Avenida da Liberdade porque já agora têm que ir à repartição de finanças).

Mais aviso que não consta que haja palavra passe, seguramente estaremos em disposição concêntrica, e envergar o hábito não é obrigatório, mas olhem que ficavam bem na fotografia.
(para tudo o mais (a expressão é para ser levada à letra), para quem não soubesse, é favor dirigirem-se aqui)

Of course not, it was me

Se a "não-identificação" com as nossas palavras, ilusionada (vá, não chateiem) pela intermediação tecnológica de um meio de produção de discurso, como o blog, pode ser condição de nos capacitarmos psicologicamente a escrever, a sobre-identificação com as palavras desses outros com um passo atrás à mão é a condição mediada de engajamento prosado que nos faz coabitar voluntariosamente nestas arquitecturas pessoais perspectivadas pelos próprios de fora, e, não fora o autor levar o teste da não-identificação das palavras próprias ao limite assinando-as por baixo, tentando-nos à fraude do roubo de identidade e eventualmente clamar fui eu que escrevi isto.
No fundo, a melhor forma de elogio blogosférico (esquecendo as suas potenciais ambiguidades para quem escreve para not-so-hidden agendas implementar) pode bem ser, por breves segundos e a espaços regulares, ter vontade de apagar alguém do mapa.

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Teutonic sugar plum daddies

Lendas low-profile (mas lendas) do krautrock, e (o meu obrigado à organização, não obstante) algo que não contaria ver in our lifetime (they're old...), os Cluster passaram há umas semanas pelo, eu acho (não obstante a bizarra funcionalidade vai-a-todas do pedaço), decrépito mas com porte de instituição São Jorge, num evento (Número Projecta - don't ask) tão super-out-there quão correlativamente sub-sub-publicitado, a emanar as suas nuvens de algodão doce crispado (na intersecção de fim de carreira entre as primícias dos augúrios de tempestades estáticas e a sagração heterodoxa da pop sem pop sintetizada em ponto de caramelo). Isto para audiência de talvez duas dúzias de marmelos mal pintalgados na volumetria daquela velha glória dos cinemas históricos. Isto a meio de uma allnighter com mais 4 performances de electrónica, vanguarda sonora(?) e VJing (I told you, and I meant it: don't ask). Isto levando a que ao fim de uma hora de sugestão hipnótica, negociando visivelmente entre si o fim necessário da sessão terapêutica, a dessem quase imperceptivelmente por finda e, na face de uns aplausos mais salientes recém-despertos com a percepção de que o silêncio não era só mais um estádio na dinâmica da evanescência, se desculpassem com o facto que tinham que terminar porque havia mais convivas a seguir para entrar em palco.
Pronto, foi mais uma relação do cosmopolitismo de recurso na cidade de Lisboa. Vemo-nos no próximo misplacing de um must-see, combinado?

(lamento informar, mas a performance sónica do Rafael Toral até não foi mal esgalhada de todo. não digam a ninguém que eu disse...)

Sábado, 3 de Novembro de 2007

Doc this

A avaliar pela cobertura recidivante e os panegíricos impressos a propósito da recém-passada edição do DocLisboa (em que infelizmente - apesar (por causa?) do propalado sucesso - não pus os pés), o documentário seria a área de produção fílmica a despertar mais paixões e desvelo das redondezas. Ao mesmo tempo, a RTP2, que tanto se associou ao evento, numa rubrica intitulada Docs, tem o descaramento de esquartejar o «No Direction Home» em duas sessões intercaladas por uma semana, privando assim um objecto fílmico de qualquer finalidade coesa, cuja integridade (física) é levianamente manipulada pelas conveniências mais mundanas dos exibidores, o que é ilustrativo de algo como a associação duplamente equivocada e reforçada do formato documental a neutralidade empírica e nulidade (vá, di-lo, di-lo!) artística. A menos que o desconchavo se tenha devido à generosa duração da película (208 m.). Se é lá por isso, aguardo expectante que a fatal dose de Ben-Hur na Páscoa seja também devidamente servida às talhadas.

We serve at the pleasure of who tells us to

Com a presciência dos imponderados, o Rogério endereça-me encomenda de registar publicamente a 5ª frase completa da 161ª página do livro mais à mão do servente, e por essa forma, por um instante eternizado na inefável grande ocular cibernética, partilhar da pertença simbólica a uma prestigiosa sub-secção da rede blogosférica de publicistas sem um Hyde Park a jeito.

Devo começar por me desculpar pelo atraso na entrega: tenho sido testado biblicamente na minha paciência para com o meu fornecedor e técnico de material informático, recorrentemente em avaria de há 3 meses para cá, e se é facto que até teria livros à mão para responder num cibercafé (coisa que nunca frequentei), com visionária sensatez, temi que ao sacar de um arcaico instrumento de leitura os cruzados do progresso que me cercavam me tomassem por fervoroso ludita e se me antecipassem à gadanhada nos processadores (eles têm alguma razão...) empalando-me com as suas pen(is - prolegómenos para uma fantasia tecno-sexual)s enquanto as Sugababes, ribombando ainda nos seus Ipods, conferiam uma rigidez maléfica ao impávido sorriso groovy com que a meio d