segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Bom ano para mim

Para quem propugna que a invisibilidade social se conquista, tendo tido o invejável sucesso de apenas ser submetido a um telefonema de aniversário este ano, a coisa poderia soar a uma profecia que se cumpre a si mesma (e que benemeritamente me poupa no saldo de respostas no telemóvel). Mas não é bem isso. Eu bem recebi duas ou três mensagens de bom ano. Mas, intrigantemente, nenhuma das pessoas com quem falei ao telefone nos últimos dias, com conversas de passagem de ano inevitavelmente ao barulho, me desejaram bom ano (nem eu tomei a iniciativa, claro está ó supremo pilar da reactividade). Poderia uma perspectiva confessional descortinar aí a remissão dos votos de bom Ano Novo, por homologia descabelada com a luta contra a dessacralização das festas religiosas, para uma esfera de enunciação privada aos fiéis da causa, à communitas (neste caso profano, naturalmente, communitas de bacantes versus misantropos desmancha-prazeres). Como poderia defender a elisão do ano novo como ocasião de desgoverno hedonista, a exponenciar na proximidade do desfrute uma lamentável descaracterização de uma presumível pureza cultural natalícia. Por uma vez, tenho que dar um passo atrás hermenêutico. Dado o centro de gravitação da amostra (euuuu), só posso imaginar que, nesta altura do campeonato, a estes interlocutores tenha já parecido francamente escusado desperdiçar aí um desejo, o que abre a hipótese de este poder ser um campo discursivo propício a um fascinante exercício prático de waste management da boa-vontade de cartão (o que nada tem a ver com nos querermos bem). E agora venham cá dizer que as pessoas não aprendem nada com a história.

Behold and AWE at the spawning of new language from the depths of the loins of my liquid plejades


(gostaria de frisar que isto foi escrito sob coerção directa e ameaça de terríveis represálias caso me furte a lubrificada vangloriação por sabe Deus que não se consegue arranjar melhor (e a secreta esperança de o Hilton ter uma percentagem no testamento para o povo empenhada na promoção do wordplay liceal). Refém contrariado em causa própria (história da minha chama-lhe sobrevivência até aos nossos dias), a declinação ciclópica (e potencialmente desagradável à visualização) da proeza inigualável com que unto lascivamente as meninges, sob a autoridade cósmica de uns Tangerine Dream (nem Roma se fez do nada), é inteiramente da responsabilidade de Yesterday Man. A Yesterday Man o que é de César. Avé nós (una limosna por el amor de Dios))

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Na outra margem, por sobre a calçada portuguesa (faking nagging Vasco Barreto #54)

Parece relativamente evidente que a geografia foi modificada, e a Margem Sul é, no presente, bloguisticamente, um dos mais trendy place to be (ainda que o mercado imobiliário esteja estranhamente um pouco lento a cavalgar a onda migratória de luxo oratório) (Coimbra sendo já um clássico, prestando-se mais a distracções nos mapas turísticos da cena). Mas na ausência (yet) de uma consciência universal do facto, convém refrear as sequelas mundividentes da exuberância cosmopolita a sul do Tejo para a (im)precisão geográfica com que se olhe para o resto desconsiderável do mundo. Sem contestar o ditame vidaliano e o aconchego anímico de postular que a transumância é literariamente produtiva, temos também que reconhecer que mudar de código postal não é exactamente o mesmo que chegar à nova morada a torcer a roupa após cruzar um oceano. E para a restante blogosfera interessada, sem a compassividade de um aforismo goreano à mão para a ocasião, confesso que me espantou o silêncio aparentemente sem apreensão por il ritorno di Vasco Barreto in patria.
A menos que fosse um pacto do não-dito para não materializar a ameaça fantasma, eu por mim confesso que muito temi pelos efeitos baqueantes (de baque, está bem?) da deslocação. Ainda (e porque) mantivesse em Nova Iorque Portugal no coração e na pena (miauu), a buffer zone atlântica de alguma forma parecia nutrir uma não-chega-a-ser-paradoxal omnipresença planante e distanciada sobre as guinadas fenomenológicas aqui do quintal, enquanto lhe evitava o fascínio cabotino com o happening cosmopolita (começo a odiar a palavra) quotidiano das esquinas das avenidas. O descompromisso engajado perfeito, no fundo (o que levava a que nem fosse essa a necessária centralidade do seu opus in progress).
Naufragado agora cá na terra, como não temer que se visse incapacitado, como pelo amor de mãe sufocante, pela impositividade material das manifestações paroquiais de vida que antes poderia, mesmo com maior constância que qualquer nativo, gerir na saudável distância de estrangeirado que as excitações comunicacionais ainda não (felizmente) obliteraram, mas já tornaram pertinentemente transponível? Em certo sentido, esta transferência poderia ter tido bloguisticamente o impacto de um regresso de Nabokov à Rússia.
Francamente, o meu único descanso nesta inquietação toda foi, dada a prolixidade (mesmo com controlo de qualidade) barretiana, que, com toda a probabilidade, tomando a sua futura autobiografia mais facilmente o título de "Shut your yap for just a freakin' second, Memory" que outro assim nessa linha, o único problema que se lhe colocasse, como o próprio indiciou, fosse eventualmente o de ter que seleccionar um pouco mais o material print-worthy dentre o imparável e incompreensivelmente regrado stream of bloguingness. Tendo deixado passar o tempo para nos sentirmos seguros de novo, mesmo assim, para aquietar as almas perturbadas que se não manifestam, deixo aqui o aviso de que me encarrego agora mesmo de iniciar uma vaquinha para, em caso de necessidade, se comprar um bilhete de avião para correr desveladamente com o homem daqui. Quem me quiser ir ao porquinho (para enfiar lá qualquer coisa, that is (much better)), é favor avisar primeiro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Vale morder e arranhar

Eu sei que marcar calendário num blogue com a minha periodicidade renitente é menos que risível e potencialmente mais que enfurecedor caso o aviso seja pertinente para alguém. Mas um qualquer desavisado sortudo justificará o teaser e a frustração infligida aos interessados que falharem a data (quem vos manda poderem passar mais que um dia sem vir desesperadamente em busca de novas minhas?).
Neste mês de Dezembro nada menos que dois-deux-due filmes de António Reis e Margarida Cordeiro passarão na Cinemateca. Afora o valor intrínseco do acontecimento, nem que lá passassem todos os dias, estímulo inquestionável sem carência de mais circunstâncias abonatórias para imediatamente se abandonar a caseira ass-shaped cushion (falo por mim, claro), ocorre que nem DVD nem o diabo a quatro trará, até ver, estas películas a burguesas (e convenientes) mãos (e a minha videocassete doméstica da Rosa de Areia não está para empréstimo, parem de pedinchar, é humilhante) que se fornecem de "cinema" na FNAC ou na prevaricação internética (coisas que podem ser justificáveis, sim, mas só na falta de melhor opção). Por isso, é favor cancelarem as vossas vidas, a começar, esta sexta, porque às 21:30 a primeira instalação da dupla efeméride do mês passa na Sala Dr. (é mesmo assim, tão pitoresco) Félix Ribeiro, e intitula-se «Trás-os-Montes». Dia 11 passa «Ana», às 15:30 (julgavam que o cancelar as vossas vidas era piada, não? - fake a heart-attack, tenham uma recuperação miraculosa na ambulância, e peçam para vos deixarem na Avenida da Liberdade porque já agora têm que ir à repartição de finanças).

Mais aviso que não consta que haja palavra passe, seguramente estaremos em disposição concêntrica, e envergar o hábito não é obrigatório, mas olhem que ficavam bem na fotografia.
(para tudo o mais (a expressão é para ser levada à letra), para quem não soubesse, é favor dirigirem-se aqui)

Of course not, it was me

Se a "não-identificação" com as nossas palavras, ilusionada (vá, não chateiem) pela intermediação tecnológica de um meio de produção de discurso, como o blog, pode ser condição de nos capacitarmos psicologicamente a escrever, a sobre-identificação com as palavras desses outros com um passo atrás à mão é a condição mediada de engajamento prosado que nos faz coabitar voluntariosamente nestas arquitecturas pessoais perspectivadas pelos próprios de fora, e, não fora o autor levar o teste da não-identificação das palavras próprias ao limite assinando-as por baixo, tentando-nos à fraude do roubo de identidade e eventualmente clamar fui eu que escrevi isto.
No fundo, a melhor forma de elogio blogosférico (esquecendo as suas potenciais ambiguidades para quem escreve para not-so-hidden agendas implementar) pode bem ser, por breves segundos e a espaços regulares, ter vontade de apagar alguém do mapa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Teutonic sugar plum daddies

Lendas low-profile (mas lendas) do krautrock, e (o meu obrigado à organização, não obstante) algo que não contaria ver in our lifetime (they're old...), os Cluster passaram há umas semanas pelo, eu acho (não obstante a bizarra funcionalidade vai-a-todas do pedaço), decrépito mas com porte de instituição São Jorge, num evento (Número Projecta - don't ask) tão super-out-there quão correlativamente sub-sub-publicitado, a emanar as suas nuvens de algodão doce crispado (na intersecção de fim de carreira entre as primícias dos augúrios de tempestades estáticas e a sagração heterodoxa da pop sem pop sintetizada em ponto de caramelo). Isto para audiência de talvez duas dúzias de marmelos mal pintalgados na volumetria daquela velha glória dos cinemas históricos. Isto a meio de uma allnighter com mais 4 performances de electrónica, vanguarda sonora(?) e VJing (I told you, and I meant it: don't ask). Isto levando a que ao fim de uma hora de sugestão hipnótica, negociando visivelmente entre si o fim necessário da sessão terapêutica, a dessem quase imperceptivelmente por finda e, na face de uns aplausos mais salientes recém-despertos com a percepção de que o silêncio não era só mais um estádio na dinâmica da evanescência, se desculpassem com o facto que tinham que terminar porque havia mais convivas a seguir para entrar em palco.
Pronto, foi mais uma relação do cosmopolitismo de recurso na cidade de Lisboa. Vemo-nos no próximo misplacing de um must-see, combinado?

(lamento informar, mas a performance sónica do Rafael Toral até não foi mal esgalhada de todo. não digam a ninguém que eu disse...)

sábado, 3 de novembro de 2007

Doc this

A avaliar pela cobertura recidivante e os panegíricos impressos a propósito da recém-passada edição do DocLisboa (em que infelizmente - apesar (por causa?) do propalado sucesso - não pus os pés), o documentário seria a área de produção fílmica a despertar mais paixões e desvelo das redondezas. Ao mesmo tempo, a RTP2, que tanto se associou ao evento, numa rubrica intitulada Docs, tem o descaramento de esquartejar o «No Direction Home» em duas sessões intercaladas por uma semana, privando assim um objecto fílmico de qualquer finalidade coesa, cuja integridade (física) é levianamente manipulada pelas conveniências mais mundanas dos exibidores, o que é ilustrativo de algo como a associação duplamente equivocada e reforçada do formato documental a neutralidade empírica e nulidade (vá, di-lo, di-lo!) artística. A menos que o desconchavo se tenha devido à generosa duração da película (208 m.). Se é lá por isso, aguardo expectante que a fatal dose de Ben-Hur na Páscoa seja também devidamente servida às talhadas.

We serve at the pleasure of who tells us to

Com a presciência dos imponderados, o Rogério endereça-me encomenda de registar publicamente a 5ª frase completa da 161ª página do livro mais à mão do servente, e por essa forma, por um instante eternizado na inefável grande ocular cibernética, partilhar da pertença simbólica a uma prestigiosa sub-secção da rede blogosférica de publicistas sem um Hyde Park a jeito.

Devo começar por me desculpar pelo atraso na entrega: tenho sido testado biblicamente na minha paciência para com o meu fornecedor e técnico de material informático, recorrentemente em avaria de há 3 meses para cá, e se é facto que até teria livros à mão para responder num cibercafé (coisa que nunca frequentei), com visionária sensatez, temi que ao sacar de um arcaico instrumento de leitura os cruzados do progresso que me cercavam me tomassem por fervoroso ludita e se me antecipassem à gadanhada nos processadores (eles têm alguma razão...) empalando-me com as suas pen(is - prolegómenos para uma fantasia tecno-sexual)s enquanto as Sugababes, ribombando ainda nos seus Ipods, conferiam uma rigidez maléfica ao impávido sorriso groovy com que a meio dos suplícios não cessavam de me encarar.

Estando agora em casa, e enquanto o computador não se demite de funções novamente (ou seja, amanhã), entrego-me radiante de interactividade à tarefa. Todavia, embora em nada interfira finalisticamente com o meu amestrado cumprimento de qualquer incumbência, devo confessar que o automatismo crescente destas correntes (memes? memes?) me inquieta. Emerge por aqui um debate tecno-ontológico já não tão larvar sobre a desumanização da escrita. Desconsideremos até a rigidez formatada (antes o soneto) desse modelo de interpelação, a requisitar uma ginástica retórica que, para justificar molhar a palavra, dê mínimo ânimo a tão árido pretexto discursivo. A última corrente, sobre os livros que não mudaram a nossa vida, ainda era um exercício rebuscado de distinção social, em que a gestão pessoal do desarranjo dos cânones buscava afirmar, se necessário com a devida displicência, a sua mestria no domínio iconoclasta dos mesmos, mas já enveredava por uma certa negatividade na identificazione di un(a) donna/uomo, não só definido pelo que desconsidera do mundo, mas reforçando o painel limitado do mundo e suas fronteiras estabelecidas nas quais o exercício de rejeição faz a sua selecta, já que, por definição, nada propõe de novo.

Já esta corrente, parece um daqueles alienantes experimentos psicológicos, onde a reflexividade e afirmação de um sujeito são arrumadas num armário em favor da imposição de um reducionismo mecanicista à acção humana. Gente boa, segura nas suas capacidades, encarou-a com a supremacia da sua inteireza retórica, rindo-se da pretensão de a manietar, satirizando-lhe a instrumentalidade, ou instrumentalizando-a para atiçar terceiros. E eu ainda me pergunto desesperado: exercício (nos seus trâmites) liminarmente descritivo, escrever uma frase determinada por um critério arbitrário, pelos céus, para que serve? Na sua incepção, é uma espécie de morte do autor a dois. Assassina-se um autor, extirpado de uma lamela do que quis fazer obra, feita amontoado de parcelas frásicas. Assassina-se um citador, a quem, sem razão contextual, se assaca um perfil da presença de certa obra em dita posição citável na cercania. Como se a blogosfera, concebível reduto de proliferação subjectiva cibernética, se encaminhasse para nos tornar máquinas automáticas de citações absolutamente avulsas. Afasta-se por completo um plano, um finalidade, entrona-se a contingência mas com o desejo inconfessável de lhe peticionar mais significado (porque não construído ou antecipado), espécie de surrealismo auto-vitimizado, exacerbado mas sem assumir a consequência (ou alguém vai andar a fazer um cadáver esquisito disto?). No fundo, tudo isto parece um teste emanado de uma consciência cibernética auto-suficiente a mensurar a vontade de resistência dos sistemas humanos ao imediatismo e funcionalismo (conquanto, ou principalmente, destituído de funcionalidade) comunicacional. Pelo que, sim, a fazer algo desta corrente, há que rebatê-lo como o grande desafio pré-apocalíptico ao emergir das máquinas. Espero portanto continuar a ver-vos à altura das vossas imundas vísceras.

Pronto, maqueada a auto-determinação a reger o meu teclado, levantam-se-me agora problemas operacionais. As duas pequenas pilhas de livros mais próximas, à minha esquerda e direita, tanto quanto a exactidão da minha medida braçal pode calcular, estão perfeitamente equidistantes da minha centralidade da vinciana. E já a encomenda não incluindo medida de sensibilidade política ou primazia de destreza manual, o bom destino encarrega-se de complexificar o dilema. À minha esquerda, o Olhares sobre a História de Lucien Febvre, que desde que comprado há um ano não acredito ler, sem que isso me suscite outras diligências, é desqualificado sumariamente por não ultrapassar as 126 páginas, volumetria de indigência ou honestidade intelectual. A bola passa portanto para a pilha da direita. No entanto, novo obstáculo assoma. O 3º volume de uma recolha da obra poética de Borges lá está repimpado, por razões que não recordo (ainda que seja um caso cimeiro de iminente solicitude), e por indolência que nunca esqueço. Ora, os versos contam? É o verso uma frase? Já digerimos o minimamente o modernismo literário (?) para assumir desabridamente o regabofe da simbólica formal a categorizar o enunciado linguístico/literário? E aqui a máquina começa a fumegar.

Creio portanto que se impõe um plebiscito. Infelizmente, não tenho tempo para esperar pela cristalização institucional de um dispositivo eleitoral minimamente fiável nesta reticular frivolidade. Assim sendo, deixar-vos-ei as duas opções frásicas que se apresentam na pilha da minha direita, uma a heterodoxa borgesiana, outra, e para abardinar a representação parlamentar do hemiciclo da minha secretária, a emanada do livro subsequente da pilha, Les Mots et les Choses de Foucault (que não tenciono igualmente ler any time very very soon), confiando que qual responsável orgão de comunicação social em véspera de eleições, não ireis espreitar a antevisão dos resultados: a convicção bruta ao poder.

Caso ganhe o Sim à desestruturação da estabilidade de distinção sígnica dos ofícios discursivos e sua maximização interpretativa com a consequente vaga de insucesso (se ainda restar sucesso para falhar), ou se calhar hiper-sucesso, nos exames nacionais de português, a frase será «o acceptando la muerte en la mañana».

Caso ganhe o não, a frase será «Or ce enchevêtrement est le résultat d'une série chronologique d'événements». Para vos infligir a frustração que merecem, a coisa trazia à liça Lineu (a única aportuguesação aceitável), Adanson e other taxonomic assorted goodies.

Para perceberem a diferença (mas porque raio ainda está você aí a ler isto?) que faz o maquinismo com um pouquinho mais de purposefulness in action, se fosse recuperar o Naissance de la Clinique que há muito pouco ocupava o lugar micro-topográfico que Les Mots et les Choses ora ocupa, com os fins anódinos que se conhecem, a frase compagnonne de route da de Borges («o acceptando la muerte en la mañana») seria «La mort, peu à peu, dès le premier moment de l'action et dans la première confrontation avec l'extérieur, commence à dessiner son imminence: elle ne s'insinue pas seulement sous la forme de l'accident possible; elle forme avec la vie, ses mouvements et son temps, la trame unique qui tout à la fois la constitue et la détruit.»
Como um bom experimento falseado, diz que é uma espécie de coincidência.

Pela impositividade dos resultados obtidos, lembrei-me que poderia reenviar isto ao Bruno, mas a afinidade referencial no desejar dos avatares a jeito na secretária teria um efeito manifesto de redundância.
Para não desbaratar a presciência acima invocada, fingiria deixar o seguimento à vontade do Vasco Barreto (também "outra vez", mas só porque me dá jeito retórico), para em mais uma hipótese de emancipação humana, se cumprir um fim digno à arbitrariedade da corrente, e sacando efectivamente dos clássicos de poche, se aproveitar para fazer dela um teste à infalibilidade sígnica de cada caganita grafada dos clássicos escribas que nos miram do poleiro privilegiado de là-haut do panteão, ou, se não estiverem à mão (ou melhor, à nádega), pelo menos voluntariar o repouso na citação de best-sellers da sociologia como «The Bell Curve» e os Kinsey Reports, ou da psicologia evolucionista como «The Selfish Gene», que ser guardião da integridade epistémica da desbocada blogosfera, por Toutatis, também cansa, nem há panóptico cibernético que sustente (olhem, mas entretanto vão mas é, a despeito da comédia voluntária e insulto involuntário que é eu brincar aos referrals, reler isto («Porque há uma diferença entre querer dar voz a alguém e pretender calar essa pessoa, diferença que os pavlovianos paladinos da liberdade ignoram»), olhem e já agora isto, e é se não quiserem ler mais, que é como uma apple a day).

Aproveito também a ocasião para ler em público, da única forma que me é possível (vivo trancafiado em casa com a esperança de que me confira uma espécie de perpetuidade criogénica), uma obra que me foi emprestada (em desespero de causa para abalar a minha indiferença de iletrado face a um esparramado manjar de títulos assaz legíveis) com esse preito expositivo em particular, dando-vos a 161ª bla bla bla de um opúsculo versando enciclopedica e assepticamente a intimidade das vidas sexuais desse anátema póstumo que é ser uma celebridade: «Much of Field's boyhood was spent in poverty, and as an adult he was constantly fearful of being broke.»
A vida sexual em questão era de W.C. Fields, e se só na frase seguinte começariam a perceber porquê, azar vosso. As regras são feitas para nos fecundar.

wore down erotica of middle-age

Disco rígido novo (até ver), vida nova

que é como quem diz, nova vida a resgatar os fragmentos dispersos da vida antiga. Não deixa de ser curioso, contudo, que tal labor retrógrado emane de uma excessiva confiança no futuro, e vá nesse passo usurando o tempo útil deste para re-fixar o passado.
Sem prejuízo para os sonhos epistémicos molhados de Hume, os imensos backups imbecilmente lacunares, não obstante replicados desigualmente em infindos suportes (enfim, 4), onde afadigadamente deixo à minha própria posteridade os frutos legitimadores da produtividade (gnnn) do meu passado, guincham, em irritante metonímia, que cada dia não é um dia, que se combate activa e espavoridamente sequer a ficção de uma tabula rasa a desembaraçar a canga que se alojou no corpo e os corpos (físicos) que descrevem museificados a exposição da continuidade individual.
Se alguma vez tive um (nunca me foi dado gozar algum dos clássicos por muito tempo), a biografia é o meu hábito malsão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Morte a Werther (oh, too late)

(seguido de
A Werther Waiting to Happen)

Bom, o argumento é óptimo, mas a baralhar argumentos durkheimianos sobre a causalidade do suicídio para arguir a publicitação artística da auto-obliteração (para o caso, sob a forma do Werther de Goethe) como empreendimento de contornos socialmente homicidas ou genocidas - a carecer de ironicamente salvífico matizar por intermediários culturais (isto se não forem dos que carecem mais da mitificação que da desconstrução para se legitimar) - acho que se impõe compensar apresentando o moço Johann Wolfgang, em penitência devida ao tempo que se perde (a vida é o menos) a ler o exasperante Werther (outros opus notwithstanding), como um verdadeiro arremedo cobardolas de Karadzic em segunda mão. Porque o tio Émile (estando entre amigos) Durkheim, pelo próprio contexto e intenção disciplinar com que se debruçou sobre o suicídio, estava muito longe de conceder ao mimetismo (logo pelo seu implícito psicologismo) um papel explicativo do suicídio enquanto fenómeno social, quando muito anexando-o a uma matriz de causalidade em que cumpriria papel muito dispiciendo, eventualmente facilitador, face às condições sociais estruturais (cimeiramente, de coesão e integração sociais) que explicariam a constância societal (e a variação intersocietal) das taxas de suicídio, deixando as explicações de cada acto individual de suicídio para a ciência(?) a que competissem. O que implica que, por muito que o estouvado Goethe pretendesse dizimar a população proto-metrossexual da Europa culta contemporânea (precursora cruzada?), Durkheim não lhe ratificaria a pretensão causal (precursora e profiláctica vacinação contra auto-comiseração blogosférica?), quando muito gatilho contingente em coutada da National Rifle Association. O que é pena, dado que, com o meu ritmo de leitura e masoquismo completista, só o entretenimento de um julgamento póstumo em Haia me ressarciria desse estou certo que meio ano passado em suplício literário (para mais, tendo-me wertherizado às avessas, como do meu whining agora se constata).

Adenda tardia: Chamar à razão? Moi? Now there's a blueprint para um texto irónico.
Não, agora menos a sério, permita-se-me só mais uma achega quase completamente off-the-subject sobre a questão de pormenor durkheimiano que me titilou (começo a pensar que tenho uma thing pelo Émile) dado que, para lá de não ter razão alguma para questionar os apetitosos procedimentos irónicos do texto (não sei porquê, estou a gostar de fantasiar o Johann travestido de Dr. Strangelove), por definição estaria sempre at a loss com essa trama subterrânea de siglas, referências e espoletas motivacionais, a ponto de não poder perceber que carecia de elucidação. A curiosa minudência que me motiva ao rerun do tédio em prosa que precede esta adenda, é que precisamente subsiste na elucidação em causa uma mescla conceptual non-durkheimiana, entre o sofrimento sublimado por via literária (doravante conhecido como "bicho wertheriano"), poder "eventualmente, precipitar" um acto suicida, e pressupôr esse "bicho wertheriano" como estando "à partida" na cabecinha dos suicidas (sendo o estar no fim e no princípio de um processo causal distinção temporal inoperativa, ou ubiquidade a mais para o bichinho). O tio Émile concederia a primeira causalidade, como acessória, na explicação de casos individuais de suicídio, mas rejeitá-la-ia (não só logicamente, mas disciplinarmente) enquanto causalidade de "partida" ou suficiente para explicar as dinâmicas sociais (não psicológicas) de suicídio. Na analítica durkheimiana, os factores psicológicos que espoletassem actos individuais de suicídio, fossem a leitura do Werther ou as flutuações dos stocks de cerveja, sendo relevantes para a explicação de cada caso, eram irrelevantes para a explicação das dinâmicas propriamente sociais do suicídio, cuja regularidade, traduzida pelo indicador das taxas de suicídio, indicava tratar-se de uma dimensão analítica com autonomia, não dependente da agregação de causas psicológicas para suicídio (algo que não cabe na óptica da (sua) sociologia), que logicamente deveriam dar azo a variações aleatórias dessas taxas, o que não era empiricamente o caso. A causalidade de "partida" para explicar socialmente o suicídio estaria sempre a montante, ao nível das condições sociais (largamente inconscientes), não ao nível das motivações psicológicas (onde entraria o bicho wertheriano), que sendo totalizantes para cada acto isolado (precipitando-o), seriam sempre acessórias, secundárias, na óptica sociológica de análise, que Durkheim pretendia instaurar, delimitando-lhe um campo analítico autónomo (particularmente, neste caso, face à psicologia, donde a escolha provocatória do objecto de análise suicídio).
Porque é que o esborratar desta distinção interpela tanto? Porque nessa distinção, translúcida para Durkheim, reside porventura o momento simbólico e epistémico mais emblemático desse processo crucial para o entretenimento intelectual ocidental antes da profusão das sitcoms, que foi a especialização das ciências sociais.
Para o caso Goethe, uma analítica sociológica durkheimiana sublinharia condições estruturais, como a individualização em certos estratos sociais e seu potencial anómico, quando muito associando-o ao plano das representações colectivas no romantismo, como as condições sociais propícias a um acréscimo social do suicídio, e nesse sentido, contra qualquer pretensão de omnipotência artística ou um j'accuse a Goethe, e particularmente contra a pretensão disciplinar de plasmar a dimensão social dos fenómenos a uma agregação de casos/estados psicológicos, todo este caso não passava largamente de um Werther waiting to happen.
Mas isto, contendo alguma austeridade (oh!, see the pun there?, ah ah), já vem cada vez mais a despropósito, e já não é muito irónico, portanto, deixa pra lá...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Antes o sopro no Berardo

Só para dizer que, já eu, estruturalmente fazendo-me ao piso, visitando um dia o agora Queer Lisboa, para ver um debate degustável sobre o Wilde e, à boleia, um filmeco (why did I bother?)a arrebanhar uns tiques visuais para a caução dessa grande meretriz que é o "experimental", não fui interpelado nem com um afago no rechonchudo nem sequer um esguicho ocular do urinol vizinho, o que, julgando que a sei toda, suscitaria a presunção de que a fauna queer desencaixotada não tem graça nenhuma, ou de que, sabendo-a toda toda a gente, pode ter qualquer coisa assemelhável a bom gosto para homens. O que seria lamentável para o mito da fallback option para todos os I-can't get-any da humanidade.

Efeitos não antecipados da caução de uma língua morta

Ípsilon, ponto e vírgula

O que (não) vale é que sendo a incúria recorrente e plural, não haverá propriamente ninguém a assacar culpas: toda a gente erra, o fascinante é quando muita gente erra ao mesmo tempo ou erra de forma a dissolver o locus da azelhice. Isto, a menos que a metamorfose para um modelo de suplemento cultural mais stiff upper-lip do Ípsilon do Público, tenha como fiapo de ironia preso na porta o descartar das plurais minúcias e procedimentos intricados que contribuem silenciosamente para a integridade física de um objecto jornalístico, tornando-o uma espécie de performance art em forma impressa (se vier a ser este o fundamento da vossa desculpa pública, quero os meus royalties).
A edição de há duas (três?) semanas foi um alegre descalabro. Para já, reconfirmavam o recauchutar editorial de críticas de cinema (das pequeninas...) de semana para semana (será assumido, e não terão mais em que gastar papel?). Depois - e saltando por sobre a minha implicação com essa maleabilidade jornalística (e não crítica) de pôr toda a gente a escrever sobre tudo, geralmente (geralmente), se colando-se aos cânones primários do campo e não à produção de um insight pessoal, com a inevitável verve de um copista da wikipedia - escrevendo sobre reedições em DVD de Bresson, Pedro Mexia, não se demitindo de pintar as estrelinhas a atribuir a cada objecto cinemático, informa-nos, em jeito de cenas dos próximos capítulos, que, sobre a obra maior declarada do conjunto, escreveria na sua coluna pessoal(!), no dia seguinte(!!), espécie de entroncamento de publicidade enganosa, auto-promoção e um serão com Roque Santeiro.
Mas entrando nos detalhes técnicos e menos implicativos (conquanto não menos compelling) (e quase não contando com a revelação ao mundo da existência, por contracção nominal, de um disco dos Animal Collective chamado Tungs, por certo um exclusivo carinhoso possibilitado pela questionável familiaridade da pandilha com as lides lusitanas), há duas pérolas rutilantes nesta edição. Uma, consegue a proeza processual de fazer uma potencial tripla, sendo citado um escritor português a atribuir a autoria do Anna Karenina a Dostoiévski (também, os clássicos russos all look the same), e ficamos na dúvida se foi lapso (ou contra-informação?) do escritor, sobre-lapso ou abstenção correctiva do jornalista, e/ou sobre-sobre-lapso ou sobre-abstenção do revisor (a menos que tivesse corrigido a autoria correcta, o que tornaria o processo ainda mais entrópico). A segunda, e sem sequer termos que sair da mesma página, apresenta-se como o uncredited furo iconográfico das últimas décadas, ao surgir uma fotografia límpida e profissionalíssima, contando com toda a disponibilidade do fotografado, legendada com o nome do sumo recluso e incógnito visual das letras estadunidenses, tchan-tchan,Thomas Pynchon. O Alexandre Andrade já havia explicado, e esclarece tratar-se do Updike. Parece-me má-fé no insight do Público. O que está ali é outro furo subliminar: o John Updike É o Pynchon (ou vice-versa). E não é o próprio Alexandre Andrade que escreve «E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior»? Uuhhhh... (a esse propósito, dir-se-ia que o Casanova discordaria, mas ah!, precisamente, quantos homens não há num vazio?... inclusive nesse...mesmo que um de cada vez...)
Infelizmente, a edição da semana passada não propiciou leitura tão gostosa. Só reparei no regresso à prática recauchutada de truncarem textos, o que é indubitavelmente a forma mais pragmática de fazer respeitar a paginação; no facto de Saramago ser dito em destaque sentir-se "desconsertado" com as revelações autobiográficas do Grass, qual estante de pinho nórdico do IKEA montada com instruções em sueco (o Saramago é muito piquínhas quanto à forma como se desconserta); e na sugestão de contornos siameses de porem uma fotografia do Janita Salomé identificada como Vitorino (também, os alentejanos, para mais siblings, all look the same).
Mas porque me inquieta isto, perguntais? É que, atente-se: no Ípsilon escreve o meu Lester Bangs de sobrecompensação (porque o meu, avé, Fernando Magalhães não cessa de me faltar), bem como dos poucos críticos de cinema a sério, neste país de jornalistas culturais, dispostos a pensar publicamente um filme. E se o Público agora vai dedicar-se colectivamente a uma vertente performativa de auto-irrisão de elite, não só me deixa entalado entre a santidade das minhas minhas leituras fiéis e o non-sense profano de desautino institucional, como deve pôr-se cônscio de que se depara com concorrência de peso. Só de passar os olhos a semana passada pela revista Única do Expresso, vejo que ressuscitaram o João Cabral de Melo Neto ao anunciá-lo a fazer leituras pela liberdade na Ler Devagar, juntinho com o Mia Couto (também, os ex-colonizados all look the same, dead or alive).
Já se a pretensamente new-found respeitabilidade cultural do Ípsilon tem sido sujeita a um fascinante processo de descontrução pós-moderna absolutamente involuntária (e nada de maldicência - foi com essa que ultrapassei 5 anos de faculdade), urinando no seu próprio canteiro, então, era só para avisar que, não é por nada mas, pá... há gente a olhar.

Nota: as pequenas inovações, tipo deixar um buraquinho no cimo da página para comentários enviados por leitores, até podiam ser simpáticas, mas considerando que até para quem não costuma reparar nesse espaço, como eu, os leitores começam a parecer ser sempre os mesmos, o resultado começa a soar algo patético. A menos que seja a ombridade de continuar a apostar num losing horse: aí têm toda a minha solidariedade (again, royalties e tal, we understand each other, right?)
Nota 2: in case you're wondering, não, não encontrei no pouco que li desta semana uma argolada para me fazer sentir melhor comigo próprio. Explica-se assim, porquê agora, este ímpeto retardatário e extra (not that I have to make an effort) de à missão humanitária do Público me substituir.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

À Flor do Mar


Passei anos enredado no estribilho de precisar de rever a incandescência que o espelho devolve a Laura Morante, os azuis que a ilusão do horizonte marítimo funde, o lombo firme do robalo, a vida pausada no habitáculo exterior das noites cálidas de verão, as sombras desenvoltas no frescor subterrâneo das casas caiadas, a luz "inclemente" (I didn't know that then) "dos dias perfeitos".
(lembra-me agora o Agosto do Silva Melo próximo estritamente de uma radiância mediterrânica)
Passei anos inclusive com a obsessão recorrente da recorrente sonata de Bach, da qual escrevinhei às escuras no ingresso (ainda deverá estar a faíscar no segredo de alguma gaveta cerca, memória de exclusivíssima ocasião de um mortal ali mergulhar - no Ávila, se bem me lembro... em estreia dez anos após a produção, e uma passagem na RTP), a informação que apanhei da tela, mas à qual faltava a chave BWV para resgatar a identidade da partitura.
Lembrava-me de muitíssimos planos (coisa raríssima), quase todos fidelíssimos na memória. Mas logo a efígie de Laura no espelho não se esfumou como tanto a recordava, e agora, maldição inexpurgável do retorno, antecipava.
Lembrava-me de toda a jouissance dos gestos, dessa abertura fluida e ininterrupta às coisas vivas, à sensação táctil de cada plano, aos prodígios evocativos das mais terrenas evidências sensitivas (não me larga o som de uma bilha de água pousada no chão da açoteia). Inclusive aos corpos (não pudesse, sim, passar por aqui um mote de teorema pasoliniano mais comedido e empirista). Que não primeiramente a breve ninfeta de Teresa Villaverde, nem exclusivamente o bronze da oclusão solar de Laura Morante (dos escassos retratos de mulher a me raptar) e o esplendor macerado de Manuela de Freitas, mas a plenitude de existir no momento, como na justeza do júbilo e desarme infantil, como a ode aos olvidados no plano da criada Senhora Amélia suspensa, apesar da familiaridade, ainda em atavismo mudo e servil, da aprovação comensal da sua caldeirada.
Mas não me lembrava, ou não o vi, como todo este alento vitalista compassava um andamento sepulcral. O superavit mais ou menos subtil de citações (incluindo os cameos de si mesmo, a anunciar-se persona, do César Monteiro) de toda a filiação artística (de Piero Della Francesca a "How green was my valley", de (Robert) Browning (.38) a "Suddenly last summer", de Virgílio e Ulisses a Roberto Rossellini (lembremos as coisas), de de...) era de desconfiar: toda a memória puxa a montante, para o lastro escondido no porão do tempo, onde também se busca trancar a morte e o crime, como coisas que já passaram e nos vedam mais caminho. E nesse exumar de um passado conquanto irrevisitável, a fazer desse fora-de-campo temporal uma presença inescapável e tutelar do movimento que vemos e ainda nos concedemos, aí sem precisão de citação cinéfila, uma vaga reminiscência manietada dos fantasmas de um tal Ethan Edwards me assomou.
Contudo, no reverso, é precisamente também o signo de uma ars moriendi que torna sumamente vibrante a colheita experiencial que cada fotograma comporta (ritualidade constitutiva da obra futura), como a última frase de Manuela de Freitas (que não ouvi bem, como de qualquer forma seria de rigueur em filme meio falado em português projectado ao ar livre, mas de que estou seguro - qualquer coisa como, fruir a felicidade que resta*) sentencia. E na pequena morte sepultada em cada casa que se fecha, o último plano em que nela se extinguem as luzes de vigia da vida em fuga pelo mar, tem tanto de terminal e ressonante para o tempo, como o encerrar tumular de uma pirâmide em Land of the Pharaohs.
Foi um filme em que havia enterrado fundo um mistério, portanto um daqueles a que poderá não convir abrir a luz. Seja como fôr, revê-lo projectado numa noite de Verão na esplanada da Cinemateca num ciclo intitulado Filmes de Praia só pode ser a minha escolha de programação de eleição deste ano. Esta noite não serei mais feliz. Mas sou mais grato.

*segundo a Folha da Cinemateca, «"aprender a gastar a infelicidade que nos resta" (ou a felicidade)», acrescenta o Bénard. Não é grave portanto, mas é no que dá não ser sequer um copista sério.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Semiótica à queima-roupa 3 (aprioristic mode)

A moça do supermercado entrega-me o troco, e quando a miro pisca diligente a pálpebra e sorri. Miúda valente. Um cisco no olho é sempre chato.

Casanova Does Portugal

E, como o título, única razão de existência desta desculpa de post para nutrir o meu gáudio infantil (an improvement, granted) com playground wordplay, aponta, os fins-de-semana lusitanos nunca mais serão os mesmos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

La Forza Del Destino

A melhor parte de ter, no universo de dois computadores pessoais disponíveis num raio de dez quilómetros, um constantemente a ir abaixo mas com ligação funcional por internet, e outro inteiramente funcional mas fora do meu intransportável ambiente de trabalho e com uma falha, esotérica para toda a so-called expertise convocável, na ligação de internet (obrigado netcabo), é que, fazendo constantes viagens de vaivém entre computadores e casas de microinformática (ah, a punção da precisão classificatória), sou forçado a ter uma espécie de férias (para o caso, de overgrown hamster - confere - em perene trânsito numa roda de raio de 10 km) produtivas que precisava desesperadamente não ter (por oposição ao resto do ano em que passo o tempo espojado no colchão absorvido por esse pensamento incapacitante da produção e do lazer, mais daninho que a labuta, que é o "devia estar a trabalhar"), e nesse passo sou distraído, no pino de Agosto, do facto de a cada ano o Verão e a sua promessa juvenil de stasis devirem uma ficção acrescidamente cruel.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pois sim, mas para quando a santería?

Self-deprecation stakeout

Como control-freak with no boundaries escriba de um blogue efectivamente com 6 leitores (thank God) renitentes (isso é que já é um bocadinho triste), eu podia ficar ofendido com o emprego retórico dessa figura numérica pelo languiano (no reductionism intended) favorito cá do burgo, como, por razões que me escapavam, gosto de usar fazer suceder. Mas com essa enunciação, de apenas ter 6 (ou já 7) leitores, o LMO cerziu uma continuidade perturbante na percepção de dispersão física do nosso quotidiano. É que eu, que faço tudo para não ter amigos com vista a não perder mais CD's emprestados, arremedo rasca de cenobita, eu conheço seis pessoas que, com provas dadas, lêem o LMO. Começam a sentir as paredes a ranger, certo? Daí decorre que, se o LMO só tem mesmo seis leitores, a minha esquálida desculpa de rede de sociabilidade configuraria pelas artes do destino uma espécie de clube de fãs inconsciente (a menos que seja eu o personagem unaware da trama) do LMO! Ora, podíeis vós, na vossa cadeira ergonómica, descartar tal especulação como produzindo meramente a irónica consequência de um exercício de self-indulgent self-deprecation. Mas escutai bem: a ser real, este cenário estonteante é terrivelmente cataclísmico por duas razões: por um lado, com o Casanova de férias, a blogosfera não está equipada para dar conta das implicações cósmicas deste micro-cenário pynchoniano: imaginai, todas os blogueiros que anunciam regularmente a quantidade acumulada de leitores em números minimamente redondos que já tiveram, descobrirem que afinal, fora os compinchas do costume, eram visitadas dezenas e centenas de vezes ao dia por um só sádico com um desmultiplicador de IP's(?!) e, se necessário, múltipla personalidade comentarista (isto não é uma confissão e não pode ser usado contra mim pelos termos de uma certa lei, que eu digo que cá sei), ou então todos os leitores do clube de fãs LMO (get your bras ready) a lerem o seu blogue apenas a partir do computador da sua sede para não lhe coarctar a veia self-deprecationist e eventualmente danificar o equilíbrio ecológico da sua prosa. Por outro lado, isto materializaria a maldição ignota inscrita nos anais da idolatria universal: ter-me como groupie. Acho que nem o LMO sobreviveria a isso (I have my "bro" ready). Dadas as consequências devastadoras desta configuração secreta, só posso acalentar que, para seu próprio bem, tenha escapado um algarismo no sitemeter.
Quanto ao desafio em si, de uma lista de intepretações mais impressionantes of all-time, que por acaso até era o mote do post, que não a contabilização de leitores, eu estava naturalmente tentado a dar seguimento à subliminar veia absolutista e repentista que requer para a contabilização dos leitores d' As Aranhas a resposta expedita (a minha indolência sente-se pois desconsiderada) aos convites para alinhavar listas. Infelizmente, para lá da minha proverbial ignorância e incapacidade de seguir qualquer princípio organizativo, estou limitado pela incapacidade da minha compulsiva adesão epidérmica a um personagem ou persona em divisar esse hiato entre um actor e a sua criação encarnada onde lavra a interpretação, bem como pela bendita decadência da minha mirrada memória, que permite à parte remediada do meu cérebro convencer a parte irremediável de que se não tenho vida sexual é apenas porque não me lembro da vida sexual que tenho.
Assim sendo, a única coisa que muito a custo posso evocar, é a última performance mais impressionante de que tenho memória. E aí, para manusear um cliché cinéfilo recente, assim perdendo a minha reputação mas no mesmo passo em que finjo que tinha previamente uma a perder (um passo atrás para dois à frente, see?), devo dizer que a coisinha mais assombrosa a que (seguindo o formato), às 23:53 de 17/8/2007 me lembro de recentemente assistir, foi o Henrik de Börje Ahlstedt no Saraband. A sua transição de registos, da candura ao ódio sem senão, sem qualquer barreira divisória escolástica na expressão, na prodigiosa conversa com a Liv Ullman na igreja, e a humilhação infantil na face de Erland Josephson, dão um vislumbre abissal desse interno turbilhão nuclear onde todas as emoções se mesclam e colidem violentamente sem compartimentação. E em boa verdade, o facto de ser a ruína de homem mais comovente, e que toca Bach, dos últimos tempos, também ajuda (e claro que não, não me esqueci do incesto vagamente pedófilo: mania de julgar que as ruínas são bonitas...). É verdade que também me vem à cabeça o Ventura, na Juventude em Marcha (não consegui ver o Tarrafal), mas que é acima de tudo uma presença. Também por causa disso me lembrou o Frei Nazario Gerardi, «Francesco Giullare di Dio», ou, até só na indescritível cena em que é santa e impassivelmente esbofeteado pelo tirano, o "Irmão" Ginepro, de quem, muito justamente, nem encontro nome enquanto actor (que também o não era, mas sim frade - a presença, lá está). O que igualmente me leva a crer que deveria acrescentar-se, ao arrepio do facilitismo condecoratório dos festivais (dar o prémio a toda a gente), uma categoria para a interpretação colectiva mais impressionante, onde, provavelmente, para lá daquele bendito grupo de frades, o que me salta à mente com mais força seria a trupe fordiana agregada miraculosamente como um corpo simbiótico (precisamente a estiolar quando o equilíbrio das suas relações se compromete) no How Green Was My Valley.
Já quanto à categoria feminina, porventura pelo meu exacerbado egocentrismo, confesso-me de uma notória misoginia na apreciação artística: quase só homens, em qualquer meio de expressão, me interessam (a tal facilidade primária de adesão emocional). De qualquer forma, não creio que, assim de repente, qualquer lista possa não ter um lugar cativo para (novo cliché, desta feita sem gancho de redenção) a Katharine Hepburn. Poria talvez a hipótese do Philadelphia Story (e quase se habilitam a que ponha o tio Willie na lista dos homens: that's the kind of emotional sucker I am), onde impressiona principalmente por esse prodígio que é uma espécie de meta-interpretação interpretativa (estou a exagerar?): dar a ver não a mutação diacrónica de uma personagem, mas todo o recorte geológico da densidade sincrónica da personagem de que se faz a própria personagem personagem, e ambas serem visíveis e cristalinas no mesmo e único momento interpretativo.
Ehr, acho que vou parar agora...

Ou não...
Nota1: com o meu irredimível viés presentista, imagine-se, o que me vem agora a cabeça é o Dexter Gordon no filme do Bertrand Tavernier de que não me apetece procurar o nome (a cena onde narra um sonho de deranged jazzman ao psiquiatra e ao sair diz ao seu our man in Paris "nada mal, hein?", é nada pouco um assustador prodígio meta-interpretativo também), e o João César Monteiro, por supuesto, no substancial acto da criação de João de Deus nas Recordações da Casa Amarela. Temos consciência que este critério falseia o norte da lista inicial. Mas é preciso ver, antes da minha ignominiosa desqualificação, que o que o justo Fonda faz no Young Mr. Lincoln é dar corpo interpretativamente à ideia de uma presença mitificada, logo já apenas concebível (interpretável) doravante como in becoming. Portanto crisalidamente presentista. That's all I'm saying. (Valha-me São Gregório)
Nota 2: Nina Pens Rode, a.k.a. Gertrud?
Nota 3: não queria pôr o dedo na ferida, e ao mesmo tempo afirmar o óbvio ululante, mas, por favor, Jane Fonda: Barbarella. Frightfully impressive.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Morte por simpatia

Brasiliana para Michelangelo
(um'outra) Sarabanda para Ingmar

terça-feira, 31 de julho de 2007


Rerun

Já Antonioni é um homem de sorte: ainda que lhe colem o hínico epitáfio de «figura de relevo no panorama cinematográfico», não chega a ter direito aos dois centavos de conversinha elegíaca de café no Jornal 2 (dois em dois dias era mesmo abuso, não é?... não têm senso nenhum, estas figuras de relevo, a finarem-se aos magotes). Em compensação, na peça jornalística que lhe arruma as gavetas, a particularmente enfatizada descrição inicial de Blow-Up (até à pausa de compasso do discurso para passar à «cena de ténis»), é apropriadamente acompanhada das imagens da explosão final de... Zabriskie Point ("blow-up", get it? ah ah - e esta é a hipótese abonatória). Deve ser o que jornalisticamente se entende por liberdade criativa em registo literal. Deve ser pela mesma razão que tenho andado aqui estes dias a imaginar a eclosiva mansarda sita num sítio que eu cá sei na 5 de Outubro.

segunda-feira, 30 de julho de 2007


Agonizing miscasting

A érretêpê dois, casa de excelência do serviço público, faz o grande obséquio de entrevistar alguém no Jornal 2 para dar uma perspectiva mais alargada de Bergman. Alguém director de uma tal revista "Première". Alguém apresentado como «especialista em cinema». Que começa a titubear as etiquetas coladas 'popularmente', quase iconicamente, à filmografia de Bergman, pelo menos, em Portugal, desde a década de 70, quando começámos a brincar à vida intelectual democrática (o Ivan Nunes gives out the ideia de algum desse, de facto, peculiar impacto). Que persiste no estrangulamento generalista que incentiva a senhora jornalista a insistir na questão inaugural "mas em que é que se baseia essa singularidade de Bergman?". Que regurgita os "casais", as "emoções", o "intimismo" (ah, o intimismo). Que bate na tecla da influência sobre Woody Allen duas ou três vezes, porventura to 'connect' with the 'young people' out there. Que até fez o trabalho de casa para afiançar ufano, a sustentar a 'tese' dos "casais" como nicho temático do cineasta, de quantos casamentos e filhos foi o senhor co-produtor. Que, já chegando à menção inevitável de Saraband, à hélas inoportuna menção da jornalista de Liv Ullman como protagonista, lhe repete o nome "sim, com Liv Ullman", e se sente na obrigação de lhe acrescentar o outro nome que se impõe, "actor fetiche do realizador", assegura, e perde dois segundos a entaramelar o nome que não sai (não serei eu a ditar se legitimamente ou não), e em vez de pelo menos se quedar pelo assumido esquecimento, opta por lançar um qualquer coisa (que não Erland) "Jacobsen", porventura "Jacobson" (sejamos justos). E se o cavalheiro se sentiu à vontade para, ou obrigado a, aceitar a encomenda do bitate infra-wikipédico, até pouco me interessa. Eu peço desculpa, mas o que gostaria, oh pá mas tanto, de saber é se, seja lá quem for que chama as pessoas à mesa da conversa no Jornal 2, não sabia o que lhe saía na rifa (e não sabia quem chamar para saber o que lhe saía na rifa - e esta é a hipótese abonatória); ou se era precisamente um apontamento jornalístico sem chatices, sensibilidade e reflexividade, que lhe interessava registar como testemunho neste dia; ou se não havia absolutamente mais ninguém disponível, pelo menos das duas mãos-cheias de que até eu me lembro de repente, para falar, caramba, cinco minutos sobre Bergman como se, eh pá, coloquemos a hipótese, fosse algo mais, ou suscitasse algo diferente, do que uma entrada num dicionário portátil de cinema. Críticos com bagagem. Gente do cinema. Um velhote à porta da Cinemateca. Just anyone.
E fico à espera de verificar se amanhã (hoje nada vi) passam algo a fertilizar a memória, como costumava ser prática do canal nestas ocasiões (em geral, no próprio dia...). Um filme. Um documentário. Just anything.
Mas é óbvio que estou a ser afogueadamente injusto. A RTP 2, na sua complexa intervenção cultural, apenas nos queria dar subtilmente a perceber que se insistimos na negação memorialística da mortalidade, é para que nunca tombemos na tentação confortável de julgar e facilitar que um vívido legado de faca no ventre possa vir ser reduzido a redacção de escriturário.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Recado a Lisboa


Começar por um pouco menos de brio presuntivo na casa de partida.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Liquidação

Há quem empregue o blog como caixa de ressonância. Eu gostava de pensá-lo como estação de reciclagem, sem o subproduto justificatório do processo sobre-industrial. O que tornava a bloga equiparável à acusação patologizante, favorecida pela persuasão romba dos contra-ciclos, de ambientalismo acéfalo. O que até há pouco tempo se apunha com bastante fidelidade topológica ao recorte da apreciação mediática de ambos os fenómenos. Mas o intimamente recompensador da metáfora (pseudo-reflexividade infra-pública leva-a o vento) seria finalmente tornar a bloga uma forma particularmente retorcida de desperdício virtuoso.

Dancing about architecture

« “Writing about music is like dancing about architecture”. O aforismo é conhecido e disputado. Mas com a graça das proposições que incorporam formalmente as sementes do seu plural contraditório (tornando arena para obtusos o arremessá-las como argumentos fechados e conclusivos em disputa), o escrever música como quem dança sobre arquitectura, como é o caso desta obra encomendada pela Trienal de Arquitectura a Mário Laginha, torna o fechamento em absurdo do discurso sobre a música uma abertura sobre o discurso da música sobre si mesma.
Convém reconhecer que, a não ser meramente fruto de feliz acaso, a encomenda revela olho. Porque o, parece-nos que nunca devidamente louvado, Mário Laginha é manifestamente dos pianistas de jazz que mais tem expresso um saber peculiar de jogar com as dimensões e o peso estrutural da música, particularmente nas suas dinâmicas de saturação do espaço e a sua modulação harmónica. Dada a ductilidade subsumida do seu fraseado, não resulta impositiva, mas é singularmente manifesta a composição gráfica das suas estruturas harmónicas, oblíquas e esquinadas nos padrões rítmicos, mas estranhamente suavizadas pelos contornos matizados das linhas, algo sumamente expresso nesse ainda saudoso, logo, clássico, seu disco de estreia a solo «Hoje». E se é facto que a música precisa pouco de metáforas a enxameá-la, circunscrevê-la e torná-la de fácil digestão ao ouvido desprevenido, e não se precisasse de insistir na justificação explícita do raciocínio arquitectónico na erecção desta música, insistir um pouco mais na matéria torna-se, neste caso, curioso. É que essa fortíssima dimensão espacial, particularmente no seu trabalho sobre as massas harmónicas, vai-se diluindo pouco a pouco ao longo deste disco, para dar mais a ver os alicerces dos seus referentes. Ainda que não subjugado a uma submissão programática, é algo irónico que a sobrepujança da referenciação arquitectónica, manifesta nos títulos das composições, o tenha conduzido mais a uma rarefacção das figuras musicais que à sua expansão. Sendo justos, contudo, isso também corresponde a um alargamento da paleta das suas convocações musicais, ao arrepio da forte idiossincrasia já lhe havia criado uma personalidade estilística. «Plano» abre como uma folha de jazz impressionista perdida dos Prelúdios de Debussy, e «Baixo-Contínuo», sem precisar da denúncia do título, põe na malha diabólica de contrabaixo de Bernardo Moreira um evidente referente barroco.
Por essa paleta referencial perpassa igualmente uma maior aproximação à dimensão de obra composta, tornando mais ambiguamente esparsas as balizas jazzísticas do empreendimento, o que a restrição e arcaboiço estrutural da secção rítmica dos veteranos Bernardo Moreira e Alexandre Frazão bem ilustra. Uma palavra nos pedem os acabamentos da bateria de Frazão, particularmente, justifique-se a janela para outro canteiro, pelo que lhe ouvimos (e vimos, densificando a dimensão gráfica da experiência musical) no concerto de apresentação do disco. A pluralidade sensitiva e tímbrica da sua intervenção de pormenor, peculiarmente nos momentos mais contidos de lirismo fusco (não a nossa senda favorita do seu labor), arrisca por vezes uma riqueza de afago instrumental com uma sensualidade quase temerária.
Obviamente, se as metáforas podem ser restritivas na apreensão menos mediada da pura audição, por vezes também cumprem o propósito de lhe dar outras asas. O que implica que a atenção ao referencial comparativo das noções espaciais na estruturação deste disco resulta perfeitamente opcional para degustação selectiva. Mas para quem quisesse insistir na metáfora do absurdo, a justeza imagética na tradução espacial das suas composições (bastando seguir os títulos, como «Paredes que nos Rodeiam», «Escada», «Vazio Urbano») tornaria este disco um patamar eloquente do cruzamento discursivo que perpassa a liberdade elusiva das estruturas musicais. Porque, até ver, também que raio é dançar senão jogar o movimento sobre constrangimentos arquitectónicos, do espaço e do corpo? Mas isso aproximá-lo-ia de um disco de tese, parcialmente condicionado a testar uma hipótese. E se essa parece exemplarmente comprovada, queda ajuízar se por aí se justifica esteticamente o empreendimento. E aí se erige um espaço que fica finalmente a cargo da emancipação imaginativa de qualquer um trespassar na sua fruição, ou falhar na clausura da materialidade arquitectónica da pauta. De qualquer forma, provavelmente a resposta definitiva (outra ficção arquitectada) ficará pendente dos espaços em que a mutação idiomática de Laginha (mais significativa que o que lhe tem sido apontado) se continue a instalar, mais exactamente, da linha de fuga (para seguir no idioma) em que a idiossincrasia lhes transcende o motif da armadura.
Da nossa parte, suspensos nesta ponte do arquitecto Laginha, à espera do que aguarda da outra margem, só nos cabe cogitar que, se tanto música como arquitectura tentam iludir no seu plano a fixidez denunciada das traves-mestras, tornar consubstancial a música à metáfora (e saber se primeiro veio a metáfora ou a música é discussão digna dos ovíparos galináceos), e não somente explicitá-las como dimensões que se implicam, pode arriscar, para a sua plenitude desagrilhoada, exigir do auditor a disciplina de um Method actor, a quem se diz ao fazer girar o disco: “agora ide para aquele canto e não penseis numa parede”. A sério, ide. Depois direis de vossa justiça. »

J., l'encore plus fataliste? (2)

Sofrer é a panaceia?

J., l'encore plus fataliste?

De tanto nutrir uma perspectiva trágica da vida, acaba-se com uma perspectiva vivida da tragédia?

( )

Como se faz, quando se não tem palavras, quando não é comunicável na circunscrição da aceitação social o que corrói a nossa pertença a nós. Acolitados na invocação de almas outras dizia-se sing a song. Mas o que se faz quando até a voz se tolhe, quando já não ecoa a nossa vibração a ressoar nas cordas de outrém que melhor nos disse? Esgravata-se a memória das canções desses dias, à procura do consolo de um fogo que ardeu nesses dias, cujas cinzas colhemos e lembramos que cantava, como se fora hoje esses dias: «silence is here again, tonight». Porque já nem o silêncio é nosso para dizer. Essa memória é a dissipação do nosso dia.

Clamorosa e obviamente, non-Sigur-bela-merda-Rós-related

Kinky recordings

Dentro da inquietude claustrofóbica, não é sem um expiro de reconforto, pela possibilidade de subsistir nas temíveis clausuras das tipologias que insistem (e nas quais insistimos) em encerrar as ontologias e desejos de otherness, que se constata, em metáfora parafílica, que no plano das inclinações musicais seria possível subsistir perfeitamente bem como chubby chaser.











Duas luminárias rechonchudas com um mesmo fetiche por essoutro génio de sua anafada compleição...

Coincidence? I should think not...

Da incoerência virtuosa dos idos

Embora (porque) na plena indiferença democrática nunca tenha simpatizado com nenhuma das tribos urbanas a palmilhar calçadas nos idos de 1980's, não deixei de debicar do que dependuravam das aparelhagens (nem todos têm os seguidores que merecem...). Lutando contra o descrédito que lhes pesa do discipulado gótico que os idolatrou, portanto, continuo hoje a achar que os Sisters of Mercy (sim, abrenúncio) fizeram dois álbuns e uma mão cheia de EP's bestiais, e ainda me recuso a arrumá-los na gaveta dos guilty pleasures (embora tenham estado na gaveta dos old time pleasures, o que é muito diferente - quando os de lá tirar, se for caso, logo volto a dar notícias).
Contudo, recentemente tropecei num achado arqueológico da maior importância para amparar a tese da boa verve que animava as irmãzinhas à época (para além da recorrente derivação coheneana da própria nomenclatura e outros títulos - e.g. "Some Girls Wander By Mistake"): descobri uma inacreditável de deliciosa cover pelas piedosas, do "Gimme Gimme Gimme" dos Abba. Aqui vos juro que no meu disco rígido, para alívio possível das horas de desanuviamento em que me posso conceder maus fígados, whenever I like it, posso pôr o soturno Eldritch dos perenes óculos escuros a trautear «Gimme gimme gimme a man after midnight».
Não deixa de ser revelador da mais que disponibilidade, mas diligência, absolutizante de massas, que tantas agremiações difusas tanto se empenhem na farpela de um modo de vida total, ao arrepio da iconoclastia dos próprios presumíveis chefes-de-fila (presumivelmente, quando ainda, ou já, se podiam dar ao luxo). Ou de até que ponto a sagração/invenção moderna da individualidade não foi demasiado confiantemente (voluntariosamente) tomada por um dado aquirido de processualidades sociais de (auto-)identificação bem mais retorcidas. (senhores...)
(Sendo que ceci n'etait vraiment pas un post sur le livre de style de la nouvelle droite idéologique portugaise )

Warhol Update (on the prowl, celebrity-reversal mode)

For the benefit (não é homenagem ao exasperante Sgt. Pepper's) da minha autoridade cínica, ficou, na instância de um concerto mui caseiro deste simpático e imponderável casal de mórmons, claramente comprovada a minha reticência existencial à idolatria, por mais que justificada (justificada mas, e porque, sempre improducente: um obcecado na minha cercania carregando TODOS os livretes dos CD's, EP's e folhas de papel higiénicos resgatáveis dos seus ídolos, para o autógrafo, não paráva de balbuciar colado às cavidades nasais da Mimi - we're that close now - quanto gostava deles mas "o primeiro disco é que era" - 13 years down the toilet, portanto (não que, incidentally, não seja defensável a tese, em registo diletante)).
Dado o voluntarismo do Alan - buddy - em sentar-se à beira do palco para a cerimónia informal de devoção, lá me aprocheguei com um livretezinho (pronto, dois, vá, e o bilhete, já agora, indultado no abuso pela proximidade de alarves profissionais), e como criatura diligente entreguei-lho com o livrinho do Arseniĭ Tarkovskiĭ que tinha comprado no dia anterior no barraco de promoções da Assírio, para lhe amparar a assinatura (portanto se comprova que eram mesmo só dois livretes, quantidade sem massa crítica (porque não enfardados com letras nem statements artísticos) para amparar esferográfica, OK?). Findo o ofício, o bom do Alan fica a avaliar o objecto livresco que bizantinamente lhe havia deslocado para as mãos, folheia, estranha, e finalmente desagua na interpretação «is this for me?». A isto (momento da verdade XVI), com um despudor aflito de egotista estratégico que hoje me cobre de vergonhosa vergonha, digo com a frivolidade gélida de quem finge o como quem não quer a coisa, que "oh... that was just for holding the...", ao que ele me entrega o livrinho.
Escrevo-vos, portanto, qual Frankenstein da minha própria bestialidade, atormentado com a plenitude operacional do meu celebrity-reversal, a ponderar a eventualidade de ter deixado cativa do meu gesto a celebridade original deste jogo social, denegando-lhe a reciprocidade de uma recordação. Em compensação, e com a magnanimidade do meu new-found-status de celebridade revertida episódica, deixei-o com uma dedicatória oral inspiradíssima de simples e eficaz (que não desvelarei para que a não prostituís por aí, empresa de que me encarregarei pessoal e exclusivamente com a diligência martirológica de acartar o fardo do homem comum), com o grau certo de elusiveness, que o fez estacar, agradecer-me com olhar intrigado, e já estava eu a virar costas ainda acrescenta «have a good night», com aquela réstia (que se sabe frustrada) de retenção do momento, tipo, that guy could have something important to say, estão a ver o género?(não tinha nada...). Suspeito que pode ter sido o ícone russo (para mórmon, ortodoxo e meio) na capa que lhe pode ter promovido a hermenêutica da ambiguidade do gesto.
Mas é preciso matizar o meu materialismo individualista: já andava em busca oficiosa do livrinho há bons tempos, em parte pela intervenção biográfica fulcral da obra do filho na minha vida, descobri-o nas promoções amontoadas de 3 euros (preço justo), e antes de lhe pegar sequiosamente ouvi a menina do barraco a responder que sim a um cliente que lhe perguntou se era o último exemplar e não o levou (destino chapa-três, portanto). E o que se aprende amargamente nesta configuração cósmica é que, em certo sentido, uma pechincha de 3 euros pode ser uma preciosidade muito mais valiosa que _fill in the blank que eu ainda estou demasiado traumatizado com a minha vileza para racionalizar_.

Disclaimer: Alan, Mimi, acalmai-vos, apesar de não estardes a perceber patavina (just trust my soothing voice and excess of parentheses - dangerous maniacs are straightforward maniacs), a mirazita na foto é da minha inteira responsabilidade, não pretendendo contudo mais que formalizar graficamente um dispositivo metafórico, proveniente de arguição precendente na matéria, da predação simbólica de processos de proximidade na zona cinegética da notoriedade pública. A vossa integridade física está inteiramente segura comigo, por muito pulha que seja: não é por acaso que há um mandamento exclusivamente dedicado ao homicídio: os pecadores não andam a saltar em trejeito esportivo por todas as coutadas de infracção, valle? Pelo menos eu não. Mal tenho genica para um. Ao contrário do que rezam as loas da virtude, la paresse fait le bon'homme.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

When I Go (...)

Não a canção em bruto, mas a canção nascitura já em cinzas. A guitarra tangida não pela vontade do pulso mas pela queda em peso morto da mão sem músculo que resista. Um épico exaurido em três acordes só para se dizer falhado. O oxigénio sugado do espaço já sem reverberação, sem escape, sem as asas falsas de um estribilho. A voz que não se presta já à teatralidade de suster a nota. A música em falência, que já nem quer tentar, a dor sem arte, sem transcendência ou redenção. O som cru, ressequido, do corpo encarquilhado, preservado numa eternidade artificial emanada de um pesadelo de drones infindo. Bem parecia que há muito não era pela música que ainda insistia em ouvir. Amanhã is as good a day as any to keep letting go.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Reverse Warhol

Por certo que, estando algumas das criaturas a perder o bom senso de se manterem nos respectivos redis, tenho a minha quota parte de doubtful and minor celebrities sightings. Todavia, nunca me senti muito confortável a fazer o cerco aos bichos, e das poucas oportunidades em que o terreno era de tal forma favorável que seria uma ofensa ao espírito dos antepassados deixar a presa escapar, senti (punho no peito) uma certa desilusão com a minha mock idolatry, porque a verdade é que o encontro sempre me deixa largamente indiferente, e a exposição mútua (là, nous sommes pareilles) ao desconforto do matching outfit das presumíveis camisas-de-forças interaccionais de ídolo-idólatra torna-se uma pequena concessão abjeccionista à escatologia da fama.
Claro que levanta-se igualmente o problema da porosidade e contingência potencialmente dramática (para os próprios) do que constitui efectivamente uma celebridade. Dificilmente se pode dar crédito aos meus pruridos retóricos da caça à luminária estando a generalidade dos seres algo pensantes a borrifar-se para quem são (eu próprio tive que ir verificar parte dos nomes da unwilling pandilha) Mike Sary, Steve Fuller, Nicolas Masino ou Renate Knaup (e esta ter-me dado um autógrafo fugidio com "love" e o meu nome lá pespegado, quando, pelo fugidio, só esperava uma assinatura para poder vender no e-bay em caso de carência futura, fez-me sentir-nos bastantes conspurcados por uma espécie de mercantilismo emocional - alienação não tão pós-marxiana - com a desvantagem da assepsia); ou tendo eu como trauma por deflagrar, a probabilidade de, tendo sido arrastado em grupo de méconnus do cavalheiro para o assédio pós-concerto, o Odair Assad ter reagido com um mal-contido "Pelo amor de..." ao meu desconfortável salamaleque para assinar o programa (estou certo, porém, que foi apenas um acesso espontâneo de religiosidade); ou, apesar de ter participado na emboscada à boca do palco, a bem-educada relutância do Hammill à adoração tendo propiciado ser um amigo, e não eu, a arranjar-me o autógrafo (num hábil dois-em-um) do cavalheiro num LP; ou também, tendo descoberto que o vinil do "Olho de Fogo" do Janita que comprei num mercado estava autografado para uma A.M., para mais "com um abraço forte do Janita"!, o que me fez novamente lamentar a potencial frivolidade destas sígnicas (presumíveis) afeições; ou, principalmente, desta feita, já não sabendo minimamente a quantas ando. You figure it out.
Portanto, no meu little corner of the world de misantropia ressabiada, a escala Warhol de contabilização de close encounters de mundanos com celebridades, só pode, para minha paz de espírito, ser encarada como uma wanna-be falácia (estou cônscio da contradição) travestida de cosmopolitismo algébrico (razão pela qual vou sobrecompensar continuando a chafurdar-me em ainda mais assorted anglicismos). Abro uma excepção na minha desdenhosa mesquinhez, quando muito, na eventualidade de alguém se poder gabar de ter feito cosquinhas na barba do Herberto Helder.
Agora, the real game, the big game, Hatari-style, if you will, são de facto, o celebrity-reversal e o celebrity-uncovering.
O celebrity-reversal consiste, naturalmente, em tornar-nos o objecto da atenção da celebridade, desconstruindo a falácia da necessária unidireccionalidade desse campo de energias. Para evitar potenciais trágicos na sequência de semelhantes intentonas, obviamente que a reversão tem que estar ancorada nas excentricidades inofensivas do self, não impondo dispositivos coercivos de encarcerar essa atenção, ou será desqualificada por emprego indevido de meios artificiais e improficientes (qualquer forma de imolação, por exemplo, não dá as mínimas garantias e seria, argumento-chave, francamente patético).
Um exemplo clássico da minha mestria nata nesse campeonato, por supuesto mantendo-nos no pressuposto facilistista-faz-de-conta-que-é-desconstrutivista do "que é uma celebridade?", foi ter-me deparado, numa casa de espectáculos (chamemos-lhe assim) enquanto se aguardava o início de um concerto e se ouvia umas tunes, com uma vaga celebridade parcialmente blogosférica, com a mal-disfarçada volúpia incrédula de quem descobre em outrém um objecto de ridículo superior, especada em mim, após este vosso ter terminado no seu cantinho um intimate albeit somewhat public playback sonoro do «Pleasant Street» (com o falsete e as oitavas todas espremidinhas). Mas tende calma; ainda que este cenário ameace tornar atractiva a hipótese da imolação, o seu poder é precisamente o de sinalizar no corpo, mimeticamente, o quanto a substância da fama, particularmente nos escalões mais rebarbativos, não se encontra necessariamente geminada com qualquer forma de talento, e que realmente, não se discerne, ao assistir novamente ao "Silence of the Lambs", que constitua feito distintamente assinalável o Anthony Hopkins passar um filme inteiro a imitar um furão.
Já o celebrity-uncovering, emana a sua recompensa, no registo são e maduro de auto-confiança (do predador) e liberdade pessoal (da presa), da incorporação de uma familiaridade desinteressada com o objecto de atenção que permite, em condições ominosas, sermos atingidos pela epifania da sua identidade secreta, e deixá-la seguir anonimamente o seu caminho (como quem caça sem balas no rifle, mas na verdade não caça, apenas se depara com a presa, e por acaso tem o bacamarte à mão, mas não é gente belicosa) - obviamente, na disposição perfeitamente oposta ao jeito pueril que desconhece as fronteiras do obsceno, epitomizado na triste caça fotográfica ao recôndito Pynchon, comentada, por razões óbvias não direi exactamente onde, mas algures por, onde mais?, aqui, em jeito de expiação colectivizada pelo leitorado cusco, caçada essa que ironicamente acabou por trazer antes o Stephen King, que é como quem diz o Lou Reed, de volta para o acampamento, o que tornaria simbolicamente a Pynchon-Cale connection um campo de especulação existencial de proporções comprovadamente inapreensíveis pela patética semiótica da money-shot).
O caso mais recente que me ocorreu nesta modalidade, curiosamente, foi avistar um sujeito de chapéu de coco a admoestar o gerente da fnac do Chiado pelo facto incompreensível (indeed) de não terem uma edição em vinil 180 gramas da obra-prima proto-punk-prog dos Happy Guillotineros; a oferecer os seus préstimos na Bertrand para traduzir o «Against the Day», a preço de custo(?), em semana e meia (e não era o Miguel Serras Pereira), para "colmatar essa chaga purulenta, no já de si macilento - saggy, na verdade, poupo-vos à metáfora original - panorama da edição portuguesa"; e a dar um bacalhau ao Rui Veloso no pub O'Gillin's, desabafando, enquanto meneava a cabeça, "somehow, it's not the same..." (embora ao chegar a mince pie à mesa se lhe tenha ouvido, em suspiro de alento, "closer...").
Entretanto o Herberto que se ponha a pau, e a farfalhice a jeito: he's coming next...

Space Jazz With Me

« Está assente que o Carlos Barretto é dos contrabaixistas com c grande que dispensam mais adjectivos, por isso já poupámos umas linhas. A partir do trabalho prolixo que tem vindo a desenvolver em parceria com os nada menos estimáveis Mário Delgado e José Salgueiro, têm emergido alguns dos registos mais estimulantes do jazz recente em Portugal, e este agrupamento mais expandido e plural, In Loko, com Bernardo Sassetti, João Moreira e Hugo Meneses, pretende estender esse entusiasmo por mais instrumentistas e tantas outras vias expressivas.
De ambição sincrética no cruzamento de estilísticas, a genealogia do projecto aparece pela linhagem do jazz-rock, mais, diríamos, do que da fusion. Pelo menos, sendo esta entendida como lavra de virtuosismo tantas vezes estéril. Em certo sentido, há muito mais um entendimento musical do trabalho sobre o material e o puro som que está mais próximo da ambiência genésica de “Bitches Brew”. Particularmente assim é, et pour cause, no trompete de João Moreira (em certo sentido, o músico que ali se levou a si próprio mais a sério), num estilo subsumido, algo distanciado, e sim, a dar para o cool, que não deixa de evocar o timbre de Miles Davis. Contudo, num ensemble mais democrático, as equivalências cerceiam o mimetismo, e antes de mais, este In Loko impõe-se, bem mais musculado, como uma máquina danada de groove, desde logo alimentada pela secção rítmica firme de Salgueiro e a variação tímbrica das percussões de Menezes (com o feel das congas a não faltar). As síncopes e sentido de adesão rítmica (típicas das malhas sempre irrepreensíveis de Barretto) tomam as rédeas dos temas, apesar de no seu desenvolvimento a voracidade dar azo a reverberação rock (que só dispensavam a denúncia pelo kitsch das luzes epilépticas), emanações psicadélicas e investigação atmosférica. Curioso, aqui, o scherzo cósmico entre Sassetti no Fender Rhodes e Mário Delgado na guitarra tratada, numa palpável constelação de blips.
Nesse domínio de exploração tímbrica, se não pudemos apreciar plenamente a arte de Sassetti, muito longe da sua contenção recente, foi indubitavelmente lúdico assistir ao prazer visivelmente juvenil com que abraçou a novidade de explorar o teclado futurista e lisérgico do Fender Rhodes, em jeito ora de frenesim harmónico, ora de impressionismo esotérico.
Também nessa sede exploratória, deparamo-nos com a incorporação de tratamentos electrónicos das vozes instrumentais, multiplicando fontes de reverberação e surpresa. A novidade resulta indecisa no juízo: por vezes, o tratamento, pelo menos ao vivo, pode arriscar interferir com a fruição do fraseado, como ocorreu ocasionalmente com a guitarra de Delgado (para nossa particular frustração). Quando é incorporado num desígnio estético peculiar, contudo, os resultados podem ser muito felizes, como quando Barretto (ainda que tendo que compensar a quase interrupção do andamento para ligar ruidosamente o pedal), ampliando em eco a vibração do instrumento, e combinando no uso do arco legatos e staccattos percutidos, transformou literalmente o contrabaixo numa máquina lírica de breakbeats.
Parece razoável, no entanto, antecipar um cuidar mais atento do organicismo da exploração, que não deixa aqui e ali de abraçar estranhamente certas convenções (solo de bateria incluso), e não ligar plenamente o fluir das transições, criando, a espaços, um certo clima de indecisão, que sendo prazeiroso no gozo com que os músicos manuseiam os instrumentos, nem sempre favorecerá a textura da interacção (daí porventura a necessidade ressentida de manter canónicos compassos de improvisação solista), e pode não ser propriamente o patamar de identificação estética com que se querem comprometer. No fim de contas, o cliché cumpre bem o que se oferece dizer: a coisa promete. »

sábado, 26 de maio de 2007

When all else fails...

we'll still have videogames

...

ooooooor "we can whip the horse's eyes and make them sleep and cry"...


(não, para o caso de a Associação de Defesa dos Animais não ter na lista de espécies a proteger o Lizard King, esclareço antecipadamente que não fui o moçoilo do Equus. Quanto mais não fosse por diferencial anatómico (sei que já estou a abusar, mas é por uma causa medíocre). Falo do filme, claro, Sidney Lumet, Richard Burton, e tal (humm, neste "tal" alojando-se velhacamente um actor sob a alçada, intransponivelmente parca, no matter how high your hopes, do seu big penis), não da mais recente e famigerada encenação da peça. Apesar do vago corrupio internético de fruição vagamente iconoclasta que se contenta com o fecho éclair em lugar da picareta, escapei a espreitar lá o que ocultavam as culottes do ex-miúdo Harry Potter pelas fotos que para aí correram. Antecipo que mesmo em indiferença libidinal, a visão da exposição não deixaria de sugerir que me sentisse algo porco. Se o passado é um país distante, leva o seu tempo a lá chegar, e enquanto se afasta esfuma a liminaridade das fronteiras)
(e sim, nego à partida uma zoofilia que desconheço)

domingo, 20 de maio de 2007

sábado, 19 de maio de 2007

Para o Vasco Barreto

Não me dou bem com polémicas, particularmente com escribas que aprecio. Presumia que o comic relief do post anterior evitasse mazelas, mas suponho que do lado da recepção tal possa legitimamente ser interpretado como mera cobardia retórica. Nestas coisas, uma palavra, um tom ambíguo bastam, e não terei cuidado suficientemente de evitar a possibilidade de personalização(que não era a intenção, apenas acordei para a discussão com os seus textos, e neles vislumbrei matérias não questionadas). Precisamente por isso, deixo apenas umas notas concretas sobre a matéria:

- a picardia da pulga, é de facto uma picardia, que se ajustava ao argumento, não a uma sua qualquer reivindicação explícita de autoridade. Contudo, a pulguinha de Hooke, para lá de um marcador temático, assinala a familiaridade do autor com a área da biologia, investindo-o, por definição, com autoridade credencial, critério que outros consideraram quasi-excludente nesta discussão (it's really not all about you). Mas não deixou de ser na base da neutralidade científica (aqui metonimizada pela estatística) que pretendeu ancorar a validade os seus argumentos (digo eu). Claro que só leitores mais aturados ou fiéis o saberão biólogo, mas aí, essa é condição pela qual não encontro grandes razões para me vitimizar, ainda hoje.

- assinala em mim uma retórica de vitimização e anti-homofóbica. Não recordo ter-me reivindicado ou encarnado vítima e/ou afiliado de nada, e não entro em discussões racionais com declarações de interesses (preconceito iluminista). Poderá a sua semiologia estar mais afinada que a minha. Se assim não fosse, esse seu descartar de certos argumentos soaria a, chamemos-lhe, retórica de vitimização invertida, óptima muleta de desconsideração e menorização argumentativa de outrém, como irredimivelmente refém de fidelidades grupais e interesses individuais. Seria bastante desadequado para a pretensão de argumentar racionalmente, ainda que o interlocutor não valha o esforço. Quanto a isso, e ao mais, seria o último a fazê-lo sentir-se obrigado a dar-me troco: não pretendi forçar argumentos inanes com a pressão de qualquer righteous indignation (era mesmo comic relief). Se foi essa a sua impressão, o que tem a fazer é, logicamente, ignorar-me à discrição.

- se efectivamente tivesse encarreirado numa vitimização, e discussão de explicitamente hidden agendas discriminatórias, teria pegado à cabeça na, aí perdoe, triste "graçola" do último parágrafo do seu primeiro post sobre o assunto, equacionando jocosamente (partilhamos pelo menos o problema do comic relief), em termos paralelos, a homossexualidade e, lá está, uma plêiade de comportamentos de risco - se o Vasco Barreto verifica com inteira justeza que nada de novo eu disse sobre grupos e comportamentos de risco (era chato não estar a fazer render pensamento inovador para lá deste pardieiro), a sua piada sugere que, mesmo em repeat, ainda não se ouviu é falar o suficiente sobre a matéria.

- já agora, porque se estou aqui só pelo desporto, não estou aqui só pelo desporto, uma nota sobre a questão da toxicodependência, que não tinha aflorado, mas vi-o empregar na resposta ao Bruno. A questão da exclusão de toxicodependentes da doação de sangue é certamente discutível, mas parece-me conter matizes menos problemáticos que a exclusão de homossexuais. Em primeiro lugar, estou em crer que o critério concreto de exclusão se prende com drogas injectáveis, não toxicodependência em geral. Em segundo lugar, presume-se que esteja comummente associada à toxicodependência, ao fim de determinado tempo, a degradação de algumas funções cerebrais. Presumo que a capacidade de exercer um juízo de memória e consciência sobre a adopção de comportamentos de riscos (o esquecimento de uma partilha de agulhas em situação de ressaca) pode arguivelmente ser suspeita comprometida. Se agora quiser argumentar o compromisso das funções cerebrais na homossexualidade, é consigo. Já agora, ainda que não seja comigo, não posso deixar de achar curiosa a sua invocação do "então e os toxicodependentes?" para uma discussão centrada na exclusão de homossexuais. Faz-me lembrar, parcialmente, um vago paralelo com as palavras rasantes de alguém, rezando «Noto também que faz parte da retórica anti-homofóbica inverter as posições (colocar os heterossexuais no lugar dos homossexuais, como grupo observado em vez de grupo que observa) mas neste caso concreto não faz muito sentido».

- em termos de argumentos, se ainda contar, uma precisão: o seu, na eventualidade de o ter percebido, consistia em considerar a comparação das prevalências estatísticas da infecção por HIV entre população homossexual e heterossexual, boa ciência para ajuizar da validade de exclusão de dadores homossexuais caso haja risco estatisticamente acrescido associado a esse colectivo estatisticamente construído. A questão que pretendi aflorar (pretensões leva-as o vento) estava a montante: saber se a homossexualidade, enquanto forma não inequívoca de categorização dos indivíduos (dos seus actos objectivos? da sua auto-identificação?...), assente estatisticamente em estimativas, e no entanto assumida como categoria "natural", é à partida uma boa variável de correlação com comportamentos de risco, na linha da causalidade directa da infecção; e se a sua aplicação como critério de exclusão num sistema de selecção estruturalmente falível, porque parcialmente assente na auto-exclusão, seria proficiente - e isto estritamente para efeitos de saúde pública. Não repetirei porque opino, sem autoridade (não estudei empiricamente a matéria), não só que não, mas que pode ser contraproducente (sem entrar sequer na questão tida colateral do reforço social de estereótipos e suas consequências, que as tem, como o provável acréscimo dos fenómenos de marginalização e exposição a, cof, situações de risco) - acrescento apenas que a inclusão da homossexualidade possivelmente alargaria as malhas da triagem, não o inverso, enquanto chapéu de comportamentos menos específico e como tal menos susceptível de auto-identificação, que a concretitude da inquirição de variáveis directas de risco (ainda que a mesma também não seja matéria simples). Mas se passou ao largo da sua inquietação com a saúde pública, certamente não passava de frescura de antropo-sociologia.

- ainda a respeito das debilidades da engenharia social do dispositivo de triagem (para mim, a questão sensata de saúde pública), e da correlativa redundância da inclusão da homossexualidade enquanto categoria de auto-exclusão, deixo-lhe as contradições da sua pena, para que meça, e reflicta mais relaxadamente, pelas palavras próprias, o aquém, na sua posição, do rigor de uma regressão linear: «Infelizmente, não podemos fazer com que o sistema dependa do juízo que cada um faz dos seus actos.»; «A verdade é que, em muitos casos, dar sangue ou não é uma questão que o indivíduo deve resolver com a sua consciência.». Em que ficamos?

- anular a relevância de um questionamento dizendo que se trata de um mero cliché ideológico não combina francamente bem consigo. Se o único critério para aceitar a exclusão ou não de homossexuais como dadores é a comparação estatística da prevalência do HIV entre homossexuais e heterossexuais, não percebo (o que não equivale a sugeri-lo, atenção) porque é que, cientificamente (já socialmente, pode argumentar o breakdown dos stocks), o critério não é operatório para ambas as populações: something's missing. Explicar essa diferenciação, parece-me aqui a coisa "científica" a fazer. É tão simples e tão não-cassete-programática quanto isso.

- explicar essa diferenciação consequencial na aplicação de um mesmo critério a duas populações diversas, dizendo que isso se deve ao HIV ter-se expandido originalmente a partir da população homossexual, é não só absolutamente nebuloso para a minha limitada cognição, como implica sugerir que o seu argumento estava colocado numa perspectiva histórica. Sejamos honestos: só com muito revisionismo seria o caso. Logo por essa razão, não lhe podia ter assacado intenções moralistas (a última citação não lhe dizia respeito) - paremos de brincar às vítimas. Mas como ninguém é tão nerd para andar feito catatua a repetir factos à toa, convenhamos que introduzir um facto qualquer num contexto discursivo é feito em função do poder argumentativo que para uma posição determinada desloca. Em relação à invocação do facto no contexto desta discussão, se não quer retirar consequências de proporções bíblicas, parece-me que o sensato é acordar que o facto não veio aqui fazer nada (a menos que se quisesse partir para a discussão histórica - e mesmo aí, a questão não era tão linear, mas era igualmente improcedente, pelo que me fico).

- assinalo a reiteração em loop da minha falta de originalidade (não o sabia critério) argumentativa, incluindo a discussão emanada do seu texto no 5 dias como origem de algumas das ideias que reproduzi. Como seu leitor (there's the bitchy ironic victim again), e do blog em questão, já o tinha realmente lido, mas as considerações que daí me surgiram, teci-as a seu tempo. Vejo que lhe passaram ao lado, e good for you: mais do mesmo. Em nome, quanto mais não seja, da reciprocidade, mesmo com 99% de certeza que não lhe interessarão pevas, aqui ficam