sexta-feira, 7 de abril de 2006

Exorcizar o ser



cindido,
no além que comporta
no aquém do que aspira



(porfiando contra recorrências sem sentido de mal capturável, conto estar em Gouveia no fim-de-semana para ouvir o cavalheiro em raro e precioso recital. Por isso até para a semana ou coisa assim...)
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«Reza a lenda que Peter Hammill foi atraído para a gravação do primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator quando pensava em editar um primeiro disco a solo. Considerando os resultados incomparáveis da empresa Van Der Graaf, será bastantemente consensual a bondade divina de tal desvio. Contudo, tal gesto não abre grande espaço para considerações do género “e se...”, já que as expressões musicais a solo de Hammill se iniciariam pouco depois, ainda na vigência do reinado Van Der Graaf. E é fácil verificar que, mesmo nos movimentos de reacção e aproximação ao espectro sonoro da banda que se podem ler nos seus primeiros trabalhos, a expressão a solo de Hammill se dedicou a dimensões estéticas (sonoras e líricas) diversas daquelas encetadas, concluídas, irrepetíveis e benditas para todo o sempre, com os seus parceiros de inconcebível aventura transcendental. Facto tanto mais fácil de comprovar quanto temos nos seus trabalhos a solo registos feitos com os restantes Van Der Graaf, e que produzem resultados esteticamente outros daqueles que esperaríamos de um disco pelo colectivo assinado. A marca Hammill inscreve pois um outro universo. E, sem querermos pronunciar-nos sobre a lei que dita que as devoções a ex-membros de agrupamentos seminais são uma reza a um deus menor (mas francamente, como é que se compara o que estes senhores fizeram com qualquer outro som humano?), neste registo encontramos uma curiosa revisitação dos Van Der Graaf que nos sugere que não se compara aquilo para que não há termos de tradução.
Saído em 1974, este disco dista cerca de 5 anos do opus 1 dos Van Der Graaf, “The Aerosol Grey Machine”, no qual ainda eram apenas humanos. E contém, para nós, uma das mais belas peças (chamemos-lhe canção, bolas, que nunca foi arte menor, como este senhor que entreviu mais mundos sempre soube), do repertório a solo de Hammill, a inaugural “Ferret and Featherbird”. Ora, a curiosidade é que ela já havia sido gravada no tempo daquele opus 1 (estando incluída em bónus de algumas reedições em CD desse álbum). E se na genética vive muito potencial, a sua realização humana é outra conversa. E o “Ferret and Featherbird” no In Camera nada tem já a ver com aquele anterior. É certo que não é por Hammill ter feito a solo algo superior a algo que os iniciáticos Van Der Graaf produziram, que a sua senda a solo é redimida (salvo seja). Mas é mais certo que este tipo de expressão sonora já não é algo que os Van Der Graaf realizassem. O seu universo era outro. A questão chave para quebrar o vício da comparação é, como sempre, a diferença. Esta peça transmutou-se em puro Hammill, do mais puro visto. Toda a ambiência da canção (e carece esforçar o tímpano a captar a ressonância de uma guitarra acústica para percebermos o que aqui ainda conserva resquício das regras de ser de uma canção) é feita de cintilares sonoros, fantasmas de guitarras a ecoar de todos os campos em glissandos transcendentes, que constituem fímbrias de matérias outras que apenas ouvimos entrecortadas, para toda uma outra ressonância original respirar. E nesse manto estrelado a voz de Hammill, na mais bela melopeia, resplandece, como que a desenhar a via láctea num céu de luzes humanas impoluto, para mais o contraditório humano sentimento resguardar da dor da sua impressão, já que só “time and distance make a love secure”. Só isto, mas apenas só isto, redimiria toda a obra de Hammill, coisa que dizemos ridiculamente, pois “isto” é amostra do quanto redenção é coisa de que essa obra não carece.
Depois deste deslumbre verifica-se que o álbum não prossegue o encantamento que fugaz, como em todas as profecias, se revela (mas por tal perdura), a pretender guardar-nos na sépia da fantasia do decair da carne. Logo de chapão nas duas faixas seguintes se verifica que aquela maravilha que nos foge era a gémea ameaçada de um húmus de experimentalismos novos no universo de Hammill, na sua vertente mais electrónica. Com praticamente toda a instrumentação a seu cargo, a textura do álbum é toda de um sobrecarregar esborratado de overdubs de instrumentália básica e das electrónicas contemporâneas densas. Todo o modus operandi confere ao disco uma sonoridade espessa ao absurdo, palpável na sua crueza e audível volumetria, em que camadas sonoras se atabalhoam para alcançar primazia, numa espécie de selvática lei do mais ressonante. A própria guitarra acústica, nas suas eventuais aparições a relembrar donde possa ter brotado, iniciática, uma composição, surge deslocada num maëlstrom onde nada tem pé seguro e incorpora reflexos deformados de ameaçadoras transmutações outras que a senda de Hammill encorpará crescente de proporções formas e fôlego ensandecido ao passo dos minutos: “and the vortex sucks me in/Steeped in sin I die/but am reborn”. Métricas, marcos de sinalização, tudo o que ancora a audição se dissolve num pântano ácido de corrosão sonora, numa massa disforme, a imprimir marcas violentas, opacas e inquietantes nas câmaras de som. A própria voz é violentada, violenta (nos extremos expressivos que incorpora o timbre de Hammill), e refractada num processo que enuncia na sua fisicalidade sonora o derrapar quase esquizóide, voluntarioso nas areias movediças da impotência e da consciência (“I’d gladly succumb to the wave/if I thought the water taught the way to light/ (...) and it’s easy to believe what the preacher says/except for the conflict raging between my head/ and my brain”), da busca de âncoras de onde pronunciar o que é esse “ser” humano. O seu exemplar mais eloquente irrompe aberrante na distorção de “Tapeworm”, onde um coro fantasmático de Hammill desmultiplicado de si dá corpo à visão de uma identidade em estilhaços em busca de sentido, desde a criança que preenche de criaturas e paisagens os escuros resguardos do propício quarto nocturno, ao deus incompreendido capturado num hospício ao verter-se e prender-se em corpo terreno para decretar a santidade nas vielas sifilíticas, até ao risco da perdição (perdições) pela possibilidade de um vislumbre do que jaz além (“I am a man from the country of destruction/I am a man a woman and a god/I am my own weapon of kamikaze/And will one day cut through the/hidden knot”).
O portento esmagador deste processo é precisamente a faixa final, em que, nos movimentos ciclópicos e atordoantes de anúncio e recuo de um deus desproporcionado de professa omnipotência, que se desvela ou se cria no temor e devoção emanados do mesmo engano descabelado que organiza a incapacidade humana de lidar com o que lhe escapa, ecoa todo o universo ameaçador em que Hammill a espaços se instala, abarcando assim no seu registo lírico o relevo da mais ínfima dor humana bem como a sua irrisória condição escarnecida por ignotas e pressupostas forças maiores, que o poeta apenas esgravata para mostrar as unhas encardidas de tentar ser. Até que dessas inescapáveis revelações projectadas toneladas ao nosso corpo mindinho, nada resta senão melífluos miasmas sonoros da fatalidade, a relembrar que só na consciência do irreversível dos nossos passos se podem antecipar as quedas nos abismos mapeados. “Depois”, é sempre “too late to smother out the tell-tale footprints/which mark your passage through the greying snow”.
Mas é nas duas faixas anteriores a esta que o experimentalismo que faz a singularidade deste disco se une com o lirismo inescapável do seu autor, que, sendo o outro extremo do seu universo sonoro, também tem aqui o seu exemplar procriador (pois dele se carece para criar o híbrido) em “Again”, pura balada hammilliana de perda constitutiva, no seu registo mais inquisitório dos doridos da existência, a reclamar da dor presente a consciência perene do passado que organiza o ser hoje. Em “Faint-heart and the Sermon”, e “The Comet, the Course, the Tail”, Hammill ejecta para um registo cósmico o existencialismo feroz que, recorrente, incorpora o que o faz autor de excepção. A humana condição, na sua mais íntima e encarniçada inquirição, é o que este homem de si dá. E quanto mais alcança, mais diz estar aquém (“And the knowledge that we gain in part/Always leads us closer to the very start/and to the founding questions”). Ele, connosco. Pois se pudesse ser conformado a um lugar, a uma crença, atribuídos no mundo, “then doubt would never cast a dagger in my back”. Mas sabemos que só o podemos ser na antecâmara da reflexão. Dado o primeiro passo, In Camera, e os ulteriores que este homem não cessou de dar, trôpegos, desesperados, impotentes e irados, as cicatrizes já não têm conta. São o corpo derrotado de antemão pela mesma inquirição que (talvez...) o torna maior. »

25 comentários:

Eduardo disse...

olha, isto deve interessar-te: http://youtube.com/watch?v=ZpwhMiFNPcI&search=scott%20walker

julinho da adelaide disse...

Ah, sua simpatia... Infelizmente estou com problemas em conseguir ver a coisa. É já do novo álbum? Um pouco mais de diligência e devo lá chegar. Muchas gracias pela atenção (engraçado como não te consigo agradecer de forma escorreita, qualquer fórmula soa meio desadequada. Typical)

Eduardo disse...

Não consegues ver pq, exactamente?

É uma entrevista bastante recente e a propósito, entre outras coisas, deste último álbum. Está interessante.

julinho disse...

Já consegui. Aquela porcaria estava sempre a dizer que não tinha o java (sempre me soou mal esta) ligado ou o flash player actualizado, o que não era o caso, mas ao fim de umas visitas à página começou a carregar normalmente (o que também demorou o seu tempo...). A ratice informática...
Está interessante, sim. E os poucos segundos do último álbum soam muito Tilt, que nem ginjas (passe a inadequação metafórica da imagem). Será desta que volto a desembolsar logo o dinheiro por um disco, em vez de o esperar nos caixotes de promoções? Hmmm...

julinho disse...

A propósito, não é para me fazer útil (sabes que sou contra essas funcionalidades humanas), já que o dado (conquanto razoavelmente fidedigno) também não é inquestionavelmente pertinente para ratificar a associação, mas relativamente àquela questão que desconversávamos (por natureza) do "do I hear 21", a filmografia do Pasolini, tudo contado (ou seja, documentários, curtas, e agrupamentos de apontamentos cinematográficos), totaliza 21 obras.

Eduardo disse...

i see...

eu, que conheço o tilt há relativamente pouco tempo, estou gajo para mandar vir o novo. ai estou, estou.

julinho disse...

"mandar vir"? Isso é tipo encomenda pela internet antes de o disco chegar aos escaparates porque não posso esperar mais e tenho a resorcefullness para o fazer, ou tipo não há escaparates que plantem o cavalheiro no burgo e tenho que empregar a minha resourcefullness para o ouvir? Não que interesse particularmente, expecto para averiguar da possível legitimidade da minha inépcia nesses passos, ou da eventualidade de a minha passividade não merecer o scott (o que o meu modus operandi auditivo insiste em rejeitar, contudo). Já cheguei às encomendas nacionais por envio à cobrança, though...

Eduardo disse...

bem... eu mando vir os discos da amazon, porquê? há outra forma?

julinho disse...

Amazon? Que giro. O que é?
Bom, agora num extra-ordinário momento de seriedade, registe-se, mais uma vez em desobediência civil, que não obstante o sumo privilégio de te ter por estas bandas, it's a relief to read again pelas outras bandas também. As fotos que foram rolando na terra inabitável eram tuas? E as daquela coisa de cima, são tuas? Estou a abusar? Oh well... I'm just happy ou sob o efeito psicotrópico substitutivo da coisa. Who cares? (que horror, agora lembrou-me o Matrix)

Eduardo disse...

Amazo.co.uk é aquele sítio onde os discos (CD, bem entendido) são substancialmente mais baratos que em qualquer loja de discos portuguesa.

Obrigado pelas tuas palavras tão simpáticas. As fotos, (e tudo o resto naquele sítio) são da minha autoria excepto quando indicado o contrário. Ou seja, aquelas a que te referes são da minh autoria.

julinho da adelaide disse...

Really? Interesting... E porquê especificamente a do do uk? E são mais baratos os usados ou todos? E saem mais baratos mesmo com os portes de correio? E não chegam danificados? (saliva) (Não!, pára!!) - acho que vou persistir na persuasão de que dificilmente sairão mais baratos que os dos caixotes de promoções (excepto, claro, os fresquinhos, que só apanho aí, alguns, dois anos depois, mais ou menos), e que gosto efectivamente de escaparates (a minha réstia de coquette) e de poder reclamar do produto com vendedores borbulhentos, senão ainda me convenço de que me faz falta um cartão de crédito, algo que desgostaria profundamente o passadista orgulhoso que há em mim.

Quanto ao mais, se já estou a ser tão simpático, acho melhor terminar essa bizarra incursão em recanto ill-lit da minha personalidade, sendo breve, contido e inconsequente (enquanto criatura que não distingue o Castello-Lopes do Capa): I'm somewhat impressed.

Eduardo disse...

Especificamente do UK porque os da COM, embora ainda mais baratos, correm o risco de ficar retidos na alfândega para cobrança do IVA. O problema principal nem é o IVA - os discos vindos amazon.com, mesmo depois da sua aplicação, ainda ficam mais ou menos a 2/3 do preço em Portugal. O problema é que a alfândega, proverbial na sua eficiência, os retém por um bom par de meses. Assim, a amazon.co.uk torna-se uma escolha mais racional. Dantes, só compensava se se mandasse vir vários de uma vez, agora já compensa com apenas um. Então se forem promoções nem se fala.

Nunca chegou nenhum danificado, com excepção de uma jewelbox estalada, uma vez.

Nunca mandei vir usados.

Quanto ao tal mais, eu por acaso até visulumbro no teu estilo uma simpatia envergonhada ou até mesmo uma vocação reprimida para o salamaleque.

julinho disse...

Uau. Mas, still, tinha que pensar em converter libras, e get myself that credit card, pelo que devo ficar no atavismo por mais uns tempos. Também não combina mal com a personagem.

Quanto ao mais, «vocação reprimida para o salamaleque»: who can argue with that? Felizmente que é reprimida. Uma vocação dessas à solta é sempre uma praga ambulante.

Eduardo disse...

a parte da conversão das libras resolve-se facilmente em http://www.xe.com/ucc/. o resto já não sei, é lá contigo, quero lá saber.

sim, tens razão: é uma praga. deus nosso sehor me perdoe.

julinho disse...

Pois com certeza que queres lá saber. Contudo não cesso de me admirar com a tua resourcefulness, com quick fixes para qualquer minudência. Se não te estivesses a borrifar eras capaz de apresentar a viabilidade pragmática de passar a andar a fazer o pino o dia inteiro. Impressive. Temo que por isso nunca poderias ter um cargo dirigente: a eficiência é a morte do burocrata.

Eduardo disse...

E lá estás tu com essas simpatias exacerbadas que me deixam tão.

Mas, já agora, deixa-me que te diga que até há pelo menos um banco que tem uma espécie de cartão de crédito virtual para utilização exclusiva na net. Ou seja.

Voltando à vaca fria, antes que ela aqueça, aquela tua imagem do pino é um pouco estranha, não? Quero dizer, "estranha" num sentido clínico ou coisa que o valha.

julinho da adelaide disse...

Ou seja: simpatia, não - factos (mais uma vez reconfirmados) (a elisão do nome do banco foi um pudor publicitário?). Quando muito poderia ser simpatia o enunciá-los, mas minha aridez mental só posso responder ao estímulos que me são dados. Por isso, pode-se dizer que tens a simpatia que mereces (quando nos estivermos a mandar à merda outra vez isto podia ser um mau precedente, mas acho que estamos suficientemente ancorados na incoerência para nos resguardar de tais genealogias arquivistas).

Quanto à imagem do pino, sim, ela é profundamente estranha. Mas na minha aridez mental foi a que me surgiu e não tive esperanças de esforçar outra do cucuruto. E sim, clinicamente estranha. Pelo que o melhor é resguardar o episódio dos meus terapeutas: o clínico não é manifestamente o seu foro. (mitómano, eu sei... - claro que podendo já estar a desenvolver a mitomania da mitomania - já que estamos em indicadores clínicos...)

Eduardo disse...

Not now. Yesterday, man, yesterday.

julinho disse...

??
(oh well...)

Eduardo disse...

Ó pá, apeteceu-me.

Irei agora retirar-me por uns tempos. Infectarei, novamente, um dia destes.

julinho da adelaide disse...

So I thought. Podias mudar a metáfora do infectar que, até na sua manifestação cíclica, se me volveu visceralmente daninha (e particularmente inadequada para o que expressa). Mas, notwithstanding, claro, tem nada a ver, até outro dia.

Eduardo disse...

vê mas é se te deixas de lamechices e escreves mais postas!

julinho disse...

Ahh you sweet talker, you...

Eduardo disse...

stop whining and write some more fucking posts.

Anónimo disse...

Fala Julinho...Esse disco do hammil é uma obra prima, tenho 3 músicas só, como faço prá baixar o disco? Ñ encontrei o link...
Valeu!!