segunda-feira, 3 de abril de 2006

O choque de civilizações era outro

O único diferencial cultural entre agregados nacionais que alguma vez me fez soçobrar para a defesa da tese de um choque de civilizações foi o emprego (e a mera existência como objecto socialmente integrado nas estruturas espaciais e das práticas socio-corporais do quotidiano) do bidé.
Para que não haja dúvidas quanto à minha arregimentação, para todas as eventualidades derivadas de when the shit hits the fan, anuncio desde já que a minha civilização é a do bidé, dela faço estandarte e porto orgulho (ainda por cima do tipo higienista moralizante), e dele não abdico.
Negligenciado em certas patetas culturas de paranóicas derivações patriarcais (a cultura pode dar para isso: qual acumulação e progresso!) a abdicarem de atenta vigilância a meritória região de variegadas valências (não, não só as duas que pensais ó behaviouristas culturais - sejam elas quais forem, consoante o behaviourismo...), o imaculado traseiro, condição sine qua non do bem-estar civilizado, requer o seu repuxo.
Tenho dito.
Espero lesta polémica e, no mínimo, a embaixada da poluta Grã-Bretanha em polvorosa (também têm direito).

(That'll show Huntington...)

13 comentários:

Eduardo disse...

Agora é que fiquei mesmo sem palavras...

lilac tree disse...

Belo post, pertinente, e com certeza, a render-te apoio entre os muçulmanos. Na Ilha da Moçambique (e provavelmente noutros pontos do mundo), este choque cultural pode vir a tomar proporções consideráveis. Ali, a questão não é o bidé, mas prende-se com a higiene do traseiro. A população muçulmana, que não prescinde da água para o efeito, embora nem sempre se fixe ao repuxo e ao bidé, opta pela água do mar para dar conta dessa higiene traseira. E já que é no mar que se lava, porque não fazer tudo ali mesmo e, já agora, em convívio com a comunidade? Pois, aí começa o choque, é que os turistas e os investidores turísticos (e acho que os próprios ambientalistas) acham pouca piada às consequências deste hábito cultural naquele canto do Índico.
Claro que isto não significa que o teu bidé caseiro seja inofensivo e voltando a ele, estou à espera das reacções fortes!

julinho disse...

Mau, vê lá se sais dessa, Eduardo. O Cesariny tenho nos livros quando me apeteça, a ti, por enquanto, ainda não. Shake a leg, move your tongue. A menos que estejas em carência absoluta de bode expiatório. Se for o caso, ainda que a contragosto, pelos menos suponho que já tenho a barbicha...

julinho disse...

Ah, minha cara lilac tree, esses contributos a iluminarem o malfadado etnocentrismo. Na face de tantos rabiosques a refrescarem-se no oceano, as possibilidades de expansão da minha determinação hesitam. Não sei se ratificaria a prática do repuxo oceânico... não pela exposição das não tão pudibundas partes, claro, I couldn't care less, mas pela hipótese de ficar com algo atravessado num mergulho aprés-midi. Lá está, até a mais razoável das segmentações civilizacionais contém inescapáveis ambivalências. O que, de facto, sempre achei que é pelo melhor. Quanto às reacções fortes, já só mais duas ou três podem despontar. A menos que profundamente virulentas, acho que, como sempre, estamos a salvo.

Eduardo disse...

Mesmo para alguém que faz questão de exibir um desprezo vaidoso (sim, o oxímoro) pela sua própria figura, acho que estás a ultrapassar todos os limites do aceitável. Já sei, que se lixe, mas mesmo assim.

É que mesmo para pessoas que fazem gala em serem pouco impressionáveis, isto começa a ser insuportável.

julinho disse...

Oxímoro? O que é?(já sei, desprezo vaidoso pela própria figura outra vez).
Como o assomo raro de elegância me impede neste momento, e só neste momento, de explorar as eventuais (e me leva a explicitar que serão só eventuais) incongruências da tua indignação, particularmente na adjectivação "insuportável"; e nem estou a ver em que é que reincidi nesse oxímoro(?); limito-me a reconhecer que posso suscitar com factualidade objectiva essa reacção interpretativa, mas que essa reacção não cobre o espectro possível de intencionalidades e estruturalidades que me puxam esse registo. Terás porventura a generosidade de reconhecer alguma margem de incerteza no que justifica presumível apresentação figurativa, e creditar-me um pouco mais de indulgência. POrque, bem vistas as coisas deste lado que escreve, you ain't seen nothing yet.
Se estás só a fugir com o dito cujo à seringa... também pode ser.

Eduardo disse...

De nada, Yester, de nada. Já sabes que podes contar, mesmo quando tudo o resto te falta, o que parece ser, precisamente, o caso.

julinho disse...

Parece, não. É. Certamente. Seja ele (o caso) qual for (as profecias que se cumprem a si mesmas), desconversante camarada. Felizmente que com os cavaleiros de triste figura quase nunca é demais, pelo que porventura terás escolhido a melhor vazão (conquanto mui limitada, por razões por vezes também de amargo travo) para atinar com essa inquietante (adjectivo do acima comprovativo) amargura.

Eduardo disse...

«Desconversante camarada»? Olha que é preciso ter lata (sim, já sei, mas apeteceu-me).

julinho disse...

Já pouco tardaria para que esta comunicação pudesse resumir-se a uma troca de "já sei"'s. Sendo que pela amostra dos dois lados da linha, cada um cuidou sempre que o outro nada soubesse, pelo que os equívocos devem permitir nessa ânsia de reconhecimento e antecipação basta contestação discursiva (ainda que sempre crendo já tudo saber). Sou até bastante dedicado à solenidade comunicativa do silêncio, mas duvido que se dê bem nestes lugares ermos.

Eduardo disse...

De facto, não me parece muito apropriado, o local, para esperar grande coisa dos silêncios e muito menos solenidade. Mas isso já nós 2 sabemos há muito.

julinho disse...

Não sei se sei, muito menos o que sei, mas "já sei"...

Eduardo disse...

Eu sei, eu sei, deixa lá...