sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

I still have something against you

« O que é que se faz quando se extingue os Pixies (e ressurreições não são para aqui chamadas)? Obviamente, reformamo-nos com uma pensão vitalícia da Unesco por contribuição incalculável para o património da humanidade. Mas como a música da entidade dúplice “Frank “Black” Francis” não tende para o óbvio, achou que era hora de dar as voltas ao nome e propor ao mundo outra forma de música que não arrancada ao núcleo do planeta que todos pisamos, mas não vemos como singularidade espacial. A partir daí, claro, segue-se o opróbrio, porque os declarados génios não podem ser menores. Ora, sucede que ser cativo do passado é triste forma de vida e, como tal, o renascido Frank Black espeta-nos o dedo médio na face e prova que existe regressão à juventude: arma-se das suas paixões musicais de adolescente e põe-se a fazer canções que não pretendem conter, cada uma, um inaudito universo sonoro de significado - porque não é vida isto, de ser sempiternamente um cometa inaudito, o filho que redime toda a linhagem do rock donde se pariu a si próprio (porque este filho só pode ser de autogestação – por muita genética musical que haja a espremer paternidades).
Ora, depois disto dir-se-á que só se pode continuar a ouvir os restos de inspiração deste homem(será?) por fidelidade canina. Ora, uma pinóia. O pequeno duende voltou a criar numa rodela de substâncias de registo sonoro um novo planeta (sim, não é descobrir, é criar)? Não. O duende anafado voltou a criar canções que mais criatura alguma engendraria com um objecto musical de seis cordas encostado às protuberâncias digestivas? Oh yes, baby!
A prova de que a fidelidade canina não é questão, é que qualquer bicho com tímpanos, este vosso incluído, percebe que material para descartar é coisa que enxameia qualquer disco do senhor Black. Mas não há um onde não haja momentos onde nos salte ao cérebro uma de duas: “Hum...” (como quem tropeça no que pode ser a descoberta de uma adição para a tabela de elementos) ou “O que é que foi isto!?” (como quem viu de relance – porque as canções podem não chegar a durar dois minutos - marcianos a surfar nas nuvens – a metáfora fácil, ora pois, não se ambiciona mais para o que escapa a qualquer apreensão e fechamento intelectual, senão ficar calado – hum, why didn’t you?...).
O primeiro álbum homónimo, é verdade, por razões que não podemos explicar senão a proximidade ao corpo defunto dos pequenos seres mágicos, conseguimos ouvir, conseguimos apreciar, não conseguimos distância, não conseguimos avaliar. Bizarro. Obra-prima, não é. Singular, é adjectivo que não lhe escapa.
“Teenager of the Year” é provavelmente o mais estimulante, fragmentário e sugestivo, com pistas para todas as direcções a cada faixa (são 22, por isso vejam a balbúrdia que não vai naquela cabecinha), desde o revivalista ao “benvindos ao planeta Black”.
“Pistolero” é talvez o mais coerente deles todos (os posteriores ainda não nos caíram nas mãos – o senhor esteve em fúria produtiva que não dá para acompanhar), em que o que é para descartar não chega a ofender, vindo de quem vem (ao contrário do que pode acontecer nos prévios), e vocifera rockalhadas discretamente épicas e epicamente escorreitas como quem boceja displicente ao anúncio da morte do rock – esse problema não é seu.
Ah, pois, isto era sobre o “Cult of Ray”: o mais abertamente esquizóide: lado 1 (vamos fingir que continua a haver lados... é categoria muito heurística) quase todo dispensável; lado 2, obrigado señor Black.
Abre com a promissora “The Marsist”, com as densas harmonias blackianas, a distorção da surf guitar a levantar a poeira lunar, e a estranheza deste homem querer berrar até pôr a máscara alienígena na lua a piscar o olho (o que é possível, pois este é o senhor do berro mais imaculado e significante que qualquer corda vocal emitiu, a envergonhar a banalidade da rotina metaleira). Depois, bla bla bla, o homem tem direito a viver a segunda adolescência, a escrever punk digerível, a transbordar indulgência com as costuras harmónicas para que o straight rock ao menos pareça mal cosido, até a ensaiar baladas rock (ugh!) felizmente ainda com harmonias adiposas e demasiadas palavras para se levar a sério.
E depois, e depois... primeiro, in your face, “Mosh, don’t pass the guy”, energia punk gostosa, e pensamos, “Hum... será que isto promete?” - oh! doce profecia. Surpreenda-nos mais uma vez señor Black: ora aí têm, meus caros ... “kicked in the taco”! Qual “Hum…”, qual carapuça, isto é “Uau!”: o adolescente regredido tem memória do homem que foi e, não deixando de ser adolescente, ainda sabe fazer canções que dispensam mais que dois minutos, repetições, refrões e secções, são um naco de música orgânico que só precisa de fluir do princípio para o fim sem regras de escola auditiva a ditar o caminho.. A “Dance War”, que está no lado 2, também é desopilante, mas se trocasse de lugar com a “The Marsist” tornava a divisão espacial do disco perfeita (embora seja de elogiar a perversidade de nos titilar ao ínicio e fazer-nos esperar pelo lado 2 para o prato forte que, afinal, sim, anunciava mesmo – wicked little fat man...). O resto segue a mesma bitola sem bitola do homem que lá fez o esforço diletante para nos lembrar que há vida em Marte, mesmo quando já encerrou a estação interespacial. “The Creature Crawling” a ecoar sismicamente os seus passos trôpegos na placidez autista dos nossos quintais. “The Cult of Ray”, em homenagem não surpreendente, vinda do alienófilo de que vem, a Ray Bradbury, é das sucessões mais conseguidas de riffs desopilantes a cutucar-nos nos quatro costados, que consegue a proeza de no final da sua infatigável jornada instalar a contemplação do que escondem as estrelas. “The Adventure and the Resolution” a ensaiar caminhos não trilhados (e não repetidos), nem pelo próprio, com material sonoro que não sonhava com tais travessias de abstracção sonora (principalmente nas condições quase pré-históricas de gravação a que o cavalheiro é atreito). “The Last Stand of Shazeb Andleeb”, a ensaiar um hino em surdina (a voz a escorrer no leito do baixo – oh Frank, afinal és também um sedutor...). A redenção é doce, para mais quando a sentimos como nossa (a não aceitar que se desista deste cavalheiro).
Ah, e havia aqui pelo meio um tal Lyle Workman a tocar lead guitar, que, caro Frank, como é que deixou partir? Não é um Joey Santiago (et pour cause...) a desenhar nebulosas de som a partir de notações de hieróglifos, mas no seu classicismo melódico era dos poucos guitarristas rock a saber parir um solo que vai a algum lado, ainda para mais só tendo direito a 15 segundos para o efeito, numa canção a la Black.
E pergunta-se, como quem denuncia his master’s voice: e como raio é que um álbum com um lado descartável vale o cacau de o comprar e a pachorra de escrever demasiado sobre o que o envolve? Bom... há perguntas que não merecem resposta. »

2 comentários:

Objectivo disse...

Aqui está uma das mnhas referências musicais! Muito passava este rapaz nas discotecas da minha adolescência... que saudades.

julinho disse...

Boas referências...
Estranhas discotecas...