sábado, 31 de dezembro de 2005

Balanço?: o desalento do recolector (já mencionei que este blog é monotemático etápico?)

O que fiz dos anos (and counting) em que não mais degustei medronhos?...

(a agreste capa de espinhosa tez a equivocar quanto à suculenta e húmida têmpera da qual é constitutiva - não há casca nesta espantosa oferenda - de pequeno fruto, em tamanho ainda não da indignidade substancial da baga, porventura o mais singelo fruto a merecer a inteireza da designação singular antes da colectivização da degustação - comem-se uvas, cerejas, mas só se come um medronho, ainda que se comam mais, é um na dignidade de cada vez, não na voracidade da sequência plural antecipada. Sim, a enganosa capa espinhosa a compensar para o desvio dos néscios a generosidade da aberta declaração de madureza na inequívoca coloração da bondade frutícola. Suponho, medronho, que medroso (ou sim, declinação produtiva de similitudes, merdoso) não fiz por te merecer. Ameaça-me com essa cara de mau, dizendo: isto terá que mudar. Far-me-ás bom desejo (provavelmente o único possível))

40 comentários:

Eduardo disse...

Virámo-nos para a obscenidade pura e simples, portanto. É um caminho possível e inteiramente legítimo, por mais que nem sempre caia bem junto dos bem-pensantes de serviço. Assim de repente, pareces ter um certo jeito para o género, quer na escrita, quer na escolha das imagens.

julinho da adelaide disse...

Obscenidade? Porquê? Certamente não pela «suculenta e húmida têmpera» ou a «generosidade de aberta declaração de madureza na inequívoca coloração» ou a «voracidade da sequência plural».
Primeiro «chocante». Agora «obscenidade». Se persistes nessa lisonja (stop. don't stop) (felizmente que foi só «assim de repente») daqui a bocado ainda começo a ter-me em melhor conta (quando os factos o interditam quotidianamente). Ou até mesmo (high hopes), aspirar a ser realmente um pornógrafo (nos anos 70, claro).
Francamente... Imagino o que te surgirá à mente se vier a descrever o acto de comer um figo (fresco, claro está).

Eduardo disse...

Disfarça agora com o figo fresco. Este teu texto é das coisas mais javardas que li nos últimos tempos. Já agora, a foto é da tua autoria ou pilhastesia?

julinho disse...

«das coisas mais javardas»!! Pára (não páres), que estou a enrubescer (ainda que não perceba nada: que raio se disfarça com um figo fresco? O deflectir a atenção de uma escrita intrínsecamente obscena sobre coisas que o não estimulam, como um medronho, comparando-a à possibilidade de uma escrita que quasi-inerentemente tem que ser pornográfica na sua descrição, como a que remeteria para a degustação de um figo?). Chama-lhe um figo! (eu sei, a expressão nem faz sentido aqui, mas não resisto a um bom cliché, e se for descontextualizado pelo menos ainda disfarça a pulsão retórica).
Pilhei-a, claro. Quanto mais não seja, para poupar o mundo da poluição visual da minha arte fotográfica. Isso é mais o teu departamento (a arte fotográfica, não a poluição visual, bem entendido). (A pornografia o meu).

Eduardo disse...

Início (em negrito):«O que fiz dos anos (and counting) em que não mais degustei medronhos?...»

Final (indifierenciado): «Suponho, medronho, que medroso (ou sim, declinação produtiva de similitudes, merdoso) não fiz por te merecer. Ameaça-me com essa cara de mau, dizendo: isto terá que mudar. Far-me-ás bom desejo (provavelmente o único possível))»

Está lá tudo. Querer convencer-me de que isto é isto apenas, é um esforço inútil. Isto é pronografia pura e só quem não quer é que não vê.

julinho da adelaide disse...

Pronto.
Dito assim, concedo: é uma grande javardice.
As minhas desculpas por conspurcar as pupilas vindas ao engano com tão imprevista, extemporânea e escabrosa obscenidade.
Talvez se aquilo mudar, também isto mude.

Eduardo disse...

A grande questão, agora, é a de saber se te devo incluir na categoria palmada nas costas meu grande maroto ou na categoria ar de repugnância meu grande traste. Isto são sempre decisões difíceis e grandemente dependentes do meu lado irracional, que tenho a felicidade de ver a aumentar nos últimos anos.

julinho da adelaide disse...

Se ao visado é concedida palavra na matéria da sua admoestação, creio que uma outra categoria (palmada nas costas meu grande traste) seria a adequada. Mas isso é uma sugestão derivada de anos de certos consumos narrativos (em sentido amplo)clássicos que me deram uma imagem distorcida do real, ilusão em que me encosto tropeçando contra os postes na rua. Pode pois com displicência de bom-senso ser descartada.

Eduardo disse...

Mas que torpe tentativa de influenciar as minhas decisões vem a ser esta??? É claro que é descartada! Além do mais, o que me apresentas é um binómio sem sentido, já que costutuído por dois elementos negativos (a palmadinha nas costas e o traste), ao passo que, nos binómios por mim apresentados, havia sempre o contraste entre um destes elementos negativos e um positivo (o maroto e o ar de repugnância).

Se foi a isto que te trouxerem certos consumos narrativos, então nem quero saber quais foram (quero, claro que quero), mas desconfio que foram acompanhados de outros que porventura será bom não abordar.

julinho disse...

Espera aí que estou a lavar o cão.

Eduardo disse...

Sinceramente, que grande ordinário. Ainda por cima o cão.

julinho disse...

Peço desculpa, ordinário seria não o lavar (se o tivesse).
Mas estás muito unidireccional: obscenidade, javardice, ordinário. Eu sei que disse que gostava das adjectivações, mas estares-me a fazer a vontade com tanta diligência apodativa, não parece teu. Sentes-te bem (dentro do mal que ontologizas, porque sim ou porque é o que é, divisão árdua)?
E essas dicotomias... se o ar de repugnância é o que colocas no pólo positivo da balança... such a very twisted mind... (sim, já sei, what's new).
Ainda pra mais com desejos de kazoo. Caju, come-se. Agora kazzo...ts, ts. Andas bem mais modernaço que queres deixar entender. Mas fica-te bem a confissão.

Eduardo disse...

Estou (sou?) muito escatológico, talvez, mas tu tens feito tudo o que podes para trazer à tona essa minha característica. Agora, aquela absoluta gratuitidade da lavagem do cão, como se alguém te estivesse a pedir alguma coisa, foi imperdoável. Lá que te reconforte imaginar que te estão a pedir alguma coisa, isso só a ti e ao teu psicanalista diz respeito; já que me venhas para aqui com merdas...

E quanto ao kazoo, como já te disse, isto é uma caixa de comentários do TEU blog, não do meu. Além do mais, cada um se dedica aos blowjobs que lhe apetece...

julinho disse...

Tens razão. Mais uma vez me penitencio. É que o meu psicanalista já desistiu de mim, e o meu egocentrismo está a rédea solta. Na última consulta até me disse, vê lá tu, que estava à beira de julgar que tudo o que outros escribas faziam cumpria o propósito de trazer à tona as minhas piores características (com seja escatológicas). Imagina chegar a esse ponto. Só tu para me manter o ego em ordem!
E agora, com licença, tenho que ir lavar o cão. Outra vez. É grande, ordinário, e dá um trabalhão. E não sabes o que me custa. Nem tens que saber (não presumas).

Eduardo disse...

Essa tua relutância irónica em resistir à realidade - tudo o que aqui correr mal é culpa exclusivamente tua - não te vai levar longe, rapaz. Quem te avisa...

julinho disse...

Curioso. Primeiro pressupunha emanar um excesso de real. Agora parece que é uma relutãncia irónica em resistir à realidade. Não sei (como bem sabes) em que passo do Eduardo e o Lobo estás, mas francamente persistir umã troca que já inclui frases ominosas descabeladas (espero que tenhas a gentileza de o reconhecer - para ti próprio, claro) como «tudo o que aqui correr mal é culpa exclusivamente tua» é bem sinal de que teu amigo é (desculparás, mas escolheste a parte mais mal parida do dito: deixa lá essa redoma de cristal que te impulsiona a distribuir avisos como o Valentim frigoríficos).
Assim sendo, a minha distanciação irónica cumpre menos um efeito de resistir à realidade do que controlar o excesso dela que (bem o sabes) não é para aqui chamado. Para bom entendedor... Se não percebes isso, devo andar mais elíptico ou enigmático que tu.
Quanto às conversas tolas, caso as levasses a sério, sobre o "alguém te pediu alguma coisa", caso não saibas que há tessituras interactivas que estabelecem constrangimentos independentemente de quaiquer pedidos (e o teu comportamento passado mais que o ratifica, se te interessa a coerência das tuas palavras), então não deves captar muito do que da minha parte aqui se passa. Paciência. O afirmar o do lavar o cão quando muito era lisonjeiro. Se o não entendes, mais uma vez acho que andas a tropeçar muito nas vielas retóricas. E antecipando os teus possíveis ressentimentos hermenêuticos, o cão não se tranformou, obviamente, metáfora para ti (é que já nem sei que pense...).
Se quiseres pois prosseguir na tontice, não sei mais que te diga.
Se quiseres esclarecer a minha relutância irónica em resistir à realidade (ou relutância irónica em reconhecer a realidade?), estás à vontade, porque não percebi nada.
Se puder, ainda que demore, terei todo o prazer em ler-te. Se não, suspeito que (mesmo sem pedido) me levarias a mal o silêncio. Quanto a isso não posso fazer nada. No meio da lavagem do cão, muito já fiz eu. Até porque, desengana-te filho, eu não quero ir longe. Na verdade, não quero ir a lado nenhum. Porquê? A falta de ironia seria corrosiva, e tenho-te mais em conta que isso. Cuida-te.

Eduardo disse...

Que agressividade, Yester. Isso não te faz bem. Devias dedicar-te a algumas práticas de relaxamento. Tu espreguiças-te o suficiente ao longo do dia? Tens luz natural? Consegues reservar algum espaço-tempo para ti pelo meio da rotina diária? Tens espaço para as pernas no teu local de trabalho? E ácaros? O teu colchão é anti-alérgico?

Em primeiro lugar, compra uns CD daqueles com música misturada com sons do mar, dos passarinhos, da brisa pelas folhagens. Depois, põe o CD no leitor, carrega no play e senta-te, na posição de LOtus (ou aproximada - não vale a pena lixar algum tendão), abre muito as narinas e respira fundo. E continua a respirar fundo. Vais ver que não é tempo perdido. Ficarás mais calmo, passarás a encarar as pequenas adversidades do dia-a-dia com uma postura mais saudável, deixarás de ser tão não me toques que me desafinas (ai o que eu fui dizer). É provável que também comeces a sentir uma propensão irresistível para escrever frases mais curtas, o que, de início, estranharás, mas, como dizia o outro, se entranhará depois.

(A título de esclarecimento, não me tinha passado pela cabeça que o cão a quem davas banho era eu. Se essa possibilidade me tivesse ocorrido antes do teu desmentido, as consequências teriam sido terríveis).

julinho disse...

Ainda que arrastando-me mentalmente até ao teclado, não podia deixar de sublinhar este marco, creio que absolutamente notável. Tem sido uma estrada árdua, de retorcidas retóricas produtivas, mas na verdade chegámos finalmente muito mais perto de te transformar de ______ (fill in the gap) em guru beatífico. O nirvana deve estar aí mesmo à mão de alcançar. Estou orgulhoso, e sinto que as minhas palavras na corda bamba não foram afinal em vão. Não tarda estás um Depak Agrafo nos tops de bestsellers de auto-ajuda espiritual.
Só ainda lasca um pouquinho essa perfeição espiritual aquela exibição muito passiva-agressiva do «deixarás de ser tão não me toques que me desafinas (ai o que eu fui dizer)». (ai o que eu fui
dizer). (esta é patético-mimético). Principalmente porque já nem o Woody usa disso há mais de duas décadas. Se não te fosses elevar acima dessas pequenices, sugeria que mudasses de relutância irónica. Guardarei pois a sugestão para mim.
Quanto às pequenas contrariedades do dia-a-dia, não haverá pois bom entendedor, e é em boa verdade o que faz sentido. Estultícia minha em fórum inadequado. De qualquer forma, e como o entendedor que há não faz pedidos(?), só espero que as pequenas contrariedades não me impeçam de degustar as tuas pérolas de sabedoria. òmmmmm. ómmmmm. (au! (foi o Lótus...))
Quanto à extensão frásica (custou a confissão, hã?, mas vê como foi um grande breakthrough na tua iluminação, bravo!), deixa-me esclarecer (caso seja necessário, e essas minudências ainda não tenham sido apagadas do teu patamar de consciência, que deve sem dúvida ter-se elevado mais uns metros nestes minutos que nos medeiam, o quê?, estou-me a estender demasiado outra vez e isso é discursivamente imperdoável?), como é óbvio, que nem estou aqui para ter vigilâncias dessa natureza (bem me bastou ter que me preocupar com isso noutras escritas, quanto as pequenas contrariedades definem outras prioridades), nem para fazer a vontade aos fregueses (como vossa espiritualidade aliás mo aconselhou), e na minha rasteirice profana não consigo naturalmente a depuração que o teu acesso às puras e simples verdades pode conceder à escrita. Mas esse problema, se é irresolúvel pelo escriba (em vontade ou poder), tem muito fácil (e quase unanimemente votada) solução para o leitor. O que só torna a tua dedicação mais benemérita (e para felicidade da minha auto-comiseração me ratifica como caso de caridade).
Finalmente, entenda-se, nada disto objecta à, mais uma vez, beatífica qualidade que emana das tuas propedêuticas palavras espirituais. Deve ter sido apenas o CD que tinha uns riscos perturbando a tua imersão. É só mudares a cassete (e o teu sorriso
de Buda não se torcerá no seu esplendor)

(Ia assinar proto-aprendiz humilde se despede para as pequenas contrariedades do dia-a-dia, mas dei-me conta que tudo isto ressuma a passivo-agressivo: não há esperança, não consigo senão mimetizar o teus resquícios terrenos, não sou digno sequer do aprendizado (damn, passive-agressive again!))

E fico-me por aqui (está-me a vir uma pequena contrariedade e estou com o tendão lixado: right you were again).

Chakra shalom filhós ómm

Eduardo disse...

perto de me transformar de guru beatífico em guru beatífico?

julinho da adelaide disse...

E num passe de mágica atenta às abertas (generosas) de um texto instalas-me na redundância. Para tão longo texto... Acho que nunca te tinha visto ser cruel...

(sentir-me-ia ofendido, se não estivesse fendido)

Eduardo disse...

Foi lindo, não foi? Eu também pensei que seria uma boca de belo efeito, apenas uma frase interrogativa e precisa, perfeita, relativamente curta. Para quê desenvolver a temática do passivo-agressivo, que ainda poderia acabar mal, se aquilo bastava.

Quanto a nunca me teres visto ser cruel, isso é porque não tens olhado com atenção. Gniah ah ah ah ah.

julinho disse...

Foi sim senhor. Estiveste à altura das circunstâncias. Saúdo-te.

Quanto ao gniah etc, quer-me parecer que, por associação à oralidade, não resulta perfeito se não for só com dois ahs a seguir ao Gniah. Todo o mais excesso de componentes não soa natural, prótese ineficaz para efeito perdido. Experimenta verbalizar a ver se não concordas.

(Pode haver quem ache que não interessa nada. Pode haver quem ache que é a coisa mais relevante aqui discutida)

Eduardo disse...

Sim, realmente. Ou então apenas mais um "ah", mas este longo e e percorrendo várias notas e/ou volumes sonoros. Mas, sim, mais que 2 não fica lá grande coisa, não.

Eduardo disse...

Quando digo longo, quero dizer com 2 segundos no máximo dos máximos.

julinho da adelaide disse...

Curioso. Pensando na hipótese de acrescentar um terceiro ah creio que o prolongaria o bastante (até ficar sem fôlego ou, mais provável, terem sucesso em amordaçar-me) para explorar essa variedade sonora que um ah, de facto, pode conter, assim efectivamente o autonomizando da eficácia do gniah ah ah que estilisticamente o precede. Dois em um, portanto.

Eduardo disse...

Acabar a produzir um gargarejo quase mudo, uma ruído revelador de uma certa aflição que contrastasse com a expressão facial de prazer cruel?

julinho da adelaide disse...

Bela descrição, soa bem (com uns laivos BDSM). Só não percebo essa insistência no cruel. Para mais, no caso corrente, eu diria antes propedêutica: a ruptura com certas linhas de regulação de expectativas de interacção é muito pedagógica para alertar a vizinhaça para os assombros que se escondem por baixo da calçada onde trilhamos distraídos. Um gniah ah ah ahhhhhhhhhhhhhh bem esgalhado em situação impreparada para o acolher pode fazer maravilhas pelos espectadores. Ainda que eles o não queiram reconhecer. E liguem para a linha de emergência psiquiátrica. A incompreensão é terrível, porque a compreensão é lenta.

Eduardo disse...

Mas qual propedêutica, filho, a menos que te refiras aos preliminares do massacre que a gargalhada deverá prenunciar. Só não percebo essa insistência no cruel, só não percebo essa insistência no cruel... Ai, pá, que cabecinha a tua.

julinho da adelaide disse...

Hmmm

Eduardo disse...

Exactamente. Mas não vale a pena preocupares-te em demasia.

julinho disse...

Supus que não. Mas é sempre bom ter a confirmação.
Se for o caso não estranhes minha próxima ausência. Rendi-me à supuração.

Eduardo disse...

Nham nham!

julinho disse...

Fazer-me rir! Parece impossível...
Lambão...

Eduardo disse...

Hmmm... Agora que penso nisso, se calhar isso de uma pessoa se dizer rendida à supuração é capaz de querer dizer algo pouco propício a piadas... Espero não ter ultrapassado os limites do mau gosto.

julinho disse...

Não esperas nada...
De qualquer forma, sendo obviamente espúrio dissertar sobre os limites do mau gosto nestas caixas de comentários (e neste blog), assevero-te apenas que ainda bem que não pensaste nisso: os efeitos não podiam ter sido mais satisfatórios.
(impressionante. Nem num blackout consigo ser funcional)

Eduardo disse...

Cheira-me (salvo seja) a quisto dermóide. Eu tenho jeito para estas coisas.

Eduardo disse...

Quisto dermóide, definitivamente.

:-)

julinho disse...

Nope...

:-(

Eduardo disse...

Agora é tarde, Yester... Já está decidido: quisto dermóide.

julinho disse...

É justo...