quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

A backstage star (constatação e consequência)

Dedicada leitora orientava-me a face para o facto de comentar mais do que postar, condição bizarra para blogger que se preze ou que não se preze. Mas tal condição não é de estranhar, e sugere aliás assumir certa intermutabilidade entre blog e caixa de comentários (ainda que na gestão complexa das subterrâneas correntes). Faria certamente sentido para esta espacialidade personificada.
Raras vezes me tive em boa conta a sós comigo. Só em interacção senti por vezes algo de insuspeito, internamente, a se validar. Assumi sempre protagonismo mais digno em secundárias funções que como actor de moto próprio. Experimentei diversas formas de realização e em todas as que me exigiam o primeiro papel ressenti a amarga consciência da aceitável mediocridade que se sabe aquém. Sempre argumentei melhor em diálogo que em solilóquio, sou mais competente a rever produção de outrém que a encabeçar a minha, sei melhor avaliar e apreciar os méritos alheios que alimentar os meus. Não é de espantar que, nessa estiolada produtividade de ser, a minha presença na blogosfera, num espaço em torno de um self constituído, seja confrontado com a ironia de o melhor de mim (e melhor indica só grau, não qualidade) poder estar refundido no acrescido secretismo de caixas de comentários.
Vem-me à cabeça em figura de redenção possível o valoroso Ward Bond (e um doce para quem o nome faz tocar os sinos), para supôr que o valor intrínseco dos modestos homens (humanos, vá...) seja algo a que só os grandes se alcandoram a resgatar (sendo que há duas formas dessa grandeza) . Nesse sentido, pelo menos, não mais valiosa, mas mais rara pérola se fariam.

5 comentários:

julinho disse...

CECI N'EST PAS UN POST

Li algures a teoria, invectivando contra comentários e anonimatos (e muito justamente), que aliás a grande parte dos comentários a polemizar as respectivas caixas deviam ser inventados pelos próprios autores dos blogues. Não sei se será verdade, mas devo dizer que me parece uma excelente ideia. Aproveito pois para dizer: como se atreve a presunção do energúmeno deste pseudónimo a falar-se do Ward Bond?!

julinho disse...

(o quê? os autores comentam mas com pseudónimos diferentes? só assim é que faz sentido para tentar enganar alguém? Porra, podiam ter avisado do método antes...)

Anónimo disse...

Estes comentários começaram a ficar interessantes. Pense bem, caro Julinho, um diálogo seu consigo mesmo pode levar a espaços nunca antes transitados.... ainda mais quando temos "o corpo a estiolar nas margens do vácuo assoberbante do ecrã negro".

julinho disse...

Espaços nunca antes transitados estou em crer que já não haja. E os que houver serão devidamente psiquiatrizados...
Mas a ideia em si não é desinteressante e tinha-me passado pela cabeça. Mas a verdade é que já não careço fazê-lo. Para o (pouco) que interessa, lançadas as premissas nos comentários anteriores, outras vozes que aqui surgirem poderão doravante ser tomadas como refracções fantasmáticas do meu ego, pelo que para efeitos retóricos, ninguém garante que você não é eu e eu não estou a falar comigo mesmo. Não lhe quero roubar a ontologia, mas a ordem discursiva tem destas coisas...
A propósito, falando de mim para mim-si, não quer escolher um pseudónimo qualquer disponível na praça? Mesmo nas raias da esquizofrenia ajudava a articular o discurso ter a referência (mesmo que falsa, não é muito relevante) de uma nomenclatura. Senão as minhas várias vozes, ficando diluídas no anonimato, podem confundir-se com só uma, ou afogar-se mutuamente. Já sei, espaços nunca antes transitados... Olhe que não...

julinho disse...

Ah, e dizia-me eu (porque mais ninguém dirá) (excepto outro eu) (que é o caso)(ou não?): maravilha que até na bodega dum post possam surgir de surpresa pormenores como aqueles olhares encadeados. Não consigo exprimir a forma idiota como isso me dá satisfação (mesmo que não tivesse as lowest expectations...; mesmo tendo que estar por dentro da coisa). Porra, há momentos em que as coisas batem mesmo certo (e um cliché às vezes é mesmo o que há a dizer). O que adiante na dissolução e insulamento dos referentes e sensibilidades, dirá de si a fraca e supreendente corrente do mundo...