domingo, 11 de dezembro de 2005

Teleologia Presidencial (após debate Cavaco-Louçã)

Cavaco como Presidente da República está claramente tomado na discursividade pública como um facto consumado. O que implica que todas as leituras da factualidade da sua campanha e prestação como candidato presidencial são vergadas à inevitabilidade de o senhor vir a ocupar a cadeira. O que se torna mais aberrante quando esse senhor que todos já se controlam para não se equivocarem a designar como sr. Presidente manifesta todas as qualidades para não ser um candidato sequer com perfil para levar a sério enquanto candidato.
Só por cegueira das fatalidades anunciadas (Cavaco Presidente) é que ninguém apontou com a devida clareza que Cavaco saiu simplesmente cilindrado do debate com Louçã. Foi aliás dos debates mais humilhantes para um candidato presidencial a que já assisti. E isto não tanto ou somente pela competência retórica de Louçã (fora um desvio populista inacreditável e perfeitamente dissonante no final), mas pelo próprio vácuo da sua concepção política anunciada, e pelos substractos não assumidos de viés políticos que assomam a espaços na sua discursividade, que nem sempre se atém à ausência de conteúdos que tão voluntariosamente lhe pretende imprimir.

Desde logo, estamos perante um candidato que se recusa pronunciar-se sobre as matérias porque não quer condicionar à partida o seu perfil e as expectativas dos partidos quando fôr ocupar o cargo. Ou seja, Cavaco quer ser como que o presente que a actuação governamental e o seu Portugal verão o que contém quando tiverem que a abrir em Belém (não vale abrir antes do menino nascer...). Deve ser para garantir a eleição atiçando a curiosidade dos eleitores (votar no senhor só para ver afinal o que é que ele faz - o seu departamento de marketing deve andar a rever muito Hitchcock).
Estamos depois perante um candidato que faz do seu currículo de economista e de experiência governativa o fiel da validação do seu exercício das competências políticas: o governo precisaria de alguém afinado com os problemas do país, tal como eles são definidos hoje em dia (em linguagem e fechamento economicista), para poder dialogar de forma responsável. Ora, o cavalheiro com esse currículo mete os pés pelas mãos no debate no que toca à questão fulcral (fulcral) da Segurança Social dizendo apenas que se necessita de novos estudos (quando já foram realizados e apresentados, disponíveis) sobre o impacto das medidas avulsas que nos últimos anos foram tomadas nesse domínio. Facto confirmado nos comentários ao debate na SIC Notícias, mas que não causam mais comentário senão o acharem "estranho" Cavaco desconhecer tal facto. A teleologia a funcionar: o homem vai ser presidente, pelo que face ao fait accompli esta argolada não pode minar o perfil do garantido futuro Presidente. É apenas estranho. Escandaloso e inconcebível, nunca.
Finalmente, estamos perante um candidato que, no seu pretenso vácuo ideológico, deixa escapar demasiado lastro, formulado (devido certamente à sua não-elaboração ideológica) de forma demasiado daninha, para ser ignorado como inconsequente. A forma como enfatiza a palavra "portuguesa", duas vezes, na frase em que contesta a facilidade com que se discute a atribuição da nacionalidade portuguesa (e repete enchendo a boca, "portuguesa"), a imigrantes, ou mais especificamente a filhos de imigrantes (em política de jus soli) é o bolo-rei ideológico com que escancarou as entranhas nacionalistas neste debate, culminando com a cereja em cima do bolo que foi sustentar a sua dúvida, por exemplo, no perigo de os portugueses virem a ficar em minoria em Portugal (para além do "perigo" hilariante de antecipar mais de 10 milhões de imigrantes virem suplantar a proporção da população "portuguesa" no país, aquela formulação, por mera lógica linguística, define que para o cavalheiro os estrangeiros a quem é atribuída a nacionalidade portuguesa não passam verdadeiramente a ser "portugueses" - caso para perguntar, então a atribuição de nacionalidade significa o quê? Isto é a política de sangue na atribuição da nacionalidade o mais clarinha possível. Simplesmente, não nos deixemos enganar, em formulação de circunstância, não assumida, como tudo neste senhor).
Ao que acrescenta que a questão da nacionalidade nem seria tão importante como questões concretas como o acesso à saúde, à educação, etc. Mas o senhor julga porventura que a atribuição da nacionalidade é uma frivolidade simbólica nacional que só serve para as pessoas poderem passar a andar com uma bandeirinha de Portugal pespegada na lapela? Que não implica precisamente a aquisição de uma panóplia de direitos enquanto cidadãos de um país?

Embora o que nos interesse seja relevar a perversa teleologia da "certamente" futura presidência cavaquista, Louçã, que esteve muito bem (independentemente da concordância das suas posições políticas, e obviamente mais liberto, ainda não plenamente, também não sejamos ingénuos quanto à liberdade discursiva dos pequenos partidos, pela natureza da sua candidatura a explicitá-las sem entraves e subterfúgios), convenhamos, borrou a pintura de forma inacreditável com o recurso às cordas sensíveis da "história verídica" do "menino imigrante". Num debate em que com invulgar justeza e clareza se posicionou face ao que lhe foi colocado, e pôs em xeque os inúmeros buracos da figura e da matriz política de Cavaco Silva, não se percebe como é que insere de forma, perfeitamente controlada e estratégica, esse apelo demagógico. Se vai começar a entrar por aí (e tudo indica que sim), a credibilidade que meritoriamente na sua posição partidária e política difícil ia conseguindo sustentar, merece preocupação grave e dúvida quanto ao seu substrato político também. Louçã, pelos seus pergaminhos, melhor que ninguém, deve saber que o discurso não é inconsequente. Se daí se retirarem consequências sérias, como se deve tirar relativamente a Cavaco, não se queixe: claramente ele as pediu.

Cavaco, só numa democracia esvaída de reflexividade pública séria, que determina teleologicamente por constrangimentos exclusivamente extra-situacionais a validade e probabilidade relativa dos resultados esperados de uma eleição, é que depois deste debate pode ser levado a sério sequer como candidato. Comparando o facto futuro consumado com o facto presente em construção, numa democracia séria isto seria uma anedota. Mas numa democracia séria não há factos consumados destes. O silogismo é fácil de completar.

42 comentários:

Eduardo disse...

Eu, que não vi o debate, sinto-me com este teu texto. Imagino que tenha sido como eu esperaria que ele fosse, e imagino-o a não ter, infelizmente, as consequências eleitorais que deveria ter numa democracia que não estivesse esvaída de reflexividade pública. Cavaco é um péssimo candidato que ganhará, quase de certeza, carregado pela inércia.

O que já estranhei foi a surpresa com o ataque de populismo de Louçã. «borrou a pintura de forma inacreditável com o recurso às cordas sensíveis da "história verídica" do "menino imigrante». Não sei exactamente do que se terá tratado, mas não deve ter sido pior que a vez em que ele quase se arrastou pelo chão de uma aldeia de Sintra em promessas de ser o deputado particular das gentes se estas votassem nele. Não há-de ter sido pior que as conferências de imprensa que marcou durante os anos Durão-Santana para fazer ataques pessoais (e por vezes sem grande sentido) a Paulo Portas (não, mesmo sendo ao P. Portas não é desculpa).

Digamos que lhe foge o pé para o chinelo da demagogia mais reles com uma frequência que torna incompreensível o teu espanto.

julinho disse...

Confesso que sou um péssimo cidadão, e não tenho o lastro de acompanhar fielmente os passos políticos das figuras da praça por forma sustentar o perfil das ditas cujas em algo mais que impressões situacionais ou conjunturais. Daí que as impressões que registei face aos dois cavalheiros se centrassem essencialmente no que ao debate dizia respeito. E nessa situação, dado o enquadramento retórico de toda a prestação do Louçã, sem esquivas políticas nem derivas politiqueiras, a irrupção da "história" do menino que, porque não era português, não podia juntar-se ao clube de futebol do bairro, foi de uma dissonância de proporções absurdas. E tanto mais absurdas quanto o discurso foi claramente programado. Naquele contexto, isto foi perfeitamente surpreendente (até, diria, pela eventual ingenuidade de arriscar uma dissonância tal, que para o seu eventual eleitorado até faz perigar a eficácia de tal populismo).
É certo que já lhe tinha deslizado o pé para essa chinela, como bem dizes. Mas tendia a ser interpretado como deslize (como no caso a propósito do aborto com o Portas, que, não, de facto, nem aí é desculpa), ou como parte da retórica de campanha do "jogo" democrático. Até por contraste com o seu perfilar (próprio ou por outros) como o magno defensor das grandes causas da esquerda, que o torna alvo mais visível para tais deslizes. Mas surgir essa veia demagógica como clara estratégia discursiva... posso ter andado muito distraído (é certamente o mais provável), mas na minha cabeça, e no contexto daquele debate, foi mesmo uma surpresa surpreendente (com pleonasmo e tudo).

Eduardo disse...

Pronto, como não vi o debate não me posso pronunciar, mas fico contente em saber que, desta vez, a tirada populista foi a excepção. Recordo, no entanto, que já no debate a 5 para as legislativas se saiu com uma, que acabou por ser o caso do debate, especialmente porque apanhou o Santana (bem como todos os outros) completamente desprevenidos. Eu tenho um problema grave com esse senhor como se nota, que deriva de não achar que populistas são "os dos outros". Mas se calhar o problema é meu.

julinho disse...

Pois, está visto que não sou mesmo gajo para se pronunciar sobre as figuras na durée da sua constituição temporal, porque já nem me lembro desse caso Santana.
E refira-se que a tirada populista foi designada assim por ter sido restrita a esse tipo de retórica muito específica. Ou seja, poderão eventualmente apontar-se demagogias no seu discurso, por exemplo referindo a sua liberdade para exprimir posições políticas descomprometidas que possam ser insustentáveis face a uma série de condicionalismos (a sua posição sobre a segurança social, por exemplo, não será cabalmente sustentada). Simplesmente essa eventual demagogia estrutural, que é o prato do dia de qualquer retórica política, não se manifestava necessariamente naquela retórica muito mais peculiar e populista da pessoalização. Tempo Passado, claramente. Parece que a evidência não anda a mesmo a favorecer o impoluto do discurso do homem.
Não estando portanto avalizado para achar que a tua irritação particular é só problema teu, eu fico-me pela prudência mais alerta face à presumível bondade do discurso político do senhor, na face da desilusão do que a espaços ele prometia, principalmente na circunscrição de um espaço de enunciação política que fazia falta. Que é como quem diz, é pena.
Porque de populismo, certamente, não há escudos aprioristicos para ninguém, embora o classifiquemos de forma diferente para diferentes perfis (uma bojarda do Santana já nunca teria o mesmo peso de uma bojarda do Louçã, para nos quedarmos nas duas figuras). O que nas minhas limitações, francamente, ainda não consigo ajuízar é do seu carácter estrutural no cavalheiro ou não. Mas desta feita fiquei mais alerta que esperava...

Eduardo disse...

Note-se que eu não acho que o fulano seja pior que "os outros", simplesmente não gosto da pinta de demagogo escondido com o rabo de fora a apontar o dedo aos outros. Enerva-me. Irrita-me. Enoja-me. Faz-me espumar pela boca. Ainda assim, e a título verdadeiramente excepcional, não está completamente excluída a possibilidade de eu votar nele nas próximas eleições. Que já dá uma medida do que eu acho da qualidade geral dos candidatos.

julinho da adelaide disse...

I see...
Quanto à qualidade geral dos candidatos, é dos panoramas mais irremediáveis que já se me depararam. A minha preocupação por este panorama e sentimento de entalado só é superado pela percepção de como na face da sanha populista isto apenas lhe dá mais umas armas para a mão. O que se torna difícil evitar quando não percebemos que é no próprio exercício da democracia que se jogam também as condições da sua vitalidade. Que é como quem diz, não se dêem armas populistas nos próprios termos da democracia. Só não o digo apelo inútil, porque isso seria argumento populista...

Anónimo disse...

Seu Julinho, excelente. Não me surpreende a qualidade analítica e o fôlego mas devo ressalvar como ela se alia a um proselitismo negativo (no Cavaco) onde se recolhem as melhores qualidades de um tribuno ciente das consequências do seu discurso. A "estratégia" (genuína, percebe-se) nas antípodas da demagogia militante é o distanciamento
analítico, ou se quisermos, o distanciamento analítico militante possível por tratarmos de um desejo profético negativo.

vê se facilitas o sistema de identificação dos comentários senão os anónimos serão reconhecidos pela preguiça e não pelo desejo de o serem

BSM

Anónimo disse...

Enerva-me. Irrita-me. Enoja-me. Faz-me espumar pela boca. Ainda assim, e a título verdadeiramente excepcional, não está completamente excluída a possibilidade de eu votar nele nas próximas eleições (..)

Eduardo, a minha perversa cabeça seguia esta frase com a expectativa de uma conclusão auto-reflexiva do tipo auto-depreciativo, um auto-cinismo retórico de que foi servido o aperitivo, mas, pronto, estavas a falar a sério.

Anónimo disse...

ah era eu,

Bruno

julinho disse...

Saudoso BSM (essa sigla em particular soa-me estranha, e espero que não ominosa, mas seja, compreende-se), esse molhar da palavra agracia-me inesperado, e como tal mais caloroso.
Devo dizer que, pelo mal já discutido da multiplicação de referentes, não posso reconstruir com certeza os termos de referência a que o comentário se apõe.
Egocentrado, como se exige em semelhante espaço, presumirei que se dedica a mapear a minha "estratégia" discursiva, embora algumas terminologias mais sérias não caibam no franzino corpo deste que agora fala (pelo que esta minha premissa egocêntrica de base pode ser bastante equívoca).
Partindo, não obstante dessa premissa (e nem por ela podendo esclarecer a que elemento discursivo particular a que o comentário se atém, se é que não é uma apreciação genérica), concordo inteiramente. De um proselitismo negativo se destilou este discurso (curiosamente, esse mesmo diagnóstico, até antes deste comentário, já o "tinha lido", quiçá em que grau de abuso, no que exprimia o post «A corrupção dos anos»). Tal parte, na consequência discursiva, do pressuposto de que, face a uma teleologia instalada, de facto, o passo central de qualquer sustentação democrática é a desconstrução desse finalismo inaceitável ao processo democrático, precisamente enquanto "processo". Nesses termos, as limitações desse proselitismo pretendem de alguma forma investir-se na discussão da reabertura da reflexividade e da ideia própria de escolha na vivência plena do processo democrático. Ainda que tal implique um desvio (que se espera, ainda que ilusoriamente, momentâneo) da referência plena ao espectro dessa escolha. É de facto um potencial equívoco, talvez até perverso nos seus efeitos, mas parece-me de momento que é preciso uma diacronia da desconstrução do fechamento até ao exercício pleno da escolha. Até porque a escolha foi severamente tolhida nos enquadramentos partidários da eleição. Mas isso será matéria para outra conversa (sendo, no entanto, que é precisamente na expectativa dessa abertura que a desilusão precoce que Louçã ali configurou mereceu a referência feita, no receio de se estiolar as margens da política fora da quadratura do círculo), outro passo. Certamente tão inconsequente quanto este (sendo que o mais inconsequente, no entanto, seria não o dar - e sim, isto tem mais leituras; outras ainda mais outras conversas).
Se a premissa de base do comentário era outra, pois fiz figura de asno mais uma vez. O que vale é que essa sim, combina.

Eduardo disse...

BSM (Bondage Sado-Masochism, certo Yester? Falta o "D" para ficar o ramalhete completo, mas também se vai lá bem assim): Sim, estava a falar a sério. Isso não invalidaria a presença de um comentário auto-depreciativo (que faço, mas não publico). Mas estava a falar a sério.

Claro que o mais repugnante de todos é o Cavaco objecto da posta, tomado como "facto consumado" pela conjugação inteligente de vários enganos e outros silêncios.

Yester: eu não tenho problemas nenhuns com a assinatura nos comentários. Não ligues a esse gajo que só quer dar-te trabalho.

julinho disse...

Porra, onde é que estão os emoticões quando preciso deles para me rir?!
A sigla, em boa verdade, lembrava-me outra sigla, não exactamente igual, non related. Outros pavlovianismos. Mas o Bondage-Sado-Masochism parece-me boa descodificação (com essa do D fiquei com a sensação de que a sigla completa seria BDSM, mas o que é o D, que estou a tentar extrair interpretativamente do meu lado mais kinky mas não me sai? )

Eduardo disse...

Domination, Yester, domination, como em Bondage Domination Sado Masochism.

julinho disse...

Domination, ofe crosse. Valham-me os santos pseudónimos que se a minha dominatrix descobre vai-me à fuça.
(bom, pensando bem, não calhava mal...)
(isto tinha começado a propósito do Cavaco, não era?)

Eduardo disse...

Pois, realmente, que raio de dominatrix é que não vai à fuça? E sim, começou a propósito do Cavaco e do gosto que os portugueses têm por ter dominatrixes a mandar neles. Continuamos, no fundo, no mesmo assunto, embora a introdução de nova terminologia possa fazer parecer que não.

julinho disse...

Como dizia o outro, temos poucas narrativas a fundar os nossos infindos discursos. O que não quer dizer que as suas variações não são relevantes. Como a variação dominatriz-Cavaco bem desvela.

Eduardo disse...

O problema da "falta" de narrativas (defini-lo como "falta" já implica um juizo de valor com cujas consequências eu não me sinto em condições de lidar) é entrar por caminhos muito perigosos. Estamos só a falar do Cavaco.

julinho disse...

Dizer que há "poucas" narrativas não equivale a dizer que há "falta" de narrativas. Não me parece que tenhamos estaleca sequer para as que temos.
Mas tens razão. Principalmente falando de Cavaco, conversa de narrativas é um magno despropósito. Ou (apeteceu-me agora dizer, só pelo som), um despautério.

Eduardo disse...

Despautério é giro. Eu também gosto, mas, infelizmente, uso pouco. Quanto à "falta" de narrativas, assumo todas as responsabilidades pela afirmação. Não arco é com as consequências.

Eduardo disse...

E é com agrado que vejo que não é só prog e não sei quê. Vá lá, talvez haja esperança.

julinho disse...

Felizmente também não há consequências para arcar.
Agora prog e não sei quê? Bolas, já não se pode dar um lamiré na coisa que se fica logo pronto para encaixotar na classificação. Era caso para voltar a falar de narrativas e de fechamentos epistémicos redutores se não fosse um despautério (outra vez) e eu ainda tivesse pachorra para essas terminologias.
Esperança é que, lamento, já não há. Quando muito poderíamos dizer, vá lá, talvez tenha havido esperança, no que a esperança seja de vivência válida não apenas aposta no futuro.

Eduardo disse...

É para veres o que custa um gajo usar uma letra dos Radiohead e ser logo "acusado" de ser fã deles. Custa tomar uma dose do próprio remédio não é? Vá, confessa! Agora não gostas! Pois bem podes estrebuchar à vontade! Agoniza: prog prog prog prog prog!

Pronto. Já estou mais calmo. Obrigado.

julinho disse...

Arghhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
(agonizo)

Pronto. De nada.

(ser "fã" - duvido que tenha usado a expressão mas não me atrevo a ir procurá-la nos arquivos borgesianos - dos Radiohead, provavelmente porque não se atreveram a prosseguir a senda dos Kid A/Amnesiac, ainda não é marca de ostracismo)(ainda não..)
(no senso lato, virtualmente dissoluto, e adequado, de progressivo, esses Radiohead podiam ser perfeitamente concebidos como tal - foram-no em certa medida, aliás - pelo que podes ter caído nas garras do teu próprio fechamento, se é que não vais dizer "eu é só Tá Bem Ó Computador", e mesmo aí... - benvindo ao exílio. É um lugar com as suas benesses)

Eduardo disse...

O meu álbum preferido dos Radiohead é o Kid A. E eu tenho consciência (mitigada, mas tenho) do obscuro relacionamento com o prog. Um certo revivalismo, até, sei lá. Mas uma coisa não tem nada que ver com a outra. A síntese muda tudo.

julinho da adelaide disse...

Na verdade não se carece consciência para apreciar o que eventualmente seja derivativo de progressivo. No estado actual das classificações auditivas, carece-se aliás de não ter consciência para apreciar progressivo. Progressivo entendido, entenda-se, enquanto não-categoria. O que, obviamente, não é o caso de muito do progressivo que implicou fechamentos estéticos. Progressivo que não me interessa genericamente. Mas progressivo que se defina precisamente enquanto negação de fechamento estético. Nessa definição justa, que a tua «a síntese muda tudo» recobre, o Kid A (poupando-nos dos pormenores derivativos progressivos, que de facto também os há, embora não feitos matéria revivalista, nem coisa que se pareça, mas matéria futurista quando muito) é capaz de ser das coisas mais progressivas musicalmente que ouvi nos últimos anos. O que quer dizer apenas que é um álbum assombroso (assombrado) e assombrante(?). Não se precisam de mais categorias ou adjectivações (e progressivo, enquanto tiver que ser meio para alguma coisa, é para identificar esse espanto iniciático renovado).

(dissertar sobre progressivo em caixa de comentários: isto é muito estranho. Grande novidade)
(estou capaz de ter que aproveitar isto para alguma outra coisa...)

Eduardo disse...

Tudo isto é muito estranho há muito tempo, Yester. Dissertar sobre o progressivo na caixa de comentários até me parece bastante... enfim, something you do when you're bored, sei lá.

julinho disse...

Bom, lá dizia o cavalheiro que basicamente tudo is something you do when you're bored. Mas há actividades mais eficazes que outras para a(o?) boredom. Dissertar nesta caixa sobre progressivo não fica muito mal na escala. Provavelmente porque tudo isto é muito estranho.

Eduardo disse...

Isto está a ficar pescadinha de rabo na boca.

julinho disse...

Como tudo (o que é outra boca na rabo de pescadinha). Donde?...

Eduardo disse...

Donde? Donde o quê?

julinho disse...

Donde: e daí?
Ou donde, nada.
Não posso usar as minhas expressões idiomáticas...

Eduardo disse...

É o que dá começar por falar das presidenciais. Mesmo quando já se saiu do tema, a conversa parece chegar sempre a um tipo qualquer de impasse. Isto é mais grave do que a maioria das pessoas está disposta a admitir.

julinho disse...

Que fatídico... Normalmente eu estaria mais que disposto a admiti-lo, mas tirei uns dias para negação. Suponho que também isso seja mais grave do que a maioria das pessoas está disposta a admitir, e que isto é outra pescadinha de rabo na boca, e que isto é outro impasse. Mas pela positiva, já temos vários nomes para o mesmo beco. Quase tantos como candidatos. Mas claro, os impasses mais reais (demasiado reais) levam sempre a melhor.

Eduardo disse...

Mas tirar uns dias para negação 3 ou 4 vezes por ano é absolutamente fundamental para resistir à tentação de sair à rua numa fúria homicida. É certo que para a maioria das pessoas, há uma fase da vida em que se tira uns dias para negação e por lá se fica. Se for o caso, boa viagem.

julinho disse...

I should be so lucky!... Não, nem denial, nem booze(?), nem prozac, there is no forever sweet oblivion in life for me. Mas lá que era bom, era... Ah negação, nunca te fizeram as odes que merecias. Mas também eu não as farei, que falar de ti é já estragar o teu breve encanto...

Eduardo disse...

Chocante. Quase tão chocante como o Natal itself.

(Refiro-me, evidentemente, a todos os natais).

julinho disse...

Agora sou eu que estou perdido. O que é chocante? O que entendes por todos os natais (as várias acepções de Natal?)?

Eduardo disse...

O teu último comentário. Chocante.

Sim, os vários natais.

julinho disse...

(ausência recobrada)
O meu último comentário. Chocante. Sim. Mas porquê? (consigo ser tão poucas e esforçadas vezes chocante, que preciso de saber como é que posso ter sido operativamente chocante, para poder reproduzir o efeito).

Eduardo disse...

Agora sei lá! Já me esqueci!

E já não me apetece comentar mais aqui. Mas não há razão para entrares em pânico: breve, breve parasitarei outra posta, lá mais para cima.

Devo andar com problemas de rejeição.

julinho da adelaide disse...

Calculei que sim. Mas tinha que dar o flanco da frase no vácuo discursivo para me certificar da tua ressentida rejeição. As minhas desculpas pela incúria interaccionista de ir à cata de diospiros... I'll hold my breath pela tua re-aparição (e lá terei que produzir postas para garantir um leitmotif possível da mesma... "drats"). Sabes que isto não é a mesma coisa sem ti. Sabes, isto até pode ser uma projecção mental tua (peço desculpa, não queria ser ofensivo e macular desta forma a tua dignidade... eu desato os dedos e eles escrevem o que a retórica permite...).
E não sei se usas dessas convenções potencialmente vácuas ou irritantes, mas para que não seja potencial de mais rejeição (porquanto sincero o desejo, toda a minha vida é negação da sua efectividade): bom ano.

Eduardo disse...

Uso pois. Bom ano para ti também.