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quinta-feira, 8 de março de 2007

Dá-me biscoitinhos, Ivan Petrovich

É muito esclarecedor da necessidade de incitar metodologicamente a produção de conhecimento, só apercebermos pelos automatismos deslocados dos gestos (fora do contexto de hábito) a correlativa deslocação desapercebida das preponderâncias estruturais em que se vai inscrevendo o nosso quotidiano. Hoje ficou reflexamente comprovado que, ao contrário do meu hábito ancestral, devo andar muito saído do habitáculo: estando nessa penthouse heffneriana a que chamo lar, depois de lavar as mãos na casa-de-banho (mas para que é que agora estão a pensar nisso?, eh pá, com um intróito logo assim tão pseudo-algo para vos elevar o espírito inquiridor, para que é que tinham que encarreirar nessa cogitação profana?, como que, assim, tipo arremetendo-vos salivarmente - ahhhh, por isso... pois, já percebi, perdão, não voltarei a duvidar de vós... ou antes... tinham mesmo que me antecipar o argumento, não?... chiça, mesquinhos...), dizia eu, depois de lavar as mãos na casa de banho em casa, tive um segundo de hesitação em que fiquei à espera que a torneira se fechasse sozinha.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Mistaken Identity 2

Escusando, para benefício da minha self-made prophecy eremita, um convite de polidez para a passagem de ano (dada a exposição do meu ensimesmado cenário doméstico para a efeméride), alinhavo o argumento jocoso de circunstância, de que preferia passá-la, como sempre, agarrado à almofada a chorar. A minha amiga não sorri. Retorque meio pressurosa, ma non troppo, como quem reconhece um sintoma num quadro patológico, com um cândido (oposto a céptico), menos interrogativo que reiterativo, «a sério?».
Quando as nossas ficções personalísticas ameaçam substituir-nos o que retemos como a nossa plausibilidade ontológica primeira, nos quadros interactivos, podemos descobrir-nos reféns do que damos corpo como plausível, ou tranquilamente confirmar-nos bem sucedidos produtores identitários. Para os primeiros, desdobra-se a questão de saber se a persona era uma máscara que se tornou demasiado verosímil (tornando-nos os nossos próprios body snatchers), ou a superfície que julgávamos velar e afinal reflecte o que jaz. Para os últimos, pode inquirir-se se, na verdade, seremos realmente reféns da plausibilidade da nossa ficção social, ou antes da própria ontologia que apenas presumimos precedê-la, no resguardo securitário da identidade própria, de ter que presumir saber quem se é.
Poderá configurar indestrinçável charada existir entre espelhos ambulantes e deles se refractar a nossa imagem. Saber se as nossas ficções são menos ou mais constitutivas do que somos, do que a nossa identidade. Saber se será mais real a inexistência de humidez na minha fronha, ou a plausibilidade de o meu travesseiro ser credor do que não aspergi. Portanto, a única questão que restaria, à luz da dicotomia primeira, seria saber se se intende persistir e subsumir-se à presumível personagem, ou se é possível e/ou desejável regressar e ater-se à pressuposição matricial de ser uma pessoa.
Escrevê-lo e não saber, poder, ou querer decidir, será a primeira de todas as irresoluções de ano novo: no fim de contas, o melhor dado ontológico que já me conheci.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Circuito fechado

Débil de vontade, deixo-me ser arrastado até ao Jamaica (em Lisboa), essa deliciosa relíquia taxidérmica de fauna e sociabilidades dos eighties. Entre os comoventes grupos de cromos grisalhões (don't look at me) a encontrar no reduto da resoluta constância o espaço de respirar num mundo tormentoso de mudança, certas outras faunas ainda se propagam, que não sendo originárias, nestes terrenos formam um clássico tipológico: por exemplo, o ventosa (chamemos-lhe assim: aceitam-se outras designações).
Dança-se (enfim, the ladies do, eu finjo com um ginger ale estar entornado o suficiente para legitimar com inimputabilidade eventuais tristes figuras, justificadas, na verdade, por falta de espinha dorsal - como seja menear a anca em jeito de espasmo involuntário ao som dos manos Gibbs), e vê-se o ventosa aproximar-se, com toda a corporalidade em denúncia antecipada de intenções, ensaiando as pouco subtis mas variadas formas de insinuação no "espaço pessoal" das suas presas. Estas seguem o protocolo de desencorajamento à incansável campanha bélica da figura: primeiro, estratégias de evitamento (desenhando linhas de fuga pela pista de dança). Seguidamente, olhares desencorajadores, breves, a resguardar o limiar da interacção (a evitar a todo o custo). Finalmente, a frase seca, lançada, terminal, a evitar resposta (não dar troco). A esse ponto, o óbvio leva os vigias a tentarem convencer o cavalheiro a arrumar as malas e seguir viagem (no caso do Jamaica, a figura encarregue é, quem mais?, o potentado das figuras de autoridade, seja no nightclub, seja na casa de família, uma adorável cidadã de terceira idade)
Considera-se o que o move. Qualquer propósito predador é inconsequente na clareza da ineficácia, porque tanto mais fincada quanto mais atentada. O ventosa dificilmente pretenderá uma concretização para lá da reacção directa ao acto. Não há motivação ulterior, não há planificação urdida, não há complexo jogo temporal de intenções. Esgota-se no acto da insinuação, da extracção de uma resposta, na face suficiente da negação. O acto faz-se para o actor se ver agir, e na arena circunscrever o espectro da sua consequência. O ventosa circunscreve-se largamente à coreografia limitada da sua inconsequência. O seu devém o espectro da fatalidade, a reconfirmação do estiolar corpóreo ou relacional.
Daí, a consequência seria até talvez algo inapreensível para os seus meios de ser (pushing the argument). Talvez, quando muito, a figura seja o mimetismo automatizado (no auxílio etílico a afogar o assomo da consciência de si anquilosado) de uma motivação antiga, a única que concebeu frutuosa, a que se atém como bóia de sentido (fill in the biographical redemption blank). Como um náufrago nas dinâmicas relacionais, que, em circuito fechado, simultaneamente sustenta à tona d'água despojos motrizes de ainda ser e agir no mundo, e dinamita nessa mesma acção (pelo seu excesso contraproducente) as reais possibilidades de ela ser consequente para lá do circuito em que opera (perdendo-se no humano remoínho do real continuado, dos guiões não formatados). Um ser comprimido e contido num encaixe tipológico (sedutor, macho, tesudo, whatever), mumificado na ontologia paradoxal do simulacro encarnado. Apenas a mascarada para si de se fazer ser visto, na distanciação (de si a outrém) automatizada, a proteger de abalos os fundamentos do rosto oculto, sem clarear a represa que retém um corpo quando se esvaiu a arena e a luz penetra a confissão de um olhar calado. Mas os termos das coreografias situadas na tessitura do quotidiano são insondáveis. Particularmente quando as máscaras se incrustaram na estrutura da face e identidade.
Só se pode quedar a suspeita negada (quem a confirmará?) que o ventosa é chato como a potassa, mas é capaz de, às vezes, ser, ainda mais que isso, muito triste.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Oh, I'll say it again: "just call me mr. pitiful"

Arduamente dirigindo-me a Sines para presumivelmente usufruir dos 3 dias de concebivelmente férias que um corpo-dolente-profissional-não-dignamente-subsistente se pode outorgar, ao chegar procuro poiso para repousar (mal e porcamente, virtudes orçamentais) as ossadas das estouvadas caminhadas que as episódicas sacudidelas fora do casulo incitam quase em contra-reacção, mais uma vez em incompatibilidade com a devida planificação e estabilidade.
No último telefonema de cabine in loco da investigação por leito e latrina (primazia para a segunda), um velhote renitente finalmente afirma ter um quarto disponível, «mas onde é que você está? Está em Sines? Já vem a caminho (só depois percebi que era em Porto Covo - o previdente ataca outra vez...)? Mas demora quanto? Mas afinal quer que o guarde ou não? Está bem, mas despache-se, qu'isto...». Preço minimamente aceitável para condições de pensão-casa-familiar. Vamos a isso.
Chegado com o desembaraço aceitável, o cavalheiro lá mostra quarto, sim senhor, serve, não sou esquisito.
De repente, estaca e mira-me nos olhos com seriedade antecipada de suspeição, meio descrente: «Mas...não trouxe a mulher?... É sozinho?». «Sim, sou». Meneia a cabela ligeiramente, como quem se depara com um desconcerto às expectativas incorporadas, e solta então complacente «ah, então paga menos... não quero enganá-lo... se é sozinho...».
Nunca me tinha propriamente sucedido (embora lhe suspeite razoabilidade social) encontrar expressões de dó pelo celibato aparentemente não voluntário, mas compensações financeiras, essa é nova.
Curioso como as reminiscências (e os actos correspondentes) de uma configuração pré-figurada de presunção dos seres e suas formas de acção num mundo cerzido de relações podem configurar um efeito perverso nos incumprimentos à regra que lamentam: tenho muita pena, mas se o quadro de solteirão inusitado me poupar cinco euros na renda, temo bem que a solidão organizada me cimente tal contingente condição na expectativa de um outro futuro promissor, na carteira.

sábado, 1 de abril de 2006

Alvo em Movimento

Em poucos dias deparei em casa com as duas maiores (gordas, corpulentas, patudas, multi-colores) aranhas que vi na vida.
Há alguma epidemia de que não esteja a par? Já pensei em guardá-las num frasco para mostrar a especialista avisado. Ou estarei numa lista aracnídea de alvos a abater ? Seria bastante desagradável. É que o problema é igualmente a reacção de defesa. Comecei de há uns tempos a esta parte a ter grande restrição no abate indiscriminado de seres vivos que não me causem dano físico (vou abrindo excepções ocasionais para melgas, dada a condição parasitária). Mas estes exemplares andam a pôr em causa a minha determinação.
Sem dúvida que isto pode ser um escancarado teste moral. É essa aliás a cruel perversidade das sendas da virtude: só a partir do momento em que nos acometemos a um princípio é que a tergiversação ao mesmo se torna matéria de angústia moral e justificação racional (que soa sempre falha à fácil evocação retórica do imperativo). O desviante ocasional consciente assume sempre sobrepujante culpabilidade face ao constante desviante estrutural irreflexivo. Ora, não só esta disposição é a-problematicamente ínvia, como para este princípio desconheço teologia (os homicidas, por exemplo, têm a orientação moral bem mais facilitada). Pelo que, auto-infligido pelo meu bom comportamento (e duvido que os gajos do karma façam estas tortuosas contabilidades), mesmo na consciência da colocação de um teste moral, é certo, como sempre, que vou falhar. The nice way, though, tanto quanto se pode aliviar a consciência: pela sanita.

domingo, 12 de março de 2006

Efeitos secundários da sociedade vigiada

Quando passo por um detector anti-roubo estou sempre à espera que ele apite.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Vai autoritária mas não segura

Ia o je descansadamente equivocado na faixa do Bus ao descer para o Marquês do Pombal, quando um senhor agente da autoridade em motocicleta passa pela minha esquerda fazendo sinal para me encostar para a faixa correcta. Ao anuir com um aceno e um sorriso de admissão de culpa à chamada de atenção, e deslocando-me para a outra faixa, eis que o agente se posiciona do lado direito do automóvel, e eu, descendo a janela para abrir as margens de comunicação, ouço vociferar o homem do distintivo: «o senhor acha graça, é?!».
São tempos e/ou personagens perigosos quando a primeira, epidérmica, interpretação de um sorriso é que ele seja criminoso. Principalmente intérpretes armados. Talvez fosse conveniente pôr antes os psicólogos da polícia de plantão.
É que era um problema privado o facto de eu não lidar bem com a autoridade.
Mas
já indicia um problema público quando a autoridade começa a priori a não lidar bem comigo.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Leitmotif

Sempre achei que o uso socialmente sancionado de substâncias com efeitos desinibidores funciona muito mais como porta social de legitimação para comportamentos excepcionais face a padrões socialmente esperados de interacção em certos contextos, do que como potenciador meramente químico desses comportamentos. A borracheira (ler o “ch” à espanhola, como bom raiano), pareceu-me pois sempre socialmente formatada, não só na construção óbvia das circunstâncias em que tal processo adquire sentido, mas na sua própria conformação etílica, ou seja, na configuração dos gestos e das palavras de quem no éter se instala.
Isto porque a generalidade das bebedeiras (lúdicas, atenção) a que assisti na minha vida me surgiam sempre com uma dimensão performática relativamente evidente, conquanto certamente lubrificada, em que o indivíduo não deixava de, na sua alteração química, se posicionar estrategicamente face à prévia classificação da sua conduta como bêbedo. Confissões, exposições corporais, gestualidades exercidas sob capa da facécia alcoolizada (homoerotismo, anyone?), paixões finalmente em movimento porque por tal capa seus gestos eram sancionados (e o que se faz da paixão passado o prazo de impunidade é outra matéria), tudo isto sempre presenciei com o sobrolho mental levantado, ainda que com a disponibilidade humana aberta, afinal, o carecer de tal desculpabilização para libertar certos revolvimentos íntimos não merecia menos o beneplácito de humano reconhecimento. Mas a natureza de tal procedimento tanto mais se tornava evidente, quanto eu próprio nunca me vira, por mais entornado que estivesse, em disposição corpórea ou psicológica de descontrolo e desinibição que me levasse a exercer equivalentes daqueles comportamentos excepcionais (é certo que o facto de ser desviante na minha condição não etílica pode infirmar esta tese toda, mas tal ainda está a precisar de evidência empírica sistemática).
Tal não implica advogar o retirar o estatuto de borrachón a quem se apresente, mesmo que suspeitosamente, sob tal categoria, pois ameaçaria sancionar abusos de estados físicos e psicológicos que, mesmo não estando plenamente diminuídos, obviamente e em circunstância alguma legitimam formas de acção que se espoletam pela presunção dessa diminuição. Nem sequer se pretende propriamente contribuir para restringir o soltar a franga que essa condição socialmente legitimada permite (considerando apenas os casos não-profissionais de alcoolismo, obviamente - aí as categorias são outras). Isto serve apenas uma atenção pessoal ao olhar não censório desses gestos libertos: nunca me fiei em pensar que as falas recônditas que se desvelavam nesse momentos instituídos de excepção social fossem inocentes como as (supostamente) das crianças. O seu peso aparecia-me sempre como requerendo cuidadosa ponderação.
Não será pois pelo hálito que diminuirei a ressonância dos actos e das palavras. Pelo hálito só velarei da reciprocidade das minhas respostas.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

The Invasion of the Body Snatchers

Sei que é recorrente e injusta generalização tomar "os políticos" (a expressão é todo um programa) como massa informe de volúvel constituição humana, máscaras ressequidas da prossecução constante de fins que se equilibram no seu reflexo entre a auto-promoção e certo ideário político fixado na estreiteza táctica partidária. Mas, creio que principalmente nas Jotinhas, e talvez mais naquelas atreitas a vontades de poder ou a um evangélico conservadorismo, sinais exteriores de uma condição interna misteriosa despontam de forma preocupante.
Vi no meu crescer etário algumas pessoas serem em fresca idade atraídas para as socializações de juventudes partidárias (principalmente aquelas atrás apontadas, donde o meu viés – se bem que tendo conhecido uns poucos esquerdistas juvenis me incomodasse menos, ainda que não pouco, a sua cassete que a plasticina dos outros), sendo que os nossos diferentes caminhos deixaram rasto parco de reencontros. Quando estes sucedem, é gritante, a cada avistamento e troca de palavras, a sedimentação dos gestos de plástico, das frases tiradas de um cartão de instruções. Eu não sei o que se passa naquelas catacumbas de doutrinação juvenil (as Jotas aliás deviam ser proibidas por excesso psicológico de doutrinação, operação perniciosa às criancinhas impressionáveis). Os humanos Jotas que me perdoem, e me tomem por alerta, mas o que eu queria saber, para exorcizar popular e eventual injusta generalização, é se alguém já tocou alguma desta gente por dentro da pele, e se lá por baixo não havia uns revolventes tentáculos a mecanizar sua acção e pensamento.