domingo, 26 de novembro de 2006
quarta-feira, 26 de julho de 2006
Death 'n company
«Ele deixou escapar uma exclamação confusa, ruborizou-se de alto a baixo, sacudiu-me a mão com toda a força… - e no segundo imediato, já sozinho na câmara do navio, fiquei a ouvi-lo subir a escada da escotilha, cuidadosamente, degrau atrás de degrau, com um medo mortal de suscitar a ira brusca do nosso comum adversário, que era amarga sina sua trazer, com plena consciência disso, dentro do peito vulnerável.»
(Conrad, «A Linha de Sombra»)
O saber é constitutivo da sina. Nomeia a sentença e impregna do seu presságio e piedoso reconhecimento, agora escancarado no tempo, o tecido das acções e relações que incorporavam ao escoar descomprometido do que as carnes sentiam poder dispensar do rubro fluido.
Os adquiridos colectivos recobrem tanto as externalidades que estilhaçam em cada corpo... Não é questão, que raio, sopesar tanto persistir ancorado; é tão somente um corpo não mais poder morrer a vida em paz, apenas maré de possibilidades, e apiedar na quietude um quasi-fútil cerco, sem nunca barrar de tanta lâmina o alcance... Alimentar o albatroz para cuidar da certeza do seu poiso, e os olhos devirem servidores absolutos dos gestos que o cumpram. Estagnados, absurda esquiva afinal cumprindo destino antecipado.
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
E a propósito: A Deformação Do Artista Enquanto Jovem
O pior serviço que se pode prestar hoje a um jovem é iniciá-lo nos prazeres da leitura. Felizmente, mal iniciado, consegui manter a frugalidade na sua satisfação, apesar da tentação do pecadilho intelectual. Mas, na torta veia que me inspira, se é de deformar juventude que se trata, e se esta é a única lista que já vi por essa blogosfera fora que não parece ter colhido candidatos, e além do mais já passou do prazo: estamos aí.
Ora vejamos.
Eu já não sei o que é um jovem de 14 anos. Por isso: inimputabilidade sugestiva.
Para começar, um desopilanço humorístico para dar à leitura um prazer instrumental: «Wilt na Maior», Tom Sharpe. Há quem goste d’Uma Conspiração de Estúpidos, John Kennedy Toole. Eu não. Mas há quem goste. Considere-se o perfil do petiz na decisão. Atenção que a capa é logo um turn-off.
Depois, um arengada pseudo-filosófica-existencial-místico muito ao suposto gosto de jovens em formação para se crerem bonzinhos enquanto mamam uns shots na 24 de Julho às custas da parentela: «Siddartha», Herman Hesse. A chave da relevância da arengada é, claro, a virtude do caminho e não do achado: a arengada propositiva não interessa, interessa o arengar. Até podem não o captar, mas engolem-no na mesma. Isto é sageza.
Depois, humor à portuguesa um pouco mais requintado: um Eça não pode faltar, apesar de provavelmente já ter esgotado o prazo de eficácia geracional para tal função. Nunca por nunca os Maias. Eu apostaria na «A Correspondência de Fradique Mendes». Talvez As Cidades e as Serras se o rapazito ainda é daqueles arrastado ao campo pelas famílias ancestrais. Não o Padre Amaro: a desilusão das expectativas montadas (cof cof) pela Soraia seria o fim da empresa.
Para romances mais contemporâneos, e respectiva socialização formal, talvez o Rubem Fonseca, na dúvida se é preciso estar em crise de meia-idade para córtir: «Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos».
Considerar «O Deus das Moscas», William Golding, pelo reconhecimento juvenil, atracção aventureira, anárquica e suspense, apesar da teleologia filosófica duvidosa.
Não haver contos é uma maçada porque deixa Agualusa e Mia Couto de fora, e seus respeitáveis potenciais pedagógicos (os romances não têm o mesmo efeito).
O tesão sempre foi crucial para a (de)formação. Neste caso creio que formação mesmo. Mas é complicado gerir. «A Casa dos Budas Ditosos», Ubaldo Ribeiro é desempoeirado mas talvez gráfico demais, e não usa camisinha. Dúvidas, dúvidas: não são coisas que se ofereçam. Sugerir aos pais que os deixem "casualmente" esquecidos em recanto visível.
Talvez optar pel’ «O Perfume» do Süskind que pode combinar os benefícios dos dois critérios anteriores, e tem premissas sedutoras literariamente falando (ou seja, cativantes da jovem mente a deformar).
Considerar a intermutabilidade da Anne Frank com «Se Isto É Um Homem», Primo Levi, para rapazes já demasiado socializados para não ler diários de raparigas, notwithstanding.
Para um cheirinho de atracção sci-fi com inoculação de preocupações panópticas, «Admirável Mundo Novo», Aldous Huxley, pode ser bastante eficaz. Não o deixar ler prefácio, se o tiver.
A inclusão pode ser variável no lugar, mais para o final, mas creio que valeria a pena insistir n’«As Vinhas da Ira» (Steinbeck, para quem insiste em esquecê-lo) apesar da extensão. Essencial para boa formação humanista. Isso mesmo gente, humanista.
Indispensável para a inquirição metafísica sem a insuportável lâmina pessoana: Borges. Um qualquer, excepto talvez os mais esotéricos ou eruditos: não as Ficções nem Outras Inquirições. Talvez «O Fazedor».
Enxertar poesia deve ser feito, mas mais para o final: é complicado de fazê-lo comer tais mariquices, na forma e frequentemente na intenção. Eugénio não me parece a menos que seja menino com potencial "sensível". Sophia precisa de maturidade ao contrário do que muitos pensam. Se o petiz for bom de cabeça, o Herberto Helder pode ser deslumbrante, mesmo não percebendo nada, ou precisamente não percebendo nada. Dar Pessoa a jovens merece protesto da Associação da Protecção para os Animais: não estão capacitados para tal nível agónico de angst. Pessoa não é bonito. Repitam comigo: «Pessoa não é bonito». Talvez custe a muitos (au) mas talvez «A Praça da Canção» (do Sr. milhão de votos) não fosse mau, mas só a Praça da Canção, já nem O Canto e as Armas, já retórica pátria a mais (lembramos, isto é só iniciação hã, não queiram o puto já a citar clássicos na Kapital – ou pior, citar O Capital, Marx, para quem insiste em esquecer). Acrescentar para efeito poético mais denso e espraiado Drummond: uma boa antologia.
Quantos são? Já não sei. Nunca me interessou. Nem para cumprir listas sirvo. Aprendi-o, sofri-o, com livros. E só li estes a vida toda, atente-se. Nunca mais. Deixem o moço em paz.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2005
5 - Aaahhhh (não esse aahhhh, ainda que pudesse ser com toda a propriedade)
Ao fim de quatro posts, precisamente porque ao fim de quatro posts, se percebe porque é que, talvez arriscando a validação prática da sua metodologia moral, Santo Atanásio exemplifica o seu princípio com matéria de fornicação - a moral exige, para subsistitir na pachorra da sua dissertação, substância suculenta e tentadora.
Qual era a graça de esgrimir contra pecados de chacha? A moral pode ser muitas coisas, mas nunca lhe conveio ser sensaborona.
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4 - Revisão da matéria em revisão
Claro que isto não me pode ser seriamente proposicionalmente imputado, quando, parafraseando, talking about morality is just a thing you do when you're bored.
(o que implica uma espécie de presumida auto-suficiência moral que também é problemática, claro, que talvez na sua circunscrição negativa e circunstancial de se transmutar discurso basicamente na face de pés que pisam, com o que pisar implica de delimitação moral, dedos que preza, principalmente dedos que pense deverem ser prezados na condição de não serem de pés que pisem dedos outros, pretenda ser menos daninha, mas não prosseguiremos a temática, pelo menos agora - I'm not THAT bored)
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3 - Estado da matéria em revisão - as morais de si a (com) outrém
Curioso como na afirmação do princípio do olhar alheio se sustenta a tentada arte de vigilância moral de si de Santo Atanásio. Tal parece implicar uma insuficiência do indivíduo para dar conta do seu estatuto moral nos termos da sua acção. Contudo, é evidente que existem olhares irmanados no pecado (como no exemplo de não se fornicar sozinho, presumindo, para o argumento, tal como pecado). O que implicará que, a pôr-se a censura do olhar alheio na nossa própria vigilância, é quanto à qualidade desse olhar que se pode ater a firmação moral. O «não fornicaríamos diante de testemunhas» (e note-se como fica bem ao escriba o emprego da primeira pessoa do plural), implica pois uma noção particular de testemunha, como figura isenta da cooptação no acto pecador. Mas tal figura só pode exercer tal papel (mesmo que passivo, pelo mera presença) de instigador moral, na medida em que as categorias que mapeiam os actos em torno do pecado se encontrem reconhecidas e validadas pelo pecador.
Invertem-se pois os termos da composição da vigilância de si. Se a autovigilância não se basta na sustentação moral, a hetero-vigilância tampouco (na sua medida de não-coacção directa, física, claro - o que foi pouco o caso, mas é o que agora interessa). O problema que finalmente se coloca, é que esta gestão da moral pressupõe uma validade universal de acesso e reconhecimento dos seres nos seus ditames. É essa condição que foi perdida com fim das várias unicidades que pretendemos dar aos mundos. A noção possível de moral só pode ser no espectro dessa ambição hoje uma concepção relativa, compósita e negociada das morais que diferentes criaturas vão envergando em diferentes circunscrições da vida. É isto que os proselitas se recusam a compreender. É isto que no mais pacífico fechamento da crença que se crê razão, instaura os muros e as fachadas, sem toque de humano no cruzamento. É isto que, por não ter mais que fazer, hoje penso lamentar.
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2 - Matéria em revisão
Estarei a fazer algo mal, ou por definição fornicamos sempre diante (salvo seja) de testemunhas?
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domingo, 18 de dezembro de 2005
1 - Matéria a rever (ou a moral condicional) (ou é pela aplicação prática que se torce o princípio) (ou isso agora...)
«Eis uma coisa a observar para se ter a certeza de não pecar. Que cada um de nós note e escreva as acções e os movimentos da nossa alma, como que para no-los dar mutuamente a conhecer e que estejamos certos que, por vergonha de sermos conhecidos, deixaremos de pecar e de trazer no coração o que quer que seja de perverso. Pois quem consente ser visto quando peca, e após ter pecado, não prefere mentir para ocultar a sua falta? Não fornicaríamos diante de testemunhas.»
(Santo Atanásio, Vida e conduta de nosso pai Santo António)
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