Mostrar mensagens com a etiqueta interblogging... such a sad ménage. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta interblogging... such a sad ménage. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Na outra margem, por sobre a calçada portuguesa (faking nagging Vasco Barreto #54)

Parece relativamente evidente que a geografia foi modificada, e a Margem Sul é, no presente, bloguisticamente, um dos mais trendy place to be (ainda que o mercado imobiliário esteja estranhamente um pouco lento a cavalgar a onda migratória de luxo oratório) (Coimbra sendo já um clássico, prestando-se mais a distracções nos mapas turísticos da cena). Mas na ausência (yet) de uma consciência universal do facto, convém refrear as sequelas mundividentes da exuberância cosmopolita a sul do Tejo para a (im)precisão geográfica com que se olhe para o resto desconsiderável do mundo. Sem contestar o ditame vidaliano e o aconchego anímico de postular que a transumância é literariamente produtiva, temos também que reconhecer que mudar de código postal não é exactamente o mesmo que chegar à nova morada a torcer a roupa após cruzar um oceano. E para a restante blogosfera interessada, sem a compassividade de um aforismo goreano à mão para a ocasião, confesso que me espantou o silêncio aparentemente sem apreensão por il ritorno di Vasco Barreto in patria.
A menos que fosse um pacto do não-dito para não materializar a ameaça fantasma, eu por mim confesso que muito temi pelos efeitos baqueantes (de baque, está bem?) da deslocação. Ainda (e porque) mantivesse em Nova Iorque Portugal no coração e na pena (miauu), a buffer zone atlântica de alguma forma parecia nutrir uma não-chega-a-ser-paradoxal omnipresença planante e distanciada sobre as guinadas fenomenológicas aqui do quintal, enquanto lhe evitava o fascínio cabotino com o happening cosmopolita (começo a odiar a palavra) quotidiano das esquinas das avenidas. O descompromisso engajado perfeito, no fundo (o que levava a que nem fosse essa a necessária centralidade do seu opus in progress).
Naufragado agora cá na terra, como não temer que se visse incapacitado, como pelo amor de mãe sufocante, pela impositividade material das manifestações paroquiais de vida que antes poderia, mesmo com maior constância que qualquer nativo, gerir na saudável distância de estrangeirado que as excitações comunicacionais ainda não (felizmente) obliteraram, mas já tornaram pertinentemente transponível? Em certo sentido, esta transferência poderia ter tido bloguisticamente o impacto de um regresso de Nabokov à Rússia.
Francamente, o meu único descanso nesta inquietação toda foi, dada a prolixidade (mesmo com controlo de qualidade) barretiana, que, com toda a probabilidade, tomando a sua futura autobiografia mais facilmente o título de "Shut your yap for just a freakin' second, Memory" que outro assim nessa linha, o único problema que se lhe colocasse, como o próprio indiciou, fosse eventualmente o de ter que seleccionar um pouco mais o material print-worthy dentre o imparável e incompreensivelmente regrado stream of bloguingness. Tendo deixado passar o tempo para nos sentirmos seguros de novo, mesmo assim, para aquietar as almas perturbadas que se não manifestam, deixo aqui o aviso de que me encarrego agora mesmo de iniciar uma vaquinha para, em caso de necessidade, se comprar um bilhete de avião para correr desveladamente com o homem daqui. Quem me quiser ir ao porquinho (para enfiar lá qualquer coisa, that is (much better)), é favor avisar primeiro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Of course not, it was me

Se a "não-identificação" com as nossas palavras, ilusionada (vá, não chateiem) pela intermediação tecnológica de um meio de produção de discurso, como o blog, pode ser condição de nos capacitarmos psicologicamente a escrever, a sobre-identificação com as palavras desses outros com um passo atrás à mão é a condição mediada de engajamento prosado que nos faz coabitar voluntariosamente nestas arquitecturas pessoais perspectivadas pelos próprios de fora, e, não fora o autor levar o teste da não-identificação das palavras próprias ao limite assinando-as por baixo, tentando-nos à fraude do roubo de identidade e eventualmente clamar fui eu que escrevi isto.
No fundo, a melhor forma de elogio blogosférico (esquecendo as suas potenciais ambiguidades para quem escreve para not-so-hidden agendas implementar) pode bem ser, por breves segundos e a espaços regulares, ter vontade de apagar alguém do mapa.

sábado, 3 de novembro de 2007

We serve at the pleasure of who tells us to

Com a presciência dos imponderados, o Rogério endereça-me encomenda de registar publicamente a 5ª frase completa da 161ª página do livro mais à mão do servente, e por essa forma, por um instante eternizado na inefável grande ocular cibernética, partilhar da pertença simbólica a uma prestigiosa sub-secção da rede blogosférica de publicistas sem um Hyde Park a jeito.

Devo começar por me desculpar pelo atraso na entrega: tenho sido testado biblicamente na minha paciência para com o meu fornecedor e técnico de material informático, recorrentemente em avaria de há 3 meses para cá, e se é facto que até teria livros à mão para responder num cibercafé (coisa que nunca frequentei), com visionária sensatez, temi que ao sacar de um arcaico instrumento de leitura os cruzados do progresso que me cercavam me tomassem por fervoroso ludita e se me antecipassem à gadanhada nos processadores (eles têm alguma razão...) empalando-me com as suas pen(is - prolegómenos para uma fantasia tecno-sexual)s enquanto as Sugababes, ribombando ainda nos seus Ipods, conferiam uma rigidez maléfica ao impávido sorriso groovy com que a meio dos suplícios não cessavam de me encarar.

Estando agora em casa, e enquanto o computador não se demite de funções novamente (ou seja, amanhã), entrego-me radiante de interactividade à tarefa. Todavia, embora em nada interfira finalisticamente com o meu amestrado cumprimento de qualquer incumbência, devo confessar que o automatismo crescente destas correntes (memes? memes?) me inquieta. Emerge por aqui um debate tecno-ontológico já não tão larvar sobre a desumanização da escrita. Desconsideremos até a rigidez formatada (antes o soneto) desse modelo de interpelação, a requisitar uma ginástica retórica que, para justificar molhar a palavra, dê mínimo ânimo a tão árido pretexto discursivo. A última corrente, sobre os livros que não mudaram a nossa vida, ainda era um exercício rebuscado de distinção social, em que a gestão pessoal do desarranjo dos cânones buscava afirmar, se necessário com a devida displicência, a sua mestria no domínio iconoclasta dos mesmos, mas já enveredava por uma certa negatividade na identificazione di un(a) donna/uomo, não só definido pelo que desconsidera do mundo, mas reforçando o painel limitado do mundo e suas fronteiras estabelecidas nas quais o exercício de rejeição faz a sua selecta, já que, por definição, nada propõe de novo.

Já esta corrente, parece um daqueles alienantes experimentos psicológicos, onde a reflexividade e afirmação de um sujeito são arrumadas num armário em favor da imposição de um reducionismo mecanicista à acção humana. Gente boa, segura nas suas capacidades, encarou-a com a supremacia da sua inteireza retórica, rindo-se da pretensão de a manietar, satirizando-lhe a instrumentalidade, ou instrumentalizando-a para atiçar terceiros. E eu ainda me pergunto desesperado: exercício (nos seus trâmites) liminarmente descritivo, escrever uma frase determinada por um critério arbitrário, pelos céus, para que serve? Na sua incepção, é uma espécie de morte do autor a dois. Assassina-se um autor, extirpado de uma lamela do que quis fazer obra, feita amontoado de parcelas frásicas. Assassina-se um citador, a quem, sem razão contextual, se assaca um perfil da presença de certa obra em dita posição citável na cercania. Como se a blogosfera, concebível reduto de proliferação subjectiva cibernética, se encaminhasse para nos tornar máquinas automáticas de citações absolutamente avulsas. Afasta-se por completo um plano, um finalidade, entrona-se a contingência mas com o desejo inconfessável de lhe peticionar mais significado (porque não construído ou antecipado), espécie de surrealismo auto-vitimizado, exacerbado mas sem assumir a consequência (ou alguém vai andar a fazer um cadáver esquisito disto?). No fundo, tudo isto parece um teste emanado de uma consciência cibernética auto-suficiente a mensurar a vontade de resistência dos sistemas humanos ao imediatismo e funcionalismo (conquanto, ou principalmente, destituído de funcionalidade) comunicacional. Pelo que, sim, a fazer algo desta corrente, há que rebatê-lo como o grande desafio pré-apocalíptico ao emergir das máquinas. Espero portanto continuar a ver-vos à altura das vossas imundas vísceras.

Pronto, maqueada a auto-determinação a reger o meu teclado, levantam-se-me agora problemas operacionais. As duas pequenas pilhas de livros mais próximas, à minha esquerda e direita, tanto quanto a exactidão da minha medida braçal pode calcular, estão perfeitamente equidistantes da minha centralidade da vinciana. E já a encomenda não incluindo medida de sensibilidade política ou primazia de destreza manual, o bom destino encarrega-se de complexificar o dilema. À minha esquerda, o Olhares sobre a História de Lucien Febvre, que desde que comprado há um ano não acredito ler, sem que isso me suscite outras diligências, é desqualificado sumariamente por não ultrapassar as 126 páginas, volumetria de indigência ou honestidade intelectual. A bola passa portanto para a pilha da direita. No entanto, novo obstáculo assoma. O 3º volume de uma recolha da obra poética de Borges lá está repimpado, por razões que não recordo (ainda que seja um caso cimeiro de iminente solicitude), e por indolência que nunca esqueço. Ora, os versos contam? É o verso uma frase? Já digerimos o minimamente o modernismo literário (?) para assumir desabridamente o regabofe da simbólica formal a categorizar o enunciado linguístico/literário? E aqui a máquina começa a fumegar.

Creio portanto que se impõe um plebiscito. Infelizmente, não tenho tempo para esperar pela cristalização institucional de um dispositivo eleitoral minimamente fiável nesta reticular frivolidade. Assim sendo, deixar-vos-ei as duas opções frásicas que se apresentam na pilha da minha direita, uma a heterodoxa borgesiana, outra, e para abardinar a representação parlamentar do hemiciclo da minha secretária, a emanada do livro subsequente da pilha, Les Mots et les Choses de Foucault (que não tenciono igualmente ler any time very very soon), confiando que qual responsável orgão de comunicação social em véspera de eleições, não ireis espreitar a antevisão dos resultados: a convicção bruta ao poder.

Caso ganhe o Sim à desestruturação da estabilidade de distinção sígnica dos ofícios discursivos e sua maximização interpretativa com a consequente vaga de insucesso (se ainda restar sucesso para falhar), ou se calhar hiper-sucesso, nos exames nacionais de português, a frase será «o acceptando la muerte en la mañana».

Caso ganhe o não, a frase será «Or ce enchevêtrement est le résultat d'une série chronologique d'événements». Para vos infligir a frustração que merecem, a coisa trazia à liça Lineu (a única aportuguesação aceitável), Adanson e other taxonomic assorted goodies.

Para perceberem a diferença (mas porque raio ainda está você aí a ler isto?) que faz o maquinismo com um pouquinho mais de purposefulness in action, se fosse recuperar o Naissance de la Clinique que há muito pouco ocupava o lugar micro-topográfico que Les Mots et les Choses ora ocupa, com os fins anódinos que se conhecem, a frase compagnonne de route da de Borges («o acceptando la muerte en la mañana») seria «La mort, peu à peu, dès le premier moment de l'action et dans la première confrontation avec l'extérieur, commence à dessiner son imminence: elle ne s'insinue pas seulement sous la forme de l'accident possible; elle forme avec la vie, ses mouvements et son temps, la trame unique qui tout à la fois la constitue et la détruit.»
Como um bom experimento falseado, diz que é uma espécie de coincidência.

Pela impositividade dos resultados obtidos, lembrei-me que poderia reenviar isto ao Bruno, mas a afinidade referencial no desejar dos avatares a jeito na secretária teria um efeito manifesto de redundância.
Para não desbaratar a presciência acima invocada, fingiria deixar o seguimento à vontade do Vasco Barreto (também "outra vez", mas só porque me dá jeito retórico), para em mais uma hipótese de emancipação humana, se cumprir um fim digno à arbitrariedade da corrente, e sacando efectivamente dos clássicos de poche, se aproveitar para fazer dela um teste à infalibilidade sígnica de cada caganita grafada dos clássicos escribas que nos miram do poleiro privilegiado de là-haut do panteão, ou, se não estiverem à mão (ou melhor, à nádega), pelo menos voluntariar o repouso na citação de best-sellers da sociologia como «The Bell Curve» e os Kinsey Reports, ou da psicologia evolucionista como «The Selfish Gene», que ser guardião da integridade epistémica da desbocada blogosfera, por Toutatis, também cansa, nem há panóptico cibernético que sustente (olhem, mas entretanto vão mas é, a despeito da comédia voluntária e insulto involuntário que é eu brincar aos referrals, reler isto («Porque há uma diferença entre querer dar voz a alguém e pretender calar essa pessoa, diferença que os pavlovianos paladinos da liberdade ignoram»), olhem e já agora isto, e é se não quiserem ler mais, que é como uma apple a day).

Aproveito também a ocasião para ler em público, da única forma que me é possível (vivo trancafiado em casa com a esperança de que me confira uma espécie de perpetuidade criogénica), uma obra que me foi emprestada (em desespero de causa para abalar a minha indiferença de iletrado face a um esparramado manjar de títulos assaz legíveis) com esse preito expositivo em particular, dando-vos a 161ª bla bla bla de um opúsculo versando enciclopedica e assepticamente a intimidade das vidas sexuais desse anátema póstumo que é ser uma celebridade: «Much of Field's boyhood was spent in poverty, and as an adult he was constantly fearful of being broke.»
A vida sexual em questão era de W.C. Fields, e se só na frase seguinte começariam a perceber porquê, azar vosso. As regras são feitas para nos fecundar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Casanova Does Portugal

E, como o título, única razão de existência desta desculpa de post para nutrir o meu gáudio infantil (an improvement, granted) com playground wordplay, aponta, os fins-de-semana lusitanos nunca mais serão os mesmos.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Self-deprecation stakeout

Como control-freak with no boundaries escriba de um blogue efectivamente com 6 leitores (thank God) renitentes (isso é que já é um bocadinho triste), eu podia ficar ofendido com o emprego retórico dessa figura numérica pelo languiano (no reductionism intended) favorito cá do burgo, como, por razões que me escapavam, gosto de usar fazer suceder. Mas com essa enunciação, de apenas ter 6 (ou já 7) leitores, o LMO cerziu uma continuidade perturbante na percepção de dispersão física do nosso quotidiano. É que eu, que faço tudo para não ter amigos com vista a não perder mais CD's emprestados, arremedo rasca de cenobita, eu conheço seis pessoas que, com provas dadas, lêem o LMO. Começam a sentir as paredes a ranger, certo? Daí decorre que, se o LMO só tem mesmo seis leitores, a minha esquálida desculpa de rede de sociabilidade configuraria pelas artes do destino uma espécie de clube de fãs inconsciente (a menos que seja eu o personagem unaware da trama) do LMO! Ora, podíeis vós, na vossa cadeira ergonómica, descartar tal especulação como produzindo meramente a irónica consequência de um exercício de self-indulgent self-deprecation. Mas escutai bem: a ser real, este cenário estonteante é terrivelmente cataclísmico por duas razões: por um lado, com o Casanova de férias, a blogosfera não está equipada para dar conta das implicações cósmicas deste micro-cenário pynchoniano: imaginai, todas os blogueiros que anunciam regularmente a quantidade acumulada de leitores em números minimamente redondos que já tiveram, descobrirem que afinal, fora os compinchas do costume, eram visitadas dezenas e centenas de vezes ao dia por um só sádico com um desmultiplicador de IP's(?!) e, se necessário, múltipla personalidade comentarista (isto não é uma confissão e não pode ser usado contra mim pelos termos de uma certa lei, que eu digo que cá sei), ou então todos os leitores do clube de fãs LMO (get your bras ready) a lerem o seu blogue apenas a partir do computador da sua sede para não lhe coarctar a veia self-deprecationist e eventualmente danificar o equilíbrio ecológico da sua prosa. Por outro lado, isto materializaria a maldição ignota inscrita nos anais da idolatria universal: ter-me como groupie. Acho que nem o LMO sobreviveria a isso (I have my "bro" ready). Dadas as consequências devastadoras desta configuração secreta, só posso acalentar que, para seu próprio bem, tenha escapado um algarismo no sitemeter.
Quanto ao desafio em si, de uma lista de intepretações mais impressionantes of all-time, que por acaso até era o mote do post, que não a contabilização de leitores, eu estava naturalmente tentado a dar seguimento à subliminar veia absolutista e repentista que requer para a contabilização dos leitores d' As Aranhas a resposta expedita (a minha indolência sente-se pois desconsiderada) aos convites para alinhavar listas. Infelizmente, para lá da minha proverbial ignorância e incapacidade de seguir qualquer princípio organizativo, estou limitado pela incapacidade da minha compulsiva adesão epidérmica a um personagem ou persona em divisar esse hiato entre um actor e a sua criação encarnada onde lavra a interpretação, bem como pela bendita decadência da minha mirrada memória, que permite à parte remediada do meu cérebro convencer a parte irremediável de que se não tenho vida sexual é apenas porque não me lembro da vida sexual que tenho.
Assim sendo, a única coisa que muito a custo posso evocar, é a última performance mais impressionante de que tenho memória. E aí, para manusear um cliché cinéfilo recente, assim perdendo a minha reputação mas no mesmo passo em que finjo que tinha previamente uma a perder (um passo atrás para dois à frente, see?), devo dizer que a coisinha mais assombrosa a que (seguindo o formato), às 23:53 de 17/8/2007 me lembro de recentemente assistir, foi o Henrik de Börje Ahlstedt no Saraband. A sua transição de registos, da candura ao ódio sem senão, sem qualquer barreira divisória escolástica na expressão, na prodigiosa conversa com a Liv Ullman na igreja, e a humilhação infantil na face de Erland Josephson, dão um vislumbre abissal desse interno turbilhão nuclear onde todas as emoções se mesclam e colidem violentamente sem compartimentação. E em boa verdade, o facto de ser a ruína de homem mais comovente, e que toca Bach, dos últimos tempos, também ajuda (e claro que não, não me esqueci do incesto vagamente pedófilo: mania de julgar que as ruínas são bonitas...). É verdade que também me vem à cabeça o Ventura, na Juventude em Marcha (não consegui ver o Tarrafal), mas que é acima de tudo uma presença. Também por causa disso me lembrou o Frei Nazario Gerardi, «Francesco Giullare di Dio», ou, até só na indescritível cena em que é santa e impassivelmente esbofeteado pelo tirano, o "Irmão" Ginepro, de quem, muito justamente, nem encontro nome enquanto actor (que também o não era, mas sim frade - a presença, lá está). O que igualmente me leva a crer que deveria acrescentar-se, ao arrepio do facilitismo condecoratório dos festivais (dar o prémio a toda a gente), uma categoria para a interpretação colectiva mais impressionante, onde, provavelmente, para lá daquele bendito grupo de frades, o que me salta à mente com mais força seria a trupe fordiana agregada miraculosamente como um corpo simbiótico (precisamente a estiolar quando o equilíbrio das suas relações se compromete) no How Green Was My Valley.
Já quanto à categoria feminina, porventura pelo meu exacerbado egocentrismo, confesso-me de uma notória misoginia na apreciação artística: quase só homens, em qualquer meio de expressão, me interessam (a tal facilidade primária de adesão emocional). De qualquer forma, não creio que, assim de repente, qualquer lista possa não ter um lugar cativo para (novo cliché, desta feita sem gancho de redenção) a Katharine Hepburn. Poria talvez a hipótese do Philadelphia Story (e quase se habilitam a que ponha o tio Willie na lista dos homens: that's the kind of emotional sucker I am), onde impressiona principalmente por esse prodígio que é uma espécie de meta-interpretação interpretativa (estou a exagerar?): dar a ver não a mutação diacrónica de uma personagem, mas todo o recorte geológico da densidade sincrónica da personagem de que se faz a própria personagem personagem, e ambas serem visíveis e cristalinas no mesmo e único momento interpretativo.
Ehr, acho que vou parar agora...

Ou não...
Nota1: com o meu irredimível viés presentista, imagine-se, o que me vem agora a cabeça é o Dexter Gordon no filme do Bertrand Tavernier de que não me apetece procurar o nome (a cena onde narra um sonho de deranged jazzman ao psiquiatra e ao sair diz ao seu our man in Paris "nada mal, hein?", é nada pouco um assustador prodígio meta-interpretativo também), e o João César Monteiro, por supuesto, no substancial acto da criação de João de Deus nas Recordações da Casa Amarela. Temos consciência que este critério falseia o norte da lista inicial. Mas é preciso ver, antes da minha ignominiosa desqualificação, que o que o justo Fonda faz no Young Mr. Lincoln é dar corpo interpretativamente à ideia de uma presença mitificada, logo já apenas concebível (interpretável) doravante como in becoming. Portanto crisalidamente presentista. That's all I'm saying. (Valha-me São Gregório)
Nota 2: Nina Pens Rode, a.k.a. Gertrud?
Nota 3: não queria pôr o dedo na ferida, e ao mesmo tempo afirmar o óbvio ululante, mas, por favor, Jane Fonda: Barbarella. Frightfully impressive.

sábado, 19 de maio de 2007

Para o Vasco Barreto

Não me dou bem com polémicas, particularmente com escribas que aprecio. Presumia que o comic relief do post anterior evitasse mazelas, mas suponho que do lado da recepção tal possa legitimamente ser interpretado como mera cobardia retórica. Nestas coisas, uma palavra, um tom ambíguo bastam, e não terei cuidado suficientemente de evitar a possibilidade de personalização(que não era a intenção, apenas acordei para a discussão com os seus textos, e neles vislumbrei matérias não questionadas). Precisamente por isso, deixo apenas umas notas concretas sobre a matéria:

- a picardia da pulga, é de facto uma picardia, que se ajustava ao argumento, não a uma sua qualquer reivindicação explícita de autoridade. Contudo, a pulguinha de Hooke, para lá de um marcador temático, assinala a familiaridade do autor com a área da biologia, investindo-o, por definição, com autoridade credencial, critério que outros consideraram quasi-excludente nesta discussão (it's really not all about you). Mas não deixou de ser na base da neutralidade científica (aqui metonimizada pela estatística) que pretendeu ancorar a validade os seus argumentos (digo eu). Claro que só leitores mais aturados ou fiéis o saberão biólogo, mas aí, essa é condição pela qual não encontro grandes razões para me vitimizar, ainda hoje.

- assinala em mim uma retórica de vitimização e anti-homofóbica. Não recordo ter-me reivindicado ou encarnado vítima e/ou afiliado de nada, e não entro em discussões racionais com declarações de interesses (preconceito iluminista). Poderá a sua semiologia estar mais afinada que a minha. Se assim não fosse, esse seu descartar de certos argumentos soaria a, chamemos-lhe, retórica de vitimização invertida, óptima muleta de desconsideração e menorização argumentativa de outrém, como irredimivelmente refém de fidelidades grupais e interesses individuais. Seria bastante desadequado para a pretensão de argumentar racionalmente, ainda que o interlocutor não valha o esforço. Quanto a isso, e ao mais, seria o último a fazê-lo sentir-se obrigado a dar-me troco: não pretendi forçar argumentos inanes com a pressão de qualquer righteous indignation (era mesmo comic relief). Se foi essa a sua impressão, o que tem a fazer é, logicamente, ignorar-me à discrição.

- se efectivamente tivesse encarreirado numa vitimização, e discussão de explicitamente hidden agendas discriminatórias, teria pegado à cabeça na, aí perdoe, triste "graçola" do último parágrafo do seu primeiro post sobre o assunto, equacionando jocosamente (partilhamos pelo menos o problema do comic relief), em termos paralelos, a homossexualidade e, lá está, uma plêiade de comportamentos de risco - se o Vasco Barreto verifica com inteira justeza que nada de novo eu disse sobre grupos e comportamentos de risco (era chato não estar a fazer render pensamento inovador para lá deste pardieiro), a sua piada sugere que, mesmo em repeat, ainda não se ouviu é falar o suficiente sobre a matéria.

- já agora, porque se estou aqui só pelo desporto, não estou aqui só pelo desporto, uma nota sobre a questão da toxicodependência, que não tinha aflorado, mas vi-o empregar na resposta ao Bruno. A questão da exclusão de toxicodependentes da doação de sangue é certamente discutível, mas parece-me conter matizes menos problemáticos que a exclusão de homossexuais. Em primeiro lugar, estou em crer que o critério concreto de exclusão se prende com drogas injectáveis, não toxicodependência em geral. Em segundo lugar, presume-se que esteja comummente associada à toxicodependência, ao fim de determinado tempo, a degradação de algumas funções cerebrais. Presumo que a capacidade de exercer um juízo de memória e consciência sobre a adopção de comportamentos de riscos (o esquecimento de uma partilha de agulhas em situação de ressaca) pode arguivelmente ser suspeita comprometida. Se agora quiser argumentar o compromisso das funções cerebrais na homossexualidade, é consigo. Já agora, ainda que não seja comigo, não posso deixar de achar curiosa a sua invocação do "então e os toxicodependentes?" para uma discussão centrada na exclusão de homossexuais. Faz-me lembrar, parcialmente, um vago paralelo com as palavras rasantes de alguém, rezando «Noto também que faz parte da retórica anti-homofóbica inverter as posições (colocar os heterossexuais no lugar dos homossexuais, como grupo observado em vez de grupo que observa) mas neste caso concreto não faz muito sentido».

- em termos de argumentos, se ainda contar, uma precisão: o seu, na eventualidade de o ter percebido, consistia em considerar a comparação das prevalências estatísticas da infecção por HIV entre população homossexual e heterossexual, boa ciência para ajuizar da validade de exclusão de dadores homossexuais caso haja risco estatisticamente acrescido associado a esse colectivo estatisticamente construído. A questão que pretendi aflorar (pretensões leva-as o vento) estava a montante: saber se a homossexualidade, enquanto forma não inequívoca de categorização dos indivíduos (dos seus actos objectivos? da sua auto-identificação?...), assente estatisticamente em estimativas, e no entanto assumida como categoria "natural", é à partida uma boa variável de correlação com comportamentos de risco, na linha da causalidade directa da infecção; e se a sua aplicação como critério de exclusão num sistema de selecção estruturalmente falível, porque parcialmente assente na auto-exclusão, seria proficiente - e isto estritamente para efeitos de saúde pública. Não repetirei porque opino, sem autoridade (não estudei empiricamente a matéria), não só que não, mas que pode ser contraproducente (sem entrar sequer na questão tida colateral do reforço social de estereótipos e suas consequências, que as tem, como o provável acréscimo dos fenómenos de marginalização e exposição a, cof, situações de risco) - acrescento apenas que a inclusão da homossexualidade possivelmente alargaria as malhas da triagem, não o inverso, enquanto chapéu de comportamentos menos específico e como tal menos susceptível de auto-identificação, que a concretitude da inquirição de variáveis directas de risco (ainda que a mesma também não seja matéria simples). Mas se passou ao largo da sua inquietação com a saúde pública, certamente não passava de frescura de antropo-sociologia.

- ainda a respeito das debilidades da engenharia social do dispositivo de triagem (para mim, a questão sensata de saúde pública), e da correlativa redundância da inclusão da homossexualidade enquanto categoria de auto-exclusão, deixo-lhe as contradições da sua pena, para que meça, e reflicta mais relaxadamente, pelas palavras próprias, o aquém, na sua posição, do rigor de uma regressão linear: «Infelizmente, não podemos fazer com que o sistema dependa do juízo que cada um faz dos seus actos.»; «A verdade é que, em muitos casos, dar sangue ou não é uma questão que o indivíduo deve resolver com a sua consciência.». Em que ficamos?

- anular a relevância de um questionamento dizendo que se trata de um mero cliché ideológico não combina francamente bem consigo. Se o único critério para aceitar a exclusão ou não de homossexuais como dadores é a comparação estatística da prevalência do HIV entre homossexuais e heterossexuais, não percebo (o que não equivale a sugeri-lo, atenção) porque é que, cientificamente (já socialmente, pode argumentar o breakdown dos stocks), o critério não é operatório para ambas as populações: something's missing. Explicar essa diferenciação, parece-me aqui a coisa "científica" a fazer. É tão simples e tão não-cassete-programática quanto isso.

- explicar essa diferenciação consequencial na aplicação de um mesmo critério a duas populações diversas, dizendo que isso se deve ao HIV ter-se expandido originalmente a partir da população homossexual, é não só absolutamente nebuloso para a minha limitada cognição, como implica sugerir que o seu argumento estava colocado numa perspectiva histórica. Sejamos honestos: só com muito revisionismo seria o caso. Logo por essa razão, não lhe podia ter assacado intenções moralistas (a última citação não lhe dizia respeito) - paremos de brincar às vítimas. Mas como ninguém é tão nerd para andar feito catatua a repetir factos à toa, convenhamos que introduzir um facto qualquer num contexto discursivo é feito em função do poder argumentativo que para uma posição determinada desloca. Em relação à invocação do facto no contexto desta discussão, se não quer retirar consequências de proporções bíblicas, parece-me que o sensato é acordar que o facto não veio aqui fazer nada (a menos que se quisesse partir para a discussão histórica - e mesmo aí, a questão não era tão linear, mas era igualmente improcedente, pelo que me fico).

- assinalo a reiteração em loop da minha falta de originalidade (não o sabia critério) argumentativa, incluindo a discussão emanada do seu texto no 5 dias como origem de algumas das ideias que reproduzi. Como seu leitor (there's the bitchy ironic victim again), e do blog em questão, já o tinha realmente lido, mas as considerações que daí me surgiram, teci-as a seu tempo. Vejo que lhe passaram ao lado, e good for you: mais do mesmo. Em nome, quanto mais não seja, da reciprocidade, mesmo com 99% de certeza que não lhe interessarão pevas, aqui ficam

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Vira o disco and it's Village People all over again

É também um dado científico que parece ainda não ter entrado no senso comum, ou sequer científico, que a ciência e a técnica que os homens fazem se constrói, não aparece assim feitinha. E é o que se denota quando todo o mundo abocanha essa coisa do "homossexual", e tem na prática consciência do carácter problemático do que semelhante conceito social designa (quando se desce aos critérios definitórios, francamente ainda não sei bem quem é que sabe o que, ou quem, é homossexual), mas emprega a categoria para a sua magia e evidência estatística como se designasse uma realidade translúcida, rigorosa e inquestionável. Vem isto a propósito do debate sobre a exclusão de homossexuais, por entre outros critérios (de causalidade directa ou extrapolação "heurística"), para a doação de sangue, que me surgiu, na minha misantropia selectiva, pela prosa do Vasco Barreto (em modo de subliminar autoridade científica encimada pela pulga de Hooke) novamente (sorry, e garanto, parece que convirá esclarecer, não ser ad homo, perdão, ad hominem), mas a ciranda passa por aqui, acolá, acoli, e outros links nesses links, que eu estou cansado...
O que particularmente me encanita (porque do resto f. já se encarregou mais que cabalmente), é a pretensão de brandir argumentos científicos e técnicos, com o efeito colateral ou direccionado de exclusão automatista (acento no automatista) de quaisquer outras considerações "mundanas", quando, curiosamente, essa argumentália parece não se interrogar sobre o rigor e validade dos pressupostos e fundamentos em que assenta.
Pessoalmente, não posso deixar de achar irónico que se pretenda determinar com uma razoabilidade técnica a ponto de autoridade, sem consideração de qualquer ponto problemático, um determinante de exclusão de presumíveis indivíduos homossexuais da doação de sangue, a partir de dados estatísticos comparativos de prevalência da infecção por HIV entre essa presumível população e a população heterossexual, se levarmos em consideração que esses cálculos de proporções dependem de meras estimativas dos universos respectivos, mesmo alargando-se os patamares de significância estatística.
Dentro da ainda mais irónica ingenuidade conceptual de tomar a homossexualidade como categoria inequívoca (at face value?) de classificação dos indivíduos, acho ainda mais piada que se considere que, na ainda ausência de testes genético ou coisa que o valha para identificação de homossexuais (damn!) para os pôr finalmente devidamente etiquetados no lugar (enfim, com umas lantejoulas para se entreterem, somos humanistas, caramba), se considere que a exclusão pelo critério da homossexualidade, tendo que ser auto-declarada (não conheço outra maneira, a menos que os técnicos de selecção estejam orientados para a busca a maneirismos, que claro TODOS os homossexuais portarão, juntamente com o sangue contaminado) seja uma forma proficiente de minimizar a entrada no sistema de indivíduos com reais riscos de transmissão de doenças pela doação de sangue. A questão muito simples é, obviamente, e apesar dos problemas novamente das estimativas (I'm no better), que provavelmente boa parte das pessoas que têm comportamentos homossexuais, ou deixando-nos de parvoíces, comportamentos sexuais de risco (para o caso, keeping up with the argument, com indivíduos do mesmo sexo), nem se reconhecem identitariamente (muito menos publicamente) como homossexuais (e pela natureza clandestina dessa sua porção de prática sexual, muito provavelmente se encontrarão com maior facilidade em circunstâncias de risco), e no entanto, na "verdade" das suas consciências, não são abrangidos por semelhante critério, e facilmente não se auto-excluirão - duvidoso, e único, critério desta generalizante selecção, o que deixa como real questão, que fica na polémica por considerar, o problema da eficácia das próprias lógicas de base da inquirição na pré-selecção para a doação de sangue, a que a introdução da questão da homossexualidade nada adianta.
O que ainda é mais irónico (it never ends), é que tais circunstâncias de prática sexual clandestina são favorecidas precisamente por essa coisa que nunca está em jogo nestas discussões tão elevadas, que é a discriminação (e não estou a pôr isto em termos de "direitos", atenção), contida no próprio uso da categoria homossexual. E é nas pequenas coisas que se vê o quanto a categoria, pretendida ser empregue como descritor tecnicamente a-problemático do real, não é usada de forma neutra: por exemplo, colocando-se a razoabilidade técnica de a presumível população homossexual ser excluída da doação de sangue se tiver, de forma estatisticamente significativa (let's pretend), maior prevalência de infecção com HIV, mas não se colocando sequer a hipótese inversa se a prevalência for maior na população (essa tem que se auto-declarar?) heterossexual.
Suspeito bem que mais ali atrás já se poderá estar a dizer que "o gajo (eu) está a ser capcioso", e que basta substituir, como alguns contendores já fazem, "homossexualidade" por "homens que fazem sexo com homens" (no caso dos homossexuais masculinos, claro, acho que as lésbicas ainda não estarão assim tão à frente), nos critérios de exclusão, e a questão resolve-se. Como não me apetece entrar em psicanálises da profundidade do self-denial ("se faço sexo com homens? claro que não!, sou eu que mando as trancadas às segundas no Parque Eduardo VII, não apanho!"), ou da fundamental distância entre a pragmática humana e a abstracção racionalista, a falácia continua a ser razoavelmente igual: o comportamento homossexual ser epitomizado como comportamento de risco. Se é preciso lembrar a tragédia, foram erros conceptuais da mesma estirpe, como a identificação de grupos de risco (e não comportamentos e situações sociais de risco), no início da epidemia, que favoreceram a situação presente de acréscimo de incidência da transmissão do HIV em populações que, não sendo identificadas como grupos de risco, continuaram tranquilamente a desenvolver os ditos, os propriamente da Bayer, efectivos comportamentos de risco.
Até se perceber que, conceptualmente, não é a "homossexualidade" que tem que ser chamada à partida para esta discussão, as investidas travestidas (et tu Brutus?) de tecnicistas a fomentar o debate nesses termos parecem ser tecnicamente improcedentes ou contraproducentes (apesar de toda a gente ter apenas e tão só a saúde pública no credo) e/ou enfermar de certa ingenuidade científica. Para esses casos, será talvez de considerar que, particularmente nessa chata turbulência dos fenómenos sociais, e particularmente quando se brinca às engenharias sociais, a fixação na explicação mais "evidente" (como tal, menos questionada), mais prêt-à-porter, mais simples, a la Occam's Razor, por vezes arrisca redundar apenas em simplismo. Para os casos em que se lêem coisinhas, só com aval científico e pura neutralidade enunciativa, como «a fonte fundamental de “democratização” do HIV é/foi o inter-cruzamento entre os diferentes grupos de risco originais e a restante população», oh tão inocente enunciação do mito da origem da epidemia a mascarar o facto de a democratização (relativa, calma lá) do HIV ser largamente uma inevitabilidade biológica e antropológica (excepto num mundo de assepsia sanitária e moral que nem se percebe como ainda não foi parido), percebe-se que às vezes já nem é ingenuidade, não é?...

(vá lá que desta feita não falei em Foucault - doh!)

(este testamento foi salvo da obliteração, no próprio dia em que se me apresenta a existência de semelhante feature, pelo autosave do Blogger. Pela autoridade do destino assim revelada, quaisquer contestações fiquem-se pela evidência: this post was meant to be)

quarta-feira, 21 de março de 2007

Saber pelo saber sem querer saber

Complementarmente à arengada já expurgada sobre o texto do Vasco M. Barreto, confesso algum espanto ao ler declarações absolutas de mão no peito sobre a alegre procura do "saber pelo saber" (dado que a única ressalva inclusa não cumpre senão função irónica). Apesar das benfeitorias de estados que ainda financiam pesquisa que ao mundo da instrumentalidade parecerá estarola, não vejo que nenhum cientista em actividade possa olhar o seu meio com a ilusão de feliz descompromisso de qualquer constrangimento social, político e económico à formatação da sua investigação, em diversos aspectos. Não é que o saber pelo saber não possa enquanto princípio ser curioso, e enquanto prática, frutuoso, dadas as imprevisíveis formas de interpenetração e fecundação que investigação em si aparentemente estéril tem em campos não antecipados instrumentalmente. Mas será desatenção sociológica pressupôr que é esse o princípio que opera na produção de ciência. O que, na verdade, a defesa abstracta do princípio acarreta é a exposição da ciência apenas aos constrangimentos dos agentes com poder para se erigirem como condição das suas possibilidades de produção de conhecimento. Ora, se o público muitas vezes compreende mal a ciência, a ciência tende a ignorar olimpicamente o público, com o duplo argumento auto-enamorado de não saberem o que os cientistas sabem, e de que se o soubessem pensariam como cientistas (tidos, terceiro auto-embasbacamento, como massa (cinzenta) homogénea). Se Foucault nos ensinou a dar o passo atrás e perguntar-nos porque é que fazemos determinadas perguntas ao real, qualquer história das ciências (que não louvor oficial) expõe-nos às consequências de não pensarmos nos efeitos de perseguirmos automaticamente a resposta a determinadas perguntas. É certamente também um truísmo a qualquer discerning eye que largamente a instrumentalização do capital de ciência de que as sociedades dispõem é função daquilo que as formas de agência de poder nelas procuraram ver conhecido e instrumentalizado. O que equivale a dizer que não são todas as perguntas que a ciência se pode colocar que são efectivamente colocadas pelos cientistas na sua actividade. Pretender naturalizar com o "saber pelo saber" a pesquisa selectiva que realmente se faz, é legitimar não a imagem clássica do cientista livre, mas uma ciência de Estado e, cada vez mais, uma ciência de mercado. A menos que seja essa a perspectiva encapotada de quem defende o "saber pelo saber", talvez fosse produtivo (social e cientificamente) desistir do mito descomprometido da cientista condição, e aproximá-la da sua verdade, antes de pretender decretar a verdade do mundo e dos outros. O problema, portanto, não é propriamente o saber pelo saber, mas descartar o porque é que se quer saber. E caso não seja evidente, sublinhe-se: saber como e porque é que se quer saber, na verdade, é querer saber mais.

Outras evidências inquestionadas

Será provavelmente sintomático das relações entre ciência e sociedade que o discurso e representação das ciências (duras, au) por si próprias pareça por vezes ter incorporado pouco da turbulência que a vivência dos seus efeitos sobre o real historicamente vem gerando. Foi dado à leitura, há dias (porventura 5), um escrito interessante do Vasco M. Barreto sobre a investigação biológica no domínio da causalidade da homossexualidade e as reacções sociais avessas à prossecução de semelhante inquirição. Deve dizer-se aliás que o mapeamento que faz dos argumentos e inquietações que presidem à euforia e à preocupação com essa possibilidade explicativa da homossexualidade, dos dois lados do espectro homofóbico, é certeiro. O que torna mais descoroçoante o facto de daí não extrair ilações, como se grafar as movimentações sociais em torno de um objecto de polémica possa apenas ser expediente para mais cabalmente as ignorar.
É também bastante curioso como resulta amiúde irónico (e é por isso que a blogosfera de vez em quando até tem graça) que ao empacotar num texto referências en passant se deixe passar ao lado o potencial subversivo que essa referência tem para as próprias proposições das quais a fazemos sustentáculo (ou estacazita). Por entre os factores sociais que são evocados para explicar o porquê dessa polémica na face da estranheza intelectual que lhe suscita, aparece a influência social de Michel Foucault, com a sua concepção de que a homossexualidade seria uma "construção social". É possível que o tio Michel desse uns pulos à Bubka sem precisar de vara ao ouvir falar de construção social a propósito da sua teoria (por razões que não tenho também espaço para não explicar), mas para post, a coisa faz-se entender. E conviria talvez deixar mais explícito que quando se diz que para Foucault a homossexualidade é uma invenção histórica recente, fala-se da constituição da categoria social da homossexualidade, enquanto forma de classificar os indivíduos em função das suas práticas sexuais, e não, obviamente, das práticas propriamente ditas, isto no contexto da governamentalidade que estendeu a partir do século XIX as malhas da apreensão e classificação disciplinar da realidade como forma de regulação social (a ciência moderna nunca servindo só, ou sequer primeiramente, para "conhecer"). De alguma forma, é verdade que Foucault esvazia a questão de uma causalidade biológica para a homossexualidade. Mas, como em qualquer ciência (menos para quem tenha a pretensão ao mito da unicidade de uma Grã-Ciência), fá-lo para poder colocar outras questões (de outra ciência, ou perspectiva analítica) ao fenómeno: não está propriamente investido em negar directamente as pretensões de ontologização de uma classificação histórica, vertida em senso-comum, dos indivíduos em função das suas práticas sexuais. Antes, olhando de fora dos esquemas explicativos das disciplinas que o pretenderam fazer (e fizeram, e fazem), examina como é que determinadas práticas sociais e sexuais "ganharam" "direito" a serem escrutinadas e, em consequência, epitomizando disciplinarmente os seus actores sociais como constituindo um tipo ontológico particular.
O que Foucault perguntava ou sugeria não é qualquer avanço sobre o que é a homossexualidade, mas porque é que social e disciplinarmente se cria a necessidade de categorizar os indivíduos enquanto tal, sendo que, pela própria operação das disciplinas, a categorização dos sujeitos concorre com a sua identificação com tal categoria (seja para aceitá-la, seja para debatê-la, mas inevitavelmente constrangidos por ela). É também esse o pressuposto porventura não devidamente explicitado na busca de uma explicação biológica da homossexualidade: o de que existe uma ontologia homossexual à espera de ser explicada. Ora, começa aqui a ironia de se presumir directamente que a perspectiva de Foucault concorre hoje com a contestação da investigação biologizante da homossexualidade. Sejam quais forem os efeitos políticos de uma naturalização científica da homossexualidade, o problema com qualquer explicação biológica para realidades comportamentalmente indiciadas, é o de deduzirem de certas práticas ou formas de auto-identificação em parte auto-induzidas pela classificação disciplinar (antes da "invenção" da categoria "homossexual" ninguém se pode identificar como tal) uma realidade objectiva a ser estudada. Ora a perspectiva de Foucault está na verdade a montante dessa questão, a inquirir como é que se cria o pressuposto de que há na homossexualidade uma realidade a carecer explicação (como o não há, na heterossexualidade). Ou seja, de alguma forma, from the grave, antecipa-se à estranheza do Vasco M. Barreto, explicando porque é que para ele a homossexualidade constitui um objecto inquestionável de estudo para, por exemplo, a biologia (sendo que na perspectiva de Foucault, todas lá iriam ou foram parar, como a sociologia, antropologia, psiquiatria, ainda que cada qual com suas consequências) - isto para além do argumento saco-sem-fundo do "saber pelo saber", porque a questão é o que nos aparece, da infinidade inaprisionável de hipóteses explicativas do real, como algo "a saber", e não a concorrer para a prateleira de laureados de IgNóbeis.
Mas há outro paradoxo curioso, directamente emanado da perspectiva foucaultiana da explicação disciplinar, na "evidência" de estudar a homossexualidade, para o caso, numa perspectiva biológica. É que lhe parece estrangeiro que a sexualidade humana seja objecto de reflexividade e invenção naquilo que é a sua vivência pelos sujeitos, e abordá-la disciplinarmente, classificá-la, explicá-la, implica largamente fabricar uma nova realidade para se adequar aos mecanismos e hipóteses da explicação. Neste caso, antes de se definir disciplinarmente os indivíduos como homossexuais, de se fixá-los ontologicamente numa nomenclatura, um pluralidade de efeitos da sua auto e hetero-identificação como tal não poderiam emergir como tal. É nesse sentido que a homossexualidade pode ser dita uma "invenção recente". E com a hipótese biológica, aquilo que se criaria seria, de facto, independentemente de outras conjecturas futurológicas da instrumentalidade desse conhecimento, the ultimate invention of homossexuality, com a certificação biológica de quem é homossexual, e quem não é, no sentido da arregimentação dessa coisa que parecemos (por vezes com efeitos lamentáveis) ainda não perceber ser tão avessa a espartilhos, que é a sexualidade humana (para lá da falácia reprodutiva, tão regurgitada, sintomaticamente, nos comentários ao texto), com homossexuais, heterossexuais e foot-fetichists cada quais arrumados cientificamente em suas inexpurgáveis fileiras (sim, eu sei que não são categorias mutuamente exclusivas, cientifização oblige, mas também se poderia dizer que os foot-fetichists só se andam a enganar - um bom pé não tem sexo). Ou em dialecto, um homem (é o meu viés, perdão) já não pode partir bilha impunemente. Pode, claro, argumentar-se que o comportamento social e sexual permanece intrinsecamente livre, mas ignorar que os decretos disciplinares de existência são constitutivos das condições de experiência e percepção de existência, é descartar evidência antropológica.
De facto, qualquer pretensão de explicação biológica da acção humana (logo, potencialmente reflexiva, não mecanicista) é polémica (particularmente quando respeita à identificação ontológica dos indivíduos) porque absolutiza a determinação dos objectos explicados (mesmo com todas as cautelas à falácia determinista comummente associada à genética, a que o Vasco M. Barreto alude), e encerra os indivíduos nas verdades que se dizem descobrir sobre eles (que podem ser avessas às suas verdades subjectivas de si). A homossexualidade ser determinada uma realidade categórica torna-a uma compulsão social, algo que, na face dos indícios de se "ser", requer como termo lógico tornar-se condição de vida específica (algo intuível, por exemplo, na reprovação conceptual generalizada dessa coisa não "devidamente" determinada que é a bissexualidade, encarada, por exemplo, como frescura de homossexuais who are just kidding themselves).
Ora, não deixa de ser irónico que a postura de distanciação cientista de Foucault seja pedagógica igualmente para a questão candente(?) de saber se tal linha de pesquisa deveria ser prosseguida ou não. Basicamente, o que nos diz é que o conhecimento que produzimos e proferimos fala mais sobre o que pensamos que aquilo que temos em mente. Não é preciso voltar a Weber para percebermos que as questões que colocamos e o que procuramos explicar não é inocente, just plain fun ou just plain research. Aquilo sobre que uma sociedade se interroga é função das estruturas de pensamento em que assenta, e que balizam o seu campo de cogitação. Se nos perguntamos qual a causa da homossexualidade, é porque concebemos esse como um facto carente de explicação. Ora, entre os receios eugenistas e as legitimações absolutas biologistas, o campo político de apropriação de qualquer decreto biológico de explicação da homossexualidade é na verdade largamente indeterminado - mas poderá passar instrumentalmente a configurar hipóteses muitíssimo mais acirradas de determinação. E tal como a ciência e a política partilham leitos dizendo que não se conhecem, concebo que seja por conceberem politicamente essa determinação como um risco à defesa ampla de não discriminação sexual que vozes no campo da homossexualidade se manifestam contra essa investigação, apesar da sua potencial indeterminação intrínseca (não o perceber é persistir nessa tragédia muda ou adiada de julgar que o laboratório é realmente estanque do mundo exterior).
O que é de facto luminoso, e a ironia maior, é verificarmos que, na colocação da hipótese causalista biológica da homossexualidade, se está de facto a prosseguir na invenção da homossexualidade. Se ao presumir a realidade objectiva da categoria, a ciência reproduz as condições de ratificação e comprovação da sua existência, daí resulta esse curioso paradoxo final: na verdade, se há contestação da hipótese de ontologização disciplinar (biológica) da homossexualidade, é precisamente como emanação histórica da fixação disciplinar de um tipo humano, homossexual, como uma realidade objectiva, a explicar, e seus efeitos na transformação da percepção, clasificação e identificação dos indivíduos. Esses homossexuais recalcitrantes à explicação biológica de quem assumem que são, são pois os filhos (pródigos) directos da invenção disciplinar (biting her in the ass) da sua condição. Um truísmo rebuscado? Talvez. Mas muito instrutivo.

Nota: sustentar uma crítica de um parágrafo a Foucault (mais uma menção e tenho palavras para um altar...) é exercício curioso mas dificilmente plausível com a sugestão de a mesma ser propensa a tão debilmente ser afanicada com um texto internético (sem querer esnobar...) de um «historiador» (pelo que vi tinha formação em filosofia, but whatever) que, com base numa (e só uma) fonte documental, de uma só época histórica (o argumento de Foucault cobre, mesmo com buracos, uns poucos séculos), pretendesse perigar seriamente (ainda que também aqui toda a dissensão e crítica empírica e analítica seja benvinda) um argumento incluso numa obra muito mais ampla, em três volumes (a «História da Sexualidade»), sustentada em extensa e finíssima (carpaccio-like) análise documental (para quem possa ter ficado com a ideia leviana que, ao contrário dos "historiadores", as imbricadas analíticas de Foucault são veleidades, conquanto eruditas, do seu livre esprit, sem sequer mímica de ancoragem empírica), é um bocadinho audaz demais. Aliás, segundo me lembro (aqui posso estar mesmo errado), embora se possa pretender induzir isso, Foucault não andou propriamente a conceber a homossexualidade como uma forma de categorizar a atracção sexual, entre outra possíveis como classe social, côr do cabelo, bla bla bla. Quanto mais não fôra, a dissolução categorial e vale-tudos nunca foram propriamente estratégia da sua autoria.
Até para quem não leu a fonte documental (a partir da qual se pretende discutir a tese foucaultiana de que as formas de classificação de práticas ditas homossexuais produzidas disciplinarmente no século XIX, não se compaginam com classificações prévias, como seja na Grécia Antiga), se constata que (já que em matéria de minúcias essas hermenêuticas se jogam), apesar de na estrutura do discurso do texto de Aristófanes (a dita fonte) se definir a possibilidade de uma relação homossexual tal como a concebemos hoje (estável, entre dois homens adultos e livres, para simplificar) e não nos termos de regulação que a cultura grega apunha às práticas homossexuais (como tal, sugerindo uma homologia mais forte entre a suposta diversidade histórica de classificação de actos homossexuais), descartar o facto (reconhecido) de não se encontrar nessa cultura, referência a uma categoria linguística que nomeie esses sujeitos ou a condição de que seriam protagonistas como realidade determinada (ou seja, palavra para a homossexualidade enquanto categoria relacional e ontológica ou identitária), é uma leviandade tendo em conta a centralidade linguística no desenho das formas de entendimento do real: algo para que se não tem uma palavra, é algo de existência não-evidente (não é o mesmo que não-existente, bem entendido). E aí cairá novamente o busílis da questão para a contemporaneidade.

sexta-feira, 2 de março de 2007

He (aventesma) has left us alone (até ver) but shafts of light (tipo, recônditas canções do camandro) sometimes grace the corner of our rooms...

(o indecoroso tom pós-teológico mal-resolvido, ainda para mais aplicada à mais profana das funções simbólicas, o fellatio blogosférico, é claramente compensado por ser debitado à conta de um título da responsabilidade dos ainda na minha enciclopédia considerados exasperantes A Silver Mt. Zion bla bla bla, sendo que em circunstância alguma, reitero, sacrificarei um qualquer risível potentado retórico de meia-tijela a quaisquer considerações racionalistas, afectivas, morais, estéticas, políticas, económicas (não, económicas sim, preciso do cacau), sexuais (não, sexuais sim, já doei o pulso à Faculdade de Motricidade Humana), or otherwise. Donde se confirma este clássico albeit rançoso engraxanço blogosférico e correlativa pouco subtil forma de pressão social conquanto discretamente púdica no meio do chavascal serem no meu estrito self-interest. Be warned. Sou o sofista palerma de mim mesmo)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Think Hawks Expected Taking Homophilia Into Nasty Gore...

O Rogério Casanova é daquelas simpáticas e insuportáveis criaturas que, para inveja do vulgo (vulgo, eu), se sabem cultivar, retirando mais proveito intelectual de ler o Pynchon (e que o fazem, no caso de «Against the Day», em menos tempo que os dois anos e 9 meses recomendados pela OMS da legitimação do meu cérebro ao rallenti) que de tragar a Encyclopaedia Britannica (embora tais actividades possam ter que ser concomitantes), e espraiar os end results com graça e engenho naturais (ao nível perceptivo, não causalista, claro) na sua escrita; já fez pelo menos duas (por definição) mais que louváveis referências à inestimável obra dos arqueiros P&P; nutre misheard lyrics pelos Pixies; e entre outras qualidades, a mais relevante é, obviamente, que, não fora a peste do meu (mesmo que mísero) logos internalizado, já teria feito mais pela minha auto-estima que o desvelo de inúmeros familiares nos meus anos formativos, ouvidos no meu leito através das não tão retentivas paredes que ilusoriamente, para o efeito, o destacavam da sala, onde repetiam amorosamente «não é assim tão hediondo» e «já vi mais estúpido», e que ainda hoje me recebem, invariavelmente, de braços abertos e um «estás mais gordo» nos lábios. Só por isso (e porque tem graça, vá, sim), engajo mais um patético (e vagamente aldrabão, ainda que com bases de justificação hermenêutica on the side) esforço para a colecção. Bem haja.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

TPC

Se eu fosse cinéfilo, ficaria extremamente ofendido, enquanto cinéfilo, de alguém como eu (I just like to see the pretty pictures go by...) ser mencionado cinéfilo (snooty self-loathing enough?...). Anyhoooo(?), como continuo a não ser bicho para desdenhar qualquer vestígio do que possa interpretar lisonjeiro (com amplificação de lupa barthesiana sempre em pré-aviso em caso de necessidade), cumpro esquálida e arrevesadamente a incumbência para não desmerecer tanto das alvíssaras (deixem-me). Arrevesadamente cumpro, digo, porque o título vai em svenska e o acrónimo em albionês (word games just aren't my game, aliás, como tudo o que requeira exercitação intelectual... ou outra, for that matter), foi para o que deu a coisa no crânio (hum):
Take your saintly torn name and dwell endlessly nameless.
Isto, naturalmente, não é uma incumbência, e se porventura, em novo esforço (e cárcere linguístico) barthesiano, soar potencialmente irónico neste rendilhado nominalista, a culpa, obviamente, é da garganta metafísica (havia de servir para alguma coisa), não minha (credo, o que é isto?).
(e o sistema de romanização Hepburn é um achado)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Award «Derrida is Alive and Well and Shagging Molly Bloom» cerimony acceptance speech

You'll have to pardon my cockney and my overemotional pussy sobbing.
I am overcome with astonishment, deeply moved, and somewhat aroused below the waist, but that might be Molly doin' her thang, I cannot be sure, being, as I am, devoid of sensitivity downstairs, since she argued, and I quote, it would be a fun neo-reichian research in sexual thermodynamics to inquire the orgasmic power of conflicting bodily temperatures by making my (hers) torrid body shag your (mine) between-the-legs in the form of an icicle, and urged me to stick my aforementioned man-tool in the cooler for a minute or so, which, on account of my snoozing due to something of a drunken stupor, left my sunday-afternoon-crosspuzzle-leisure-substitute to come close to resemble a deep-frozen mini-mini-sausage roll.
(pause and wipe tear from cheek)
First and foremost, I would like to thank Jacques, James, Molly (whom he, James - Leopold, poor beautiful bastard, was already out of the picture, but still enjoys having a pint with me now and then, as in when I'm penniless and grovel at his feet for one in exchange for speaking him up to Molly in the next shagging-fest - let me have for a while, while his is defrosting (apparently the temperature shock is something of a vintage turn-on for her, and bearing in mind her mental voracity always on the verge of a Nelly-Furtado-breakdown, I would urge you to think twice before assaulting a piece of meat on a stick which underwent a deep-freezing preservation process)), and, of course, thank the member (not that) of Casanova's very own one man academy. (If you're pondering going back to the beginning of the sentence to question the fictional-historical-mish-mash(?) reasonability and cohesiveness of this tale, don't.)
(pause to regain a steady pulse)
I am clearly unworthy of this most unctuous (in every possible, lubricant and rewarding sense) award, though, to my credit, I do try, although margerine is Maria's department and Molly is discontent with spurious comparison, and only through the effort to achieve the necessary degree of moistness with mere recourse to oral stimulation (reading out loud, you filthy swine) I came to be eligible to such a rewarding distinction, which, in and of itself, regardless of the brassed off decoration I expect to receive shortly in my mailbox, is one of the most endearing things anyone has ever said to me (lucky Casanova's arse is in the distance of old Albion).
(stop pushing me you fucks, I'm not done yet)
(mildly pain-stricken and frank frown)
Some might find it either ironic, or perhaps akin to poetic justice, that such an award is delivered to my grateful hands for my portrayal of an angry, bitter, lacking in sexual fulfilment, doodler lashing out against forms of blogospheric distinction anchored in plebiscitary masquerades. However, precisely what one might fail to realise is, opposite to the shallow visibility which is the only criteria sustaining distinction anchored in senseless voting mathematics, these distinctions are unique, personal, tailor-made, not transmissible (therefore, not up for grabs of eligibility or detractory comparison of losers, except the prized one), and more substantive than all the mathematical unanimity of the world, for which I wouldn't trade it (while we're at the symbolic realm of reward, of course. Write me a check, and I'll start linking and licking).
If, despite all my candour and rethoric, you fail to see these clear and present truths, you will, of course, be certain of my unreliable and feeble character, shouting at my naked royalty (figuratively speaking: if I were to be naked at eye-sight for you to shout at me, you would already be passed-out in the pavement, trampled underfoot by Robert Plant, don't ask me why): the filthy unsufferable bastard contradicts himself! Well, as huge Walt before me uttered for eternity: Do I contradict myself? Very well, I contradict myself. I am large. (...)
No, that's it: I am large.
(was I supposed to make a point?...)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O anagrama que mereces

Daqueles golpes de asa que cunham simbolicamente a distinção de um bl(og)ue na dissoluta colheita que orna a montra do que uns chamam blogosfera, a arte anagramática de linkagem na Pastoral Portuguesa é um exemplo de primeira água. Suspeitaria, aliás, que receber um link da Pastoral com o seu constitutivo anagrama, como quem recebe um retrato a óleo sem ter pago pela encomenda, poderia devir proporção não insubstantiva das motivações de blogueiros lusófonos em incensar o seu autor, caso a sua artesania escrita não bastasse. Cuide-se, no entanto, para lá do frívolo egotismo de ver os resultados, como quem passa 25 euros para a mão de cartomante de quem se não espera húmus para alimentar a crença mas o ritual minimamente orquestrado que dê pasto para reminiscência em interlúdio spooky de uma ruminante dinner party, que há aí algo de uma muito pia (pois claro) atenção ao outro, rara nessa coisa automatizada de contabilista ressequido que é anexar links à coluna da direita na esperança de um retorno na volta do correio.
Os efeitos dessa generosa personalização, claro, também à primeira vista se plasmam à visão cartomante, com cada feliz visado (e começa a perpassar algo de chosen one) a acusar a certeira recomposição anagramática da sua identidade blogosférica (como que não havendo coincidências, tudo estar escrito desde o início, yada yada yada). Mas também aí, cuidada (enfim, não é preciso procurar muito) atenção às minudências de mundivisão que apascenta a Pastoral, pode justificar que se afigure que ali, como no subreptício império de Trystero, certamente não há coincidências. O que, na abjecção que me calhou em sorte e me tolhe (não obstante o grato toque de distinção - deixem-me iludir-me), despertando o desalento da consciência e o derradeiro afago de presumir que haja, de facto, sentido na pergunta "what does it mean?", é uma forma parvamente verborreica (porque na abjecção é o que resta) de dizer: he "pynched" me good.

(in a little "pynch" back, assinala-se que, mesmo não sendo o caso, para quem quisesse exercer ressabiamentos pelo desvelar ingrato do anagrama que merece - caso agonístico de cuidado com o que se deseja - , acima de tudo, a quem se perde por narcisos negros (e fordianos umbrais, while we're at it) sempre tudo se perdoa)

sábado, 18 de novembro de 2006

Economia narrativa, narrativa sensitiva

Há muito pouco para dizer, para lá do que à flor da pele dá corpo aos sentidos desincorporados, e faz habitar a palavra transmissível da verdade (entre outras) dos sujeitos que sentem. E, se no equilíbrio entre os riscos de desapropriação abstracta e de absolutização subjectiva das "verdades sentidas", muitas vezes isso basta. O que faz toda a diferença.

(ainda que à beira do invernoso Atlântico quase lhe consiga apalatar o gosto)

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Ceci n'est pas une boîte de commentaires (2)

Aflia antonimera pendistália
acriesta indúlia tensinata adur
conquiata amaniferma fibrissur
de minomária adolcifura vália

- enâmia sucicara instonirália.
Titiamos ambivélia atir afur
duviasta cranomília decigur
tulíria titanília antrodiscália.

Retienos redinemos relizemos
confissa culifória ardentinida.
E transvilícia túlira semena.

Vividifoga cálina dirtemos
omida mora ampiata suquistida
- alimirenta viol transidovena.

Jorge de Sena

terça-feira, 10 de outubro de 2006

(talkback chairs apart) (ou sessão-contínua na barata salgueiro 4)

«Tu dici: cosa devo guardare? Io dico: come devo vivire? E la stessa cosa»

(e, incidentalmente, isto certamente não é um galanteio, mas refracção do paradoxo de uma eventual mesma partilha na distância... não se floreia impunemente no deserto rosso)

(incidentalmente, à procura de imagens do filme para postar, entro na wikipedia que me surpreende com a seguinte inscrição antes do artigo: «Spoiler Warning: Plot and/or ending details follow». Não sabia que as enciclopédias populares andavam tão versadas na ironia)

sábado, 30 de setembro de 2006

To move within a frame 2 (and "lets see how the paradox flies")

A minha política e concepção reticentes de aniversários e felicitações bloguistas, já a explanei, e desse pudor já exerci, mas se me falha novamente a constância, para além do gosto que o blog em questão inspira, é porque sempre a nomenclatura que o encima me recorda que, por afinidade electiva com esta imagem, «Seta Despedida» seria um dos nomes sob os quais não desdenharia acostar-me.
As razões estão à vista (e pelo menos numa instância à autora não são estranhas). As felicitações ficam-no também.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Penitência (a much more private call it joke if you can/will)

Escrever cem vezes no quadro preto (now there's a metaphor):

Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Requiem negado a um Inspector

Face a isto, como direi?, sinto-me assim como se houvera sabido da morte do Pepe Carvalho da minha desesperança que não por suma interposta pessoa (pelo que, é pôr-se a pau, que na falta de um Montalbán vou-me a outro...).
E nesse particular, sinto-me também, diria que, como que tomado pelo furor da Kathy Bates(seria essa? confundo o nome das gordas e das modelos todas...), a marretar os pés do James Caan pelos tornozelos em ângulo recto de rigueur, caso o cavalheiro escritor não se dignasse a produzir uma "ressurreição" verosímil da sua (sua) personagem (no meu viewer's cut específico para este propósito retórico, bem entendido).
Sendo, for the time being, um pouco menos psicótico nos actos, e mais no fantasismo, concebo, evitando que esmurre o monitor (mas à cautela é não despistar-se na Serra da Estrela comigo na cercania), que, qual Laura Morante a deflectir uma captura na barreira policial de estrada simplesmente perguntando ao agente onde poderia encontrar um exemplar da Divina Comédia num Algarve despido de outros estímulos que não balneares, na mais justa inverosimilhança, verosímil para o estatuto de escrito, o Inspector Rousseau ressurja no pleno ennui de quem sustém o pé a pressionar o angst mesmo no limiar da tona de água do esgoto urbano, enquanto assiste ao esventramento ocasional no beco do outro lado da estrada com a placidez inexpressiva de quem seccionou, como que em recorte ontológico, com tesoura para cortar os pêlos do nariz, a palavra cinismo do dicionário enciclopédico oferecido por um tia gosmenta na juventude. (too much confessionalism?)
Afinal, tiros na cabeça, que raio, isso como eu ao pequeno-almoço.

(em caso de antecipação de, ou intromissão em, alguma planificação de narrative mastermind quanto aos destinos narrativos aqui inquiridos, apresentam-se as desculpas e pede-se o favor de ignorar o relambório expurgado - à confiança (everyone does (present company included)))

© Montalbán © Reiner © César Monteiro © Basto