quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Let's fake I could make an add

Enquanto não blogue de cinema (eles andem aí), mas afim (aliás, o meu estado natural, afim de tudo sem ir ao fim de nada), fingindo que isto não é um meio entrópico e há gente desse lado a ler-me (pausa incómoda) que não receberia esta informação por outras vias mais directas (prossigamos), sendo eu um gajo extremamente afagável e sensível ao patrocinato, não tendo conhecimento de causa para vos pastorear ao redil com argumentos autónomos, mas tratando-se de uma iniciativa programada pelo André Dias (e bem me parecia que havia gente nesta ciranda a fazer mais que fingir adiar a vida) o que, no mínimo, lhe concede contornos instigantes mesmo às escuras, e sobre manifestação cinéfila a brotar (arrisque-se o desafio de se ser conscientemente contemporâneo de vez em quando), não digais agora pelo absentismo que não estáveis informados da passagem pelo S. Jorge de ciclo de cinema dedicado à dita Nova Escola de Berlim, de uh amanhã (31 de Janeiro, pronto) a 6 de Fevereiro (estranhamente, para lá da ausência de solidariedades de classe pelo evento - dir-se-ia que a consciência e seu exercício de classe blogosférica, ironicamente, não passam pelo seu proletariado estatutário, que não simbólico - a informação mais imediatista (esqueçamos os trepidantes plot resumés da prache) do programa deve ser esta daqui).

Claro que os penados do meu purgatório não desconhecem os meus mais imediatos motivos para o incitamento: tenho o S. Jorge como o espaço cultural mais deprimente de Lisboa, e como tenciono passar por lá estes dias (poderiam portanto brincar ao "quem é o diz que blogger", o meu passatempo de frenologia forense invertida favorito), preferia ter aquilo acolchoado de gente (quero-vos como às minhas almofadas, no fundo). Depois do último fiasco de público a que lá assisti, devo porfiar pela prevenção dos efeitos psicopatológicos daquele buraco negro às moscas. Se há algo mais deprimente do que um suicídio em massa, é um suicídio que ponha especialistas a debater num telejornal qual o limiar quantitativo para atribuir o galardão.
Oh pá, e se forem cinéfilos da minha confraria, acrescentem este pensamento: é capaz de haver gente nua (um dia explico).
(now IS there such a thing as bad advertising?...)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Off to the (movie) show

Se os infindáveis folhetos sob o comportamento infra-civilizacional de gente mal-catalogada sem respeito pelas convenções sociais tácitas de se permanecer uma estadia numa sala de cinema (das estadias curtas, prosaicas e sentadas, bem entendido, não no sentido da ética borderline metafísica de rendição fantasmagórica ao passado projectado que lhe chama sua catacumba nostálgica, tipo Adeus Dragon Inn) , já são quase tão reiteradamente cansativos quanto aquela falta de maneiras (o que o torna o genre de post imediatamente ignorável que tem caído que nem ginjas à minha missão bloguística incógnita), é manifestamente porque não temos atentado suficientemente à subtileza simbólica de tais manifestações nem lemos suficientemente Edward T. Hall (no meu caso seria sempre um understatement, mas para sobrecompensar a banalidade temática temos que carregar no index citacional).
A democratização dessa prevaricação, até por dentro das portas do templo Cinemateca, também não ajudava ao discernimento do método comparativo, já que também aí, com a minha presunção missionária, infalível em admoestar prevaricadores com os meus já lendários esgares de reprovação a fazer murchar as bochechas dos meus alvos já que os seus olhos nunca se atrevem a acusar o embaraço petrificante veiculado pelas minhas pupilas de Medusa, não podia criar o distanciamento semiótico requerido.
Felizmente, o campo propício de mais uma sessão muda, mas esta (no bote Luís de Pina) cheia de gente (o que é invulgar, permitindo-me delegar as manifestações bananas de descontentamento, como os fungares muito diligentes, na vizinhança), criou finalmente, para mim, condições de legibilidade do encastramento e estruturação desses comportamentos aparentemente desviantes como formas de comentário simbólico sobre o que se desenrola na tela, e nesse capítulo, apesar da quase uniformidade dos meus campos de recolha de dados, devo dizer que o público da Cinemateca é um terreno etnográfico assinalável.
Indubitavelmente desaprovando as mansas primícias do slapstick sovietizado d'"A Rapariga da Caixa de Chapéus" do Barnet, apesar da sua manifesta eficácia e inventiva visual, as intervenções da audiência não funcionaram senão como um sistema de compensação (falha-me a metáfora mais gira de engenharia) da insuficiente satisfação das expectativas com que haviam entrado na sala, claramente mais interessadas pela precisão hipodérmica no manuseio desse código importado pelo cineasta, que pela prefiguração do seu idioma na idiossincrasia da sua iniciática apropriação de um estilo relativamente formatado.
Ao invés da banalidade dos comentários exasperados, típicos de um espectador ("oh, duh, is this supposed to be funny, duh"), o "espectador" da Cinemateca já está para lá dessa passividade frustrada, e imediatamente pensa e reage como um cineasta. Vai daí, começa a desenrolar-se colectivamente pela audiência uma sequência, certamente irregular, mas esforçada, de motricidade cómica aplicada, iniciada inevitavelmente pela camerata de telemóveis, um clássico francamente pedestre certamente arrastado por neófitos (que eu tentei, debalde, enriquecer contrapontisticamente com a circulação ruidosa de fluido pelas cavidades sinusoidais ou assim - a minha, até hoje inconsciente, indolente secção das orquestras de protesto - apesar de no caso em apreço estar bastante contentado), e a composição também ainda juvenil de jogos de sombra na tela por espectadores a chegarem atrasados (com os estafados sacos de plástico danados para a brincadeira) e a forçarem filas inteiras a erguer-se para lhes dar passagem, mas seguidos por um curioso sketch (sem chegar a gag) de um casal, com a esposa sentada a ver o filme, e o marido entrando de rompante, medindo o filme de alto a baixo e sentenciando "este não é o filme!", trocando mais 30 segundos de recados desinibidos com a respectiva e voltando a mirar a tela a ver se lhe topava um indício de escárnio por lhe ter trocado as voltas ao que teria de lhe ir às fuças, e voltando a desaparecer intempestivamente porta fora, para 5 minutos mais tarde o bom camarada que pica os bilhetes, ao deixar entrar mais uns retardados, se dirigir directamente (isto está tudo bem pensado) à senhora que ainda lá permanecia encalhada dizendo "parece que o seu marido está a chamá-la", a qual, resignada com o fim da sua guest-appearance, trota para fora da sala.
Contudo, mesmo com esta sofisticação interactiva com a matéria fílmica, é manifesto que o domínio ou a consistência do idioma cinemático deste público apresenta inconsistências ou divergências estéticas, já que entusiasmado com o despique das peripécias, alguém não resistiu a saltar etapas e coroar este crescendo desengaiolando uma canora e arrastada bufa, a que toda a demais gente, quase que já em condições de reapreciar um bom humor escatológico tão longe dele se votaram but (hélas) not yet, votou um desaprovador silêncio. Felizmente, por essa altura, Barnet já tinha decidido aumentar o gás da paródia e a risota reconciliou-se com a projecção sem necessidade de mais ad libs.
Podem arremessar os mais acintosos comentários aos consensos mortos da cinefilia hard-core, que não será na tela que já viu estas manifestações exuberantes de dissensão que eles irão colar. Mas um dia, se me passarem atavismos devastadores para a minha sanidade envolvendo ruídos de manjedoura, prometo que vou assistir a uma sessão no Colombo ou assim para tirar teimas.

P.S.-Ontem, no Nimas, dois cavalheiros engravatados e com idade para ter juízo à frente de quem me sentei (can I pick 'hem or can I pick 'hem?), após sonora comoção com a tarefa imperiosa de desligarem os telemóveis, passam o filme inteiro a dar emprego à matraca ("ah, agora é a Mahalia Jackson", profere entusiasmado um, apenas para manifestar o quanto o considera um momento privilegiado para lhe dar acompanhamento comentarístico): claro enunciado pós-macluhaniano de que a massage (e bem estive para lhes amassar o lombo, se não fossem dois e se não bastasse meio) já não carece do medium. Fiquemos atentos, que estes também prometem.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Oh meus amigos, tereis de ter paciência, é que nem se dá o caso de ter ouvido mais que mão-cheia de

discos deste ano, mas se o tio Wyatt até se deu à maçada de editar qualquer coisinha para nos poupar de continuarmos a reiterar a senhores a oferecer-nos camisas-de-forças que o Cuckooland ainda era o melhor disco de 2007 com recurso a uma dissertação construtivista da calendarização ocidental ou uma teoria física relativista do tempo com a palavra quântica lá pelo meio (shoulda spent more time in wikipedia for this one...), com franqueza, parece-me um pouco, digamos, deselegante andarmos aqui a brincar aos tópes

É que, vamos lá, nem é que alguns de vós não tenhais excelentos trunfos no bolso, eu reconheço. Mas por uma mera questão de cortesia para com quem é desconfortavelmente confrontado com a contemporaneidade com um disco do Wyatt, devíamos deixar as outras coisas estou certo que muito louváveis (e várias amostras dizem-me mesmo que sim) que nesta arbitrária grelha temporal saíram, para o melhor do ano que nos dizem ser 2008 (but we don't buy that, do we?), com a suprema vantagem de por essa altura a pobre indústria aproximar os preços um cadinho mais de 1500% do custo de produção e eu poder de facto ouvi-los com um pouquinho de dignidade. E nem é que o disco seja necessariamente uma obra-prima, mas só porque o homem tem a óbvia superioridade e generosidade de estar acima dessas secreções teleológicas e conceptuais (senão nem se podia entregar jocosamente à not so private joke de tocar uma cançãozinha do Eno à guitarra acústica (ah pois), nem brincar com os amigos às orquestras de gamelão). De resto, mesmo sem desconstruir essa coisa das primas, tem logo a abrir a melhor cover do ano (humildade mais profícua não há), a melhor canção de amor de cândido despudor, a melhor canção panfletária, e a melhor canção utopista do ano; e nem sequer é alguma destas a melhor canção do disco. Não vejo propriamente que mais se pode pedir. Portanto, escusais de me estar a desconsiderar com a tarjeta de mecanicista estatutário.

Dá-se, aliás, o facto de o resto dos poucos discos de gente com estatuto prévio (com as devidas décalages gigantescas entre eles, mas enfim) que ouvi não me justificarem o incensar público. O disco dos Radiohead é um tremendo tour de force cultural (em sentido amplo), mas é ao pôr toda a gente a falar da sua estratégia comercial em lugar da raquítica colheita que apresenta, sem sequer terem tido necessidade de recorrer à frase de escape que tinham muito bem dobradinha na carteira pronta a sacar à polícia de costumes "de que é que estavam à espera para música à borla?". Nem é que já nem mostrem resquícios do savoir-faire maníaco desse portento que ainda era o Hail to the Thief, mas a maior parte da matéria-prima é que nem justifica a precisão do escopro (para irmos ao mais longe, "House of cards" é uma pastelice rasa que não esperaria ouvir num disco dos Radiohead depois de 97).

O meu avatar Black Francis achou por bem ressuscitar a sua nominalística sagrada, e mais valia ter estado quietinho, que sob a profana designação Frank Black muito satisfeito eu deglutia a parte (cada vez mais escassa, é certo, mas) de genial menoridade do seu cancioneiro a solo, mas com este sacrilégio de invocar o seu próprio nome em vão (esta mania de os deuses se crerem senhores de si), dá finalmente razão ao epíteto sardónico do Prindle de o bom do Black ser a chubier, dorkier Pixies. Não é que eu não possa vir ao volante a afocinhar numas quantas traseiras automóveis por estar a esgroviar a guedelha ao som do disco. Mas é mesmo só porque I'm weak that way (sempre com a consciência de que posso vir a negar tudo isto).

E embora pareça mal neste seguimento, até os Interpol, que haviam na estreia cometido o prodígio de me titilar as cordas revivalistas, até então e após perfeitamente entorpecidas ao ai Jesus dessa chavalada toda a redescobrir o frisson de uma Fender, e cujo segundo oferecimento ainda era metade muito aceitável, à terceira tentativa produziram uma perfeita estopada, de gravitas de fancaria monocórdica e balofa. A seguir por aqui, mais dois discos e transformam-se nos Keane (se os Keane forem quem eu estou a pensar ter passado por dois segundos num clip na Sic Radical).

Ah não, por acaso agora me lembro para me fazer festinhas à marretada, que, precisamente após um esforço apenas estritamente meio degustável (e logo este após uma obra-primíssima), o meu casal dilecto de mórmons, só eles a me fazerem sentir culpado por fugir dos seus supostos correlegionários em proselitismo de rua, que teve aliás a imensa bondade de vir tocar para mim ao Santiago Alquimista, lançou também este dito ano um bem estimável e bravo disco (ninguém ligou, alimárias), a relembrar que a fazer girar o mundo está não só o vento a soprar nos cabelos da Gena Rowlands, mas a ascensão tremeluzente do vibrato da Mimi (a afagar a angst descalibrada do Alan, não esqueçamos).
E olhem, porque é ano novo, mais vos digo que tanto não me ofereço ao automatismo estatutário e à servidão calendarizada (suck on this, Gregorian) que, verdade seja dita, o homem que mais desamparadamente amei este (dizem que) ano, até ao paroxismo carnal (silenciado da monodia melancólica há 34 anos, e subtraído aos passos deste mundo há 8 anos, ainda se me dá um aperto no coração quando penso nisso), foi o sujeito jeitoso ali de baixo, da rugosa doçura mal-escanhoada que já não há. Se um dia desemperrar as 15 páginas seríssimas e compungidas a clamar pelo mais amável maverick do songwriting americano talvez diga mais qualquer coisa para os unchosen-ones, que não vêem logo ali um irmão e deixam cair quando muito um indiferente "quem é aquele gajo?", que entretanto não quero gente para aí a profaná-lo bafejando uns dignos de pecado mortal "ah sim, isto até é giro" e tal, com a voracidade indiferente do short-attention span. É como digo: isto da internet quase só vos faz mal. Valha-vos eu.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Bom ano para mim

Para quem propugna que a invisibilidade social se conquista, tendo tido o invejável sucesso de apenas ser submetido a um telefonema de aniversário este ano, a coisa poderia soar a uma profecia que se cumpre a si mesma (e que benemeritamente me poupa no saldo de respostas no telemóvel). Mas não é bem isso. Eu bem recebi duas ou três mensagens de bom ano. Mas, intrigantemente, nenhuma das pessoas com quem falei ao telefone nos últimos dias, com conversas de passagem de ano inevitavelmente ao barulho, me desejaram bom ano (nem eu tomei a iniciativa, claro está ó supremo pilar da reactividade). Poderia uma perspectiva confessional descortinar aí a remissão dos votos de bom Ano Novo, por homologia descabelada com a luta contra a dessacralização das festas religiosas, para uma esfera de enunciação privada aos fiéis da causa, à communitas (neste caso profano, naturalmente, communitas de bacantes versus misantropos desmancha-prazeres). Como poderia defender a elisão do ano novo como ocasião de desgoverno hedonista, a exponenciar na proximidade do desfrute uma lamentável descaracterização de uma presumível pureza cultural natalícia. Por uma vez, tenho que dar um passo atrás hermenêutico. Dado o centro de gravitação da amostra (euuuu), só posso imaginar que, nesta altura do campeonato, a estes interlocutores tenha já parecido francamente escusado desperdiçar aí um desejo, o que abre a hipótese de este poder ser um campo discursivo propício a um fascinante exercício prático de waste management da boa-vontade de cartão (o que nada tem a ver com nos querermos bem). E agora venham cá dizer que as pessoas não aprendem nada com a história.

Behold and AWE at the spawning of new language from the depths of the loins of my liquid plejades


(gostaria de frisar que isto foi escrito sob coerção directa e ameaça de terríveis represálias caso me furte a lubrificada vangloriação por sabe Deus que não se consegue arranjar melhor (e a secreta esperança de o Hilton ter uma percentagem no testamento para o povo empenhada na promoção do wordplay liceal). Refém contrariado em causa própria (história da minha chama-lhe sobrevivência até aos nossos dias), a declinação ciclópica (e potencialmente desagradável à visualização) da proeza inigualável com que unto lascivamente as meninges, sob a autoridade cósmica de uns Tangerine Dream (nem Roma se fez do nada), é inteiramente da responsabilidade de Yesterday Man. A Yesterday Man o que é de César. Avé nós (una limosna por el amor de Dios))

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Na outra margem, por sobre a calçada portuguesa (faking nagging Vasco Barreto #54)

Parece relativamente evidente que a geografia foi modificada, e a Margem Sul é, no presente, bloguisticamente, um dos mais trendy place to be (ainda que o mercado imobiliário esteja estranhamente um pouco lento a cavalgar a onda migratória de luxo oratório) (Coimbra sendo já um clássico, prestando-se mais a distracções nos mapas turísticos da cena). Mas na ausência (yet) de uma consciência universal do facto, convém refrear as sequelas mundividentes da exuberância cosmopolita a sul do Tejo para a (im)precisão geográfica com que se olhe para o resto desconsiderável do mundo. Sem contestar o ditame vidaliano e o aconchego anímico de postular que a transumância é literariamente produtiva, temos também que reconhecer que mudar de código postal não é exactamente o mesmo que chegar à nova morada a torcer a roupa após cruzar um oceano. E para a restante blogosfera interessada, sem a compassividade de um aforismo goreano à mão para a ocasião, confesso que me espantou o silêncio aparentemente sem apreensão por il ritorno di Vasco Barreto in patria.
A menos que fosse um pacto do não-dito para não materializar a ameaça fantasma, eu por mim confesso que muito temi pelos efeitos baqueantes (de baque, está bem?) da deslocação. Ainda (e porque) mantivesse em Nova Iorque Portugal no coração e na pena (miauu), a buffer zone atlântica de alguma forma parecia nutrir uma não-chega-a-ser-paradoxal omnipresença planante e distanciada sobre as guinadas fenomenológicas aqui do quintal, enquanto lhe evitava o fascínio cabotino com o happening cosmopolita (começo a odiar a palavra) quotidiano das esquinas das avenidas. O descompromisso engajado perfeito, no fundo (o que levava a que nem fosse essa a necessária centralidade do seu opus in progress).
Naufragado agora cá na terra, como não temer que se visse incapacitado, como pelo amor de mãe sufocante, pela impositividade material das manifestações paroquiais de vida que antes poderia, mesmo com maior constância que qualquer nativo, gerir na saudável distância de estrangeirado que as excitações comunicacionais ainda não (felizmente) obliteraram, mas já tornaram pertinentemente transponível? Em certo sentido, esta transferência poderia ter tido bloguisticamente o impacto de um regresso de Nabokov à Rússia.
Francamente, o meu único descanso nesta inquietação toda foi, dada a prolixidade (mesmo com controlo de qualidade) barretiana, que, com toda a probabilidade, tomando a sua futura autobiografia mais facilmente o título de "Shut your yap for just a freakin' second, Memory" que outro assim nessa linha, o único problema que se lhe colocasse, como o próprio indiciou, fosse eventualmente o de ter que seleccionar um pouco mais o material print-worthy dentre o imparável e incompreensivelmente regrado stream of bloguingness. Tendo deixado passar o tempo para nos sentirmos seguros de novo, mesmo assim, para aquietar as almas perturbadas que se não manifestam, deixo aqui o aviso de que me encarrego agora mesmo de iniciar uma vaquinha para, em caso de necessidade, se comprar um bilhete de avião para correr desveladamente com o homem daqui. Quem me quiser ir ao porquinho (para enfiar lá qualquer coisa, that is (much better)), é favor avisar primeiro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Vale morder e arranhar

Eu sei que marcar calendário num blogue com a minha periodicidade renitente é menos que risível e potencialmente mais que enfurecedor caso o aviso seja pertinente para alguém. Mas um qualquer desavisado sortudo justificará o teaser e a frustração infligida aos interessados que falharem a data (quem vos manda poderem passar mais que um dia sem vir desesperadamente em busca de novas minhas?).
Neste mês de Dezembro nada menos que dois-deux-due filmes de António Reis e Margarida Cordeiro passarão na Cinemateca. Afora o valor intrínseco do acontecimento, nem que lá passassem todos os dias, estímulo inquestionável sem carência de mais circunstâncias abonatórias para imediatamente se abandonar a caseira ass-shaped cushion (falo por mim, claro), ocorre que nem DVD nem o diabo a quatro trará, até ver, estas películas a burguesas (e convenientes) mãos (e a minha videocassete doméstica da Rosa de Areia não está para empréstimo, parem de pedinchar, é humilhante) que se fornecem de "cinema" na FNAC ou na prevaricação internética (coisas que podem ser justificáveis, sim, mas só na falta de melhor opção). Por isso, é favor cancelarem as vossas vidas, a começar, esta sexta, porque às 21:30 a primeira instalação da dupla efeméride do mês passa na Sala Dr. (é mesmo assim, tão pitoresco) Félix Ribeiro, e intitula-se «Trás-os-Montes». Dia 11 passa «Ana», às 15:30 (julgavam que o cancelar as vossas vidas era piada, não? - fake a heart-attack, tenham uma recuperação miraculosa na ambulância, e peçam para vos deixarem na Avenida da Liberdade porque já agora têm que ir à repartição de finanças).

Mais aviso que não consta que haja palavra passe, seguramente estaremos em disposição concêntrica, e envergar o hábito não é obrigatório, mas olhem que ficavam bem na fotografia.
(para tudo o mais (a expressão é para ser levada à letra), para quem não soubesse, é favor dirigirem-se aqui)

Of course not, it was me

Se a "não-identificação" com as nossas palavras, ilusionada (vá, não chateiem) pela intermediação tecnológica de um meio de produção de discurso, como o blog, pode ser condição de nos capacitarmos psicologicamente a escrever, a sobre-identificação com as palavras desses outros com um passo atrás à mão é a condição mediada de engajamento prosado que nos faz coabitar voluntariosamente nestas arquitecturas pessoais perspectivadas pelos próprios de fora, e, não fora o autor levar o teste da não-identificação das palavras próprias ao limite assinando-as por baixo, tentando-nos à fraude do roubo de identidade e eventualmente clamar fui eu que escrevi isto.
No fundo, a melhor forma de elogio blogosférico (esquecendo as suas potenciais ambiguidades para quem escreve para not-so-hidden agendas implementar) pode bem ser, por breves segundos e a espaços regulares, ter vontade de apagar alguém do mapa.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Teutonic sugar plum daddies

Lendas low-profile (mas lendas) do krautrock, e (o meu obrigado à organização, não obstante) algo que não contaria ver in our lifetime (they're old...), os Cluster passaram há umas semanas pelo, eu acho (não obstante a bizarra funcionalidade vai-a-todas do pedaço), decrépito mas com porte de instituição São Jorge, num evento (Número Projecta - don't ask) tão super-out-there quão correlativamente sub-sub-publicitado, a emanar as suas nuvens de algodão doce crispado (na intersecção de fim de carreira entre as primícias dos augúrios de tempestades estáticas e a sagração heterodoxa da pop sem pop sintetizada em ponto de caramelo). Isto para audiência de talvez duas dúzias de marmelos mal pintalgados na volumetria daquela velha glória dos cinemas históricos. Isto a meio de uma allnighter com mais 4 performances de electrónica, vanguarda sonora(?) e VJing (I told you, and I meant it: don't ask). Isto levando a que ao fim de uma hora de sugestão hipnótica, negociando visivelmente entre si o fim necessário da sessão terapêutica, a dessem quase imperceptivelmente por finda e, na face de uns aplausos mais salientes recém-despertos com a percepção de que o silêncio não era só mais um estádio na dinâmica da evanescência, se desculpassem com o facto que tinham que terminar porque havia mais convivas a seguir para entrar em palco.
Pronto, foi mais uma relação do cosmopolitismo de recurso na cidade de Lisboa. Vemo-nos no próximo misplacing de um must-see, combinado?

(lamento informar, mas a performance sónica do Rafael Toral até não foi mal esgalhada de todo. não digam a ninguém que eu disse...)

sábado, 3 de novembro de 2007

Doc this

A avaliar pela cobertura recidivante e os panegíricos impressos a propósito da recém-passada edição do DocLisboa (em que infelizmente - apesar (por causa?) do propalado sucesso - não pus os pés), o documentário seria a área de produção fílmica a despertar mais paixões e desvelo das redondezas. Ao mesmo tempo, a RTP2, que tanto se associou ao evento, numa rubrica intitulada Docs, tem o descaramento de esquartejar o «No Direction Home» em duas sessões intercaladas por uma semana, privando assim um objecto fílmico de qualquer finalidade coesa, cuja integridade (física) é levianamente manipulada pelas conveniências mais mundanas dos exibidores, o que é ilustrativo de algo como a associação duplamente equivocada e reforçada do formato documental a neutralidade empírica e nulidade (vá, di-lo, di-lo!) artística. A menos que o desconchavo se tenha devido à generosa duração da película (208 m.). Se é lá por isso, aguardo expectante que a fatal dose de Ben-Hur na Páscoa seja também devidamente servida às talhadas.

We serve at the pleasure of who tells us to

Com a presciência dos imponderados, o Rogério endereça-me encomenda de registar publicamente a 5ª frase completa da 161ª página do livro mais à mão do servente, e por essa forma, por um instante eternizado na inefável grande ocular cibernética, partilhar da pertença simbólica a uma prestigiosa sub-secção da rede blogosférica de publicistas sem um Hyde Park a jeito.

Devo começar por me desculpar pelo atraso na entrega: tenho sido testado biblicamente na minha paciência para com o meu fornecedor e técnico de material informático, recorrentemente em avaria de há 3 meses para cá, e se é facto que até teria livros à mão para responder num cibercafé (coisa que nunca frequentei), com visionária sensatez, temi que ao sacar de um arcaico instrumento de leitura os cruzados do progresso que me cercavam me tomassem por fervoroso ludita e se me antecipassem à gadanhada nos processadores (eles têm alguma razão...) empalando-me com as suas pen(is - prolegómenos para uma fantasia tecno-sexual)s enquanto as Sugababes, ribombando ainda nos seus Ipods, conferiam uma rigidez maléfica ao impávido sorriso groovy com que a meio dos suplícios não cessavam de me encarar.

Estando agora em casa, e enquanto o computador não se demite de funções novamente (ou seja, amanhã), entrego-me radiante de interactividade à tarefa. Todavia, embora em nada interfira finalisticamente com o meu amestrado cumprimento de qualquer incumbência, devo confessar que o automatismo crescente destas correntes (memes? memes?) me inquieta. Emerge por aqui um debate tecno-ontológico já não tão larvar sobre a desumanização da escrita. Desconsideremos até a rigidez formatada (antes o soneto) desse modelo de interpelação, a requisitar uma ginástica retórica que, para justificar molhar a palavra, dê mínimo ânimo a tão árido pretexto discursivo. A última corrente, sobre os livros que não mudaram a nossa vida, ainda era um exercício rebuscado de distinção social, em que a gestão pessoal do desarranjo dos cânones buscava afirmar, se necessário com a devida displicência, a sua mestria no domínio iconoclasta dos mesmos, mas já enveredava por uma certa negatividade na identificazione di un(a) donna/uomo, não só definido pelo que desconsidera do mundo, mas reforçando o painel limitado do mundo e suas fronteiras estabelecidas nas quais o exercício de rejeição faz a sua selecta, já que, por definição, nada propõe de novo.

Já esta corrente, parece um daqueles alienantes experimentos psicológicos, onde a reflexividade e afirmação de um sujeito são arrumadas num armário em favor da imposição de um reducionismo mecanicista à acção humana. Gente boa, segura nas suas capacidades, encarou-a com a supremacia da sua inteireza retórica, rindo-se da pretensão de a manietar, satirizando-lhe a instrumentalidade, ou instrumentalizando-a para atiçar terceiros. E eu ainda me pergunto desesperado: exercício (nos seus trâmites) liminarmente descritivo, escrever uma frase determinada por um critério arbitrário, pelos céus, para que serve? Na sua incepção, é uma espécie de morte do autor a dois. Assassina-se um autor, extirpado de uma lamela do que quis fazer obra, feita amontoado de parcelas frásicas. Assassina-se um citador, a quem, sem razão contextual, se assaca um perfil da presença de certa obra em dita posição citável na cercania. Como se a blogosfera, concebível reduto de proliferação subjectiva cibernética, se encaminhasse para nos tornar máquinas automáticas de citações absolutamente avulsas. Afasta-se por completo um plano, um finalidade, entrona-se a contingência mas com o desejo inconfessável de lhe peticionar mais significado (porque não construído ou antecipado), espécie de surrealismo auto-vitimizado, exacerbado mas sem assumir a consequência (ou alguém vai andar a fazer um cadáver esquisito disto?). No fundo, tudo isto parece um teste emanado de uma consciência cibernética auto-suficiente a mensurar a vontade de resistência dos sistemas humanos ao imediatismo e funcionalismo (conquanto, ou principalmente, destituído de funcionalidade) comunicacional. Pelo que, sim, a fazer algo desta corrente, há que rebatê-lo como o grande desafio pré-apocalíptico ao emergir das máquinas. Espero portanto continuar a ver-vos à altura das vossas imundas vísceras.

Pronto, maqueada a auto-determinação a reger o meu teclado, levantam-se-me agora problemas operacionais. As duas pequenas pilhas de livros mais próximas, à minha esquerda e direita, tanto quanto a exactidão da minha medida braçal pode calcular, estão perfeitamente equidistantes da minha centralidade da vinciana. E já a encomenda não incluindo medida de sensibilidade política ou primazia de destreza manual, o bom destino encarrega-se de complexificar o dilema. À minha esquerda, o Olhares sobre a História de Lucien Febvre, que desde que comprado há um ano não acredito ler, sem que isso me suscite outras diligências, é desqualificado sumariamente por não ultrapassar as 126 páginas, volumetria de indigência ou honestidade intelectual. A bola passa portanto para a pilha da direita. No entanto, novo obstáculo assoma. O 3º volume de uma recolha da obra poética de Borges lá está repimpado, por razões que não recordo (ainda que seja um caso cimeiro de iminente solicitude), e por indolência que nunca esqueço. Ora, os versos contam? É o verso uma frase? Já digerimos o minimamente o modernismo literário (?) para assumir desabridamente o regabofe da simbólica formal a categorizar o enunciado linguístico/literário? E aqui a máquina começa a fumegar.

Creio portanto que se impõe um plebiscito. Infelizmente, não tenho tempo para esperar pela cristalização institucional de um dispositivo eleitoral minimamente fiável nesta reticular frivolidade. Assim sendo, deixar-vos-ei as duas opções frásicas que se apresentam na pilha da minha direita, uma a heterodoxa borgesiana, outra, e para abardinar a representação parlamentar do hemiciclo da minha secretária, a emanada do livro subsequente da pilha, Les Mots et les Choses de Foucault (que não tenciono igualmente ler any time very very soon), confiando que qual responsável orgão de comunicação social em véspera de eleições, não ireis espreitar a antevisão dos resultados: a convicção bruta ao poder.

Caso ganhe o Sim à desestruturação da estabilidade de distinção sígnica dos ofícios discursivos e sua maximização interpretativa com a consequente vaga de insucesso (se ainda restar sucesso para falhar), ou se calhar hiper-sucesso, nos exames nacionais de português, a frase será «o acceptando la muerte en la mañana».

Caso ganhe o não, a frase será «Or ce enchevêtrement est le résultat d'une série chronologique d'événements». Para vos infligir a frustração que merecem, a coisa trazia à liça Lineu (a única aportuguesação aceitável), Adanson e other taxonomic assorted goodies.

Para perceberem a diferença (mas porque raio ainda está você aí a ler isto?) que faz o maquinismo com um pouquinho mais de purposefulness in action, se fosse recuperar o Naissance de la Clinique que há muito pouco ocupava o lugar micro-topográfico que Les Mots et les Choses ora ocupa, com os fins anódinos que se conhecem, a frase compagnonne de route da de Borges («o acceptando la muerte en la mañana») seria «La mort, peu à peu, dès le premier moment de l'action et dans la première confrontation avec l'extérieur, commence à dessiner son imminence: elle ne s'insinue pas seulement sous la forme de l'accident possible; elle forme avec la vie, ses mouvements et son temps, la trame unique qui tout à la fois la constitue et la détruit.»
Como um bom experimento falseado, diz que é uma espécie de coincidência.

Pela impositividade dos resultados obtidos, lembrei-me que poderia reenviar isto ao Bruno, mas a afinidade referencial no desejar dos avatares a jeito na secretária teria um efeito manifesto de redundância.
Para não desbaratar a presciência acima invocada, fingiria deixar o seguimento à vontade do Vasco Barreto (também "outra vez", mas só porque me dá jeito retórico), para em mais uma hipótese de emancipação humana, se cumprir um fim digno à arbitrariedade da corrente, e sacando efectivamente dos clássicos de poche, se aproveitar para fazer dela um teste à infalibilidade sígnica de cada caganita grafada dos clássicos escribas que nos miram do poleiro privilegiado de là-haut do panteão, ou, se não estiverem à mão (ou melhor, à nádega), pelo menos voluntariar o repouso na citação de best-sellers da sociologia como «The Bell Curve» e os Kinsey Reports, ou da psicologia evolucionista como «The Selfish Gene», que ser guardião da integridade epistémica da desbocada blogosfera, por Toutatis, também cansa, nem há panóptico cibernético que sustente (olhem, mas entretanto vão mas é, a despeito da comédia voluntária e insulto involuntário que é eu brincar aos referrals, reler isto («Porque há uma diferença entre querer dar voz a alguém e pretender calar essa pessoa, diferença que os pavlovianos paladinos da liberdade ignoram»), olhem e já agora isto, e é se não quiserem ler mais, que é como uma apple a day).

Aproveito também a ocasião para ler em público, da única forma que me é possível (vivo trancafiado em casa com a esperança de que me confira uma espécie de perpetuidade criogénica), uma obra que me foi emprestada (em desespero de causa para abalar a minha indiferença de iletrado face a um esparramado manjar de títulos assaz legíveis) com esse preito expositivo em particular, dando-vos a 161ª bla bla bla de um opúsculo versando enciclopedica e assepticamente a intimidade das vidas sexuais desse anátema póstumo que é ser uma celebridade: «Much of Field's boyhood was spent in poverty, and as an adult he was constantly fearful of being broke.»
A vida sexual em questão era de W.C. Fields, e se só na frase seguinte começariam a perceber porquê, azar vosso. As regras são feitas para nos fecundar.

wore down erotica of middle-age

Disco rígido novo (até ver), vida nova

que é como quem diz, nova vida a resgatar os fragmentos dispersos da vida antiga. Não deixa de ser curioso, contudo, que tal labor retrógrado emane de uma excessiva confiança no futuro, e vá nesse passo usurando o tempo útil deste para re-fixar o passado.
Sem prejuízo para os sonhos epistémicos molhados de Hume, os imensos backups imbecilmente lacunares, não obstante replicados desigualmente em infindos suportes (enfim, 4), onde afadigadamente deixo à minha própria posteridade os frutos legitimadores da produtividade (gnnn) do meu passado, guincham, em irritante metonímia, que cada dia não é um dia, que se combate activa e espavoridamente sequer a ficção de uma tabula rasa a desembaraçar a canga que se alojou no corpo e os corpos (físicos) que descrevem museificados a exposição da continuidade individual.
Se alguma vez tive um (nunca me foi dado gozar algum dos clássicos por muito tempo), a biografia é o meu hábito malsão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Morte a Werther (oh, too late)

(seguido de
A Werther Waiting to Happen)

Bom, o argumento é óptimo, mas a baralhar argumentos durkheimianos sobre a causalidade do suicídio para arguir a publicitação artística da auto-obliteração (para o caso, sob a forma do Werther de Goethe) como empreendimento de contornos socialmente homicidas ou genocidas - a carecer de ironicamente salvífico matizar por intermediários culturais (isto se não forem dos que carecem mais da mitificação que da desconstrução para se legitimar) - acho que se impõe compensar apresentando o moço Johann Wolfgang, em penitência devida ao tempo que se perde (a vida é o menos) a ler o exasperante Werther (outros opus notwithstanding), como um verdadeiro arremedo cobardolas de Karadzic em segunda mão. Porque o tio Émile (estando entre amigos) Durkheim, pelo próprio contexto e intenção disciplinar com que se debruçou sobre o suicídio, estava muito longe de conceder ao mimetismo (logo pelo seu implícito psicologismo) um papel explicativo do suicídio enquanto fenómeno social, quando muito anexando-o a uma matriz de causalidade em que cumpriria papel muito dispiciendo, eventualmente facilitador, face às condições sociais estruturais (cimeiramente, de coesão e integração sociais) que explicariam a constância societal (e a variação intersocietal) das taxas de suicídio, deixando as explicações de cada acto individual de suicídio para a ciência(?) a que competissem. O que implica que, por muito que o estouvado Goethe pretendesse dizimar a população proto-metrossexual da Europa culta contemporânea (precursora cruzada?), Durkheim não lhe ratificaria a pretensão causal (precursora e profiláctica vacinação contra auto-comiseração blogosférica?), quando muito gatilho contingente em coutada da National Rifle Association. O que é pena, dado que, com o meu ritmo de leitura e masoquismo completista, só o entretenimento de um julgamento póstumo em Haia me ressarciria desse estou certo que meio ano passado em suplício literário (para mais, tendo-me wertherizado às avessas, como do meu whining agora se constata).

Adenda tardia: Chamar à razão? Moi? Now there's a blueprint para um texto irónico.
Não, agora menos a sério, permita-se-me só mais uma achega quase completamente off-the-subject sobre a questão de pormenor durkheimiano que me titilou (começo a pensar que tenho uma thing pelo Émile) dado que, para lá de não ter razão alguma para questionar os apetitosos procedimentos irónicos do texto (não sei porquê, estou a gostar de fantasiar o Johann travestido de Dr. Strangelove), por definição estaria sempre at a loss com essa trama subterrânea de siglas, referências e espoletas motivacionais, a ponto de não poder perceber que carecia de elucidação. A curiosa minudência que me motiva ao rerun do tédio em prosa que precede esta adenda, é que precisamente subsiste na elucidação em causa uma mescla conceptual non-durkheimiana, entre o sofrimento sublimado por via literária (doravante conhecido como "bicho wertheriano"), poder "eventualmente, precipitar" um acto suicida, e pressupôr esse "bicho wertheriano" como estando "à partida" na cabecinha dos suicidas (sendo o estar no fim e no princípio de um processo causal distinção temporal inoperativa, ou ubiquidade a mais para o bichinho). O tio Émile concederia a primeira causalidade, como acessória, na explicação de casos individuais de suicídio, mas rejeitá-la-ia (não só logicamente, mas disciplinarmente) enquanto causalidade de "partida" ou suficiente para explicar as dinâmicas sociais (não psicológicas) de suicídio. Na analítica durkheimiana, os factores psicológicos que espoletassem actos individuais de suicídio, fossem a leitura do Werther ou as flutuações dos stocks de cerveja, sendo relevantes para a explicação de cada caso, eram irrelevantes para a explicação das dinâmicas propriamente sociais do suicídio, cuja regularidade, traduzida pelo indicador das taxas de suicídio, indicava tratar-se de uma dimensão analítica com autonomia, não dependente da agregação de causas psicológicas para suicídio (algo que não cabe na óptica da (sua) sociologia), que logicamente deveriam dar azo a variações aleatórias dessas taxas, o que não era empiricamente o caso. A causalidade de "partida" para explicar socialmente o suicídio estaria sempre a montante, ao nível das condições sociais (largamente inconscientes), não ao nível das motivações psicológicas (onde entraria o bicho wertheriano), que sendo totalizantes para cada acto isolado (precipitando-o), seriam sempre acessórias, secundárias, na óptica sociológica de análise, que Durkheim pretendia instaurar, delimitando-lhe um campo analítico autónomo (particularmente, neste caso, face à psicologia, donde a escolha provocatória do objecto de análise suicídio).
Porque é que o esborratar desta distinção interpela tanto? Porque nessa distinção, translúcida para Durkheim, reside porventura o momento simbólico e epistémico mais emblemático desse processo crucial para o entretenimento intelectual ocidental antes da profusão das sitcoms, que foi a especialização das ciências sociais.
Para o caso Goethe, uma analítica sociológica durkheimiana sublinharia condições estruturais, como a individualização em certos estratos sociais e seu potencial anómico, quando muito associando-o ao plano das representações colectivas no romantismo, como as condições sociais propícias a um acréscimo social do suicídio, e nesse sentido, contra qualquer pretensão de omnipotência artística ou um j'accuse a Goethe, e particularmente contra a pretensão disciplinar de plasmar a dimensão social dos fenómenos a uma agregação de casos/estados psicológicos, todo este caso não passava largamente de um Werther waiting to happen.
Mas isto, contendo alguma austeridade (oh!, see the pun there?, ah ah), já vem cada vez mais a despropósito, e já não é muito irónico, portanto, deixa pra lá...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Antes o sopro no Berardo

Só para dizer que, já eu, estruturalmente fazendo-me ao piso, visitando um dia o agora Queer Lisboa, para ver um debate degustável sobre o Wilde e, à boleia, um filmeco (why did I bother?)a arrebanhar uns tiques visuais para a caução dessa grande meretriz que é o "experimental", não fui interpelado nem com um afago no rechonchudo nem sequer um esguicho ocular do urinol vizinho, o que, julgando que a sei toda, suscitaria a presunção de que a fauna queer desencaixotada não tem graça nenhuma, ou de que, sabendo-a toda toda a gente, pode ter qualquer coisa assemelhável a bom gosto para homens. O que seria lamentável para o mito da fallback option para todos os I-can't get-any da humanidade.

Efeitos não antecipados da caução de uma língua morta

Ípsilon, ponto e vírgula

O que (não) vale é que sendo a incúria recorrente e plural, não haverá propriamente ninguém a assacar culpas: toda a gente erra, o fascinante é quando muita gente erra ao mesmo tempo ou erra de forma a dissolver o locus da azelhice. Isto, a menos que a metamorfose para um modelo de suplemento cultural mais stiff upper-lip do Ípsilon do Público, tenha como fiapo de ironia preso na porta o descartar das plurais minúcias e procedimentos intricados que contribuem silenciosamente para a integridade física de um objecto jornalístico, tornando-o uma espécie de performance art em forma impressa (se vier a ser este o fundamento da vossa desculpa pública, quero os meus royalties).
A edição de há duas (três?) semanas foi um alegre descalabro. Para já, reconfirmavam o recauchutar editorial de críticas de cinema (das pequeninas...) de semana para semana (será assumido, e não terão mais em que gastar papel?). Depois - e saltando por sobre a minha implicação com essa maleabilidade jornalística (e não crítica) de pôr toda a gente a escrever sobre tudo, geralmente (geralmente), se colando-se aos cânones primários do campo e não à produção de um insight pessoal, com a inevitável verve de um copista da wikipedia - escrevendo sobre reedições em DVD de Bresson, Pedro Mexia, não se demitindo de pintar as estrelinhas a atribuir a cada objecto cinemático, informa-nos, em jeito de cenas dos próximos capítulos, que, sobre a obra maior declarada do conjunto, escreveria na sua coluna pessoal(!), no dia seguinte(!!), espécie de entroncamento de publicidade enganosa, auto-promoção e um serão com Roque Santeiro.
Mas entrando nos detalhes técnicos e menos implicativos (conquanto não menos compelling) (e quase não contando com a revelação ao mundo da existência, por contracção nominal, de um disco dos Animal Collective chamado Tungs, por certo um exclusivo carinhoso possibilitado pela questionável familiaridade da pandilha com as lides lusitanas), há duas pérolas rutilantes nesta edição. Uma, consegue a proeza processual de fazer uma potencial tripla, sendo citado um escritor português a atribuir a autoria do Anna Karenina a Dostoiévski (também, os clássicos russos all look the same), e ficamos na dúvida se foi lapso (ou contra-informação?) do escritor, sobre-lapso ou abstenção correctiva do jornalista, e/ou sobre-sobre-lapso ou sobre-abstenção do revisor (a menos que tivesse corrigido a autoria correcta, o que tornaria o processo ainda mais entrópico). A segunda, e sem sequer termos que sair da mesma página, apresenta-se como o uncredited furo iconográfico das últimas décadas, ao surgir uma fotografia límpida e profissionalíssima, contando com toda a disponibilidade do fotografado, legendada com o nome do sumo recluso e incógnito visual das letras estadunidenses, tchan-tchan,Thomas Pynchon. O Alexandre Andrade já havia explicado, e esclarece tratar-se do Updike. Parece-me má-fé no insight do Público. O que está ali é outro furo subliminar: o John Updike É o Pynchon (ou vice-versa). E não é o próprio Alexandre Andrade que escreve «E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior»? Uuhhhh... (a esse propósito, dir-se-ia que o Casanova discordaria, mas ah!, precisamente, quantos homens não há num vazio?... inclusive nesse...mesmo que um de cada vez...)
Infelizmente, a edição da semana passada não propiciou leitura tão gostosa. Só reparei no regresso à prática recauchutada de truncarem textos, o que é indubitavelmente a forma mais pragmática de fazer respeitar a paginação; no facto de Saramago ser dito em destaque sentir-se "desconsertado" com as revelações autobiográficas do Grass, qual estante de pinho nórdico do IKEA montada com instruções em sueco (o Saramago é muito piquínhas quanto à forma como se desconserta); e na sugestão de contornos siameses de porem uma fotografia do Janita Salomé identificada como Vitorino (também, os alentejanos, para mais siblings, all look the same).
Mas porque me inquieta isto, perguntais? É que, atente-se: no Ípsilon escreve o meu Lester Bangs de sobrecompensação (porque o meu, avé, Fernando Magalhães não cessa de me faltar), bem como dos poucos críticos de cinema a sério, neste país de jornalistas culturais, dispostos a pensar publicamente um filme. E se o Público agora vai dedicar-se colectivamente a uma vertente performativa de auto-irrisão de elite, não só me deixa entalado entre a santidade das minhas minhas leituras fiéis e o non-sense profano de desautino institucional, como deve pôr-se cônscio de que se depara com concorrência de peso. Só de passar os olhos a semana passada pela revista Única do Expresso, vejo que ressuscitaram o João Cabral de Melo Neto ao anunciá-lo a fazer leituras pela liberdade na Ler Devagar, juntinho com o Mia Couto (também, os ex-colonizados all look the same, dead or alive).
Já se a pretensamente new-found respeitabilidade cultural do Ípsilon tem sido sujeita a um fascinante processo de descontrução pós-moderna absolutamente involuntária (e nada de maldicência - foi com essa que ultrapassei 5 anos de faculdade), urinando no seu próprio canteiro, então, era só para avisar que, não é por nada mas, pá... há gente a olhar.

Nota: as pequenas inovações, tipo deixar um buraquinho no cimo da página para comentários enviados por leitores, até podiam ser simpáticas, mas considerando que até para quem não costuma reparar nesse espaço, como eu, os leitores começam a parecer ser sempre os mesmos, o resultado começa a soar algo patético. A menos que seja a ombridade de continuar a apostar num losing horse: aí têm toda a minha solidariedade (again, royalties e tal, we understand each other, right?)
Nota 2: in case you're wondering, não, não encontrei no pouco que li desta semana uma argolada para me fazer sentir melhor comigo próprio. Explica-se assim, porquê agora, este ímpeto retardatário e extra (not that I have to make an effort) de à missão humanitária do Público me substituir.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

À Flor do Mar

Passei anos enredado no estribilho de precisar de rever a incandescência que o espelho devolve a Laura Morante, os azuis que a ilusão do horizonte marítimo funde, o lombo firme do robalo, a vida pausada no habitáculo exterior das noites cálidas de verão, as sombras desenvoltas no frescor subterrâneo das casas caiadas, a luz "inclemente" (I didn't know that then) "dos dias perfeitos".
(lembra-me agora o Agosto do Silva Melo próximo estritamente de uma radiância mediterrânica)
Passei anos inclusive com a obsessão recorrente da recorrente sonata de Bach, da qual escrevinhei às escuras no ingresso (ainda deverá estar a faíscar no segredo de alguma gaveta cerca, memória de exclusivíssima ocasião de um mortal ali mergulhar - no Ávila, se bem me lembro... em estreia dez anos após a produção, e uma passagem na RTP), a informação que apanhei da tela, mas à qual faltava a chave BWV para resgatar a identidade da partitura.
Lembrava-me de muitíssimos planos (coisa raríssima), quase todos fidelíssimos na memória. Mas logo a efígie de Laura no espelho não se esfumou como tanto a recordava, e agora, maldição inexpurgável do retorno, antecipava.
Lembrava-me de toda a jouissance dos gestos, dessa abertura fluida e ininterrupta às coisas vivas, à sensação táctil de cada plano, aos prodígios evocativos das mais terrenas evidências sensitivas (não me larga o som de uma bilha de água pousada no chão da açoteia). Inclusive aos corpos (não pudesse, sim, passar por aqui um mote de teorema pasoliniano mais comedido e empirista). Que não primeiramente a breve ninfeta de Teresa Villaverde, nem exclusivamente o bronze da oclusão solar de Laura Morante (dos escassos retratos de mulher a me raptar) e o esplendor macerado de Manuela de Freitas, mas a plenitude de existir no momento, como na justeza do júbilo e desarme infantil, como a ode aos olvidados no plano da criada Senhora Amélia suspensa, apesar da familiaridade, ainda em atavismo mudo e servil, da aprovação comensal da sua caldeirada.
Mas não me lembrava, ou não o vi, como todo este alento vitalista compassava um andamento sepulcral. O superavit mais ou menos subtil de citações (incluindo os cameos de si mesmo, a anunciar-se persona, do César Monteiro) de toda a filiação artística (de Piero Della Francesca a "How green was my valley", de (Robert) Browning (.38) a "Suddenly last summer", de Virgílio e Ulisses a Roberto Rossellini (lembremos as coisas), de de...) era de desconfiar: toda a memória puxa a montante, para o lastro escondido no porão do tempo, onde também se busca trancar a morte e o crime, como coisas que já passaram e nos vedam mais caminho. E nesse exumar de um passado conquanto irrevisitável, a fazer desse fora-de-campo temporal uma presença inescapável e tutelar do movimento que vemos e ainda nos concedemos, aí sem precisão de citação cinéfila, uma vaga reminiscência manietada dos fantasmas de um tal Ethan Edwards me assomou.
Contudo, no reverso, é precisamente também o signo de uma ars moriendi que torna sumamente vibrante a colheita experiencial que cada fotograma comporta (ritualidade constitutiva da obra futura), como a última frase de Manuela de Freitas (que não ouvi bem, como de qualquer forma seria de rigueur em filme meio falado em português projectado ao ar livre, mas de que estou seguro - qualquer coisa como, fruir a felicidade que resta*) sentencia. E na pequena morte sepultada em cada casa que se fecha, o último plano em que nela se extinguem as luzes de vigia da vida em fuga pelo mar, tem tanto de terminal e ressonante para o tempo, como o encerrar tumular de uma pirâmide em Land of the Pharaohs.
Foi um filme em que havia enterrado fundo um mistério, portanto um daqueles a que poderá não convir abrir a luz. Seja como fôr, revê-lo projectado numa noite de Verão na esplanada da Cinemateca num ciclo intitulado Filmes de Praia só pode ser a minha escolha de programação de eleição deste ano. Esta noite não serei mais feliz. Mas sou mais grato.

*segundo a Folha da Cinemateca, «"aprender a gastar a infelicidade que nos resta" (ou a felicidade)», acrescenta o Bénard. Não é grave portanto, mas é no que dá não ser sequer um copista sério.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Semiótica à queima-roupa 3 (aprioristic mode)

A moça do supermercado entrega-me o troco, e quando a miro pisca diligente a pálpebra e sorri. Miúda valente. Um cisco no olho é sempre chato.

Casanova Does Portugal

E, como o título, única razão de existência desta desculpa de post para nutrir o meu gáudio infantil (an improvement, granted) com playground wordplay, aponta, os fins-de-semana lusitanos nunca mais serão os mesmos.