quarta-feira, 9 de agosto de 2023

We have no more beginnings: Die Traumdeutung

A pessoa que sonha vendo a vulva, feurdj, de uma mulher, saberá que, se cair em dificuldades, Deus o livrará; se cair em perplexidade, logo sairá dela; e finalmente, se cair na miséria, logo se tornará rico, porque feurdj, mudando-se as vogais, significa a libertação das garras do mal. Por analogia, se desejar uma coisa, a obterá; se tiver débitos, serão pagos.
É considerado do melhor augúrio o sonho com a vulva aberta. Mas se a vulva vista em sonhos pertence a uma virgem jovem, isto significa que a porta da consolação permanecerá fechada, e a coisa desejada não é alcançável. Está provado que o homem que vê em sonhos a vulva de uma virgem nunca tocada, certamente se meterá em dificuldades, e não terá sorte a resolver os seus negócios. Mas se a vulva está aberta, de modo que ele possa olhar bem para o seu interior, ou mesmo estando oculta mas livre à penetração, ele terá sucesso nas mais difíceis tarefas, após já haver falhado nelas, e isto dentro de pouco tempo, com a ajuda de uma pessoa na qual jamais pensara.
Aquele que vê em sonhos um homem ocupado com uma jovem e que, ao sair o homem, consegue ver nesse momento a vulva da jovem, levará os seus negócios a um final feliz, depois de já haver falhado a primeira vez, com a ajuda do homem que viu no sonho. Se é ele próprio quem está com a jovem, e vê a sua vulva, conseguirá, com os seus esforços, compreender os mais difíceis problemas, e será bem-sucedido em todos os aspetos. Falando de uma forma geral, a visão de vulvas em sonhos é um bom sinal; da mesma forma, é de bom augúrio sonhar com o coito, e aquele que se vê a si próprio no ato, acabando com a ejaculação, terá sucesso nos seus negócios. Não se dá o mesmo, porém, com o homem que apenas começa o coito e não o conclui. Este, pelo contrário, será infeliz em todas as empresas. (...)
A janela (taga) e o sapato (medassa) lembram mulheres. A vulva, na verdade, assemelha-se, quando invadida pela verga, a uma janela onde um homem põe a cabeça para olhar lá dentro, ou um sapato que calça. Por conseguinte, aquele que se vê, em sonhos, no ato de chegar a uma janela, ou de calçar um sapato, tem a certeza de conseguir a posse de uma jovem ou de uma virgem, se a janela é recém-construída, ou se o sapato é novo e está em boas condições; a idade da mulher dependerá do estado da janela ou do sapato.

Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

We have no more beginnings: Size matters

O membro viril, para agradar à mulheres, deve ter, no máximo, o comprimento de doze dedos lado a lado, ou de três mãos; e no mínimo, de seis dedos ou de uma mão e meia.
Há homens que têm membros com o comprimento de doze dedos, ou de três mãos; outros, de dez dedos, ou de duas mãos e meia. E outros medem oito dedos, ou duas mãos. O homem cujo membro apresenta dimensões inferiores a estas, não pode agradar à mulheres.

Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)

segunda-feira, 31 de julho de 2023

sábado, 24 de junho de 2023

We have no more beginnings: Hoarders

Se alguém desse uma espreitadela para as oficinas dele, onde se acumulavam grandes reservas de artigos de madeira e loiça nunca utilizados, parecer-lhe-ia ter ido parar ao mercado de utensílios de madeira de Moscovo aonde vão todos os dias as nossas expeditas sogras comprar coisas úteis, com as cozinheiras atrás, e onde se amontoa todo o género de artigos de pau não pintado - casca de árvore cosida, madeira talhada, laminada, encaixada, entrançada: pipas, barricas, selhas, baldes com tampas, gamelas com asas e sem asas, vasilhas redondas, cestos, caixas onde as mulheres guardam as gavelas de linho, cânhamo e sabe-se lá que mais; caixas de álamo fino e torcido; caixinhas de casca de bétula e muitas outras tralhas úteis para a Rússia de ricos e pobres. Por que precisaria Pliúchkin de uma quantidade tão assustadora destes artigos? Não poderia utilizá-los em toda uma vida mesmo em duas herdades como esta - mas ainda lhe parecia pouco. Sempre insatisfeito, batia diariamente todas as ruas da sua aldeia, espreitando para debaixo das pontes, das travessas, apanhando e levando tudo o que calhava - uma sola velha, um trapo de mulher, um prego de ferro, um caco de barro - para casa, onde armazenava tudo no montão que Tchítchikov viu num canto da sala. «Olha, o nosso caçador foi à caça!», diziam os mujiques. Depois de ele ter passado, era realmente escusado varrer a rua: se um oficial de passagem perdesse uma espora, a espora ia imediatamente parar ao referido depósito; se uma campónia distraída deixasse um balde ao pé do poço, Pliúchkin levava também o balde. Uma vez, quando um mujique o apanhou em flagrante, não discutiu e devolveu logo a coisa roubada, mas, se essa coisa fosse parar ao montão, nada a fazer: Pliúchkin jurava por Deus que a coisa lhe pertencia, que fora comprada a fulano tal na data tal, ou que a herdara do avô.

Gógol, Almas Mortas (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra)

domingo, 14 de maio de 2023

terça-feira, 11 de abril de 2023

sexta-feira, 31 de março de 2023

sexta-feira, 17 de março de 2023

segunda-feira, 6 de março de 2023

We have no more beginnings: Fantastic Voyage

    Ainda tereis de saber que a conselho dos médicos foi decretada a extracção daquilo que lhe causava dores de estômago. E para isso construíram XVII enormes maçãs de cobre, maiores do que a maçã do obelisco de Virgílio em Roma, que podiam abrir-se ao meio e fechar-se com uma mola.
  Um dos seus, que levava lanterna e archote acesos, entrou para dentro de uma delas e depois Pantagruel engoliu-a como se fosse uma pequena pílula;
    noutras cinco entraram três campónios, cada qual com uma pá ao pescoço;
   noutras sete entraram sete cesteiros, cada qual com um cesto ao pescoço, e todos engolidos como pílulas.
    Uma vez no estômago abriram as molas e saíram das suas cabanas, seguindo à frente o que levava a lanterna, acabando por dar uma queda de mais de meia légua num horrível abismo mais mal-cheiroso e infecto do que Mefítis, ou o pântano de Camarina, ou o pestilento lago de Sorbonne que Estrabão refere; e não fosse o seu coração, o seu estômago e o seu pote de vinho (chamado bestunto) estarem muito bem protegidos, teriam sufocado e atabafado com esses vapores abomináveis. Oh! Que perfume! Oh! Que bom vapor para amerdalhar a jovens rameiras o portal das ventas!
    Depois, a tactear e a farejar aproximaram-se da matéria fecal e dos humores alterados, tendo acabado por deparar com um montão de estrume. Alguns dos exploradores deram-lhe bordoadas, para o quebrar, e os outros encheram os seus cestos à pazada; depois de tudo bem limpo, cada qual entrou na sua maçã. Concluído o trabalho, Pantagruel fez o esforço de chamar pelo gregório e foi-lhe fácil deitá-los para fora de si; para a sua garganta só tinham o valor de um arroto, e lá acabaram eles por sair alegremente das pílulas - lembrei-me dos Gregos, quando saíram do cavalo de Tróia - sendo esta a forma por que Pantagruel se curou e foi restituído à saúde que anteriormente tinha.


Rabelais, Pantagruel (trad. Aníbal Fernandes)


e por aí adiante...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

We have no more beginnings: Diálogos da Vagina

El mokabeul (desordeira) - Assim é chamada a vagina da mulher que arde sempre por um membro viril. Longe de temer um membro duro e teso, olha-o com desprezo e pede outro ainda mais rígido.
Esta é a vulva que não estremece nem se ruboriza, como as outras, quando as vestes que a cobrem são suspensas; que, ao contrário, acolhe calorosamente o membro, deixa-o repousar sob o seu domo abaulado e introdu-lo no seu centro como se quisesse engoli-lo; tão profundamente, na verdade, que os testículos exclamam: «Oh, que infortúnio! O nosso irmão desapareceu! Estamos preocupados com ele, porque ele se atirou ousadamente neste abismo. Deve ser doido, certamente, para penetrar como um dragão em tal caverna!» Ouvindo tais lamentações, a vulva, desejosa de afastar a aflição dos testículos, diz: «Nada temais quanto a isso, ele está vivo e os seus ouvidos ouvem as vossas palavras.» Ao que eles respondem: «Se o que dizes é verdade, ó senhora de belo semblante, deixa-o sair, para que possamos vê-lo.» A vulva responde: «Não o deixarei sair vivo; só depois de a morte o derrubar». Os dois testículos imploram: «Que pecado cometeu ele, para o pagar com a vida?» E a vagina: «Pela existência daquele que criou os céus, não há maneira de sair de mim senão morto!» E depois, dirigindo-se ao membro: «Ouves as palavras de teus dois irmãos? Apressa-te a mostrar-te a eles, pois a tua ausência mergulhou-os em grande aflição!» Após a ejaculação, o membro retorna reduzido a nada e como uma sombra; mas os irmãos não o reconhecem e perguntam: «Quem és tu, moleza fantástica?»


Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)

domingo, 1 de janeiro de 2023

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Mercy her


Then, in the dust
All the things
We discussed
Were thrown to the wind
So at last
We begin

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

sexta-feira, 29 de julho de 2022

terça-feira, 19 de julho de 2022

Apartado


(a pedido de nenhumas famílias, e para todos quantos nunca pensaram que talvez isto ainda pudesse tomar algum jeito, se fosse antes redigido em estrangeiro e exclusivamente versando música que interesse a ainda menos gente.
Iúr uélekómm)

terça-feira, 14 de junho de 2022

domingo, 24 de abril de 2022

We have no more beginnings: pós-verdade

Trabalho há muito numa outra obra que honrará ainda mais a nossa nação, se Vossa Majestade quiser conceder-me um privilégio: é meu intuito provar que, desde o início da monarquia, os franceses nunca foram derrotados, e que tudo o que os historiadores disseram até agora das nossas derrotas é uma verdadeira impostura. Vejo-me obrigado a corrigi-los em muitas ocasiões; e atrevo-me a gabar-me de que sou brilhante, sobretudo na crítica. Sou, excelentíssimo senhor, etc.

Montesquieu, Cartas Persas (trad. Isabel St. Aubyn)

Boa pergunta


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

DJ Doom

We have no more beginnings: Zandinga

"se viesse a descobrir-se uma invenção fatal, seria rapidamente proibida pelo direito das pessoas; e o consentimento unânime das nações sepultaria esta descoberta. Os príncipes não têm nenhum interesse em fazer conquistas por semelhantes vias: precisam de súbditos, e não de terras"


Montesquieu, Cartas Persas (trad. Isabel St. Aubyn)


 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

We have no more beginnings: Antigamente é que era / Ó tempo volta para trás

Quando lhe apresentaram os incensos trazidos pelo Governador de Dazai, perguntou-se se os melhores não seriam os que eram fabricados com madeira mais velha e mandou abrir os depósitos da Segunda Avenida, para onde mandou transportar produtos chineses de toda a espécie, a fim de os comparar.
-Acontece o mesmo com os brocados e os damascos - disse. - Os antigos são mais finos e atraentes!
Para confeccionar panos para os seus utensílios, debruar tapetes e almofadas, escolheu damascos, brocados de vermelho e ouro, que o vice-rei de Kyushu lhe oferecera no tempo do falecido Imperador e que eram de qualidade incomparavelmente superior aos da sua época, e ofereceu às suas mulheres os damascos e as sedas leves recentemente importadas. (...)
-Neste século tudo degenera, em comparação aos tempos antigos; nos nossos dias, só os kana alcançaram a perfeição suprema.


O Romance do Genji, Murasaki Shikibu (trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira)

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021


Won't you come home I surrender
I miss my sweet bag of bones
Drunk and tender
Why don't you want to stay here suspended
In the dead arms of a year that has ended

sexta-feira, 16 de julho de 2021

We have no more beginnings: Hasta siempre, Comandante

Devolve a luz, bom comandante, à tua pátria.
Pois logo que teu rosto de Primavera
para o povo reluz, o dia mais alegre passa,
os raios do sol melhor brilham.

Horácio, Odes (trad. Pedro Braga Falcão)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

We have no more beginnings: dick jokes

 CALONICE
            Mas afinal, minha querida, o que se passa, Lisístrata? Porque é que nos convocaste a nós, mulheres? De que coisa se trata? De que dimensão?

LISÍSTRATA
            Grande.

 CALONICE
            E grossa também?

LISÍSTRATA
            Grossa também, sim.

 CALONICE (surpreendida)
            Então como é que não estamos já cá todas em peso?

Lisístrata, Aristófanes (trad. Maria de Fátima Sousa e Silva)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Sign o' the times


Brevemente, numa rua perto de si.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Everything, all at once forever

Que alguém, no normal decurso de uma vida criativa aplicada à escrita de canções, se tenha deparado mentalmente com um título assim, capaz de em 5 palavrinhas apenas actuar como fonógrafo de todo o círculo vicioso de vontade, pathos e catarse que é estar vivo, e decidido, como opção óptima para lhe dar consubstanciação musical, da sua repetição hipnótica, com o mínimo de meios dos quais tenha domínio expressivo, ao longo de aproximadamente 20 minutos - à falta de exequibilidade de preencher temporalmente o que quer que dure a eternidade (o locked groove da metafísica) -, é das raríssimas instâncias que me poderia persuadir a dar crédito lógico à aplicabilidade da teoria da escolha racional ao fenómeno estético (ou a qualquer outro, lá por isso).
Everything, all at once forever, portanto; ou a willful delusion de não nos contentarmos com menos, aos bochechos em tempo algum; forma de talvez alcançarmos algo, de quando em vez enquanto puder ser.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

I wasn't done with you



For the first time unwoken
I am returned

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


And yet I'll gaze
The colour of spring
Immerse in that one moment
Left in love with everything

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Não é Xou da Xuxa



É difícil pensar num disco mais urgente em tempos de memória recente, que de discos urgentes, é de desconfiar, se verá cada vez mais amontoada, à medida que degrau a degrau o sentimento de um ocidental se vê cada vez mais alegremente a descer uma ilusória escala de evolução civilizacional e entrando num bizarro world onde o Fukuyama tivesse antes escrito O (Re)início da História. Mas assim como assim, como não haveríamos de crer panglossianamente ser já este o melhor dos mundos possíveis, quando até as juras de ódio figadal inscritas no equilíbrio natural dos ecossistemas se vêem melosamente esquecidas a cada vídeo de adorável cafuné entre chitas e gazelas de thomson, e demais animal frenemies, no tutubas.
Há já alguns apreciáveis anos que a turma da nova vanguarda paulista, dos imparáveis Metá Metá a múltiplos outros projectos individuais e colectivos de geometria variável (aquela dinâmica social esteticamente insaciável que faz uma cena musical), anda a fazer proliferar a (tanto quanto me consta) mais vital e admirável música do Brasil contemporâneo; mas a sua junção geracional com a veterana Elza Soares, sob os auspícios de Guilherme Kastrup, foi um achado tão improvável quanto genial.
Embora lastimavelmente pareça escapar à maioria dos que exercem o métier, a condição de intérprete, implicando a dependência autorística de terceiros para exprimir uma experiência particular do mundo, também alberga, na mesma medida, uma liberdade imensa para a descoberta e expansão subjectivas a partir de ópticas alheias. A mulher do fim do mundo, precisamente nada tendo a perder, compreendeu-o perfeita e quase inauditamente, a contrário de muitos e mais (relativamente...) novos compagnons de route, e ao entregar-se plenamente à excelência da agremiação em torno dela reunida, que não deixou os seus pergaminhos arrevesados em mão alheia, transportou-a para um novo patamar, culminar ímpar (tanto quanto a memória me assiste), de tão serôdio quanto absoluto, de uma longuíssima carreira.
"Dura na queda", como já o Chico Buarque, talvez tão premonitoria quanto retropectivamente, mesmo já em tardia idade, a tinha saudado, Elza foi-se lentamente convertendo, com a prolongada biografia, numa figura particular no panorama artístico brasileiro, tão sacrificial quanto resistente, assumindo as cicatrizes de uma existência socialmente desafiada e, correspondentemente, pessoalmente conturbada. O primeiro disco que deste improvável consórcio resultou incorporava, pois, ao primeiro debitar daquela voz castigada, um carácter simultaneamente elegíaco e feroz, fazendo justiça a esta figura tanto no seu debatido passado quanto na sua ousadia presente em persistentemente confrontar, na sua carne viva, o que desse passado subsiste, na reprodução de vivências socialmente violentadas. Na exacta medida do seu absolutamente surpreendente conseguimento e justeza, seria difícil antecipar que um tal projecto, quase uma espécie de cenotáfio em vida, pudesse borrifar-se para a rigidez do monumento e ter seguimento. Mas teve-o e, com quase já não surpreendente surpresa (fool me once...), com não menos justeza e inteligência para distribuir. Se A mulher do fim do mundo estabeleceu e cronicou perfeitamente o vulto no seu centro, Deus é mulher ocupa-se de tudo o que resta, que é lançá-lo novamente sobre o mundo e a sua regressível imperfeição. Se não fosse Elza, talvez este disco (cujo título, logo com toda a honestidade, não engana ninguém) fosse uma vítima mais fácil de menorizar ideologicamente como ingressando programaticamente no domínio da política identitária (possivelmente não por acaso, a voz por excelência desta vanguarda paulista, Juçara Marçal, nunca se atirou propriamente assim, de cabeça, para estes terrenos), sendo mais difícil relativizar musicalmente a sua burilada acutilância. Contudo, cantada por Elza, cada palavra ganha um peso ontológico particular (no espectro mais lúdico, por exemplo, faz toda a diferença ter uma octogenária a cantar "eu quero dar p'ra você, mas eu não quero dizer, você precisa saber ler", e explicar o bê-a-bá da sedução a toda uma juvenilia (se não mais a uma senioridade viagrada) com as hormonas aos pulos e os neurónios em falência), na assumpção combativa do que tem para dizer a partir de uma experiência viva, não de uma abstracção teórica. É precisamente na medida em que liberta as palavras da rigidez programada de uma lição, dando-lhes a perspectiva de uma vida própria - que reclamam, sim, mas tão legitimamente quanto qualquer outra - que este disco conjuga autoridade moral com autoridade estética, sem as confundir, pela mesmíssima razão, com autoritarismo retórico. É disso que democraticamente se trata ("de falar e de ouvir também"), para lá de qualquer sufrágio, a que nenhum Estado de Direito se resume, conviria cada vez mais lembrar.
Começa a ser quase demasiado desencorajante a perspectiva de acordar e constatar que discos deste calibre ainda ou já não têm o país que merecem. A única boa notícia é que, enquanto não regredirmos todos a hominídeos adoradores de monólitos que resolvem tudo à ossada, a melhor resposta para isso será continuar a fazerem-se mais, e mais, e mais. À falta de a Mónica se começar a dedicar ao agitprop, com a turma da Elza, pelo menos, parece que podemos ainda contar. Benza-a Exú.

Ghosts of Amazónia























ou o homem do fim do mundo (Serras da Desordem, Andrea Tonacci, in tão tardia quanto actual memoriam).

Uma canção com uma pica enorme


(e premonitória, o que a torna, em qualquer idade, quanto mais aos 74, ainda mais notável...)

We have no more beginnings: the douchebag

A pedra estilhaçou ambos os sobrolhos e o osso ficou lasso,
pois os olhos saltaram para fora e caíram no chão na poeira,
à frente dos pés do próprio. E semelhante a um mergulhador
tombou do carro bem trabalhado e a vida deixou-lhe os ossos.
Então falaste com palavras zombeteiras, ó Pátroclo cavaleiro:

"Mas que agilidade tem este homem! Que facilidade no mergulho!
Na verdade se isto fosse porventura o mar piscoso,
a muitos daria este homem satisfação na demanda de ostras,
mergulhando da nau, por muito encapelado que estivesse o mar!
A agilidade com que ele agora mergulhou do carro para a planície!
Parece que entre os Troianos não faltam bons mergulhadores."

Ilíada, Homero (trad. Frederico Lourenço)


terça-feira, 16 de outubro de 2018

Les beaux esprits...


We have no more beginnings: Torture porn

Para que hei-de eu contar agora as mortes
mais os terríveis feitos do Tirano?
E bom será que tudo ordenem deuses
para que venha o mal a ele, aos seus.
Costumava ligar vivos a mortos,
as mãos lhes ajuntando, como as bocas,
abraços de tortura que banhavam
em podridão e pus por quanto tempo.

Eneida, Virgílio (trad. Agostinho da Silva)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Les beaux esprits...


We have no more beginnings: Dupond e Dupont

Como vai começar? Rápido espírito
o leva a uma ou outra decisão,
em posições opostas, lhe dá voltas
entre as escolhas várias e possíveis.
Nesta incerteza faz o que melhor
lhe parece no caso. Menesteu chama,
com ele vão Sergesto e Seresto,
lhes ordena que equipem os navios,
sem palavra a ninguém, e que reúnam
os companheiros todos pela praia,
que tenham pronto tudo o necessário,
sem explicar razão de tais medidas.

Eneida, Virgílio (trad. Agostinho da Silva)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Les beaux esprits...



Back to the future

De há anos e anos que, disco após disco, mesmo que sob os auspícios das rarefeitas vozes escritas que mais me valeram que falharam na matéria, o trabalho da June Tabor me tem constantemente solicitado aquela forma de respeito tão impecável que parece precludir qualquer forma mais apegada de emoção (a minha dame da folk da velha Albion segue sendo, desde o primeiro instante em que o seu inimitável timbre percutiu o meu tímpano, a Shirley Collins, sobretudo quando dobrado pelo pouco menos inconfundível recato dolente do flute-organ digitado pela irmã Dolly). 
Só agora, ao regredir a 1977, se antecipa um tempo em que, em matéria de haver uma pungência por resgatar da austeridade da entrega Taboriana, possa ter de vir a mudar de opinião:

We have no more beginnings: Dr. [not Mr.: Dr.] Spock

Ele não se atemorizará ao ver esta carnificina de há pouco, se na verdade sair ao pai. É preciso treiná-lo como um poldro nas duras regras do pai e igualar à dele a sua natureza.

Ájax, Sófocles (trad. Maria Helena da Rocha Pereira) 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Tribadismo sideral


Também visualmente, o prog é um gift that keeps on giving.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Holy sh*t

Serenity now

Certamente, já escreveria Santo Agostinho, não haverá melhor exemplo de escrever certo por linhas tortas quanto a profana vulgata cultural das celebrações natalícias, que a contrário de um conforto ritual ortodoxo, reprodutor de crenças monolíticas, que se tivesse criado e mantido ao abrigo de um mundo que nem a mais beatífica metafísica concede ser composto inteira e conjugadamente de mar e rosas, lhes estruma abundantemente terreno para testar a têmpera. Pela minha parte, consegui chegar até hoje sem incorrer em homicídio a cada montra de pastelaria de onde as únicas azevias dignas do nome (num mundo decente qualificá-las de grão seria boçalmente pleonástico) vêem o seu espaço açambarcado por abominações gastronómicas grávidas de recheios repulsivos de batata doce, gila, este ano até maçã, com notas de enxofre. Segundo o Novo Testamento, se não roubar mais nenhuma velha, acho que já ganhei o Reino dos Céus. Segundo o Velho Testamento, provavelmente deveria ter decepado uns quantos prepúcios incréus pelo caminho para aprenderem a lição, mas quero crer que nesse particular possamos tomar o Novo à laia de errata.

sábado, 28 de outubro de 2017

sábado, 7 de outubro de 2017

I could live in hope


O condicional é tudo.

domingo, 27 de agosto de 2017

We have no more beginnings: "eu não sou racista/machista/homofóbico/fill-in-the-blank, mas"

Carácter bom pode existir em todos os tipos de personagem: uma mulher pode ser boa e bem assim um escravo, embora aquela seja talvez um ser inferior e este inteiramente vil.

Poética, Aristóteles (trad. Ana Maria Valente)

domingo, 13 de agosto de 2017

We have no more beginnings: there is a house in New Orleans, not the one you've heard about I'm talking about another house

Para quem precisasse de mais razões para gostar do Robert Mitchum, há um disco com este título


O poder da significação

Avistar matrículas NU obsequia-me um prelúdio de ponta.

(e só agora me dou conta de que a presciência lúbrica e/ou jocosa do espírito regulador que viceja em qualquer espelunca habitada por um director-geral terá provavelmente coarctado (como gostaria de ler as actas dessa reunião) a lógica possibilidade alfabética do avistamento de matrículas CU por essas faixas de rodagem afora. 

Talvez seja pelo melhor.)

#hermenêutica


Estava aqui a fingir que leio Os Últimos Dias da Humanidade (foda-se, nunca mais...), e sem misturar o Karl Kraus com isto, mas aproveitando a deixa: tanta discussão em torno das raízes históricas/culturais/filosóficas do nazismo, e já alguém ressalvou a proximidade fonética - e consequente associação semântica (propriedade transitiva, sistema linguístico, Saussure e tal: cientificamente provado) - na língua alemã (particularmente se pronunciada com sotaque escocês) entre "humanidade" e "merda de homens"? É por estas e por outras que o fascismo não morre.