terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

We have no more beginnings (especial eleições): 'Vai prá tua terra'

Ó filhos da terra, que Ares outrora semeou depois de os arrancar à goela ávida do dragão, porque é que não ergueis os bastões, suporte da vossa mão direita, e ensanguentais a ímpia cabeça deste homem, que, não sendo Cadmeu, mas um vil estrangeiro, governa a nossa terra? Mas não será impunemente que um dia tentarás exercer sobre nós o teu poder; não hás-de assenhorear-te dos bens que me custaram tanto trabalho e fadiga. Regressa ao local donde vieste e expande aí a tua insolência.

Eurípides, Héracles (trad. Carlos Ferreira Santos)

terça-feira, 28 de novembro de 2023

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

We have no more beginnings: Die Traumdeutung

A pessoa que sonha vendo a vulva, feurdj, de uma mulher, saberá que, se cair em dificuldades, Deus o livrará; se cair em perplexidade, logo sairá dela; e finalmente, se cair na miséria, logo se tornará rico, porque feurdj, mudando-se as vogais, significa a libertação das garras do mal. Por analogia, se desejar uma coisa, a obterá; se tiver débitos, serão pagos.
É considerado do melhor augúrio o sonho com a vulva aberta. Mas se a vulva vista em sonhos pertence a uma virgem jovem, isto significa que a porta da consolação permanecerá fechada, e a coisa desejada não é alcançável. Está provado que o homem que vê em sonhos a vulva de uma virgem nunca tocada, certamente se meterá em dificuldades, e não terá sorte a resolver os seus negócios. Mas se a vulva está aberta, de modo que ele possa olhar bem para o seu interior, ou mesmo estando oculta mas livre à penetração, ele terá sucesso nas mais difíceis tarefas, após já haver falhado nelas, e isto dentro de pouco tempo, com a ajuda de uma pessoa na qual jamais pensara.
Aquele que vê em sonhos um homem ocupado com uma jovem e que, ao sair o homem, consegue ver nesse momento a vulva da jovem, levará os seus negócios a um final feliz, depois de já haver falhado a primeira vez, com a ajuda do homem que viu no sonho. Se é ele próprio quem está com a jovem, e vê a sua vulva, conseguirá, com os seus esforços, compreender os mais difíceis problemas, e será bem-sucedido em todos os aspetos. Falando de uma forma geral, a visão de vulvas em sonhos é um bom sinal; da mesma forma, é de bom augúrio sonhar com o coito, e aquele que se vê a si próprio no ato, acabando com a ejaculação, terá sucesso nos seus negócios. Não se dá o mesmo, porém, com o homem que apenas começa o coito e não o conclui. Este, pelo contrário, será infeliz em todas as empresas. (...)
A janela (taga) e o sapato (medassa) lembram mulheres. A vulva, na verdade, assemelha-se, quando invadida pela verga, a uma janela onde um homem põe a cabeça para olhar lá dentro, ou um sapato que calça. Por conseguinte, aquele que se vê, em sonhos, no ato de chegar a uma janela, ou de calçar um sapato, tem a certeza de conseguir a posse de uma jovem ou de uma virgem, se a janela é recém-construída, ou se o sapato é novo e está em boas condições; a idade da mulher dependerá do estado da janela ou do sapato.

Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

We have no more beginnings: Size matters

O membro viril, para agradar à mulheres, deve ter, no máximo, o comprimento de doze dedos lado a lado, ou de três mãos; e no mínimo, de seis dedos ou de uma mão e meia.
Há homens que têm membros com o comprimento de doze dedos, ou de três mãos; outros, de dez dedos, ou de duas mãos e meia. E outros medem oito dedos, ou duas mãos. O homem cujo membro apresenta dimensões inferiores a estas, não pode agradar à mulheres.

Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)

segunda-feira, 31 de julho de 2023

sábado, 24 de junho de 2023

We have no more beginnings: Hoarders

Se alguém desse uma espreitadela para as oficinas dele, onde se acumulavam grandes reservas de artigos de madeira e loiça nunca utilizados, parecer-lhe-ia ter ido parar ao mercado de utensílios de madeira de Moscovo aonde vão todos os dias as nossas expeditas sogras comprar coisas úteis, com as cozinheiras atrás, e onde se amontoa todo o género de artigos de pau não pintado - casca de árvore cosida, madeira talhada, laminada, encaixada, entrançada: pipas, barricas, selhas, baldes com tampas, gamelas com asas e sem asas, vasilhas redondas, cestos, caixas onde as mulheres guardam as gavelas de linho, cânhamo e sabe-se lá que mais; caixas de álamo fino e torcido; caixinhas de casca de bétula e muitas outras tralhas úteis para a Rússia de ricos e pobres. Por que precisaria Pliúchkin de uma quantidade tão assustadora destes artigos? Não poderia utilizá-los em toda uma vida mesmo em duas herdades como esta - mas ainda lhe parecia pouco. Sempre insatisfeito, batia diariamente todas as ruas da sua aldeia, espreitando para debaixo das pontes, das travessas, apanhando e levando tudo o que calhava - uma sola velha, um trapo de mulher, um prego de ferro, um caco de barro - para casa, onde armazenava tudo no montão que Tchítchikov viu num canto da sala. «Olha, o nosso caçador foi à caça!», diziam os mujiques. Depois de ele ter passado, era realmente escusado varrer a rua: se um oficial de passagem perdesse uma espora, a espora ia imediatamente parar ao referido depósito; se uma campónia distraída deixasse um balde ao pé do poço, Pliúchkin levava também o balde. Uma vez, quando um mujique o apanhou em flagrante, não discutiu e devolveu logo a coisa roubada, mas, se essa coisa fosse parar ao montão, nada a fazer: Pliúchkin jurava por Deus que a coisa lhe pertencia, que fora comprada a fulano tal na data tal, ou que a herdara do avô.

Gógol, Almas Mortas (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra)

domingo, 14 de maio de 2023

terça-feira, 11 de abril de 2023

sexta-feira, 31 de março de 2023

sexta-feira, 17 de março de 2023

segunda-feira, 6 de março de 2023

We have no more beginnings: Fantastic Voyage

    Ainda tereis de saber que a conselho dos médicos foi decretada a extracção daquilo que lhe causava dores de estômago. E para isso construíram XVII enormes maçãs de cobre, maiores do que a maçã do obelisco de Virgílio em Roma, que podiam abrir-se ao meio e fechar-se com uma mola.
  Um dos seus, que levava lanterna e archote acesos, entrou para dentro de uma delas e depois Pantagruel engoliu-a como se fosse uma pequena pílula;
    noutras cinco entraram três campónios, cada qual com uma pá ao pescoço;
   noutras sete entraram sete cesteiros, cada qual com um cesto ao pescoço, e todos engolidos como pílulas.
    Uma vez no estômago abriram as molas e saíram das suas cabanas, seguindo à frente o que levava a lanterna, acabando por dar uma queda de mais de meia légua num horrível abismo mais mal-cheiroso e infecto do que Mefítis, ou o pântano de Camarina, ou o pestilento lago de Sorbonne que Estrabão refere; e não fosse o seu coração, o seu estômago e o seu pote de vinho (chamado bestunto) estarem muito bem protegidos, teriam sufocado e atabafado com esses vapores abomináveis. Oh! Que perfume! Oh! Que bom vapor para amerdalhar a jovens rameiras o portal das ventas!
    Depois, a tactear e a farejar aproximaram-se da matéria fecal e dos humores alterados, tendo acabado por deparar com um montão de estrume. Alguns dos exploradores deram-lhe bordoadas, para o quebrar, e os outros encheram os seus cestos à pazada; depois de tudo bem limpo, cada qual entrou na sua maçã. Concluído o trabalho, Pantagruel fez o esforço de chamar pelo gregório e foi-lhe fácil deitá-los para fora de si; para a sua garganta só tinham o valor de um arroto, e lá acabaram eles por sair alegremente das pílulas - lembrei-me dos Gregos, quando saíram do cavalo de Tróia - sendo esta a forma por que Pantagruel se curou e foi restituído à saúde que anteriormente tinha.


Rabelais, Pantagruel (trad. Aníbal Fernandes)


e por aí adiante...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

We have no more beginnings: Diálogos da Vagina

El mokabeul (desordeira) - Assim é chamada a vagina da mulher que arde sempre por um membro viril. Longe de temer um membro duro e teso, olha-o com desprezo e pede outro ainda mais rígido.
Esta é a vulva que não estremece nem se ruboriza, como as outras, quando as vestes que a cobrem são suspensas; que, ao contrário, acolhe calorosamente o membro, deixa-o repousar sob o seu domo abaulado e introdu-lo no seu centro como se quisesse engoli-lo; tão profundamente, na verdade, que os testículos exclamam: «Oh, que infortúnio! O nosso irmão desapareceu! Estamos preocupados com ele, porque ele se atirou ousadamente neste abismo. Deve ser doido, certamente, para penetrar como um dragão em tal caverna!» Ouvindo tais lamentações, a vulva, desejosa de afastar a aflição dos testículos, diz: «Nada temais quanto a isso, ele está vivo e os seus ouvidos ouvem as vossas palavras.» Ao que eles respondem: «Se o que dizes é verdade, ó senhora de belo semblante, deixa-o sair, para que possamos vê-lo.» A vulva responde: «Não o deixarei sair vivo; só depois de a morte o derrubar». Os dois testículos imploram: «Que pecado cometeu ele, para o pagar com a vida?» E a vagina: «Pela existência daquele que criou os céus, não há maneira de sair de mim senão morto!» E depois, dirigindo-se ao membro: «Ouves as palavras de teus dois irmãos? Apressa-te a mostrar-te a eles, pois a tua ausência mergulhou-os em grande aflição!» Após a ejaculação, o membro retorna reduzido a nada e como uma sombra; mas os irmãos não o reconhecem e perguntam: «Quem és tu, moleza fantástica?»


Xeque Nefzaui, O Jardim Perfumado (trad. Orlando Loureiro Neves)

domingo, 1 de janeiro de 2023

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Mercy her


Then, in the dust
All the things
We discussed
Were thrown to the wind
So at last
We begin

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

sexta-feira, 29 de julho de 2022

terça-feira, 19 de julho de 2022

Apartado


(a pedido de nenhumas famílias, e para todos quantos nunca pensaram que talvez isto ainda pudesse tomar algum jeito, se fosse antes redigido em estrangeiro e exclusivamente versando música que interesse a ainda menos gente.
Iúr uélekómm)

terça-feira, 14 de junho de 2022

domingo, 24 de abril de 2022

We have no more beginnings: pós-verdade

Trabalho há muito numa outra obra que honrará ainda mais a nossa nação, se Vossa Majestade quiser conceder-me um privilégio: é meu intuito provar que, desde o início da monarquia, os franceses nunca foram derrotados, e que tudo o que os historiadores disseram até agora das nossas derrotas é uma verdadeira impostura. Vejo-me obrigado a corrigi-los em muitas ocasiões; e atrevo-me a gabar-me de que sou brilhante, sobretudo na crítica. Sou, excelentíssimo senhor, etc.

Montesquieu, Cartas Persas (trad. Isabel St. Aubyn)

Boa pergunta


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

DJ Doom

We have no more beginnings: Zandinga

"se viesse a descobrir-se uma invenção fatal, seria rapidamente proibida pelo direito das pessoas; e o consentimento unânime das nações sepultaria esta descoberta. Os príncipes não têm nenhum interesse em fazer conquistas por semelhantes vias: precisam de súbditos, e não de terras"


Montesquieu, Cartas Persas (trad. Isabel St. Aubyn)


 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

We have no more beginnings: Antigamente é que era / Ó tempo volta para trás

Quando lhe apresentaram os incensos trazidos pelo Governador de Dazai, perguntou-se se os melhores não seriam os que eram fabricados com madeira mais velha e mandou abrir os depósitos da Segunda Avenida, para onde mandou transportar produtos chineses de toda a espécie, a fim de os comparar.
-Acontece o mesmo com os brocados e os damascos - disse. - Os antigos são mais finos e atraentes!
Para confeccionar panos para os seus utensílios, debruar tapetes e almofadas, escolheu damascos, brocados de vermelho e ouro, que o vice-rei de Kyushu lhe oferecera no tempo do falecido Imperador e que eram de qualidade incomparavelmente superior aos da sua época, e ofereceu às suas mulheres os damascos e as sedas leves recentemente importadas. (...)
-Neste século tudo degenera, em comparação aos tempos antigos; nos nossos dias, só os kana alcançaram a perfeição suprema.


O Romance do Genji, Murasaki Shikibu (trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira)

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021


Won't you come home I surrender
I miss my sweet bag of bones
Drunk and tender
Why don't you want to stay here suspended
In the dead arms of a year that has ended

sexta-feira, 16 de julho de 2021

We have no more beginnings: Hasta siempre, Comandante

Devolve a luz, bom comandante, à tua pátria.
Pois logo que teu rosto de Primavera
para o povo reluz, o dia mais alegre passa,
os raios do sol melhor brilham.

Horácio, Odes (trad. Pedro Braga Falcão)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

We have no more beginnings: dick jokes

 CALONICE
            Mas afinal, minha querida, o que se passa, Lisístrata? Porque é que nos convocaste a nós, mulheres? De que coisa se trata? De que dimensão?

LISÍSTRATA
            Grande.

 CALONICE
            E grossa também?

LISÍSTRATA
            Grossa também, sim.

 CALONICE (surpreendida)
            Então como é que não estamos já cá todas em peso?

Lisístrata, Aristófanes (trad. Maria de Fátima Sousa e Silva)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Sign o' the times


Brevemente, numa rua perto de si.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Everything, all at once forever

Que alguém, no normal decurso de uma vida criativa aplicada à escrita de canções, se tenha deparado mentalmente com um título assim, capaz de em 5 palavrinhas apenas actuar como fonógrafo de todo o círculo vicioso de vontade, pathos e catarse que é estar vivo, e decidido, como opção óptima para lhe dar consubstanciação musical, da sua repetição hipnótica, com o mínimo de meios dos quais tenha domínio expressivo, ao longo de aproximadamente 20 minutos - à falta de exequibilidade de preencher temporalmente o que quer que dure a eternidade (o locked groove da metafísica) -, é das raríssimas instâncias que me poderia persuadir a dar crédito lógico à aplicabilidade da teoria da escolha racional ao fenómeno estético (ou a qualquer outro, lá por isso).
Everything, all at once forever, portanto; ou a willful delusion de não nos contentarmos com menos, aos bochechos em tempo algum; forma de talvez alcançarmos algo, de quando em vez enquanto puder ser.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

I wasn't done with you



For the first time unwoken
I am returned

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


And yet I'll gaze
The colour of spring
Immerse in that one moment
Left in love with everything

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Não é Xou da Xuxa



É difícil pensar num disco mais urgente em tempos de memória recente, que de discos urgentes, é de desconfiar, se verá cada vez mais amontoada, à medida que degrau a degrau o sentimento de um ocidental se vê cada vez mais alegremente a descer uma ilusória escala de evolução civilizacional e entrando num bizarro world onde o Fukuyama tivesse antes escrito O (Re)início da História. Mas assim como assim, como não haveríamos de crer panglossianamente ser já este o melhor dos mundos possíveis, quando até as juras de ódio figadal inscritas no equilíbrio natural dos ecossistemas se vêem melosamente esquecidas a cada vídeo de adorável cafuné entre chitas e gazelas de thomson, e demais animal frenemies, no tutubas.
Há já alguns apreciáveis anos que a turma da nova vanguarda paulista, dos imparáveis Metá Metá a múltiplos outros projectos individuais e colectivos de geometria variável (aquela dinâmica social esteticamente insaciável que faz uma cena musical), anda a fazer proliferar a (tanto quanto me consta) mais vital e admirável música do Brasil contemporâneo; mas a sua junção geracional com a veterana Elza Soares, sob os auspícios de Guilherme Kastrup, foi um achado tão improvável quanto genial.
Embora lastimavelmente pareça escapar à maioria dos que exercem o métier, a condição de intérprete, implicando a dependência autorística de terceiros para exprimir uma experiência particular do mundo, também alberga, na mesma medida, uma liberdade imensa para a descoberta e expansão subjectivas a partir de ópticas alheias. A mulher do fim do mundo, precisamente nada tendo a perder, compreendeu-o perfeita e quase inauditamente, a contrário de muitos e mais (relativamente...) novos compagnons de route, e ao entregar-se plenamente à excelência da agremiação em torno dela reunida, que não deixou os seus pergaminhos arrevesados em mão alheia, transportou-a para um novo patamar, culminar ímpar (tanto quanto a memória me assiste), de tão serôdio quanto absoluto, de uma longuíssima carreira.
"Dura na queda", como já o Chico Buarque, talvez tão premonitoria quanto retropectivamente, mesmo já em tardia idade, a tinha saudado, Elza foi-se lentamente convertendo, com a prolongada biografia, numa figura particular no panorama artístico brasileiro, tão sacrificial quanto resistente, assumindo as cicatrizes de uma existência socialmente desafiada e, correspondentemente, pessoalmente conturbada. O primeiro disco que deste improvável consórcio resultou incorporava, pois, ao primeiro debitar daquela voz castigada, um carácter simultaneamente elegíaco e feroz, fazendo justiça a esta figura tanto no seu debatido passado quanto na sua ousadia presente em persistentemente confrontar, na sua carne viva, o que desse passado subsiste, na reprodução de vivências socialmente violentadas. Na exacta medida do seu absolutamente surpreendente conseguimento e justeza, seria difícil antecipar que um tal projecto, quase uma espécie de cenotáfio em vida, pudesse borrifar-se para a rigidez do monumento e ter seguimento. Mas teve-o e, com quase já não surpreendente surpresa (fool me once...), com não menos justeza e inteligência para distribuir. Se A mulher do fim do mundo estabeleceu e cronicou perfeitamente o vulto no seu centro, Deus é mulher ocupa-se de tudo o que resta, que é lançá-lo novamente sobre o mundo e a sua regressível imperfeição. Se não fosse Elza, talvez este disco (cujo título, logo com toda a honestidade, não engana ninguém) fosse uma vítima mais fácil de menorizar ideologicamente como ingressando programaticamente no domínio da política identitária (possivelmente não por acaso, a voz por excelência desta vanguarda paulista, Juçara Marçal, nunca se atirou propriamente assim, de cabeça, para estes terrenos), sendo mais difícil relativizar musicalmente a sua burilada acutilância. Contudo, cantada por Elza, cada palavra ganha um peso ontológico particular (no espectro mais lúdico, por exemplo, faz toda a diferença ter uma octogenária a cantar "eu quero dar p'ra você, mas eu não quero dizer, você precisa saber ler", e explicar o bê-a-bá da sedução a toda uma juvenilia (se não mais a uma senioridade viagrada) com as hormonas aos pulos e os neurónios em falência), na assumpção combativa do que tem para dizer a partir de uma experiência viva, não de uma abstracção teórica. É precisamente na medida em que liberta as palavras da rigidez programada de uma lição, dando-lhes a perspectiva de uma vida própria - que reclamam, sim, mas tão legitimamente quanto qualquer outra - que este disco conjuga autoridade moral com autoridade estética, sem as confundir, pela mesmíssima razão, com autoritarismo retórico. É disso que democraticamente se trata ("de falar e de ouvir também"), para lá de qualquer sufrágio, a que nenhum Estado de Direito se resume, conviria cada vez mais lembrar.
Começa a ser quase demasiado desencorajante a perspectiva de acordar e constatar que discos deste calibre ainda ou já não têm o país que merecem. A única boa notícia é que, enquanto não regredirmos todos a hominídeos adoradores de monólitos que resolvem tudo à ossada, a melhor resposta para isso será continuar a fazerem-se mais, e mais, e mais. À falta de a Mónica se começar a dedicar ao agitprop, com a turma da Elza, pelo menos, parece que podemos ainda contar. Benza-a Exú.

Ghosts of Amazónia























ou o homem do fim do mundo (Serras da Desordem, Andrea Tonacci, in tão tardia quanto actual memoriam).

Uma canção com uma pica enorme


(e premonitória, o que a torna, em qualquer idade, quanto mais aos 74, ainda mais notável...)

We have no more beginnings: the douchebag

A pedra estilhaçou ambos os sobrolhos e o osso ficou lasso,
pois os olhos saltaram para fora e caíram no chão na poeira,
à frente dos pés do próprio. E semelhante a um mergulhador
tombou do carro bem trabalhado e a vida deixou-lhe os ossos.
Então falaste com palavras zombeteiras, ó Pátroclo cavaleiro:

"Mas que agilidade tem este homem! Que facilidade no mergulho!
Na verdade se isto fosse porventura o mar piscoso,
a muitos daria este homem satisfação na demanda de ostras,
mergulhando da nau, por muito encapelado que estivesse o mar!
A agilidade com que ele agora mergulhou do carro para a planície!
Parece que entre os Troianos não faltam bons mergulhadores."

Ilíada, Homero (trad. Frederico Lourenço)


terça-feira, 16 de outubro de 2018

Les beaux esprits...


We have no more beginnings: Torture porn

Para que hei-de eu contar agora as mortes
mais os terríveis feitos do Tirano?
E bom será que tudo ordenem deuses
para que venha o mal a ele, aos seus.
Costumava ligar vivos a mortos,
as mãos lhes ajuntando, como as bocas,
abraços de tortura que banhavam
em podridão e pus por quanto tempo.

Eneida, Virgílio (trad. Agostinho da Silva)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Les beaux esprits...


We have no more beginnings: Dupond e Dupont

Como vai começar? Rápido espírito
o leva a uma ou outra decisão,
em posições opostas, lhe dá voltas
entre as escolhas várias e possíveis.
Nesta incerteza faz o que melhor
lhe parece no caso. Menesteu chama,
com ele vão Sergesto e Seresto,
lhes ordena que equipem os navios,
sem palavra a ninguém, e que reúnam
os companheiros todos pela praia,
que tenham pronto tudo o necessário,
sem explicar razão de tais medidas.

Eneida, Virgílio (trad. Agostinho da Silva)