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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Semiologia à queima-roupa 6

Relia-se, e o que se reflectia era obeso, desajustado, incontinente, disforme, grotesco, macerado, séptico, disfuncional, espojado, despejado, lacerado, descartado, fugidio, espasmado, espasmódico, letárgico, sincopado, tendo como último reduto no equilíbrio do fio de prumo simular a transcendência do expresso pela assunção da sua ostensiva precaridade. Ao contrário do que reza a previsão do mundo, é terrível quando as coisas batem certo.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Semiologia à queima-roupa 5

Pouco tempo após ter passado tirado a carta de condução, comecei também eu a sucumbir à vetusta profecia social de insultar, invectivar, admoestar todos os outros sujeitos que descaradamente se interpõem entre o eu motorizado e o pavimento. Mas, desta feita, em meu abono, e a despeito do manifesto primarismo que tanto busco afogar sob torrentes de advérbios, tal facto não pode ser atribuído à também vetusta (e muito mofenta) causalidade de deixar sobressair uns quaisquer instintos bélicos da minha presumível "natureza humana" em situação de tensão. Não, se injurio os meus correlegionários automobilizados pela sua reprovável condução é tão somente porque não consigo resistir à ironia.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Semiologia à queima-roupa 4

Dizer que eu era um desperdício de vida foi tanto a elegia mais triste quanto o elogio mais prazenteiro que me fizeram.

sábado, 19 de agosto de 2006

Semiologia à queima roupa 3

A propósito de uma interpelação por escrito que questionava formalmente uma decisão da sua (ainda que por anedota orçamental, poderia ser chamada de) entidade empregadora, a resposta da dita sugeria ter sido naquela empregue falta de correcção, ao arrepio da sua substância.
Um pedido de esclarecimento face-a-face com a direcção, para dissipar equívocos, resultaria, como se nada tivera sido dito, na negação de tais insinuações e na prossecução de business as usual.
Poucas semanas depois, gozando seus simulacros de férias em destino ignoto, seria depositada na sua caixa de correio, onde se quedaria expectante, o aviso de recepção que conduziria na estação dos correios, em percurso de requintes tortuosos, a uma carta quase anónima da sua entidade empregadora informando-o da, também pacífica, não renovação do seu contrato a termo, após mais anos que os que, em boa verdade, a retórica economicista trendy aconselha a manter um posto de trabalho.
Nesse dia apercebeu-se de que, funcionando por critérios operativos, que não por fechamentos semânticos, o léxico do elogio é mesmo infinito.

domingo, 23 de abril de 2006

Semiologia à queima-roupa (2)

Quando é efectivamente descritivo do alvo em questão, o apodo "elitista de merda" não resulta insultoso mas sim como lisonja.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Semiologia à Queima-Roupa (1)

Perguntei-lhe se já tinha ido ver o «Brokeback Mountain», e o gajo tomou-me de ponta.