segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

4 - Revisão da matéria em revisão

Claro que isto não me pode ser seriamente proposicionalmente imputado, quando, parafraseando, talking about morality is just a thing you do when you're bored.

(o que implica uma espécie de presumida auto-suficiência moral que também é problemática, claro, que talvez na sua circunscrição negativa e circunstancial de se transmutar discurso basicamente na face de pés que pisam, com o que pisar implica de delimitação moral, dedos que preza, principalmente dedos que pense deverem ser prezados na condição de não serem de pés que pisem dedos outros, pretenda ser menos daninha, mas não prosseguiremos a temática, pelo menos agora - I'm not THAT bored)

3 - Estado da matéria em revisão - as morais de si a (com) outrém

Curioso como na afirmação do princípio do olhar alheio se sustenta a tentada arte de vigilância moral de si de Santo Atanásio. Tal parece implicar uma insuficiência do indivíduo para dar conta do seu estatuto moral nos termos da sua acção. Contudo, é evidente que existem olhares irmanados no pecado (como no exemplo de não se fornicar sozinho, presumindo, para o argumento, tal como pecado). O que implicará que, a pôr-se a censura do olhar alheio na nossa própria vigilância, é quanto à qualidade desse olhar que se pode ater a firmação moral. O «não fornicaríamos diante de testemunhas» (e note-se como fica bem ao escriba o emprego da primeira pessoa do plural), implica pois uma noção particular de testemunha, como figura isenta da cooptação no acto pecador. Mas tal figura só pode exercer tal papel (mesmo que passivo, pelo mera presença) de instigador moral, na medida em que as categorias que mapeiam os actos em torno do pecado se encontrem reconhecidas e validadas pelo pecador.
Invertem-se pois os termos da composição da vigilância de si. Se a autovigilância não se basta na sustentação moral, a hetero-vigilância tampouco (na sua medida de não-coacção directa, física, claro - o que foi pouco o caso, mas é o que agora interessa). O problema que finalmente se coloca, é que esta gestão da moral pressupõe uma validade universal de acesso e reconhecimento dos seres nos seus ditames. É essa condição que foi perdida com fim das várias unicidades que pretendemos dar aos mundos. A noção possível de moral só pode ser no espectro dessa ambição hoje uma concepção relativa, compósita e negociada das morais que diferentes criaturas vão envergando em diferentes circunscrições da vida. É isto que os proselitas se recusam a compreender. É isto que no mais pacífico fechamento da crença que se crê razão, instaura os muros e as fachadas, sem toque de humano no cruzamento. É isto que, por não ter mais que fazer, hoje penso lamentar.

2 - Matéria em revisão

Estarei a fazer algo mal, ou por definição fornicamos sempre diante (salvo seja) de testemunhas?

domingo, 18 de dezembro de 2005

1 - Matéria a rever (ou a moral condicional) (ou é pela aplicação prática que se torce o princípio) (ou isso agora...)

«Eis uma coisa a observar para se ter a certeza de não pecar. Que cada um de nós note e escreva as acções e os movimentos da nossa alma, como que para no-los dar mutuamente a conhecer e que estejamos certos que, por vergonha de sermos conhecidos, deixaremos de pecar e de trazer no coração o que quer que seja de perverso. Pois quem consente ser visto quando peca, e após ter pecado, não prefere mentir para ocultar a sua falta? Não fornicaríamos diante de testemunhas.»
(Santo Atanásio, Vida e conduta de nosso pai Santo António)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Cartas a uma outra Maria

A minha namorada recusa-se a ser vista comigo em público.
Devo presumir que não se quer promover socialmente à minha custa?

I still have something against you

« O que é que se faz quando se extingue os Pixies (e ressurreições não são para aqui chamadas)? Obviamente, reformamo-nos com uma pensão vitalícia da Unesco por contribuição incalculável para o património da humanidade. Mas como a música da entidade dúplice “Frank “Black” Francis” não tende para o óbvio, achou que era hora de dar as voltas ao nome e propor ao mundo outra forma de música que não arrancada ao núcleo do planeta que todos pisamos, mas não vemos como singularidade espacial. A partir daí, claro, segue-se o opróbrio, porque os declarados génios não podem ser menores. Ora, sucede que ser cativo do passado é triste forma de vida e, como tal, o renascido Frank Black espeta-nos o dedo médio na face e prova que existe regressão à juventude: arma-se das suas paixões musicais de adolescente e põe-se a fazer canções que não pretendem conter, cada uma, um inaudito universo sonoro de significado - porque não é vida isto, de ser sempiternamente um cometa inaudito, o filho que redime toda a linhagem do rock donde se pariu a si próprio (porque este filho só pode ser de autogestação – por muita genética musical que haja a espremer paternidades). Ora, depois disto dir-se-á que só se pode continuar a ouvir os restos de inspiração deste homem(será?) por fidelidade canina. Ora, uma pinóia. O pequeno duende voltou a criar numa rodela de substâncias de registo sonoro um novo planeta (sim, não é descobrir, é criar)? Não. O duende anafado voltou a criar canções que mais criatura alguma engendraria com um objecto musical de seis cordas encostado às protuberâncias digestivas? Oh yes, baby! A prova de que a fidelidade canina não é questão, é que qualquer bicho com tímpanos, este vosso incluído, percebe que material para descartar é coisa que enxameia qualquer disco do senhor Black. Mas não há um onde não haja momentos onde nos salte ao cérebro uma de duas: “Hum...” (como quem tropeça no que pode ser a descoberta de uma adição para a tabela de elementos) ou “O que é que foi isto!?” (como quem viu de relance – porque as canções podem não chegar a durar dois minutos - marcianos a surfar nas nuvens – a metáfora fácil, ora pois, não se ambiciona mais para o que escapa a qualquer apreensão e fechamento intelectual, senão ficar calado – hum, why didn’t you?...). O primeiro álbum homónimo, é verdade, por razões que não podemos explicar senão a proximidade ao corpo defunto dos pequenos seres mágicos, conseguimos ouvir, conseguimos apreciar, não conseguimos distância, não conseguimos avaliar. Bizarro. Obra-prima, não é. Singular, é adjectivo que não lhe escapa. “Teenager of the Year” é provavelmente o mais estimulante, fragmentário e sugestivo, com pistas para todas as direcções a cada faixa (são 22, por isso vejam a balbúrdia que não vai naquela cabecinha), desde o revivalista ao “benvindos ao planeta Black”. “Pistolero” é talvez o mais coerente deles todos (os posteriores ainda não nos caíram nas mãos – o senhor esteve em fúria produtiva que não dá para acompanhar), em que o que é para descartar não chega a ofender, vindo de quem vem (ao contrário do que pode acontecer nos prévios), e vocifera rockalhadas discretamente épicas e epicamente escorreitas como quem boceja displicente ao anúncio da morte do rock – esse problema não é seu. Ah, pois, isto era sobre o “Cult of Ray”: o mais abertamente esquizóide: lado 1 (vamos fingir que continua a haver lados... é categoria muito heurística) quase todo dispensável; lado 2, obrigado señor Black. Abre com a promissora “The Marsist”, com as densas harmonias blackianas, a distorção da surf guitar a levantar a poeira lunar, e a estranheza deste homem querer berrar até pôr a máscara alienígena na lua a piscar o olho (o que é possível, pois este é o senhor do berro mais imaculado e significante que qualquer corda vocal emitiu, a envergonhar a banalidade da rotina metaleira). Depois, bla bla bla, o homem tem direito a viver a segunda adolescência, a escrever punk digerível, a transbordar indulgência com as costuras harmónicas para que o straight rock ao menos pareça mal cosido, até a ensaiar baladas rock (ugh!) felizmente ainda com harmonias adiposas e demasiadas palavras para se levar a sério. E depois, e depois... primeiro, in your face, “Mosh, don’t pass the guy”, energia punk gostosa, e pensamos, “Hum... será que isto promete?” - oh! doce profecia. Surpreenda-nos mais uma vez señor Black: ora aí têm, meus caros ... “kicked in the taco”! Qual “Hum…”, qual carapuça, isto é “Uau!”: o adolescente regredido tem memória do homem que foi e, não deixando de ser adolescente, ainda sabe fazer canções que dispensam mais que dois minutos, repetições, refrões e secções, são um naco de música orgânico que só precisa de fluir do princípio para o fim sem regras de escola auditiva a ditar o caminho.. A “Dance War”, que está no lado 2, também é desopilante, mas se trocasse de lugar com a “The Marsist” tornava a divisão espacial do disco perfeita (embora seja de elogiar a perversidade de nos titilar ao ínicio e fazer-nos esperar pelo lado 2 para o prato forte que, afinal, sim, anunciava mesmo – wicked little fat man...). O resto segue a mesma bitola sem bitola do homem que lá fez o esforço diletante para nos lembrar que há vida em Marte, mesmo quando já encerrou a estação interespacial. “The Creature Crawling” a ecoar sismicamente os seus passos trôpegos na placidez autista dos nossos quintais. “The Cult of Ray”, em homenagem não surpreendente, vinda do alienófilo de que vem, a Ray Bradbury, é das sucessões mais conseguidas de riffs desopilantes a cutucar-nos nos quatro costados, que consegue a proeza de no final da sua infatigável jornada instalar a contemplação do que escondem as estrelas. “The Adventure and the Resolution” a ensaiar caminhos não trilhados (e não repetidos), nem pelo próprio, com material sonoro que não sonhava com tais travessias de abstracção sonora (principalmente nas condições quase pré-históricas de gravação a que o cavalheiro é atreito). “The Last Stand of Shazeb Andleeb”, a ensaiar um hino em surdina (a voz a escorrer no leito do baixo – oh Frank, afinal és também um sedutor...). A redenção é doce, para mais quando a sentimos como nossa (a não aceitar que se desista deste cavalheiro). Ah, e havia aqui pelo meio um tal Lyle Workman a tocar lead guitar, que, caro Frank, como é que deixou partir? Não é um Joey Santiago (et pour cause...) a desenhar nebulosas de som a partir de notações de hieróglifos, mas no seu classicismo melódico era dos poucos guitarristas rock a saber parir um solo que vai a algum lado, ainda para mais só tendo direito a 15 segundos para o efeito, numa canção a la Black. E pergunta-se, como quem denuncia his master’s voice: e como raio é que um álbum com um lado descartável vale o cacau de o comprar e a pachorra de escrever demasiado sobre o que o envolve? Bom... há perguntas que não merecem resposta.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

For the sake of speaking

Subia umas largas escadas numa praça pública, e no instante em que passo por um velhote na mesma ascensão, ele estaca para se dirigir a um grupo de moças que desciam, apontando-lhes que as calças brancas que envergavam era frias para esta altura do ano.
A solidão não se compadece das convenções sociais.
As moças, encavacadas, abrandaram, tartamudeando um "sim" "pois", e seguiram meio desconcertadas o seu caminho.
As convenções sociais não se compadecem da solidão.

(pergunto-me que proporção das desenvolturas da blogosfera não são variações, em novas convenções, sobre um velho tema)

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Ainda Cavaco, imigração e nacionalidade

Porque a coisa foi mesmo de peso na formulação de um substrato de nacionalismo perigoso no ideário político do candidato Cavaco Silva, veja-se, por quem percebe da poda, esta explanação da concepção de direito de sangue que, efectivamente, sustenta proposições, não explícitas na forma mas inequívocas na substância, sobre concepções de nacionalidade como as que referimos no post anterior relativamente à resposta de Cavaco, no debate com Louçã, sobre os critérios de regulação da atribuição da nacionalidade portuguesa a imigrantes.

domingo, 11 de dezembro de 2005

Teleologia Presidencial (após debate Cavaco-Louçã)

Cavaco como Presidente da República está claramente tomado na discursividade pública como um facto consumado. O que implica que todas as leituras da factualidade da sua campanha e prestação como candidato presidencial são vergadas à inevitabilidade de o senhor vir a ocupar a cadeira. O que se torna mais aberrante quando esse senhor que todos já se controlam para não se equivocarem a designar como sr. Presidente manifesta todas as qualidades para não ser um candidato sequer com perfil para levar a sério enquanto candidato.
Só por cegueira das fatalidades anunciadas (Cavaco Presidente) é que ninguém apontou com a devida clareza que Cavaco saiu simplesmente cilindrado do debate com Louçã. Foi aliás dos debates mais humilhantes para um candidato presidencial a que já assisti. E isto não tanto ou somente pela competência retórica de Louçã (fora um desvio populista inacreditável e perfeitamente dissonante no final), mas pelo próprio vácuo da sua concepção política anunciada, e pelos substractos não assumidos de viés políticos que assomam a espaços na sua discursividade, que nem sempre se atém à ausência de conteúdos que tão voluntariosamente lhe pretende imprimir.

Desde logo, estamos perante um candidato que se recusa pronunciar-se sobre as matérias porque não quer condicionar à partida o seu perfil e as expectativas dos partidos quando fôr ocupar o cargo. Ou seja, Cavaco quer ser como que o presente que a actuação governamental e o seu Portugal verão o que contém quando tiverem que a abrir em Belém (não vale abrir antes do menino nascer...). Deve ser para garantir a eleição atiçando a curiosidade dos eleitores (votar no senhor só para ver afinal o que é que ele faz - o seu departamento de marketing deve andar a rever muito Hitchcock).
Estamos depois perante um candidato que faz do seu currículo de economista e de experiência governativa o fiel da validação do seu exercício das competências políticas: o governo precisaria de alguém afinado com os problemas do país, tal como eles são definidos hoje em dia (em linguagem e fechamento economicista), para poder dialogar de forma responsável. Ora, o cavalheiro com esse currículo mete os pés pelas mãos no debate no que toca à questão fulcral (fulcral) da Segurança Social dizendo apenas que se necessita de novos estudos (quando já foram realizados e apresentados, disponíveis) sobre o impacto das medidas avulsas que nos últimos anos foram tomadas nesse domínio. Facto confirmado nos comentários ao debate na SIC Notícias, mas que não causam mais comentário senão o acharem "estranho" Cavaco desconhecer tal facto. A teleologia a funcionar: o homem vai ser presidente, pelo que face ao fait accompli esta argolada não pode minar o perfil do garantido futuro Presidente. É apenas estranho. Escandaloso e inconcebível, nunca.
Finalmente, estamos perante um candidato que, no seu pretenso vácuo ideológico, deixa escapar demasiado lastro, formulado (devido certamente à sua não-elaboração ideológica) de forma demasiado daninha, para ser ignorado como inconsequente. A forma como enfatiza a palavra "portuguesa", duas vezes, na frase em que contesta a facilidade com que se discute a atribuição da nacionalidade portuguesa (e repete enchendo a boca, "portuguesa"), a imigrantes, ou mais especificamente a filhos de imigrantes (em política de jus soli) é o bolo-rei ideológico com que escancarou as entranhas nacionalistas neste debate, culminando com a cereja em cima do bolo que foi sustentar a sua dúvida, por exemplo, no perigo de os portugueses virem a ficar em minoria em Portugal (para além do "perigo" hilariante de antecipar mais de 10 milhões de imigrantes virem suplantar a proporção da população "portuguesa" no país, aquela formulação, por mera lógica linguística, define que para o cavalheiro os estrangeiros a quem é atribuída a nacionalidade portuguesa não passam verdadeiramente a ser "portugueses" - caso para perguntar, então a atribuição de nacionalidade significa o quê? Isto é a política de sangue na atribuição da nacionalidade o mais clarinha possível. Simplesmente, não nos deixemos enganar, em formulação de circunstância, não assumida, como tudo neste senhor).
Ao que acrescenta que a questão da nacionalidade nem seria tão importante como questões concretas como o acesso à saúde, à educação, etc. Mas o senhor julga porventura que a atribuição da nacionalidade é uma frivolidade simbólica nacional que só serve para as pessoas poderem passar a andar com uma bandeirinha de Portugal pespegada na lapela? Que não implica precisamente a aquisição de uma panóplia de direitos enquanto cidadãos de um país?

Embora o que nos interesse seja relevar a perversa teleologia da "certamente" futura presidência cavaquista, Louçã, que esteve muito bem (independentemente da concordância das suas posições políticas, e obviamente mais liberto, ainda não plenamente, também não sejamos ingénuos quanto à liberdade discursiva dos pequenos partidos, pela natureza da sua candidatura a explicitá-las sem entraves e subterfúgios), convenhamos, borrou a pintura de forma inacreditável com o recurso às cordas sensíveis da "história verídica" do "menino imigrante". Num debate em que com invulgar justeza e clareza se posicionou face ao que lhe foi colocado, e pôs em xeque os inúmeros buracos da figura e da matriz política de Cavaco Silva, não se percebe como é que insere de forma, perfeitamente controlada e estratégica, esse apelo demagógico. Se vai começar a entrar por aí (e tudo indica que sim), a credibilidade que meritoriamente na sua posição partidária e política difícil ia conseguindo sustentar, merece preocupação grave e dúvida quanto ao seu substrato político também. Louçã, pelos seus pergaminhos, melhor que ninguém, deve saber que o discurso não é inconsequente. Se daí se retirarem consequências sérias, como se deve tirar relativamente a Cavaco, não se queixe: claramente ele as pediu.

Cavaco, só numa democracia esvaída de reflexividade pública séria, que determina teleologicamente por constrangimentos exclusivamente extra-situacionais a validade e probabilidade relativa dos resultados esperados de uma eleição, é que depois deste debate pode ser levado a sério sequer como candidato. Comparando o facto futuro consumado com o facto presente em construção, numa democracia séria isto seria uma anedota. Mas numa democracia séria não há factos consumados destes. O silogismo é fácil de completar.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Prazeres rarefeitos

Diospiros maduros no ponto, colhidos do diospireiro na horta, derramando-se, descaindo as defesas do sarro, ofertando-se na doce e dissoluta textura, entrecortada na surpresa de firmes gomos gelatinosos.

(não há diospiros, Diospiros, de mercado. Cada diospireiro que morre na paisagem anormalizada é um mundo puro de sabor desaparecido. Não sei se procurarei reencontrá-los entre essas obscenas reproduções, quando me estiverem interditos. Sei que na raridade desse pleno e fugaz encanto perdido me apetecia viajar os 180 quilómetros que me separam da árvore para ver se haveria um para partilhar com quem padece do mesmo sortilégio).

(o diospiro, Diospiro, bendito seja, continua a ser delicioso para lá do ponto, mesmo demasiado passado, mesmo desfeito: às vezes é a única forma de ultrapassar o sarro)

(diospiro, tem no Brasil, chama-se caqui. Alguém tem obrigação de comê-los por mim)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Ceci n'est pas une boîte de commentaires 1

Anónimo (que espero me perdoe a indiscrição...) inquiria se o disco que mencionava no post «Afinidades Electivas», e que referia em comentário ter emprestado para nunca mais, seria porventura uma "raridade", que não pudesse ser (re-)adquirido numa "loja da especialidade".
Respondendo no devido registo chão, como que impenetrável por figuras de estilo: não, não é com certeza de todo raro. Estará numa qualquer Fnac a 8 euros.
Mas o MEU disco era aquele exemplar. Substituí-lo seria qualquer coisa como comodificar excessivamente aquela pertença inefável, e no mesmo passo materializaria a descrença na possibilidade humana de arrependimento e reparação. Ora, não seria decente da minha parte fechar de forma demasiado displicente a porta à redenção alheia.
E enquanto a privação não se torna insuportável (felizmente, muitas voltas já ele tinha na agulha até se gravar em cilindro de superfície carnal), a saudade e a memória (juntas) constituem outra forma de alimento de que se aprende a usufruir (em certos fins, é o que nos resta; o mais seria até insuportável).

A backstage star (constatação e consequência)

Dedicada leitora orientava-me a face para o facto de comentar mais do que postar, condição bizarra para blogger que se preze ou que não se preze. Mas tal condição não é de estranhar, e sugere aliás assumir certa intermutabilidade entre blog e caixa de comentários (ainda que na gestão complexa das subterrâneas correntes). Faria certamente sentido para esta espacialidade personificada.
Raras vezes me tive em boa conta a sós comigo. Só em interacção senti por vezes algo de insuspeito, internamente, a se validar. Assumi sempre protagonismo mais digno em secundárias funções que como actor de moto próprio. Experimentei diversas formas de realização e em todas as que me exigiam o primeiro papel ressenti a amarga consciência da aceitável mediocridade que se sabe aquém. Sempre argumentei melhor em diálogo que em solilóquio, sou mais competente a rever produção de outrém que a encabeçar a minha, sei melhor avaliar e apreciar os méritos alheios que alimentar os meus. Não é de espantar que, nessa estiolada produtividade de ser, a minha presença na blogosfera, num espaço em torno de um self constituído, seja confrontado com a ironia de o melhor de mim (e melhor indica só grau, não qualidade) poder estar refundido no acrescido secretismo de caixas de comentários.
Vem-me à cabeça em figura de redenção possível o valoroso Ward Bond (e um doce para quem o nome faz tocar os sinos), para supôr que o valor intrínseco dos modestos homens (humanos, vá...) seja algo a que só os grandes se alcandoram a resgatar (sendo que há duas formas dessa grandeza) . Nesse sentido, pelo menos, não mais valiosa, mas mais rara pérola se fariam.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

"Ofício de viver"

Desilude-se o crente expectante da absoluta metafísica inspiração. Carece-se também respirar ou ter respirado outros ares para emergirem certos (a Emily não é práqui chamada) caracteres prenhes de desacorrentados sentidos. Não há verbo para a vida sobreposta às águas estagnadas.
Curiosa transmutação para sopros que pretenderam outro alcance: o corpo a estiolar nas margens do vácuo assoberbante do ecrã negro.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Handfull of genius

«A primeira obra dos supremos progressivos Gentle Giant, dos multitalentosos irmãos Schulman e companhia, estreados no vinil em 1970, tende a ser relativamente desconsiderada no seu património. E de facto, para quem produziu incessantemente em menos de uma década títulos indisputados como do mais belo e complexo que neste movimento estético se inscreveu, é difícil não olhar este como um título menor na sequência que os levou até “Interview” em 1976. Contudo, se os álbuns devem ser vistos numa série de perspectivas contextualizadoras, também devem ser vistos como entidades em si. E, como tal, este contém coisas francamente insubstituíveis para um ouvido dedicado, e lança já pistas bem seguras para o que viria a ser o modus operandi deste combo imbatível. A inicial “Giant” é basicamente um exercício de estilo rítmico, a ensaiar possibilidades, mas de destreza agradável na secção inicial. O mesmo poderá ser dito de “Alucard” (não pensem em dicionário, pensem em anagrama), a ensaiar experimentalismos sonoros distorcidos e fantasmáticos que não ficariam como marca sonora dos senhores, pelo que é uma curiosidade revisitar. E depois, bem, depois há a beleza dos melodistas que estes cavalheiros também eram, como se não bastasse a sua supremacia também instrumental, vocal e de composição. Francamente, não se vê que os outros agrupamentos da época pudessem ter outra reacção às suas performances senão “estes gajos até metem nojo!” (talvez seja a pista que faltava para descodificar o seu, ó! de bradar aos céus, insucesso). Ouçam as melodias que iluminam a balada “Funny Ways”, que no desbunde síncopado do seu intermezzo anuncia as mini-sinfonias que fariam as maravilhas sonoras de 4 minutos de álbuns como “Octopus” (o que, considerando a necessidade da maioria das bandas de um lado inteiro de vinil para atingir uma amostra desta complexidade, acrescenta crédito à hipótese “estes gajos metem nojo”); ou a mais que deliciosa canção para quarteto de cordas (não leves a mal, Costello, alguém se lembrou disso primeiro...) “Isn’t it quiet and cold”, com um solo prodigioso no vibrafone (está bem, cordas e mais qualquer coisinha...), que seria presença regular no arsenal destes multi-instrumentistas. Ou ainda o lírico início de “Nothing at all” que, se se estende por nove minutos, é por lá para o meio dar a mão iniciática, mas já irreverente, a um decalque classicista (ninguém é perfeito...), que cedo é devidamente abardinado para descambar num delírio free de percussionista sob speeds e um técnico de mistura drunfado. E se não sabiam da relação entre trovadores medievais e bluesmen, ouçam a progressão central da “Why Not?” (indeed...), que num minuto liga temporalmente distâncias-luz de uns quantos séculos (coisa pouca), e numa progressão brilhante retoma, sem aquelas quebras progressivas, o completely different tema inicial, para culminar num solo bluesy de guitarra bem esgalhado para redimir as aberrantes, infindáveis e insignificantes masturbações sonoras de guitarristas que desconhecem que não é para isso que o braço da guitarra serve (equívoco de consequências graves para audiências, e ainda mais para o instrumentista). É que o cavalheiro com o instrumento nas mãos era um tal Gary Green, que não ficará nas enciclopédias, mas percebia da poda, sabendo que um solo tem que dizer qualquer coisa mais que “olha, agora sem mãos” – não, não é uma piada ao Hendrix, que tocava melhor com os dentes que a maioria com os 10 dedos). E porque não foi só Zappa que se lembrou de perguntar “does humour belong in music?”, uma versão jocosa em orgão e guitarra marados do hino inglês (é verdade, o Hendrix outra vez, mas juramos que não foi planeado...) é um remate airoso a um álbum que, por si só, é audição mais que recompensadora, e não só premissa do que estava por vir, que, por sinal, atingiria logo um pico no seguinte álbum, e obra-prima, “Acquiring the Taste”, onde revisitam alguns procedimentos estilísticos aqui inaugurados, como, por exemplo, a improvisação de percussões em “The Moon is Down”, ou a angulosa canção para cordas “Black Cat” (que nem são os zénites do álbum, para que não julguem que não foi uma superlativa renovação da linguagem musical, mas só mais do mesmo). Começava assim um percurso incomparável e deslumbrante de exploração das possibilidades específicas que uma tematização contém, movimento de desenvolvimento musical que estes senhores impulsionariam a inéditos paroxismos formais, numa lógica cada vez mais refinada, internalista e densificada (no espaço e no tempo), em certos momentos a sugerir paralelos sonoros com uma configuração pictórica a la M. C. Escher. Ah, e já agora, porque não foi só Zappa que se lembrou de perguntar “does humour belong in music?”, atenção ao pequeno teaser de sintetizador que, qual toupeira impertinente, vai escarafunchando pelo disco: só a sua aparição gozona antes da elegância de “Isn’t it quiet and cold?” valeria o preço do álbum. Nem se percebe como é que ainda ninguém se lembrou de o pôr como toque de telemóvel...: bolas, os rapazes eram mesmo visionários... Até mete nojo.»


sábado, 3 de dezembro de 2005

"No problemo" (it's just «a matter of life and death»)

Assinalou-se dia 2 de Dezembro a milésima execução legal de um ser humano nos Estados Unidos da América (não obstante a honrosa excepção de 12 estados - somente - que não contemplam essa pena no seu sistema legal), desde que a pena de morte foi reinstaurada em 1976.
Ao mesmo tempo, chegava à minha caixa de correio uma mensagem de corrente emanada originalmente da secção portuguesa da Amnistia Internacional, com uma carta pré-formatada, para pedir ao governador da California (Schwarzeneger lui-même) clemência (reparem como no mesmo acto se combina a possibilidade de apelo consequente à salvação da carne, e a necessidade de um acto de suposta excepcionalidade benigna e toda-poderosa por parte da autoridade personificada: they do play God) em face da agendada execução de Stanley Williams.
Williams, referido como tendo um percurso de redenção pessoal particularmente meritório em intervenção social pós-encarceramento, é apresentado como um dos casos mais abonatórios para a contestação de tal forma final (eliminando consequentemente a possibilidade do tão "cristão" arrependimento e de minimização e compensação pelos crimes, que por aquém que sejam de todo o acto criminoso, sempre são mais do que o irreparável, infértil, e potencialmente equívoco ceifar de uma vida) de punição (sendo que a percepção da possibilidade dessas "excepcionalidades" à justeza da aplicação da pena de morte poderá nas boas consciências ser matizada pela possibilidade referida e perversa da clemência pessoal do governador).

Não literalmente pelo senhor em si, mas, ainda que de forma relativa, tomando-o como sujeito a forma de punição que rejeito, enquanto ser humano, confrontado com a aceitabilidade social feita realidade política e judicial de seres humanos se confrontarem com ela, lá reenviei, violentando a minha relutância subjectiva e imobilidade corporal a agregações, o mail pré-formatado para o endereço do governador (ainda que, na minha relutância a estes processos de agregação informática, duvidando do sentido disto).
Eis que no dia seguinte me deparo com duas respostas na volta do correio: uma primeira, resposta pré-formatada do gabinete do governador a todos os mails que entram, a agradecer a correspondência e a avisar que a resposta podia demorar... E uma segunda, certamente igualmente pré-formatada, "assinada" pela secretária para os assuntos legais do governador, a informar do processo, dos trâmites legais envolvidos na ordem execução e pedido de clemência, e agradecendo muito polidamente a correspondência, garantindo que o governador iria tê-la em conta na tomada de uma decisão.
Passado o espanto da eficácia informacional (e não comunicacional) da governação por aquelas bandas, me apercebi de como assim, trocando documentos pré-formatados, polidos e sensatos, se vai esvaindo a discussão da vida e da morte dos homens, de a quem cabe (se a alguém cabe) decidi-la, em que circunstâncias, porque meios (a obscena tecnocracia da morte no seu esplendor).
Suponho pois que essa polidez organizada (à qual o realismo organizacional obriga a agregar-se esta estratégia da própria Amnistia Internacional) seja mais uma das vias pelas quais se elabora e mantém a delicada e suave tessitura da civilização, e o estiolar da crítica no realismo político (quando em nomes de outros "valores" "civilizacionais" outros realismos vão sendo alegremente descartados).
Pois, na face da civilização, e não rejeitando necessariamente a ideia dela, mas fazendo-a outra, ainda que em comparativamente impotente discurso, só me resta escrever, para me relembrar, que na engrenagem da civilização desses senhores, a pena de morte é, persiste, um pilar de barbárie. Esta sua ornamentação, talvez cumpra importante função social, mas de momento, nestes momentos, só me pode suscitar repulsa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Afinidades Electivas

Duas pessoas que se imiscuíram na ordem dos meus afectos, em modalidades completamente diferentes (uma, a quem me atém dívida de etérea natureza, não sabe da minha existência, tão pouco; a outra pode ser directamente acusada por responsabilidade incitadora do crime público que é esta coisa (blog?!) existir, e que neste dia me vem na distância a uma memória), vim a dada altura a verificar sustentarem o mesmo encanto por um mesmo certo verso entoado por um certo mesmo encantado homem:

«it’s never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder».

O tio Goethe, acolitado a fazer cartilha do romantismo, conseguia ser um bocado insuportável. Para dispersão de qualquer bibliófilo que por aqui andasse, devo admitir que o Werther faz parte das minhas irritações subjectivas de estimação (e muitos velhos suicidas endrominados provavelmente me acudiriam nessa inclinação). Agora, não se pode negar que o homem, quando acertava, era em cheio.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Vai autoritária mas não segura

Ia o je descansadamente equivocado na faixa do Bus ao descer para o Marquês do Pombal, quando um senhor agente da autoridade em motocicleta passa pela minha esquerda fazendo sinal para me encostar para a faixa correcta. Ao anuir com um aceno e um sorriso de admissão de culpa à chamada de atenção, e deslocando-me para a outra faixa, eis que o agente se posiciona do lado direito do automóvel, e eu, descendo a janela para abrir as margens de comunicação, ouço vociferar o homem do distintivo: «o senhor acha graça, é?!».
São tempos e/ou personagens perigosos quando a primeira, epidérmica, interpretação de um sorriso é que ele seja criminoso. Principalmente intérpretes armados. Talvez fosse conveniente pôr antes os psicólogos da polícia de plantão.
É que era um problema privado o facto de eu não lidar bem com a autoridade.
Mas
já indicia um problema público quando a autoridade começa a priori a não lidar bem comigo.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Well, have you, punk?...





...have you got what it takes? 

















 «No afã de classificar as nossas audições, que é outra forma perversa de nos classificar a nós (o problema é que nós também tendemos a enfiar o barrete), surgiu recentemente uma categoria que reza qualquer coisa como new weird america, que seria um repegar meio freak de tradições sonoras folk americanas mais ou menos no mesmo terreno que já havia repegado a americana também há muito poucos anos, mas um pouco menos reconhecivelmente (que é como quem diz, uns fumam charros, outros emulam portadores inspirados de cirroses). 
Ora, foramos nós a lembrar-nos e a ter poder de difusão da coisa, e aqueles ficariam antes qualquer coisa como a new orthodox freak america, porque a new weird america ficava para senhores a fazerem coisas como um tal David Thomas. Este senhor, pouco new na idade, cujas qualidades corporais me isentarei de identificar para não o estigmatizar (e porque ele se está nas tintas para elas, logo, nós também), é já de si bastantemente reconhecível como a voz meio demencial entre o delirantemente lúcido e o babado infantilizado que reconhece diáfanas verdades que escapam aos sabidos do mundo (e como tal são desprovidas de valor pragmático) que encabeçava o torpedo new wave (donde o new weird se justificaria) intitulado Pere Ubu. 
Entre os opus a solo que foi lançando de forma assaz invisível desponta, em finais de 90, este “Bay City”, que se não é weird bem ofendem o homem porque bem se esforçou. Se a straight rock descarnado “Clouds of you” que inaugura o álbum ainda engana, a faixa a seguir, “White Room”, espécie de arremedo tosco de balada trôpega de guitarra quebrada na ressaca de meia-noite que não deixamos instalar-se porque ainda faltam 6 horas de ebriedade para a madrugada, embalada a clarinete demasiado alto na mistura com melodia decantada aos soluços, instala a dúvida. A partir daí não há dúvida: quando o senhor diz que “nobody lives on the moon”, no fundo confessa que é lá que habita, e que a lua são paisagens incógnitas onde nenhum americano não lá nado pode respirar ou conhecer senão por estranhos intermediários. Eis o estranho intermediário. Por intermédio de crua, básica, mas bizarra instrumentação, para weird efeito, disponibilizada pelos “estrangeiros” que Thomas desencantou encalhados num fiorde como bando de mariachis, canções que não existem surgem demasiado reais na sua fantasmagórica proposição apenas para anunciar a estranheza distante e irredutível. Ficamos a saber que isto, o que quer que seja, existe, mas não é passível de ser conhecido. Ritmos obsessivos, ritmos requebrados, melodias fragmentadas, não-épicos em ocaso sonoro, não-ritmos, balbuciares e copos quebrados, portas a abrirem apenas para bater, e os passos de ninguém que se anunciam para se evolarem do chão. 
Se “Charlotte” nos dá um seio (só um...) para afugentar as incertezas desta música (ou uma varejeira do deserto, não é certo...), logo nos jogam num quarto sebento de motel abandonado sem fímbria de luz para desviar a atenção das perguntas obsessivas que não nos queríamos colocar. E ecoam profecias, senhores, profecias, conjuradas para temermos nova incursão nas terras de outrém-ninguém: se não se inquietam ao som de uma voz de texano louco, desdentado e visionário, que anuncia às criancinhas, nas cadências nonsense métricas e mutantes da brilhante “15 seconds”, que “You'd better close your eyes because in this world/the good things is gonna sink while the bad things rise./Y'all better close yr eyes.”, algo de errado se passa com o vosso sistema nervoso. E após o cataclismo, no resfolegar dos despojos inúteis que chiam, traduz o olhar do homem serenamente louco (porque nada mais se pode ser) na perdição no vazio escaldado: “i fear the worst that worst could be... that everything would be just the way it seems... to be”. 
Este álbum é matéria sonora feita terra para dizer que isto existe mas não se alcança, não se entende, é a geografia dos presentes, dos que “got what it takes”, e não há viagem para lá: só os rumores remotos indutores de miragens por um vento malsão.»

sábado, 26 de novembro de 2005

O Realismo Leviano

O artigo de Vasco Pulido Valente no Público de sexta-feira sobre a não-ordenação de homossexuais não é propriamente exemplo do que atrás se discutia, porque me parece que o tipo de argumentação, que pode validar, de facto, proposições institucionais homofóbicas (ainda que de uma «entidade privada»), deriva mais de uma lógica analítica que caracteriza o autor, do que de uma qualquer motivação homofóbica. E motivações, não convém julgá-las ou apontá-las levianamente. Mas convém ver que possibilidades discursivas se instalam em certos argumentos. E estes interessaram-nos particularmente, porque é neste tipo de retórica realista que muitas vezes intencionalidades homofóbicas se fazem por escudar (mais uma vez, não dizemos que seja, aqui, intencionalmente o caso).

O que move VPV não é a defesa nem a condenação da decisão de Ratzinger. É o insensato da contestação “politicamente correcta” dessa decisão, face à realidade social a que se refere, relativamente à qual essa contestação estaria muito equivocada (e, conceda-se, até pode estar). Argumenta que a proibição da ordenação de padres homossexuais é apenas uma consequência lógica (ou, mais equivocadamente, «reiteração») da doutrina católica sobre a matéria; que a Igreja Católica é uma «entidade privada», como tal liberta para exercer as suas próprias regulamentações internas, como , "quem entra"; e, num tocante momento de compreensão weberiana, pergunta-se «que homossexual precisa de uma igreja que o condena e humilha?».

Quanto a estes argumentos concretos, vejamos: essa proibição não decorre linearmente da doutrina católica, dada a manutenção da castidade e celibato como condição para o exercício do sacerdócio, e dado o facto de lhe ser normativamente inédita. Como tal, essa proibição decorre de uma extensão institucional de uma concepção epistémica e ontologizante, de facto condenatória, da homossexualidade, para um campo onde até agora não se tinha manifestado, por razões precisamente de doutrina, mas provavelmente também práticas (e daí, ao contrário do que acha VPV, a questão da pedofilia, também não é, de todo, de descartar como absurda nesta decisão, já que a Igreja também sabe qualquer coisa de relações públicas: as temporalidades não são só feitas de acaso, e as condições representacionais de associação entre pedofilia e homossexualidade estão aí mais que visíveis e disponíveis, por inválidas que normativamente se diga que sejam).
Tal implica que, mesmo sendo a Igreja Católica uma entidade privada, e com um estatuto complexo de relação com a constituição política dos estados onde se insere, no mínimo, não decorre daí que deva ser imune à crítica social, seja ela qual for, nas suas temáticas e fontes de enunciação, quanto mais não seja porque é fonte de proposições culturais que afectam a construcção de imagens e representações que, neste caso, no mínimo, a quem se define/é definido, como homossexual, dizem directamente respeito. O facto de se dever diferenciar juízos de facto e de valor, em linguagem científica, nunca implicou o esvaziar da possibilidade de enquanto cidadãos os indivíduos exprimirem juízos de valor sobre o real. Estivéssemos a falar de etnocentrismo, e a conversa realista seria exactamente a inversa.
Quanto a uns certamente masoquistas homossexuais que, vá-se lá perceber, querem pertencer a uma instituição que os estigmatiza, creio que, para um cientista social como VPV, não será difícil perceber que não é só Deus who moves in mysterious ways. Tal como relativamente às mulheres, esta restrição do sacerdócio implica um problema teológico para indivíduos que se reconhecem numa fé (processo que pelas próprias dinâmicas de socialização pode não ter tanto de escolha quanto isso, anulando “eticamente”, face à instituição, o argumento relativamente aos descontentes: «eles se arranjem»), e se vêem impedidos de certas formas de exercício da mesma, principalmente se é teologicamente disputável (internamente aos próprios exegetas oficiais) a base doutrinária para tal. Como entidade privada, e como tal terrena, a Igreja também deve ser considerada como legítimo campo de contestação das suas práticas e doutrinas, ainda que daí não se derivem, ou seja legítimo derivar, outras consequências (como políticas e jurídicas: isso é outra conversa).

Daí o perigo deste tipo de análise pretensamente realista. Aquilo que VPV está essencialmente a contestar não é a natureza dos argumentos anti-discriminatórios avançados, mas o próprio acto de protestar contra o que, na sua análise, é assunto apenas da Igreja (que fica reduzida à sua hierarquia institucional – os fiéis não são tidos nem achados). No desencanto desértico que o tomou, VPV restringe o discurso social válido a um realismo truncado que estiola qualquer margem de crítica face ao que é, assumindo assim uma postura valorativa face à crítica, legitimando a sua postura com base em aparentes juízos de facto. Ora, por muito que se queira desconstruir os termos de uma contestação (e não me parece que tal fosse, nesta argumentação, conseguido), desconstruir a possibilidade dessa contestação é um passo que me parece que se vai tomando, e que conhece abismos pouco aconselháveis. É que também o realismo não se deve exercer levianamente.

Someone else needs to get out of the closet

As polémicas sobre homossexualidade espoletadas por acontecimentos que assaltam o espaço público tomaram um cariz cíclico. Não estava para me chatear com este último ciclo, mas apercebi-me de um facto preocupante.
Tornou-se comum as posições assumida ou implicitamente conservadoras face ao carácter público da vivência social da homossexualidade (desde o plano cultural ao jurídico) tomarem como argumento central das suas contestações às pretensões anti-discriminatórias relativas a tais temáticas, o queixarem-se de que, hoje em dia, com o “politicamente correcto” a permear e vigiar todas as margens do discurso, já não é possível fazer um crítica honesta e descomprometida a qualquer acção ou proposição emanada do universo (seja lá o que isso for) da homossexualidade, sem que tal crítica não seja vilmente censurada pelas boas consciências desse novo e terrível normativo discursivo, que, consta, rezaria qualquer coisa como "nas bichas não se toca" (também não sei lá porque razões: pode ser por medo de outras coisas).
Ora, tendo lido o artigo do Miguel Sousa Tavares, sobre o “caso” de Gaia (ou o “caso” do “caso”, para ser exaustivo), e posteriormente auscultando os vários comentários e reacções que se ouviram por essa blogosfera (e outras esferas) fora, tudo por gente que obviamente até tem muitos amigos homossexuais, tive pôr a mão na consciência libertina (cerceando-a) e reconhecer: eles têm razão.
Meus caros, culturalmente, a luta contra a discriminação pela orientação sexual dos indivíduos deu alguns (alguns) (em parte formais, em parte informais) frutos para uma vivência mais igualitária dos cidadãos de algumas sociedades democráticas. Mas temos que reconhecer, neste ponto do caminho, que essas conquistas tiveram os seus efeitos perversos (não é jogo de palavras…). Que novas opressões se erigiram com estas pretensões emancipatórias, fazendo vingar as suas dimensões particularistas, e não a igualdade cidadã que supostamente reclamam. Sim, é verdade, meus concidadãos, sob a capa mentirosa da não-discriminação uma nova e mais ignóbil discriminação foi erigida, insidiosa: a discriminação dos homófobos(?).
Reparem como as argumentações, neste caso, para criticar a contestação que se fez da suposta discriminação implícita no “caso” (do “caso”), regra geral, têm que se rodear de toda uma série de cautelas, explícitas ou implícitas. Têm que afirmar que fizeram um soul-searching aprofundado para concluírem que não os tinge sentimento homofóbico, e como tal podem pronunciar-se de forma puramente intelectual sobre o caso em questão; ou têm que lançar uma proposição de simpatia face aos, lá aos coisos, os outros, os homo; ou têm que escudar a sua argumentação não na afirmação de valores (pois não se pode “ser contra” os pobres homossexuais), mas no exercício de lógica, política, social e/ou jurídica.
Através desta lógica de argumentação, o que se verifica é que os homófobos da nossa praça estão a sofrer agruras retóricas insuportáveis, para poderem defender subtilmente a sua justa causa. Mais ou menos como os nossos artistas anti-fascistas enganavam o lápis-azul, certamente. O que é pior, porque torna a coisa patética, é que they’re not fooling anyone, e gastam nessa operação truncada o capital de seriedade intelectual que podem aplicar produtivamente em outros assuntos em que não tenham que negar o sentimento que não ousa dizer o seu nome (ahhh... senão para o negar, claro).
Por isso, pequena (ou grande, parece) massa de gente afinal pseudo-emancipatória, apelo ao vosso sentido civilizacional: deixem-nos sair do armário, e ser assumidos homófobos livremente e em paz.
Não é vida decente ter que esconder nas saias da retórica tão sofrido segredo por toda uma existência.