sexta-feira, 1 de junho de 2007

When I Go (...)

Não a canção em bruto, mas a canção nascitura já em cinzas. A guitarra tangida não pela vontade do pulso mas pela queda em peso morto da mão sem músculo que resista. Um épico exaurido em três acordes só para se dizer falhado. O oxigénio sugado do espaço já sem reverberação, sem escape, sem as asas falsas de um estribilho. A voz que não se presta já à teatralidade de suster a nota. A música em falência, que já nem quer tentar, a dor sem arte, sem transcendência ou redenção. O som cru, ressequido, do corpo encarquilhado, preservado numa eternidade artificial emanada de um pesadelo de drones infindo. Bem parecia que há muito não era pela música que ainda insistia em ouvir. Amanhã is as good a day as any to keep letting go.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Reverse Warhol

Por certo que, estando algumas das criaturas a perder o bom senso de se manterem nos respectivos redis, tenho a minha quota parte de doubtful and minor celebrities sightings. Todavia, nunca me senti muito confortável a fazer o cerco aos bichos, e das poucas oportunidades em que o terreno era de tal forma favorável que seria uma ofensa ao espírito dos antepassados deixar a presa escapar, senti (punho no peito) uma certa desilusão com a minha mock idolatry, porque a verdade é que o encontro sempre me deixa largamente indiferente, e a exposição mútua (là, nous sommes pareilles) ao desconforto do matching outfit das presumíveis camisas-de-forças interaccionais de ídolo-idólatra torna-se uma pequena concessão abjeccionista à escatologia da fama.
Claro que levanta-se igualmente o problema da porosidade e contingência potencialmente dramática (para os próprios) do que constitui efectivamente uma celebridade. Dificilmente se pode dar crédito aos meus pruridos retóricos da caça à luminária estando a generalidade dos seres algo pensantes a borrifar-se para quem são (eu próprio tive que ir verificar parte dos nomes da unwilling pandilha) Mike Sary, Steve Fuller, Nicolas Masino ou Renate Knaup (e esta ter-me dado um autógrafo fugidio com "love" e o meu nome lá pespegado, quando, pelo fugidio, só esperava uma assinatura para poder vender no e-bay em caso de carência futura, fez-me sentir-nos bastantes conspurcados por uma espécie de mercantilismo emocional - alienação não tão pós-marxiana - com a desvantagem da assepsia); ou tendo eu como trauma por deflagrar, a probabilidade de, tendo sido arrastado em grupo de méconnus do cavalheiro para o assédio pós-concerto, o Odair Assad ter reagido com um mal-contido "Pelo amor de..." ao meu desconfortável salamaleque para assinar o programa (estou certo, porém, que foi apenas um acesso espontâneo de religiosidade); ou, apesar de ter participado na emboscada à boca do palco, a bem-educada relutância do Hammill à adoração tendo propiciado ser um amigo, e não eu, a arranjar-me o autógrafo (num hábil dois-em-um) do cavalheiro num LP; ou também, tendo descoberto que o vinil do "Olho de Fogo" do Janita que comprei num mercado estava autografado para uma A.M., para mais "com um abraço forte do Janita"!, o que me fez novamente lamentar a potencial frivolidade destas sígnicas (presumíveis) afeições; ou, principalmente, desta feita, já não sabendo minimamente a quantas ando. You figure it out.
Portanto, no meu little corner of the world de misantropia ressabiada, a escala Warhol de contabilização de close encounters de mundanos com celebridades, só pode, para minha paz de espírito, ser encarada como uma wanna-be falácia (estou cônscio da contradição) travestida de cosmopolitismo algébrico (razão pela qual vou sobrecompensar continuando a chafurdar-me em ainda mais assorted anglicismos). Abro uma excepção na minha desdenhosa mesquinhez, quando muito, na eventualidade de alguém se poder gabar de ter feito cosquinhas na barba do Herberto Helder.
Agora, the real game, the big game, Hatari-style, if you will, são de facto, o celebrity-reversal e o celebrity-uncovering.
O celebrity-reversal consiste, naturalmente, em tornar-nos o objecto da atenção da celebridade, desconstruindo a falácia da necessária unidireccionalidade desse campo de energias. Para evitar potenciais trágicos na sequência de semelhantes intentonas, obviamente que a reversão tem que estar ancorada nas excentricidades inofensivas do self, não impondo dispositivos coercivos de encarcerar essa atenção, ou será desqualificada por emprego indevido de meios artificiais e improficientes (qualquer forma de imolação, por exemplo, não dá as mínimas garantias e seria, argumento-chave, francamente patético).
Um exemplo clássico da minha mestria nata nesse campeonato, por supuesto mantendo-nos no pressuposto facilistista-faz-de-conta-que-é-desconstrutivista do "que é uma celebridade?", foi ter-me deparado, numa casa de espectáculos (chamemos-lhe assim) enquanto se aguardava o início de um concerto e se ouvia umas tunes, com uma vaga celebridade parcialmente blogosférica, com a mal-disfarçada volúpia incrédula de quem descobre em outrém um objecto de ridículo superior, especada em mim, após este vosso ter terminado no seu cantinho um intimate albeit somewhat public playback sonoro do «Pleasant Street» (com o falsete e as oitavas todas espremidinhas). Mas tende calma; ainda que este cenário ameace tornar atractiva a hipótese da imolação, o seu poder é precisamente o de sinalizar no corpo, mimeticamente, o quanto a substância da fama, particularmente nos escalões mais rebarbativos, não se encontra necessariamente geminada com qualquer forma de talento, e que realmente, não se discerne, ao assistir novamente ao "Silence of the Lambs", que constitua feito distintamente assinalável o Anthony Hopkins passar um filme inteiro a imitar um furão.
Já o celebrity-uncovering, emana a sua recompensa, no registo são e maduro de auto-confiança (do predador) e liberdade pessoal (da presa), da incorporação de uma familiaridade desinteressada com o objecto de atenção que permite, em condições ominosas, sermos atingidos pela epifania da sua identidade secreta, e deixá-la seguir anonimamente o seu caminho (como quem caça sem balas no rifle, mas na verdade não caça, apenas se depara com a presa, e por acaso tem o bacamarte à mão, mas não é gente belicosa) - obviamente, na disposição perfeitamente oposta ao jeito pueril que desconhece as fronteiras do obsceno, epitomizado na triste caça fotográfica ao recôndito Pynchon, comentada, por razões óbvias não direi exactamente onde, mas algures por, onde mais?, aqui, em jeito de expiação colectivizada pelo leitorado cusco, caçada essa que ironicamente acabou por trazer antes o Stephen King, que é como quem diz o Lou Reed, de volta para o acampamento, o que tornaria simbolicamente a Pynchon-Cale connection um campo de especulação existencial de proporções comprovadamente inapreensíveis pela patética semiótica da money-shot).
O caso mais recente que me ocorreu nesta modalidade, curiosamente, foi avistar um sujeito de chapéu de coco a admoestar o gerente da fnac do Chiado pelo facto incompreensível (indeed) de não terem uma edição em vinil 180 gramas da obra-prima proto-punk-prog dos Happy Guillotineros; a oferecer os seus préstimos na Bertrand para traduzir o «Against the Day», a preço de custo(?), em semana e meia (e não era o Miguel Serras Pereira), para "colmatar essa chaga purulenta, no já de si macilento - saggy, na verdade, poupo-vos à metáfora original - panorama da edição portuguesa"; e a dar um bacalhau ao Rui Veloso no pub O'Gillin's, desabafando, enquanto meneava a cabeça, "somehow, it's not the same..." (embora ao chegar a mince pie à mesa se lhe tenha ouvido, em suspiro de alento, "closer...").
Entretanto o Herberto que se ponha a pau, e a farfalhice a jeito: he's coming next...

Space Jazz With Me

« Está assente que o Carlos Barretto é dos contrabaixistas com c grande que dispensam mais adjectivos, por isso já poupámos umas linhas. A partir do trabalho prolixo que tem vindo a desenvolver em parceria com os nada menos estimáveis Mário Delgado e José Salgueiro, têm emergido alguns dos registos mais estimulantes do jazz recente em Portugal, e este agrupamento mais expandido e plural, In Loko, com Bernardo Sassetti, João Moreira e Hugo Meneses, pretende estender esse entusiasmo por mais instrumentistas e tantas outras vias expressivas.
De ambição sincrética no cruzamento de estilísticas, a genealogia do projecto aparece pela linhagem do jazz-rock, mais, diríamos, do que da fusion. Pelo menos, sendo esta entendida como lavra de virtuosismo tantas vezes estéril. Em certo sentido, há muito mais um entendimento musical do trabalho sobre o material e o puro som que está mais próximo da ambiência genésica de “Bitches Brew”. Particularmente assim é, et pour cause, no trompete de João Moreira (em certo sentido, o músico que ali se levou a si próprio mais a sério), num estilo subsumido, algo distanciado, e sim, a dar para o cool, que não deixa de evocar o timbre de Miles Davis. Contudo, num ensemble mais democrático, as equivalências cerceiam o mimetismo, e antes de mais, este In Loko impõe-se, bem mais musculado, como uma máquina danada de groove, desde logo alimentada pela secção rítmica firme de Salgueiro e a variação tímbrica das percussões de Menezes (com o feel das congas a não faltar). As síncopes e sentido de adesão rítmica (típicas das malhas sempre irrepreensíveis de Barretto) tomam as rédeas dos temas, apesar de no seu desenvolvimento a voracidade dar azo a reverberação rock (que só dispensavam a denúncia pelo kitsch das luzes epilépticas), emanações psicadélicas e investigação atmosférica. Curioso, aqui, o scherzo cósmico entre Sassetti no Fender Rhodes e Mário Delgado na guitarra tratada, numa palpável constelação de blips.
Nesse domínio de exploração tímbrica, se não pudemos apreciar plenamente a arte de Sassetti, muito longe da sua contenção recente, foi indubitavelmente lúdico assistir ao prazer visivelmente juvenil com que abraçou a novidade de explorar o teclado futurista e lisérgico do Fender Rhodes, em jeito ora de frenesim harmónico, ora de impressionismo esotérico.
Também nessa sede exploratória, deparamo-nos com a incorporação de tratamentos electrónicos das vozes instrumentais, multiplicando fontes de reverberação e surpresa. A novidade resulta indecisa no juízo: por vezes, o tratamento, pelo menos ao vivo, pode arriscar interferir com a fruição do fraseado, como ocorreu ocasionalmente com a guitarra de Delgado (para nossa particular frustração). Quando é incorporado num desígnio estético peculiar, contudo, os resultados podem ser muito felizes, como quando Barretto (ainda que tendo que compensar a quase interrupção do andamento para ligar ruidosamente o pedal), ampliando em eco a vibração do instrumento, e combinando no uso do arco legatos e staccattos percutidos, transformou literalmente o contrabaixo numa máquina lírica de breakbeats.
Parece razoável, no entanto, antecipar um cuidar mais atento do organicismo da exploração, que não deixa aqui e ali de abraçar estranhamente certas convenções (solo de bateria incluso), e não ligar plenamente o fluir das transições, criando, a espaços, um certo clima de indecisão, que sendo prazeiroso no gozo com que os músicos manuseiam os instrumentos, nem sempre favorecerá a textura da interacção (daí porventura a necessidade ressentida de manter canónicos compassos de improvisação solista), e pode não ser propriamente o patamar de identificação estética com que se querem comprometer. No fim de contas, o cliché cumpre bem o que se oferece dizer: a coisa promete.»


sábado, 26 de maio de 2007

When all else fails...

we'll still have videogames

...

ooooooor "we can whip the horse's eyes and make them sleep and cry"...


(não, para o caso de a Associação de Defesa dos Animais não ter na lista de espécies a proteger o Lizard King, esclareço antecipadamente que não fui o moçoilo do Equus. Quanto mais não fosse por diferencial anatómico (sei que já estou a abusar, mas é por uma causa medíocre). Falo do filme, claro, Sidney Lumet, Richard Burton, e tal (humm, neste "tal" alojando-se velhacamente um actor sob a alçada, intransponivelmente parca, no matter how high your hopes, do seu big penis), não da mais recente e famigerada encenação da peça. Apesar do vago corrupio internético de fruição vagamente iconoclasta que se contenta com o fecho éclair em lugar da picareta, escapei a espreitar lá o que ocultavam as culottes do ex-miúdo Harry Potter pelas fotos que para aí correram. Antecipo que mesmo em indiferença libidinal, a visão da exposição não deixaria de sugerir que me sentisse algo porco. Se o passado é um país distante, leva o seu tempo a lá chegar, e enquanto se afasta esfuma a liminaridade das fronteiras)
(e sim, nego à partida uma zoofilia que desconheço)

domingo, 20 de maio de 2007

sábado, 19 de maio de 2007

Para o Vasco Barreto

Não me dou bem com polémicas, particularmente com escribas que aprecio. Presumia que o comic relief do post anterior evitasse mazelas, mas suponho que do lado da recepção tal possa legitimamente ser interpretado como mera cobardia retórica. Nestas coisas, uma palavra, um tom ambíguo bastam, e não terei cuidado suficientemente de evitar a possibilidade de personalização(que não era a intenção, apenas acordei para a discussão com os seus textos, e neles vislumbrei matérias não questionadas). Precisamente por isso, deixo apenas umas notas concretas sobre a matéria:

- a picardia da pulga, é de facto uma picardia, que se ajustava ao argumento, não a uma sua qualquer reivindicação explícita de autoridade. Contudo, a pulguinha de Hooke, para lá de um marcador temático, assinala a familiaridade do autor com a área da biologia, investindo-o, por definição, com autoridade credencial, critério que outros consideraram quasi-excludente nesta discussão (it's really not all about you). Mas não deixou de ser na base da neutralidade científica (aqui metonimizada pela estatística) que pretendeu ancorar a validade os seus argumentos (digo eu). Claro que só leitores mais aturados ou fiéis o saberão biólogo, mas aí, essa é condição pela qual não encontro grandes razões para me vitimizar, ainda hoje.

- assinala em mim uma retórica de vitimização e anti-homofóbica. Não recordo ter-me reivindicado ou encarnado vítima e/ou afiliado de nada, e não entro em discussões racionais com declarações de interesses (preconceito iluminista). Poderá a sua semiologia estar mais afinada que a minha. Se assim não fosse, esse seu descartar de certos argumentos soaria a, chamemos-lhe, retórica de vitimização invertida, óptima muleta de desconsideração e menorização argumentativa de outrém, como irredimivelmente refém de fidelidades grupais e interesses individuais. Seria bastante desadequado para a pretensão de argumentar racionalmente, ainda que o interlocutor não valha o esforço. Quanto a isso, e ao mais, seria o último a fazê-lo sentir-se obrigado a dar-me troco: não pretendi forçar argumentos inanes com a pressão de qualquer righteous indignation (era mesmo comic relief). Se foi essa a sua impressão, o que tem a fazer é, logicamente, ignorar-me à discrição.

- se efectivamente tivesse encarreirado numa vitimização, e discussão de explicitamente hidden agendas discriminatórias, teria pegado à cabeça na, aí perdoe, triste "graçola" do último parágrafo do seu primeiro post sobre o assunto, equacionando jocosamente (partilhamos pelo menos o problema do comic relief), em termos paralelos, a homossexualidade e, lá está, uma plêiade de comportamentos de risco - se o Vasco Barreto verifica com inteira justeza que nada de novo eu disse sobre grupos e comportamentos de risco (era chato não estar a fazer render pensamento inovador para lá deste pardieiro), a sua piada sugere que, mesmo em repeat, ainda não se ouviu é falar o suficiente sobre a matéria.

- já agora, porque se estou aqui só pelo desporto, não estou aqui só pelo desporto, uma nota sobre a questão da toxicodependência, que não tinha aflorado, mas vi-o empregar na resposta ao Bruno. A questão da exclusão de toxicodependentes da doação de sangue é certamente discutível, mas parece-me conter matizes menos problemáticos que a exclusão de homossexuais. Em primeiro lugar, estou em crer que o critério concreto de exclusão se prende com drogas injectáveis, não toxicodependência em geral. Em segundo lugar, presume-se que esteja comummente associada à toxicodependência, ao fim de determinado tempo, a degradação de algumas funções cerebrais. Presumo que a capacidade de exercer um juízo de memória e consciência sobre a adopção de comportamentos de riscos (o esquecimento de uma partilha de agulhas em situação de ressaca) pode arguivelmente ser suspeita comprometida. Se agora quiser argumentar o compromisso das funções cerebrais na homossexualidade, é consigo. Já agora, ainda que não seja comigo, não posso deixar de achar curiosa a sua invocação do "então e os toxicodependentes?" para uma discussão centrada na exclusão de homossexuais. Faz-me lembrar, parcialmente, um vago paralelo com as palavras rasantes de alguém, rezando «Noto também que faz parte da retórica anti-homofóbica inverter as posições (colocar os heterossexuais no lugar dos homossexuais, como grupo observado em vez de grupo que observa) mas neste caso concreto não faz muito sentido».

- em termos de argumentos, se ainda contar, uma precisão: o seu, na eventualidade de o ter percebido, consistia em considerar a comparação das prevalências estatísticas da infecção por HIV entre população homossexual e heterossexual, boa ciência para ajuizar da validade de exclusão de dadores homossexuais caso haja risco estatisticamente acrescido associado a esse colectivo estatisticamente construído. A questão que pretendi aflorar (pretensões leva-as o vento) estava a montante: saber se a homossexualidade, enquanto forma não inequívoca de categorização dos indivíduos (dos seus actos objectivos? da sua auto-identificação?...), assente estatisticamente em estimativas, e no entanto assumida como categoria "natural", é à partida uma boa variável de correlação com comportamentos de risco, na linha da causalidade directa da infecção; e se a sua aplicação como critério de exclusão num sistema de selecção estruturalmente falível, porque parcialmente assente na auto-exclusão, seria proficiente - e isto estritamente para efeitos de saúde pública. Não repetirei porque opino, sem autoridade (não estudei empiricamente a matéria), não só que não, mas que pode ser contraproducente (sem entrar sequer na questão tida colateral do reforço social de estereótipos e suas consequências, que as tem, como o provável acréscimo dos fenómenos de marginalização e exposição a, cof, situações de risco) - acrescento apenas que a inclusão da homossexualidade possivelmente alargaria as malhas da triagem, não o inverso, enquanto chapéu de comportamentos menos específico e como tal menos susceptível de auto-identificação, que a concretitude da inquirição de variáveis directas de risco (ainda que a mesma também não seja matéria simples). Mas se passou ao largo da sua inquietação com a saúde pública, certamente não passava de frescura de antropo-sociologia.

- ainda a respeito das debilidades da engenharia social do dispositivo de triagem (para mim, a questão sensata de saúde pública), e da correlativa redundância da inclusão da homossexualidade enquanto categoria de auto-exclusão, deixo-lhe as contradições da sua pena, para que meça, e reflicta mais relaxadamente, pelas palavras próprias, o aquém, na sua posição, do rigor de uma regressão linear: «Infelizmente, não podemos fazer com que o sistema dependa do juízo que cada um faz dos seus actos.»; «A verdade é que, em muitos casos, dar sangue ou não é uma questão que o indivíduo deve resolver com a sua consciência.». Em que ficamos?

- anular a relevância de um questionamento dizendo que se trata de um mero cliché ideológico não combina francamente bem consigo. Se o único critério para aceitar a exclusão ou não de homossexuais como dadores é a comparação estatística da prevalência do HIV entre homossexuais e heterossexuais, não percebo (o que não equivale a sugeri-lo, atenção) porque é que, cientificamente (já socialmente, pode argumentar o breakdown dos stocks), o critério não é operatório para ambas as populações: something's missing. Explicar essa diferenciação, parece-me aqui a coisa "científica" a fazer. É tão simples e tão não-cassete-programática quanto isso.

- explicar essa diferenciação consequencial na aplicação de um mesmo critério a duas populações diversas, dizendo que isso se deve ao HIV ter-se expandido originalmente a partir da população homossexual, é não só absolutamente nebuloso para a minha limitada cognição, como implica sugerir que o seu argumento estava colocado numa perspectiva histórica. Sejamos honestos: só com muito revisionismo seria o caso. Logo por essa razão, não lhe podia ter assacado intenções moralistas (a última citação não lhe dizia respeito) - paremos de brincar às vítimas. Mas como ninguém é tão nerd para andar feito catatua a repetir factos à toa, convenhamos que introduzir um facto qualquer num contexto discursivo é feito em função do poder argumentativo que para uma posição determinada desloca. Em relação à invocação do facto no contexto desta discussão, se não quer retirar consequências de proporções bíblicas, parece-me que o sensato é acordar que o facto não veio aqui fazer nada (a menos que se quisesse partir para a discussão histórica - e mesmo aí, a questão não era tão linear, mas era igualmente improcedente, pelo que me fico).

- assinalo a reiteração em loop da minha falta de originalidade (não o sabia critério) argumentativa, incluindo a discussão emanada do seu texto no 5 dias como origem de algumas das ideias que reproduzi. Como seu leitor (there's the bitchy ironic victim again), e do blog em questão, já o tinha realmente lido, mas as considerações que daí me surgiram, teci-as a seu tempo. Vejo que lhe passaram ao lado, e good for you: mais do mesmo. Em nome, quanto mais não seja, da reciprocidade, mesmo com 99% de certeza que não lhe interessarão pevas, aqui ficam

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Vira o disco and it's Village People all over again

É também um dado científico que parece ainda não ter entrado no senso comum, ou sequer científico, que a ciência e a técnica que os homens fazem se constrói, não aparece assim feitinha. E é o que se denota quando todo o mundo abocanha essa coisa do "homossexual", e tem na prática consciência do carácter problemático do que semelhante conceito social designa (quando se desce aos critérios definitórios, francamente ainda não sei bem quem é que sabe o que, ou quem, é homossexual), mas emprega a categoria para a sua magia e evidência estatística como se designasse uma realidade translúcida, rigorosa e inquestionável. Vem isto a propósito do debate sobre a exclusão de homossexuais, por entre outros critérios (de causalidade directa ou extrapolação "heurística"), para a doação de sangue, que me surgiu, na minha misantropia selectiva, pela prosa do Vasco Barreto (em modo de subliminar autoridade científica encimada pela pulga de Hooke) novamente (sorry, e garanto, parece que convirá esclarecer, não ser ad homo, perdão, ad hominem), mas a ciranda passa por aqui, acolá, acoli, e outros links nesses links, que eu estou cansado...
O que particularmente me encanita (porque do resto f. já se encarregou mais que cabalmente), é a pretensão de brandir argumentos científicos e técnicos, com o efeito colateral ou direccionado de exclusão automatista (acento no automatista) de quaisquer outras considerações "mundanas", quando, curiosamente, essa argumentália parece não se interrogar sobre o rigor e validade dos pressupostos e fundamentos em que assenta.
Pessoalmente, não posso deixar de achar irónico que se pretenda determinar com uma razoabilidade técnica a ponto de autoridade, sem consideração de qualquer ponto problemático, um determinante de exclusão de presumíveis indivíduos homossexuais da doação de sangue, a partir de dados estatísticos comparativos de prevalência da infecção por HIV entre essa presumível população e a população heterossexual, se levarmos em consideração que esses cálculos de proporções dependem de meras estimativas dos universos respectivos, mesmo alargando-se os patamares de significância estatística.
Dentro da ainda mais irónica ingenuidade conceptual de tomar a homossexualidade como categoria inequívoca (at face value?) de classificação dos indivíduos, acho ainda mais piada que se considere que, na ainda ausência de testes genético ou coisa que o valha para identificação de homossexuais (damn!) para os pôr finalmente devidamente etiquetados no lugar (enfim, com umas lantejoulas para se entreterem, somos humanistas, caramba), se considere que a exclusão pelo critério da homossexualidade, tendo que ser auto-declarada (não conheço outra maneira, a menos que os técnicos de selecção estejam orientados para a busca a maneirismos, que claro TODOS os homossexuais portarão, juntamente com o sangue contaminado) seja uma forma proficiente de minimizar a entrada no sistema de indivíduos com reais riscos de transmissão de doenças pela doação de sangue. A questão muito simples é, obviamente, e apesar dos problemas novamente das estimativas (I'm no better), que provavelmente boa parte das pessoas que têm comportamentos homossexuais, ou deixando-nos de parvoíces, comportamentos sexuais de risco (para o caso, keeping up with the argument, com indivíduos do mesmo sexo), nem se reconhecem identitariamente (muito menos publicamente) como homossexuais (e pela natureza clandestina dessa sua porção de prática sexual, muito provavelmente se encontrarão com maior facilidade em circunstâncias de risco), e no entanto, na "verdade" das suas consciências, não são abrangidos por semelhante critério, e facilmente não se auto-excluirão - duvidoso, e único, critério desta generalizante selecção, o que deixa como real questão, que fica na polémica por considerar, o problema da eficácia das próprias lógicas de base da inquirição na pré-selecção para a doação de sangue, a que a introdução da questão da homossexualidade nada adianta.
O que ainda é mais irónico (it never ends), é que tais circunstâncias de prática sexual clandestina são favorecidas precisamente por essa coisa que nunca está em jogo nestas discussões tão elevadas, que é a discriminação (e não estou a pôr isto em termos de "direitos", atenção), contida no próprio uso da categoria homossexual. E é nas pequenas coisas que se vê o quanto a categoria, pretendida ser empregue como descritor tecnicamente a-problemático do real, não é usada de forma neutra: por exemplo, colocando-se a razoabilidade técnica de a presumível população homossexual ser excluída da doação de sangue se tiver, de forma estatisticamente significativa (let's pretend), maior prevalência de infecção com HIV, mas não se colocando sequer a hipótese inversa se a prevalência for maior na população (essa tem que se auto-declarar?) heterossexual.
Suspeito bem que mais ali atrás já se poderá estar a dizer que "o gajo (eu) está a ser capcioso", e que basta substituir, como alguns contendores já fazem, "homossexualidade" por "homens que fazem sexo com homens" (no caso dos homossexuais masculinos, claro, acho que as lésbicas ainda não estarão assim tão à frente), nos critérios de exclusão, e a questão resolve-se. Como não me apetece entrar em psicanálises da profundidade do self-denial ("se faço sexo com homens? claro que não!, sou eu que mando as trancadas às segundas no Parque Eduardo VII, não apanho!"), ou da fundamental distância entre a pragmática humana e a abstracção racionalista, a falácia continua a ser razoavelmente igual: o comportamento homossexual ser epitomizado como comportamento de risco. Se é preciso lembrar a tragédia, foram erros conceptuais da mesma estirpe, como a identificação de grupos de risco (e não comportamentos e situações sociais de risco), no início da epidemia, que favoreceram a situação presente de acréscimo de incidência da transmissão do HIV em populações que, não sendo identificadas como grupos de risco, continuaram tranquilamente a desenvolver os ditos, os propriamente da Bayer, efectivos comportamentos de risco.
Até se perceber que, conceptualmente, não é a "homossexualidade" que tem que ser chamada à partida para esta discussão, as investidas travestidas (et tu Brutus?) de tecnicistas a fomentar o debate nesses termos parecem ser tecnicamente improcedentes ou contraproducentes (apesar de toda a gente ter apenas e tão só a saúde pública no credo) e/ou enfermar de certa ingenuidade científica. Para esses casos, será talvez de considerar que, particularmente nessa chata turbulência dos fenómenos sociais, e particularmente quando se brinca às engenharias sociais, a fixação na explicação mais "evidente" (como tal, menos questionada), mais prêt-à-porter, mais simples, a la Occam's Razor, por vezes arrisca redundar apenas em simplismo. Para os casos em que se lêem coisinhas, só com aval científico e pura neutralidade enunciativa, como «a fonte fundamental de “democratização” do HIV é/foi o inter-cruzamento entre os diferentes grupos de risco originais e a restante população», oh tão inocente enunciação do mito da origem da epidemia a mascarar o facto de a democratização (relativa, calma lá) do HIV ser largamente uma inevitabilidade biológica e antropológica (excepto num mundo de assepsia sanitária e moral que nem se percebe como ainda não foi parido), percebe-se que às vezes já nem é ingenuidade, não é?...

(vá lá que desta feita não falei em Foucault - doh!)

(este testamento foi salvo da obliteração, no próprio dia em que se me apresenta a existência de semelhante feature, pelo autosave do Blogger. Pela autoridade do destino assim revelada, quaisquer contestações fiquem-se pela evidência: this post was meant to be)

sábado, 12 de maio de 2007

"Will you marry me now?"

«Ao que (não) nos consta, foi pouco trompeteado este concerto, e falta-nos perceber porquê. Será todos os dias que dois criadores de jazz da envergadura de Martial Solal e Dave Douglas, numa reunião de gigantes de dois continentes e duas gerações, partilham a intimidade desafiadora de um concerto com os seus piano e trompete, invulgar união de facto, como únicos protagonistas? Convirá talvez dar mínimo registo que não, não será todos os dias.
Se o jazz tende a requisitar mais vezes o emprego da dispensa de palavras para dele falar, não restará muito a grafar desta ocasião. Aos primeiros sons, cuida-se que bastaria sinceramente a estrita materialidade do tão preciso e maleável manusear dos instrumentos por tais mãos para esgotar mais considerações sobre a sua matéria expressiva.
É curioso, no entanto, verificar como as divisórias oceânicas e etárias se esborratam na vivência quintessencialmente presentificada desta música. Com uma primeira parte assente nas composições originais do disco de 2005 («Rue de Seine») que assinaram em conjunto, não deixa de provocar um sorriso que seja o decano Solal a mais erigir a irreverência digital no instrumento, e que a exploração mais denotadamente melódica e lírica se quede na coutada das composições de Douglas (a voar mais alto no seu «Blues to Steve Lacy»), apesar de o mesmo se encontrar notoriamente em noite de exploração tímbrica, por todos os orifícios do trompete. Essa, aliás, uma nota fulcral para a compreensão do sucesso deste encontro matrimonial (como Douglas de alguma forma propôs – faltando só pôr-se de joelhos, certamente por pudor): o carácter profundamente lúdico que instala um quase permanente espaço de jogo, por vezes literalmente humorístico, na fulcral interacção instrumental, para lá da fixidez das balizas improvisativas.
Para aquela transgressão (inerente à norma jazzística) da expressão fixa, cuidamos igualmente essencial a matéria de que se faz a veterania heterodoxa de Solal. Particularmente heterodoxa, porque alimentando a sua subversão de bilros num persistente desafio à (efeitos da história) ortodoxia do que se foi fazendo jazz. Operando num incansável jogo de contrastes e tensões, o facto é que a mnemótica, hoje tradicional, do jazz, se vai emergindo aqui numa figura rítmica, e acolá numa dobradinha harmónica, vai sendo no mesmo passo desconstruída na sucessão de pausas e repentes abruptos, suspensões e arroubos controladíssimos, que operam muito na linguística arrevesada e angular de Solal, como que tentando extremar, sublinhando como que entre um e outro lado do espelho, o valor expressivo de cada figura musical. A sua originalidade vai pois desenhando um edifício esquisito (etimologicamente), em que a diversidade de materiais se sobrepõe, como quem juntasse tijolo e muralha medieval, para produzir uma unidade híbrida e singular (mau grado o desconchavo da metáfora), mesmo que podendo ter que digladiar-se mais explicitamente com o risco de automatismos. O mesmo, em larga medida, exemplificou, já no espaço do concerto dedicado aos standards, no seu ataque de cavalaria à, já de si nada mansa, «Caravan» de Ellington, arrastada e resgatada das águas pelos tempos e figuras peculiares da arte profundamente dinâmica de Solal.
Fora tal arranque, contudo, terão sido as explorações dos standards que, apesar de tudo, menos nos entusiasmaram na (ainda que muito) relativa domesticação do espaço para a verve subversiva (apesar do reboliço gozão de um medley final) que mesmo o pendor do momento mais lírico de Douglas não coarctou, antes, novamente, valorizou em contraste, e que o mesmo não deixou, por certo, de igualmente protagonizar, ainda que suspeitemos, sob o signo de certa modesta reverência.
Dizia-se que o jazz pede poucas palavras, e que este concerto as concitou por tão pouco alarde parecer ter suscitado. Termine-se pois com um pouco (estruturalmente) menos que a evidência: um singelo privilégio, amiguinhos, foi o que foi.»

o título ficou a vegetar no sofá

Vegetando em frente ao ecrã benzodiazepina-visual, deparo-me com publicidade da TVCabo aos seus engodos pagos em suplemento, para o caso, o "Canal Disney", e deleito-me com os requintes retóricos da publicidade.
Toda a cascata dos inúmeros atrativos do canal se verte na sedução paternalista do "tu". "Tu não sabes o que estás a perder", "vais ter horas e horas de diversão inane e moralista" (bela combinação), "vais conseguir fazer regredir a idade mental dos teus pais à civilização oral ao forçá-los a ver episódios em loop do Ursinho Pooh até, quando tiveres 14 anos, estarem no ponto de acreditar que o cheiro a tabaco no teu casaco é de um repulsivo fumador - fazer esgar de nojo - ter bafejado para cima de ti no elevador", ou algo dentro destes parâmetros... Até que, sharp as a knife, a última frase faz o câmbio para o "você" que paga a conta, e profere: «Adira já».
Assim de repente, talvez não fosse mau exemplo do persistente anacronismo do direito face à mudança social, face a estes infindos e maquiavélicos apelos ao esforço das criancinhas salivantes para massacrarem as figuras paternais a cederem ao acréscimo de despesas mensais, ainda não se terem alargado os termos de definição jurídica da exploração do trabalho infantil.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Requiem for the West

« Aos Henry Cow se deve muito, muitíssimo, na subterrânea persistência de algumas luminárias em conceber a música popular como campo de experimentação feroz, ao lançar algumas das sementes que permitiram a subsistência da criação de relevâncias estéticas inauditas, bandeira dessa fugidia coisa, à época a devir quase exclusivamente caricatura grotesca de si mesma, que alguns chamaram progressivo. O mítico concerto Rock In Opposition (RIO) que organizaram, do qual participaram a maior parte dos nomes que carregariam a bandeira de exigência musical (des)comprometida para a robótica sonora dos anos 80 (que nem só de pós-punk vive um homem, para o caso), é basicamente o momento fundacional da pertinência estética de ainda se falar em renovação da criatividade no que seja esse elusivo movimento.
Contudo, mais que cunhar essa marca RIO (por mais internamente complexa que seja o que acolhe, e é, o que a torna quase “meramente” simbólica dessa atitude de exigência e desafio), cujo fechamento estético, aliás, o seu ideólogo (pelo lado politizado) Chris Cutler sempre devidamente rejeitou (perigo a que alguns se não esquivaram), devemos aos Henry Cow primeiramente o exemplo e a concretitude da sua música, de uma obstinação na demanda estética inspiradora, de rara.
O percurso tortuoso dos Henry Cow sempre se pautou por uma busca irredutível de formas de exprimir liberdade estética sem compromissos facilitistas a qualquer programa pré-estabelecido. Daí, o tortuoso do percurso - principalmente após o tom ainda jovial do desafio, quando os escolhos não eram evidentes, no iniciático e já seminal “Leg end”(1973). Fazendo apelo ao jazz, à música contemporânea, à dissolução da canção na inspiração a traço grosso da dupla Brecht/Weill nos álbuns com os Slapp Happy, à produção de frescos tenebrosos sobre a decadência da história política do Ocidente, os Henry Cow formaram no seu tempo de existência um dos combos mais visceral e constitutivamente desafiadores, como só na música popular o poderiam ser (no seu lado de politização), das barreiras musicais que arregimentam os corpos a partir dos ouvidos. E após os seus anos de duelo incessante com as formas musicais, erguem, para memória dos tempos futuros que não mais protagonizariam senão como espectros ou outros corpos criadores, porventura a sua obra mais acabada e ostensiva, e com a mesma indomável e acirrada ousadia que sempre os guiou. Narrativa musical da decadência histórica de um entendimento dessa coisa chamada modernidade, “Western Culture” (1978) encena uma peça de câmara do lento descambar que os totalitarismos vários habitando esse pináculo prometido de progresso vão nos seus dilacerantes espasmos arrastando (conferir a arte de capa, de Cutler, e os títulos das composições). Para desalmado espanto, fugindo a qualquer mecanismo programático para bombear o negrume, o disco vai desenhando uma viagem através dos escombros dos aquéns terrestres com desesperante clareza imagética, carregando ao pormenor no bojo das notas, paisagens, utopias e desenganos, emoções e arroubos, tingidos cada vez mais pelas nuvens de desalento desvalido que inscrevemos na história colectiva e juncam a jangada que se prometera conduzir por luminoso progresso. É uma obra que ainda soa a requiem civilizacional sufocado na poeira e sombras de construtos derribados de pós-guerra (prelúdio e fuga para “Germania Anno Zero” de Rossellini?), como já soavam os encontros dos Henry Cow com os Slapp Happy (estes com a distracção macerada de cabaret), mas já não ancorado na sua mnemótica sonora distintiva, antes no sentido de falência moral colectiva, sem nervo sequer para a incredulidade. Nesse cenário imagético da história mais recente que se gostaria (no reacender cíclico dos seus fantasmas), discorrem hinos nado-mortos, elegias inacabadas, recortes arruinados de abrigos humanos, lamentos e iras calados em compassos catatónicos, descabeladas marchas para nenhures só para manter as incertas promessas genésicas do movimento e inquietação. Numa arritmia decadente (em certo sentido, como se dissera de Schöenberg), a guitarra de Frith derrama ácido (de baterias), a bateria de Cutler já letárgica ainda martela e estilhaça em espasmos irregulares de maquinaria falida os restos de uma civilização (nada de fascínio industrial aqui), os sopros e teclados de Lindsay Cooper e Tim Hodgkinson dispensam réstias de desencanto (memória, dissipada, dos encantos) e estrebucham o estertor de povos iludidos por estandartes futuristas e promessas rio acima, que se descobrem fora d’água.

Painel de desencanto tão feroz como ponderado (dialéctica de lucidez), urdido numa imbricação microscópica das fortes vontades criativas de cada protagonista instrumental (apesar de ser obra composta apenas por Hodgkinson e Cooper, cada um, cada lado do vinil original), este é um documento basilar e único de ponderação sobre os destinos da história, manifesto de exigência política e estética a elevar a música popular a alturas de interpelação cidadã dificilmente igualáveis, sem valência maniqueísta na forma. Por esse gesto, de admirável conseguimento e visão, independentemente de afinidades ideológicas, mais que um monumento, “Western Culture” pertence ao cânone exíguo das obras exemplares.»

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Assimetrias

A consciencialização dos viés de diferenciação e hierarquização social faz o que pode, e o que pode é ir-nos denunciando no mapeamento que fazemos das nossas incursões universo social afora, e o caminho porventura (mas apenas porventura) desvelará as margens terrosas. Dou assim por mim a verificar uma insidiosa e inescapável bifurcação na degustação das palavras dos blogantibus que aprecio: os presumivelmente masculinos tendem a injectar-me venenosa inveja, e os presumivelmente femininos deixam-me maior margem para refastelada admiração. Não sendo questão de diferencial de apreciação, só posso supôr encarreirar danadamente ainda na falácia de engendrar uma comparação da medida do self circunscrita aos presumíveis pares, como se de desporto de competição (é assim que se diz?) se tratasse (sendo que em xadrez também o fazem, para incredulidade minha). A única coisa que ainda me falta perceber é porque raio, nunca me tendo beneficiado antes, ainda envergo a fita métrica.

Contra factos...














Nunca atribui grande crédito (conceptual e monetário) a lojas de discos em segunda mão (excepto os apetitosos vinis, que com a crescente lentidão da minha grafonola estou em crer que a minha esperteza saloia vai deixar de ouvir por quem sabe quanto tempo).
Porque motivo é que alguém se iria livrar de gravações apetitosas que justificassem o investimento, a menos que estivessem danificados?














Poderíamos contar com um desaguar contínuo de títulos meritórios apenas explicáveis pela falência de outrém (a configurar a oportunidade do abutre), ou pela estultícia alheia ser tão clamorosa que angarie preciosidades a preço reduzido para os presumíveis sages do caixote das promoções subestimadas?













Continuo sem resposta, mas com algumas visitas no currículo a tais lojas e secções, mesmo sem a segurança da enunciação de mecanismos causais explicativos, sou empiricamente forçado a conceder que lá bons argumentos têm eles (enfim, tinham...)








segunda-feira, 16 de abril de 2007

A caducidade dos espaços

Ressenti de há uns tempos para cá uma plena saturação relativamente à divisão da casa onde até hoje empreguei a centralidade dos meus esforços de trabalho (esforços, porque chamar ao que deles sai trabalho é ofensa capaz de unir os proletários do mundo inteiro – incluindo os proletários intelectuais). Muitas horas de clausura, lascas e fragmentos de existir acumulados no tapete (pronto, é caspa), demasiados raiares inapelados, ecos vizinhos incautos ou displicentemente intrusivos, o espaço sufocado do que não mais comporta.
Mudei-me para a sala, nas noites cativo, aparelhagem em volume obscenamente baixo cuidando de outros embalos acolhendo a minha mínima companhia.
Oscilei para a cozinha, colunas de 1 euro e meio a tentar conferir um pouco mais de dignidade à projecção de som de vil portátil de 1976, entre muesli e as bananas que não se comem e se persiste em comprar.
O aparato da mudança, a dispersão dos materiais, as solicitações acrescidas, não são, não obstante, óbice. Sei que não me perturba de momento a caducidade dos espaços. A eles devo virtualmente o único motor do meu movimento, o simulacro constitutivo de persistir. No entanto, suspeito ainda guardar nostalgia antecipada de deparar algures, no novo ou no conhecido, com o mito, feito arquitectura, de um ponto de retorno, o nosso porto de abrigo.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Beast on a leash


«Ele há coisas injustas, que as formas de organização da percepção auditiva produzem, e só muito arduamente se pode esperar rebater. Quem produz uma obra verdadeiramente singular (to say the least), sem par estilístico que se lhe veja, dificilmente pode sobreviver nominalmente a essa efeméride, principalmente se se trata de um primeiro álbum.
Os Comus mal sobreviveram do seu inaugural “First Utterance”, delírio pagão de guitarras e outras cordas como lâminas a chiar em ragas acústicas endemoninhadas e percussões obsessivas alimentadas com doses de sangue, suor e outros fluidos orgânicos extirpados em alucinados rituais sonoros, obra por demais radical mesmo para os tempos supostamente radicais de artesania do que por réstia de reconhecimento ainda se chamasse música. E os Comus reagrupados 3 anos após esse desvario ritual não sobreviveram de todo.
Renegado por todos, os próprios autores, a crítica e o público, o segundo álbum que a conveniência comercial da Virgin impulsionou na busca de estranhas sonoridades para um público em busca de algo novo a cada disco, a cada agrupamento, caiu silente nos cadafalsos da memória. Nem nas infindáveis recuperações dos mais diversos géneros associados a essa memória caleidoscópia dos anos 70 em que tudo o que da artesania ou da tecnologia saísse era música a tomar em conta, como se o som fosse recurso inesgotável de estímulos (e se calhar não se enganavam, apesar de a maioria dos resultados não o confirmar, mas as escassas confirmações serem prova eficiente?…) foi este “To Keep From Crying” resgatado, ao contrário de outros discos bem menores de tantas outras obscuras criaturas. A única reedição do seu material de que temos conhecimento (embora já deva haver para aí barrocas reedições japonesas a preço de incrustado de platina) é na recente antologia “Song to Comus” que reúne todo o material editado pela banda, incluindo um posterior single, esse sim, bem embaraçoso, editado a solo pelo seu chefe de fila, Roger Wootton. Sintomático: no livrete reproduzem-se fotos do primeiro disco, do extraordinário maxi-single “Diana” que o acompanhou (a sugerir outros caminhos, porventura ainda mais estimulantes e apurados, que a finíssima artesania do agrupamento poderia ter prosseguido, desacorrentada de uma fixação programática nos revolterares estridentes do horror), fotos da banda, de cartazes e notícias da época, mas do segundo álbum, nem uma imagem. Ponhamos os pontos então nos i’s no que a esta rodela esquecida de vinil diz respeito.
Porventura uma psicologia da audição às vezes dá jeito. Calhou, pelas excentricidades do acaso, que ouvíssemos este “To Keep From Crying” antes de “First Utterance”, e sem vícios comparativos, sem expectativas formatadas, e mesmo posteriormente tendo sido afrontados com a insanidade criativa do primeiro opus, mantemos o que nos ficou daquela primeira audição: o louvor de uma pérola da pop psicadélica contemporânea que merece ser escutada no seu singelo requinte pelos seus próprios termos.
Ou estamos muito implicados em querer reverter juízos históricos, ou os vícios da comparação são efectivamente fatais, mas escapa-nos por completo o opróbrio a que se sujeita ainda hoje esta colecção de canções. Seria talvez daqueles casos em que uma mudança nominal, dos próprios autores, permitisse fazer justiça à especificidade de uma obra. Porque é por demais óbvio que os termos criativos desta produção estão o mais radicalmente afastados do que o universo ameaçador e esgazeado de “First Utterance” materializava em ritualizada chacina sonora. A única proximidade é sugerível pela ligeira aspereza da primeira canção “Down like a shooting star”, e mesmo assim... (mas escute-se o sacadíssimo arreganhar, a espaços a sugerir larvar delírio, nas vozes, na simultaneidade sagaz da linha crescente do baixo e decrescente das vozes num grande refrão em cavalgante cascata – eles ainda sabiam da poda, dedicaram-se foi a outras culturas). Tal como dos arranjos, a única persistência é a do fulgente e ardiloso entrosamento do jogo de vozes agudas entre Roger Wootton e Bobbie Watson (it’s a she), mas aqui mais aplicados ao encanto etéreo do movimento perpétuo, quando antes polifonizavam em paranóia assanhada e inocência corrompida, a agonia e os fervores da carne.
Contudo, precisamente, para quem seja capaz de operar tal segmentação estilística (pensem que são duas bandas diferentes que partilham o nome, se preciso for), a recompensa é fausta, e quase teríamos a ousadia de afirmar que no seu absoluto contraste estético, somos capazes de ouvir os dois álbuns como a sequência de um belíssimo par (ou o verdadeiro “three of a perfect pair”, se contarmos com o dito, extraordinário, maxi-single). Para mais, somos relativamente insuspeitos em matéria de preferências delicodoces, pelo que tem que haver aqui mais substância que eterealidade fofa e vaporzinhos pop (embora tenha sensibilidade pop a rodos, sim) para nos tanger as cordas sensíveis.
Entre as queixas de Wootton na rejeição desta obra, com quebras do alinhamento inicial dos Comus, mudanças de instrumentistas e intenções de suster uma carreira comercial (daí o encosto pop), inclui-se a má produção. Ora, lamentamos discordar, mas para a que tinham, geriram-na como se não precisassem de mais. Se há coisa que ressalta das sonoridades que nos banham é a qualidade pristina dos arranjos, que não são da polidez asséptica, mas contêm desnuda a qualidade maior de definirem um claro espaço de som, de construir uma necessidade intrínseca à manifestação de cada fonte sonora para o efeito estético, configurando em certos fôlegos (os mais líricos) uma matriz de relação quasi-geométrica (“perpetual motion”, pois) na arquitectura do som. Reparem como a luz de cada canção adquire uma ambiência sonora própria, espraiada a partir de esparsas emanações de som, raramente uma delas ganhando desmesura protagonista. Aqui o tanger da guitarra acústica, ali o vaguíssimo devaneio de um vibrafone, acolá o repenicado oboé de Lindsay Cooper (dos Henry Cow), e além discretas percussões inventivas de Hellaby; a bateria aplicada primeiro para destaque tímbrico na textura de uma canção (a par do ribombar, quando requerido, do bem esgalhado baixo) e não somente como indiferenciado metrónomo, tal como o baixo (se mais langoroso, o violoncelo), com voz e rítmica próprias, mais do que pau-de-cabeleira harmónico; e quando muito um sintetizador a dar um chamariz cósmico discreto q.b. (só mais notório precisamente na canção mais fraca, a larga distância, “So long, supernova”), que estas constelações se fazem num sotto voce eficacíssimo de sugestão fulgente (e também por lá cirandou, em sax tenor, Didier Malherbe, dos Gong,). Mérito maior, aliás, na sua larga sugestão de apelos celestes (nos títulos, e nas atmosferas ou arroubos mais líricos), os arranjos das canções mais investidas nessa diáfana espectralidade tendem a gerir cuidadosamente não só a relação entre os sons, mas entre o som e o silêncio, e os espaços entre eles – a edificação da canção, ora bem.
Atente-se que nessa qualidade de aquilatar da densidade relacional do som, não falamos estritamente, ou sequer principalmente, dos interlúdios de pura evocação ambient engendrados pelo gosto de experimentação com a matéria do som de Andy Hellaby (reminiscente já da sua intervenção espectral em “Bitten” e “The Herald” no primeiro álbum). “Touch Down” (as palavras a espraiarem-se numa atmosfera de ecos em rallentando), “Children of the Universe” (a desarmante inicial melopeia estelar, o eficacíssimo crescendo), a extraordinária (provavelmente a melhor canção do álbum) faixa-título, com o seu cristalino enleio a conter e acolher no limite a violência da mágoa como espaço de transtornada doçura, são exemplares de belíssima inventiva melódica, singeleza e sageza comoventes de arranjos, canções feitas de primeira água. As outras, não colhendo da mesma vinha rubra de doçura com o travo de ardor a vogar tão acolhido nos fundos, recrutam as mesmas qualidades sonoras para devolver como delícia pop os inspirados motes da época que, se fecharem os olhos e o juízo austero, destilam a ingenuidade e frescura (as que se imaginam e vivem antes da doce laceração que este não tão inocente disco também faz correr subterrânea) que por virem de quem vêm, quando vêm, não justificam o rebate do cinismo. E se a pop fosse feita da fluidez e admirável desenvoltura melódica como a que marca canções, com apelo pop mas nele não estioladas, como “Figure in your dreams” (os belíssimos serpenteares daquele ahhh refrão), “Perpetual Motion” (contem as espirais melódicas desta em sucessivo desdobramento perfeitamente orgânico – viva a pop inócua), ou o tom de dualidade ambivalente (e desconcertante face ao desbocado título) de “Get yourself a man”, a história da pop seria um pouco diferente. Foi diferente aqui. Para quem não quiser aí demorar o passo, a perda, como sempre, será de quem deixa tolher a fruição pelos constrangimentos da história, ou o imediatismo da exposição. Dêem uma oportunidade a este Comus, da lenda expurgado para etérea e lúdica função (com laivos cósmicos e evocações misturados com la la la’s e palminhas, sim). Até os pagãos se deleitavam entre a inocência e o rasgo de consciência que tende a brotar sob as promessas do aberto céu estrelado.»


sexta-feira, 6 de abril de 2007

«A whorehouse is any house»

(não sei quem é que tem cintilantes (em forma de bola de espelhos) ideias como trazer Bonnie 'Prince' Billy e (E) Faun Fables ao (AO) pequeno arremedo de revivalismo kitsch afogado em ilubricação rubra de cabaret Maxime. Embora seja um pincel arrebanhar ingresso, estranhamente acachapando o comodismo, tenho dificuldades em não acolher com bonomia a capitosa originalidade, por exemplo, permitindo acomodar muito caseiramente o dildo como metáfora para a interpenetração musical dos seres, e no seu zelo organizacional negar a lógica reversiva de que "a house is any whorehouse")
bom...
Nunca fui um bonnieprinceano registado. Pode dizer-se que primeiramente por simples, e insubstantiva, razão: os discos são persistentemente caros à brava e ainda não lhes deitei a mão. Ao que se pode acrescentar estapafurdiamente (velha mania hegeliana de virar do acesso?) que o homem não anda propriamente carente de mais devoção (sou um samaritano nas paixões). A decisiva, porém, brotava dessa ignota contingência magna, volvida sinal na encruzilhada de tantos apelos a comunhão (talvez não tantos, incógnita x), que era nunca ter ouvido a sua presença.
Pois, não mais.
Felizmente, a estranheza entranhada barra verborreias muitas (outras). Do pouco que se exime dos votos que calam o claustro, pode dizer-se que certo repentismo me trouxe flashes do antigo (testamento) Cave. Ainda que não movido necessariamente pela mesma palavra. Como a profanação da distância emocional na fixação de uma melodia, pelos estragos desacatados no timbre desacorrentado no palco, me lembraram um pouco a incessante recriação hammilliana de tudo quanto põe na boca e mãos, dado tempo, dado espaço, que seja pela bilionésima vez. Curiosamente, já a consciência agonística do «business of selling emotions for money» (que não deixou, ainda que na crua crueldade do mero facto, de evocar) envolvido nessa presentificação extrema de cada cantar, se tomou cedo para Hammill os contornos de uma distanciação intíma (cada reverberação ontológica em palco é uma explosão dialecticamente auto-contida) de qualquer fenómeno de idolatria e sagração do público («Energy vampires» será o apodo mais mimoso que dirigiu a tais séquitos), parece, pelo menos neste tempo, tomar outros bem diversos para Bonnie 'Prince' (porventura aí mais se diferenciando as respectivas modalidades de encarnação do ressentir soberano de cada, cada, canto). Sente-se bem, deste lado (público), creio, essa ameaça permanente de desconforto por uma adoração voluntariosa que ameaça a cada momento a disrupção do cantar liberto e ouvir comungado, como que na exigência de um pedaço do homem por cada devoto, carentes de fazê-lo mais seu (e, por definição, menos ele?). Desconforto provavelmente irresolúvel na mútua dependência constitutiva que esse canto sagra. Mas se o cantador se expõe de pé junto à carência potencialmente carnívora, não o faz com evidência na nudez do homem. Pareceu-me haver ali uma profunda dimensão jogralesca, a recobrir o gume macio dos cacos do bule de porcelana a desvelar a cor do osso (perguntem-lhe...), por entre os aparentes caprichos do storytelling a irromper nas canções a ficarem inacabadas, ou amalgamadas, nas suas provocações discursivas aos limites culturalmente ponderados da carne e orifícios (entre outros), a vertigem do stream of counsciousness (e de convoluções) na ambiguidade sempre liminar do acting out, a escusar a entrega de si sem mediação, quando é precisamente por esse filtro que se pode abdicar de si às palavras nos seus matizes mais ferinos de infiltração. Daí poder fluir com relativa liberdade por entre as margens enclausurantes da veneração, paradoxalmente jogando, com mestria encarnada (já de si um paradoxo para o caso), com as suas convenções, eludindo-a ao passo que a alimenta. Como alienígena, posso abusar da semiologia, mas ressoar «I See a Darkness» dentro do "plano" (chamemos-lhe assim...) do "programa" (idem) de concerto, e não ser evitada, ou surgir como encore, e antecipando-se à guarda (aliás, requerida) do jorro de pedidos de mil e uma canções a rebate a estender a teodiceia, surge-me como mais que eloquente dessacralização.
É, será também questão que estes esventramentos e cultos também não tanto se operam sem a primordialidade abandonada de um canto. Mas já isso diria cada vez mais constatar justificado: quem tem algo de visceral a dar, murro para trespassar a solidez dos corpos, fá-lo de um punho só. Tudo o mais resulta meio rede de segurança, meio fogo-de-artifício. Nada que valha um bocado orgânico da vida.
Enfim, nada disto interessará muito.
Talvez não se cuide plausível elaborar a imponderável compaginação em corpos, de risos e aplausos ao canto, com tripas esgarçadas no soalho.

(É de convir: é fodido abrir para Bonnie 'Prince'. Em compensação, seria inconcebível fechar para ele. Ainda assim, mesmo tendo que requisitar regressão mnemótica, há que reconhecer que os Faun Fables, espécie de Comus renascidos com a paleta ampliada de misticismo e cromatismo, numa folk assombrada, de candura e fascínio pela delicadeza milimétrica de poções e maravilhas e a força bruta de mitos e narrativas, confirmam-se uns bichinhos levados da breca. Fazer estremecer o palco mais que nos barroquismos de disco, sós em casal, somente dispondo à vez de guitarrita, flautinha, djembé e soca de sapato, é obra de gente com evidente talento e uma palavra decidida a dizer. Como woof. (antes desse uivo primal de wolf among necessarily undiscerning wolves. ou "estranha forma de vida"))

terça-feira, 3 de abril de 2007

A estratégia da aranha

Pode ter a sua graça, mas não lhe tenho achado piada nenhum. Entre várias razões, incluindo a vaga chama de acontecimento público com que alguns ciclos da Cinemateca se têm apresentado (ou a profecia da multiplicação de espectadores de Langlois vertida em maldição individual), tenho vindo a não conseguir assistir a alguns tomos centrais de certas obras. Papei bastante do recente ciclo do Murnau, mas precisamente o Nosferatu escapou-se-me por entre as mãos. Andei imerso em Rossellini, mas o Roma Cittá Aperta, está quieto, e por duas tentativas. Curiosamente (temos que consolar-nos com algo até a carência perder sentido), tornou-se-me mais claro ser um exercício fascinante, abordar uma obra a partir das suas margens, em que a processualidade e/ou a tentativa desequilibrada deixam entrever com maior clareza a especificidade do seu dialecto.
Há algo de estranhamente galvanizante em assistir a uma estética a lavrar ao arrepio de ditames de encomenda propagandística.
Há algo de luminoso em descobrir mais desabridamente em capítulos de estilística atípica (como as "comédias" - apesar da relativa ironia de alguém lhes chamar, mesmo com os chamamentos simbólicos e programáticos a tal, comédias) as mais sintomáticas incepções idiomáticas de uma visão do mundo, como lugares hermenêuticos privilegiados em que essa visão e a linguagem que constitutivamente a alberga têm que divisar sintaxes para se veicular ao arrepio da comodidade formal.
Ou encontrar numa das suas revisitações do contexto italiano da 2ª Guerra Mundial, no seu período mais desconsiderado (entre a Bergman e o projecto pedagógico televisivo, fora os filmes sob o fascismo), uma desconcertante transposição formal, para a experiência de um filme, da expressão que se quer dar da vida representada. Se o meu senso comum para generalizações abusivas ainda estiver operacional, presumo que serão poucos os espectadores inocentes do filme, cujo título omito (quem quiser saber pouco tem que pesquisar) para não ser ironicamente acusado de spoiler, que não presumirão, ao cabo de uma hora e tal de filme, com a morte de um protagonista, e o fim do huis clos invertido que concentra a narrativa, que o filme estará a terminar. Mas não finda. Dura, e dura, e durará talvez mais uma hora e meia (tempo para outro filme), arrastando-se talvez (e precisamente) ao exaspero, esvaíndo-se (ironicamente, ao mesmo tempo que se abre) a narrativa das pessoas que a ancoravam e dos mundos que albergavam e sua perspectiva, até que ao final, com o sinal do término da guerra, o que fica a quem resta, por entre a encenação colectiva de libertação e euforia, e a quem olhava e se descobre em estranha alquimia transpondo a distância emocional e intelectual (importante) do projectado no ecrã (salvas todas as distâncias...), é, longe de qualquer gáudio, alívio ou satisfação, mais que um nó na garganta, mas fruto desta durée exangue (na história como no celulóide), um insanável vazio na alma.
Eu sei que isto deveria pelo menos ter o arremedo de uma punch-line qualquer para os requisitos primários de apresentabilidade, mas, sob o signo da santa improcedência, hoje não me apetece falhar o esforço.

Talk to the hand

«Os Gnidrolog são uma das recentes (re)descobertas dos baús do progressivo de 1970’s. (Re)descobertas, porque as descobertas é substantivo agora reservado para grupos que nem sequer chegaram a editar à época, e que são ressuscitados com edições fora de tempo do que nem então chegou aos registos musicais. Tudo isto se parece descolar de um renovado interesse no género, que globalizações, internet e sociedades de consumo possililitam para a exploração de um novo nicho de mercado musical. O supremo exemplo de tal são as hodiernas ressurreições de bandas que, sem um contributo artístico ou sequer sinais de vida há mais de duas décadas, voltam à vida para mimetizar mais ou menos esqualidamente os seus espectáculos daqueles idos, ou, em geral mais desgraçadamente, editar novo material.
Os Gnidrolog acompanham em alguma medida esse passo, ainda que não tenhamos ouvido o seu mais recente disco editado já neste milénio (e não estejamos em pulgas para o fazer). Contudo, os pergaminhos que deixaram dos seus dois registos da década de 70 são, na verdade, assaz recomendáveis, e é de alguma forma espantoso como as arqueologias discográficas deste período têm, neste assomo de ressurgimento do progressivo, conseguido desenterrar a velocidade constante algumas pérolas de música deste fértil contexto temporal.
“Lady Lake” é o segundo álbum desta banda, cujo nome constitui anagrama arrevesado do nome dos irmãos (mais uns) Goldring que a encimavam, e é marcado caracteristicamente pelas especificidades de várias tendências progressivas da época, muitas vezes identificadas com as suas bandas seminais. Neste caso, francamente, haverá quando muito uns cheirinhos de Gentle Giant em certos tiques de composição, mas apenas em um ou dois temas (como o derradeiro), e, pela valência superlativa dos sopros, a única aproximação mais certeira será talvez a algumas sonoridades dos Van der Graaf Generator, embora no caso dos Gnidrolog os sopros não cheguem a ser instrumento de construção de pontes para outras esferas de som. Simplesmente demonstram-se de uma eficácia a toda a prova nos seus riffs a régua e esquadro que detonam as colunas com a eficácia de um acorde frippiano em dia viperino, com um certo enraízamento telúrico e um negrume gótico muito próprios (de que nem as achegas pastorais de uns Jethro Tull são propriamente próximas). Peças como “Ship” demonstram à exaustão a eficácia deste combo siamês de sopros, que se ocupa por si só de praticamente toda a sustentação da rítmica que sobressai da composição. No caso do final de “I could never be a soldier”, tal suma instrumentação chega a tornar válida a espera de que despachem quase dez minutos de uma balada de inspiração meio hippie (se os hippies se dessem mais a inspirações góticas em florestas de sombra do que ao flower power) para a sequência que termina e redime a peça em esfuziante cavalgada sonora. A sombria faixa título, repete, num crescendo de mais eficácia, uma declinação temática semelhante ao método de “I could never be a soldier”, até atingir um menos surpreendente clímax, mas este carregado de fatalidades, contendo ainda uma introdução ritmicamente admirável, mais uma vez comandada pelo incansável exército de sopros.
Há ainda duas baladas, a desolada “A dog with no collar”, a antecipar o tom sombrio da faixa título, e a irritantemente adocicada “Same Dreams” (musical e liricamente – haja pachorra, já em 1972 versos como “we share the same dreams/the same hopes/the same cigarettes” eram cliché repetido à náusea). No entanto, o ponto alto da singularidade instrumental e composicional do grupo será talvez o seu culminar, “Social embarrassment”, que, se a espaços tem vocais que ameaçam fazer justiça ao título (intencionalmente?), cedo, na cadência impiedosa dos instrumentos em curvas e contracurvas tonais e rítmicas, desmancha, no seu rigor composicional de constantes angularidades imprevistas, quaisquer reservas. Estes senhores merecem inquestionavelmente um lugar reputado entre os mais refinados agrupa- mentos do progressivo da época: não sei se repararam, mas na indubitável excelência instrumental dos cavalheiros não surge um único exemplar da praga de teclados electrónicos da época, geralmente (geralmente) malfadadas máquinas de criar ambiente e cama para sinfonismos ou trips espaciais de pacotilha. E isso, no nosso livro, dá-lhes pontos a rodos.
A única infelicidade da edição que nos disponibilizou recentemente esta delícia é reunir os dois únicos álbuns da banda num só CD, o que a carteira agradeceria se no processo não se tivessem dado ao trabalho de dar cabo das capas dos discos, reproduzindo-as ambas em miniatura no frontispício do CD. Em épocas de downloads, não cuidar da estética do objecto CD (quando a atracção dos belos vinis também ressuscita), é um hara kiri das próprias editoras. Atentem, por exemplo, nas cuidadas reedições recentes dos Beach Boys: é possível manter alguma dignidade mesmo nas edições 2-em-1 – os melómanos de carteira à míngua também têm direito a alguma qualidade... já bem basta terem de rebuscar nos caixotes atamancados das promoções.»

domingo, 25 de março de 2007

O direito do avesso

Não, agora menos a sério: anda meio mundo estupefacto com as "previsões" do resultado da votação mais palerma de sempre para o maior português de sempre, com Salazar na liderança. Francamente, o resultado da coisa ser-me-á perfeitamente indiferente, e não tenciono gastar uma linha com o facto consumado. É certo que a coisa resulta um indicador, por muito dúbio que seja (e é), das formas e motivos de mobilização social em Portugal, neste tipo de arenas pronunciativas, resguardadas de razoabilidade na sua esteira simbólica; agora, coisa muito diferente, e equívoca, é dar-lhe substância política directa, "suspendendo a descrença" na sua ficção representativa (basta ver a estrutura dos nossos padrões eleitorais).
Já quanto aos cabecilhas deste atentado à história e à ideia própria de democracia (em cheio, serviço público de televisão), a coroação salazarista seria, na verdade, o fim certeiro das suas estouvadas brincadeiras. Na sua incepção, este é o tipo de iniciativa que, na linha directa do concurso para a "Aldeia mais portuguesa de Portugal", fariam a propaganda salazarista de António Ferro corar de orgulho, com a sua epitomização e essencialização nacionalista, reduzindo toda a imensa complexidade e contradição da história dessa coisa, já de si contingente e inventada, que se chama um país, a uma só ideia simbólica absolutizada, que force um só sentido de identificação e pertença a semelhante entidade (com todos os potenciais de exclusão simbólica - só para começar - que tal implica). Nada mais adequado, pois, que a sagração da lógica ideológica que a ancora.
Do lado de quem se inscreveu neste mecanismo de perversão do espaço público, não é senão paradoxo e ironia eloquentes, ter uma agregação de portugueses a empregar o simulacro de um voto para provar que não têm juízo para (e dispensariam o direito de) o exercer.
Tudo somado, temos mais uma profecia que se cumpre a si mesma, com um epílogo surpreendente para a saga nacional-pessimista. Que tudo isto ocorra nos paços de uma democracia, é uma de tantas ilustrações de que há criações humanas que suplantam as limitações dos seus usuários. Mas já ia sendo tempo de estes lerem o modo de usar. Poderíamos começar humildemente por pensar que, se calhar, erravam as lamentações de que o país que temos é o que merecemos. Começam a avolumar-se suspeitas de que o país que temos consegue ser melhor que nós. Falta saber até quando nos conseguirá resistir, se não fizermos do espaço público mais e melhor que isto.

Nota: vozes indignaram-se com a ausência de Mário Soares na "final". Obviamente, Soares safou-se foi de boa. A ninguém de bem seria recomendável semelhante galardão.

sábado, 24 de março de 2007

Trasmontander

Não sei porque é que está tanta intelectualidade xôxa a arrancar cabelos com o concurso (diz-se bem) «Grandes Portugueses». Cá eu, desde que vi num cartaz de rua que o grande slogan é «Só há lugar para um», estou em pulgas para assistir domingo aos cadáveres exumados (por certo que, desta feita, para este mui nobre fim, a Ministra da Cultura não se há-de importar) a irem ao pêlo uns dos outros (com o fascínio acrescido de o pêlo crescer depois do esticanço, logo, mais material para a cat-fight). Parece-me, não obstante, que a RTP1 não foi honesta. Se tivessem desde logo informado os portugueses (isto é um púlpito à minha frente?) que a decisão final ia ser Highlander-style, de empalanço em empalanço, certamente que os finalistas não seriam estes. Não nego que vai ser giro ver o Pessoa vazar o outro olho do Camões, o Vasco da Gama a fazer o Infante Henrique chorar apodando-o de marinheiro de água doce, o Salazar e o Cunhal making out em rituais SM até o presidente do conselho desonestamente mandar vir a PIDE para um gangbang safando-se por uma nesga do final natural de ser man-handled pela foice e martelo, o Aristides a apanhar por tabela a tentar safar o desvalido Camões da refrega (o Pessoa revelando-se verdadeiramente uma nasty bitch), e o João II a tentar livrar-se anacronicamente desse Sebastião Melo, futuro arrivista dos poderes da coroa, convencendo o Afonso Henriques que se fizer pontaria para Sul do Equador o poder da esfuziante peruca pombalina será neutralizado. Mas pela regra do espadeirão, parece-me óbvio que nem com os manipuladores que há no baralho, a força bruta do Afonso Henriques poderá ser derrotada, o que não seria necessariamente o caso se o Salgueiro Maia lá estivesse para lhe estacionar a chaimite no focinho. Concede-se, claro, que o Salazar deve ter algum truque na manga, para ter conseguido ser ditador, por décadas, de uns poucos milhões, em época onde democracia já era uma palavra minimamente soletrável, com vozinha canora, e ainda hoje persistir arrulhando no seus corações. Mesmo assim, a menos que o programa admita batota, esse é o problema histórico dos ditadores modernos: a sua dependência de um aparelho administrativo-burocrático de sustentação do poder, com controlo dos meios de violência incluso. Continuando weberianos, há uma décalage histórica insanável entre a legitimação carismática do Afonso Henriques, que teria que sovar directamente muita gente para legitimar a coroa, e a legitimação administrativa do Salazar, com a virilidade enxovalhada no corpo afirmada sublimadamente na cavalice troglodita e assanhada dos esbirros de Estado. E se, à imagem do Highlander, até pode haver elementos modernos a concurso, como arremesso de câmaras de televisão ou, se tivermos sorte, da Maria Elisa, a dinâmica de jogo parece-me permanecer resolutamente medieval, a menos que chamem a PIDE outra vez, o que também não seria justo. De qualquer forma, para quem se queixe que assim o jogo está falho de equidade nas hipóteses regulamentares de cada concorrente, ou que será triste medir pelo espadeirar de Afonso Henriques os pusilânimes que fizeram a nossa triste história, vê-se logo que não sabem o que faz um bom show pedagógico de televisão de serviço público. Ai, só eu sei o que aprendo e me está a gustar a história do meu país.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Mas afinal é para votar no maior quê?...

...o maior proto-matricida com vontade de poder sem razoabilidade na materialização da humana busca de a place to call your own... ai... o maior papa-criancinhas ao pequeno-almoço a ficar aquém de um Politburo... ai... o mais patético arremedo de ditador semi-periférico a envergonhar internacionalmente a pátria panhonha subjugada à autoridade de aparência implausível de um pio de cana-rachada... ai... o maior exemplo de como as benfeitorias contra genocídios não se dão bem sob arremedo de ditador semi-periférico a envergonhar internacionalmente a pátria panhonha subjugada à autoridade de aparência implausível de um pio de cana-rachada... ai... o maior comprovativo do génio poético de ser um misantropo, pederasta vagamente recalcado, com múltipla personalidade... ai... o maior filibusteiro de banheira a enregelar o traseiro no promontório de Sagres... ai... o maior jogador de poker na modalidade megalómana de alarvidade colonialista em terra alheia e por grafar... ai... o maior zarolho nacionalista a sublimar liricamente pouco saudáveis e recompensadoras fixações sebastianistas... ai... o maior primeiro-ministro a combinar cabeleira rocócó com punho-de-ferro déspota (tentando conter o gesto de bitch-slapping) e uma obsessão, iluministicamente mal-justificada, por ver jesuítas de rabo a andar... ai... o maior desbravador dos primordiais proventos globalizadores, a contar milhas e dobrar cabos por mares nunca dantes navegados para desbastar grelo exótico?
Estou tão indeciso...