sábado, 30 de setembro de 2006

Tecnofilia (actualizado)

Mais um dia e mais uma vitória da pragmática empirista até a máquina de zeros e uns dar o berro: já descobri a pólvora de pôr a grafonola num post. Claro que não adianta de nada, porque nem sequer consigo voltar a entrar no servidor, pelo que será Shostakovich forever.
Mas as filias são o que são, pelo que compulsivamente deitei mão a outra opção que me havia sido sinalizada e daí anexei a alguns posts nos arquivos do olvido uns auxiliares auditivos, concebendo que daí o meu arrumar desgovernado de palavras resulte mais legível, ou mais risível (I'll go with the second).
Aos jovens vorazes do passado caquético a quem possa interessar o esgravatar arqueológico, os posts audivelmente recauchutados do momento são: sobre o Syd Barrett, o Arthur Lee, e mais umas associações mais ou menos a despropósito.
(e está visto que nem no meio dos bits a necrofilia podia faltar...)

Adenda em jeito de cruzar o Rubicão: mais um dia e (vá, digam comigo) mais uma vitória. Desta feita, conseguindo retornar ao servidor para uploadar(?!) música para o blog, a razão prática teve depois que batalhar com a escusa da própria razão informática (contida nos avisos do Blogger) em aceitar os ditames da minha intrépida empresa (e a Sara, com a rara gentileza, que tanto me agracia, de quem não pede dízimo e dá conselho mesmo aos tolos que se escusam ao pedido, vejo agora que confirma que o meu ímpeto rebelde contra o Blogger era mesmo a solução para pôr o ficheiro de som num post* - e só não cometo a pretensa gentileza de dizer que o descobri pelo exclusivo da sua palavra porque, 1. almas gentis não carecem de elogios fabricados, que apenas maculam por entre os claramente tão devidos, razão pela qual não poderia deixar de os mencionar 2. sou mais orgulhoso que galanteador (o orgulho pode permanecer, o galanteio fenece à vista da minha fuça), 3. o meu irmão jogava no 48 K o School Daze onde o bufo de serviço começava as frases delatoras com "Sir, I cannot tell a lie" e apanhei a mania psicótica, pelo menos hoje, 4. e em boa verdade foi a minha verve autonomista que me valeu um oh se lisonjeiro "That's my man!" - pelo que não terei que cobiçar em frustração uma maquia dos seus 15 MB. Não me escusarei contudo às mais que devidas muchas muchas gracias pelo gesto. É claro que podia ter estado simplesmente calado, mas com clamorosa visibilidade se denota que a minha compulsão verbal não deixa e o elogio da prestabilidade não tornaria razoável).
Portanto, contra toda a razoabilidade de "quem não sabe não faz", finalmente consegui pôr, justificadamente em jeito de glória, para (estou certo) o gáudio incontido de todos nós, em ficheiro de som a música Primeiro de Maio a acompanhar o post que havia (à data) uh postado sobre a notabilíssima canção do Chico e do Milton, a trespassar a formatação ideológica: escrevi na altura qualquer coisa sobre suspensão lânguida e quase ominosa. Ainda creio ser bem isso, mas faltava-me a materialização metafórica exacta daquela atmosfera quase líquida. Bastava-me ter prestado mais atenção ao delírio da última estrofe: a atmosfera da canção é de suspensão uterina, é o que é.
Oiçam, é o meu o conselho (e dou muito poucos - mentira).
Ora bardamerda, como só duas pessoas é que se deram ao trabalho de ler isto, comem mas é todos (os três, portanto) com a canção: viva o autostart (por um dia) e viva a minha pequena ditadura voluntária e consequentemente prestes a ficar exangue.

* e já agora acrescentemos à solução que, pelo menos na minha pragmática, precisei de seleccionar o código html (que saquei vendo o seu post em view html no Microsoft Frontpage)que põe o ficheiro de som no post e tirar-lhe a formatação com o botãozinho em forma de borracha na barra de funções da escrita de posts.

To move within a frame 2 (and "lets see how the paradox flies")

A minha política e concepção reticentes de aniversários e felicitações bloguistas, já a explanei, e desse pudor já exerci, mas se me falha novamente a constância, para além do gosto que o blog em questão inspira, é porque sempre a nomenclatura que o encima me recorda que, por afinidade electiva com esta imagem, «Seta Despedida» seria um dos nomes sob os quais não desdenharia acostar-me.
As razões estão à vista (e pelo menos numa instância à autora não são estranhas). As felicitações ficam-no também.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Elogio da razão prática

Estava aqui a pensar se teria algum conseguimento biográfico para menorizar, mas o verbo não se aplica à minha sumamente rasteira narrativa.
Por isso recomecemos em registo de obtusa projecção (como convém): tivera eu escrito a Crítica da Razão Pura, tivera eu descoberto a pólvora, duvido que houvera ocasião para me inchar mais ufano.
Não sei nada teórico de Internet, html - parece que o empreguei, mas sigo sem imaginar o que seja - e, não obstante, na esplendorosa ignorância que torna cada sucesso um golpe de asa (e por esse vento segue bolinando a minha auto-estima), consegui pôr música aqui no pedaço (como devem ter notado, porque vo-la trompeteei sem aviso, e já justifico).
É verdade que a auto-congratulação não colhe em substanciar-se por si só, e não o teria conseguido sem o trilho divisado (para ligações netcabo) por Sara (que me perdoe a familiaridade, e "é generosa", certamente, mas como sou mocito campónio tímido e cabeçudo, se ela tinha explicado, caramba, não ia fazer-me desistente assinino(?) às 114 primeiras dificuldades, mesmo implicando ter que se seguir uma directa para realizar o trabalho que devia ter realizado nas horas que perdi com esta merda), a quem estou grato pela peculiar sageza de explanar um mapa mas obrigando(-me) a solucionar pragmaticamente os engulhos imprevistos ou não mapeados. Não será bem ensinar a pescar, mas talvez incentivar a intrujar o pescador para me entregar mais uma truta (descartando a leitura pérfida que a metáfora congrega) .
Contudo (parte de angariação indevida para outrém), internautas inocentes que queiram enveredar pelo mesmo caminho, cuidem que, afora os problemas que primeiro tive que resolver com a ligação de internet, a simplicidade das operações enunciadas requer assinalável espírito de desenrasca para resolver (e, no trilho enunciado, uma ligação de internet que tenha um servidor para criação de uma página pessoal, embora haja outras hipóteses). O melhor é mesmo prestarem devida (ó yes) vassalagem a Sara, otherwise, se forem nabos como eu, muito penarão (e sem certeza dos resultados a que chegarão: por exemplo, eu tão garboso no meu espelho mental do momento, por alguma razão que me escapa - I had, and have, to remain a dumbass somehow: keeping lowered expectations, you know the drill - só consegui pôr a grafonola no template e não num post).
Como pela primeira vez em muito tempo (desde que resolvi o bicudo problema da prateleira da máquina de lavar louça que não fechava porque estava um centímetro deslocada do encaixe) não caibo em mim de vaidade (not that there isn't room), comei com o ficheiro de som nos ouvidos logo a abrir, e se não gostam carregam no stop e já vão com muita sorte. Afinal, até sou internauta para saber que já há trampa demais nos arrabaldes para que a nossa indolência se dê ao trabalho de querer saber o que é bom para a saúde, pelo que a disponibilidade para o mundo pode muitas vezes já só residir na surpresa de um in your face; e, mais importante, já há muito que se faz questão de não facilitar o acesso a este pardieiro de feeble-minded weaklings (e assim se irá cumprindo o projecto que poderá voltar a pôr a minha razão prática inebriada com o éter do seu engenho: alienar todos os meus leitores - já estive mais longe... E pensando que tal implica que logicamente não haja medida de insucesso que não seja legível como sucesso, pelo menos neste reduto de subjectivização mais controlada fico a ganhar-me em todas as frentes, e, logicamente, o elogio da razão pura devém o conseguimento que se segue).
Acho que já chega de me passar a mão pelo pêlo. Pelo menos metaforicamente.
Self-deprecation and laments of myself will return shortly (até também já não me poder ler à frente - já estive mais longe...)

terça-feira, 26 de setembro de 2006

A tragédia moderna do indivíduo enquanto compositor - pelo centenário de Shostakovich

«A ideia de vanguarda pode, em termos lógicos, dar-se mal com a pós-modernidade. Mas no receituário histórico que até a esse pôr de pantanas guiou os presumíveis destinos da humanidade, quem do seu beneplácito abandalhado não colheu segue com legado atolado nas presuntivas vias ascendentes de progresso.
Contudo, os criadores podem embarcar com outra fatalidade contemporânea que é a dos juízos morais absolutos (note-se, absolutos) sobre a acção individual em contextos históricos particulares na sensibilidade política hodierna (convocando quase inevitavelmente um anacronismo não só epistemica como moralmente desajustado).
Shostakovich, na comemoração do seu centenário, é claramente enquadrado

nesse duplo viés largamente constitutivo dos
cânones estéticos. Tal torna-o precisamente um exemplo de charneira dos bloqueamentos e contradições intestinas do juízo estético na edificação do cânone, concepção que pós-modernamente, não nos equivoquemos, segue fulcral na condução da memória historificada.
O que parece ser notório nesse caso, é como o fincar do juízo estético nesses dois patamares críticos sucede em falhar aquilo que faz a singularidade estética de uma voz. Como se situá-la numa matriz de justificação fosse a operação de entendimento estético supremo, a despeito da compreensão da sua matriz de criação, condição daquela singularidade.
A voz de Shostakovich tem, nesses dois planos, sido porventura a mais profundamente polémica. No plano da estética teleológica, não se lhe reconhecendo abordagens da lógica composicional desafiantes do mapa já cartografado pela herança, nas suas criações de maior visibilidade, do sinfonismo romântico, e nem sequer aprofundando novas correntes "disponíveis" a partir das primeiras décadas do século XX, como o dodecafonismo e o serialismo. Dir-se-ia quase, ao ler muitos comentários que se têm produzido a propósito da efeméride, “quem não é atonal, não brinca”. No entanto, fora casos notórios, raros se negam a atribuir fulgor impressivo e original a vários opus da sua produção. A ideia construída de "obra" e de "criador", enquanto entidades homogeneizadas capazes de criar um ícone para a sequenciação de uma linhagem teleológica parece pois ser uma lacuna para a tranquila "reabilitação" de um legado musical.
Contudo, curiosamente, esse facto pode em larga medida ser precisamente lido em articulação com os juízos morais produzidos a propósito da vivência e posicionamento de Shostakovich no contexto histórico da URSS (e é sintomático tal surgir finda a anterior e bem mais translúcida, o que não obstou ser bem zarolha em muitos casos, condenação mais ou menos simbólico, incluindo alguns saneamentos germânicos, dos colaboradores musicais com o nazismo – alguém tergiversou no lamento recente de Schwarzkopf à conta do cartão do partido nacional-socialista?). Denota-se o quanto o juízo moral do indivíduo enquanto criador se torna em casos constitutivamente equívocos matéria de validação de todo o seu legado, não nos termos do quanto o contexto é o húmus de entendimento da criação, mas nos termos conotativos de a criação, independentemente da sua lógica criativa, ser manchada pela absoluta classificação moral do indivíduo. Ora, precisamente Shostakovich representa das mais absolutas negações dessa operação, porquanto o indivíduo se desvela irredutível, na opacidade do contexto que condiciona a sua acção e ao entendimento pretensamente depurado do que seja a sua “vera” subjectividade, à taxonomia geralmente dicotómica do colaborante-opositor. A discussão contemporânea desse posicionamento de Shostakovich enquanto compositor oficial do regime soviético partilha involuntariamente do absurdo gogoliano, no qual, aliás, se banhou. Um pouco de senso weberiano, de entendimento da compreensão enquanto pensar a racionalidade dos indivíduos in situ, bastaria para perceber que uma pretensa essencialidade subjectiva de Shostakovich no enquadramento do regime soviético não poderá ser apreendida – em matéria de facto tanto se lhe conhecem os mais declarados fretes musicais e humilhações públicas (e a integração no aparelho ideológico e até simbolicamente burocrático do regime), como os gestos estéticos temerários, por vezes com claro (até tornado real nas suas consequências) risco político.
A única coisa que se torna óbvia, precisamente em termos estéticos, é que a sua obra brota nas formas díspares que se lhe conhecem (em género e qualidade) em profunda imbricação com as solicitações, possibilidades e condicionamentos do contexto social em que opera. Toda a sua estética não é uma crónica desse contexto mas a crónica das possibilidades e viés expressivos de um compositor nesse contexto. Ora, tal matriz social de composição é aquilo que faz a singularidade e a "anormalidade" do seu corpo de obra, e torna qualquer juízo teleológico do que deveria ou poderia ser um caminho esteticamente inovador inerentemente contraditório, pois pressupõe a taxonomia individualista do génio capacitado para organizar uma nova expressão a partir dos idiomas instalados. O "formalismo burguês" de que foi acusado pelo poder soviético, juntamente com outros compositores contemporâneos, na sua subjugação à funcionalidade da propaganda ideológica, é a ilustração eloquente dos limites constitutivos da sua voz.
Quer pelas teleologias estéticas, quer pelas avalizações morais de um indivíduo, é frustrante perceber o quanto se conforma um quadro que por duas vias deixa escapar precisamente a singularidade de uma obra enquanto criação individual necessariamente situada. Não particularmente quando essa localização lhe impõe uma lógica instrumental (seja para contrariar ou servir um condicionamento: e as encomendas de regime podem, no seu claro primarismo contrastante com as possibilidades de composição que outras obras outorgam ao criador, no mesmo gesto, ironicamente, cumprir aquela dupla lógica, de acatar e ironizar a subjugação política), mas nos espaços de liberdade que pôde conceber ou apenas sugerir no mais íntimo reflexo do subjectivo que é a criação (e torna os seus constrangimentos explícitos algo do domínio da violentação íntima): ouvindo, por exemplo, o terceiro quarteto de cordas, desde o primeiro compasso que nos assalta a ponto de dilaceração normalizada (forma de sobrevivência subjectiva à plena opressão social), por vezes num esgar rasgado, um retrato de uma verdadeira tragédia moderna do indivíduo: não a tragédia imprevista ou ominosa dos Antigos encharcada em sentido; não a tragédia simbólica dos povos às costas da redenção colectiva; mas a mais terrível tragédia moderna do homem criado na clausura fechada uma ordem absoluta que destila da sua omnipresença a necessidade constante do cálculo dos gestos e das palavras quando se consegue olhá-la à distância no seu interior, a tragédia normalizada da ordem disciplinar a regular na distância inacessível do poder a vida dos homens indiferenciados. O panorama subjectivo desta criação é de uma obsidiante caminhada, inelutável, para um dramatismo sem pausa, apenas mais marcado ou distendido, em que os adagios são a degustação dos passados lacerados ou dos futuros negados, e os allegros anunciações grotescas do estiolar de qualquer grata emoção humana, numa só constante agonia que não se concede picos ou acalmias, e é sim o descritor do quanto um corpo pode nesse estado vislumbrar o único horizonte em que lhe é dado conceber habitar a vida. Ressalta pois sintomático da condição de criação singular de semelhante obra, o veicular desta agonia como a condição ordinária da vida, ressaltando tão claramente o seu drama, sem a construção narrativa do drama: não se trata de conhecer o drama numa vida, enfrentá-lo, superá-lo ou sucumbir; trata-se de o drama cobrir como névoa perene tudo o que conhecemos, e devir a atmosfera em que persistimos.
Os juízos estéticos fora deste quadro humano são de considerável cegueira histórica (e a estética é também uma categoria histórica).
Os juízos morais imponderadamente distanciados da compreensão do que é um corpo socializado no medo e ameaça entranhados de todos os dias de todos os olhares comuns são de considerável arrogância humana.
Sem consagrações mecanicistas, mas também sem a crítica (no fundo) acrítica atreita ao juízo desincorporado emanando de equívoca necessidade de absolutos ideológicos, talvez seja tempo de celebrar Shostakovich, ouvindo na circunstância histórica da estética da sua voz um singularmente expressivo feito humano.»

O último reduto do estímulo estético

Andam por aí uns moçoilos de quem se vai dizendo basto bem (e já quase basta serem islandeses para tal), que são os Sigur Rós. Levado na onda, adquiri já em promoção (costuma ser bom sinal) o seu último álbum, «Takk...», dizem que mais aparentado à presumível obra-prima (salvo seja) dos rapazes. Ora, a muito quente (para não correr risco de afrontar possíveis fãs e salvar face para o caso sempre demasiado provável de vir a dedicar-lhe loas daqui a uns anos), só se me oferece bradar que este é dos discos mais nulos, vácuos e (requisito fundamental) visceralmente irritantes que ouvi em muito tempo. Eterealidades inanes, crescendos de eficiência onanista tal como definida pelo César das Neves e a voz que mais apetece esganiçar desde que o insuportável e histriónico careca presunçoso das super-abóboras ou coisa que o valha saiu de primeira cena.
Tal maledicência, contudo, não é auto-justificada (não é que continuais a presumir de mim o pior, pá?...). Na verdade, o que os moços me ilustraram foi serem exemplar que sugere uma categoria de música insuportável que se distingue da quantidade industrial de lixo execrável que todos os dias atulha os escaparates, e que impele a conceder-lhes alguma forma de reconhecimento: é que esta gente ao menos esforça-se para dar gosto aturado e motivação à implicância. Não estou para pensar em quais os fundamentos desse mérito, mas é certamente um certo grau de achievement que faz bem a diferença, extrairem de nós um juízo que ore repimpado "mas que bela merda!".

Paperjoke 2

O «Sol», confirmei em exemplar alheio, é efectivamente, pelo menos nesta sua incepção, um Expresso recauchutado para consumo mais populista, e em com boa parte dos homens de confiança(?) do arquitecto (chamei-lhe engenheiro da última vez... admissão de ignorância e penitência) Saraiva.
O jornal em si é um objecto algo trapalhão, amontoando secções como se fosse um diário, o que é descalabro estilístico e funcional num semanário. O populismo tem-te não caias, e mesmo amadorismo, ressuma no grafismo atamancado de jornal com aquele je-ne-sais-quoi que o torna perfeito para entregar umas folhas ao esvoaçar balnear, na organização temática (a tenebrosa secção "mundo real", ou a proliferação de mini-frivolidades e "conselhos"), inclusive nos títulos: pérolas de escola jornalística clássica, eficaz e assepticamente descritivas, como «Assim é fácil pagar a taxa» (sobre taxas moderadoras - o governo agradecerá o entusiasmo) ou «Cinema gay para todos».
Se até os diários aceitáveis dedicam suplementos semanais ao domínio cultural, o «Sol» empacota numas poucas páginas mal-amanhadas do próprio jornal umas referências anódinas e a pontapé a filmes (apenas um "crítico", meia dúzia de linhas para meia dúzia de filmes, sistema de classificação com símbolos metereológicos... "Sol", estão a ver? hein? hein?) e livros. Considerando o corpulento caderno cultural do Expresso que Saraiva deixou para trás, a opção de público-alvo e orientação editorial do jornal fica escarrapachada.
Já as revistas de ambos os semanários estão ao mesmo nível de crónica social e historietas pseudo-edificantes ou pseudo-sociológicas arrancadas ao fundo do tacho (com o pormenor curioso de terem ambas as revistas tido por director um homem que só me lembro de escrever uma coluna fascinante do Expresso, desde há anos, dedicada à crónica de espaços de lazer nocturnos, com fotos de socialite ao lado, para quarentões com o gosto retrógrado de sorver Johnnie Walkers óne da rockes, esbugalhados pelas luzes estroboscópicas e com danos no ouvido interno de tanto enfardarem no canal auditivo o Chris de Blurgh), mas o Expresso é capaz de aqui levar a medalha da semana com a sua sessão de fotos de corpo inteiro da Floribella, a fugir da camisa-de-forças de proto-ícone-sei-lá-de-que-estádio-psico-evolutivo-primevo-piagetiano para a de would-be-petite-gamine-pseudo-fatalle(?!!). Para "Única", "Tabú" e meio... (não, não sei, nem é para saber o que isso quer dizer...).
Cereja no topo do bolo de lama, a exibir a rasteirice que tanto nos apraz, impressa no canto superior do Sol está a boca à competição com Dvd's grátes pela antiga morada do Expresso (qu'isto a concorrência não está para afabilidades de nem tão velhas lealdades e fair-play): «Um Jornal que vale por si - Este semanário não oferece brindes nem faz promoções». Entretanto, acusando por defeito a boca, uns consumidores resmoneavam na tabacaria cá do bairro perante a justificação da casa de aparentemente o Expresso ter produzido/distribuído(?) menos Dvd's que exemplares do jornal, tecnicamente intrujando a expectativa dos consumidores ávidos de borlas.
Surpresa, surpresa, o Público também parece não querer perder a onda da visibilidade conferida pelas lutas intestinas na imprensa do pardieiro nacional, e dedica no Mil-Folhas uma página inteira a um romance de que só falta escrever tintim por tintim ser uma retinta merda, que não é senão a terceira prosa ficcional do arquitecto Saraiva. Honra seja feita, a crítica é hilariante.
É facto que com material deste, é escusado comentador, mas torna-se fácil compreender como um fenómeno de organização de discurso impresso em jornal como "As Farpas" queirosianas e de Ramalho Ortigão nunca poderiam ter lugar no jornalismo dos nossos dias. As farpas hodiernas estão cravadas na subtileza gestionária que permite a sua disseminação em qualquer domínio da política editorial.
It's all downhill with a laugh, me boys...

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Os tempos esperados

Assentava Setembro. Juravam os telejornais, visionados nas salas acolchoadas com naprons, pela desregulação climatérica, na face da indiferença alimentada dos tempos incorporados. O aprazado na estabilidade dos ciclos seguia tergiversando na face da incomportável desestruturação da permanência do futuro. Na aurora seguinte começaram os trabalhadores rurais a estrumar os solos ao largo da minha janela. Não tardaram a emergir as melgas, a fazer de meu corpo seu pasto. É tão bom sentirmo-nos úteis.

sábado, 16 de setembro de 2006

Humm... gaja boa


«Geralmente, neste quarto álbum dos Caravan, são diagnosticados os sinais do seu declínio (na verdade, o seguinte “For girls who grow plump in the night”, na sua relativa regressividade estilística, pode ser, ele sim, descoroçoante), ao escaparem a uma suposta matriz mais pop, da qual, de facto, eram os representantes cimeiros no jazzistico universo progressivo de Canterbury nos anos de 1970’s, enquanto o lado mais profundamente enraízado no jazz ficou entregue, com bastante mais radicalidade e relevância, aos Soft Machine, desde o incontornável e incomparável monólito “Third”.
Contudo, e não é só pelo gosto de recuperar discos menos amados que a história deixou meio tombados em caixotes indignos que o dizemos, este álbum é na verdade um representante não propriamente menosprezável da versão Canterbury dos Caravan, e não cuidamos que seja propriamente inferior ao seu incensado “In the Land of Pink and Grey”.
Aquilo que muitos desdenham como um desvio para o jazz, dadas as mudanças de formação que levaram à incorporação de Steve Miller (antes nos Delivery) no piano eléctrico, substituindo os teclados mais encorpados de Dave Sinclair (atraído por Robert Wyatt para a sumamente heterodoxa empresa dos Matching Mole), é um desvio bem conseguido, enriquecendo de forma plenamente integrada os mimoseios pop de Pye Hastings, e o remanescente mais devedor da veia tradicional dos Caravan está a um nível nada desmerecedor. Um aceno à heterodoxia da própria escola pode ser intuído até em algumas intervenções dos sopros, ou de guitarra wah wah, que dão um sabor quase funky a certos espaços (escrito soa mal mas, surpresa, resulta), a acrescer à rítmica cativante da fluidez do disco.
A abertura com a faixa título exibe a manutenção do programa lúdico da particular versão de Canterbury dos Caravan, quer no tom, quer nos jogos rítmicos e harmónicos bem sucedidos, como no intermezzo que dará lugar à secção de improvisação. A longa faixa que se segue, «Nothing at All», seria a que denunciaria a suposta daninha influência de Miller nos destinos da banda, mas é na verdade um excelente naco de jazz-rock, não particularmente ambicioso, mas nada possidónio, contendo aliás uma das mais suculentas malhas de baixo que a história (não) registou. Aqui se confirma, desde logo, um dado curioso para um álbum menosprezado: o reputadíssimo Richard Sinclair, pelo seu peso na diversidade de formações que compuseram a paisagem sonora canterburiana, tem neste suposto registo menor uma das suas melhores prestações instrumentais. O baixo neste registo está num swing admirável, imparável e contagioso de fio a pavio, sobressaindo glorioso e reinante na mistura final, swinging all the way no aliciar dos quadris renitentes.
As três pequenas cançonetas, a parte menor do repertório tradicional dos Caravan, têm, é verdade, como habitual, um registo carregado de sacarina, pelo que serão um acquired taste (francamente, it’s not my cup of tea), face ao qual as derivas jazzisticas de Miller são no mínimo benvindas pelo acréscimo de estímulo sonoro que lhes outorgam. “Aristocracy” é a mais saborosa, em parte, mais uma vez, também pelo espaço para o swing de Sinclair.
Já a suite a la Caravan, “The Love In Your Eye”, que representa a mais forte ligação com a tradição sonora do agrupamento, é de facto uma digna sucessora. Os cândidos temas entrelaçados, em plena sucessão dinâmica entre secções de improvisação, são irrepreensíveis, conseguindo conceder à peça toda uma continuidade mais que escorreita; mas, no cantinho do melómano, guardamos um assento especial para ouvir o soberbo solo do grande Jimmy Hastings na flauta. Instrumentista central de Canterbury, ainda que geralmente subsumido em colaborações (recorrentes: a malta do burgo sabia que mais-valia ele era) nos sopros de empresas alheias (praticamente todas as que saíram desta escola), este senhor também praticamente rouba a centralidade do disco com esta sua prestação: a dinâmica, a fluidez, a imaginação melódica e o sentido de propósito musical configuram uma prestação que merecia igualmente o seu lugar nos anais.
A reedição disponível em CD deste álbum contém alguns extras que, ao contrário de muitas reedições a incluírem a malta a esforçar piadas e descontracção, a fumar um cigarro ou a praticar as deixas de assédio sexual no ambiente do estúdio, valem a pena, com algumas maquetes de Hastings só a guitarra a quase beneficiarem da redução instrumental em que se quedaram por nunca terem sido gravadas para integrarem o álbum, excepto a final que, com plena produção, não desmerece da linha deste momento dos Caravan, podendo ter com proveito integrado a selecção final do que de facto apareceu no álbum à época, ao invés de uma ou duas das canções que lá chegaram (a última, confessemos, chega a fazer ranger os dentes – mas confiamos que já ouviram falar da função program). Para quem se queira iniciar nas sonoridades canterburianas, pode este ser adequado ponto de partida, embora indubitavelmente o material esteticamente mais sério, desafiante e portentoso se deva procurar em outros lugares, pelo que os aventurosos talvez se possam atirar logo a tais vôos. Mas para muitos ouvidos, um pouco de suave pedagogia nunca fez mal, e um pouco de sensibilidade pop ainda menos. E para esses, há aqui material que pode suscitar o hábito auditivo que alimente novas buscas do que de mais extraordinário saiu dessa sedutora cena de Canterbury.
(pedimos desculpa pelo muito que gostamos de dizer Canterbury)
(Canterbury)
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Paperjoke

O visionário engenheiro Saraiva, José António (não duvidem que o Nobel está mesmo a caminho), rumando contra o escárnio desavisado de tolos que atribuíam a causas inapreensíveis o aparente desnorte que há mais anos que é polido contar vinha incrementando ao Expresso, quando chegou ao culminar de aturado plano de deixar o semanário espojado no anedotário nacional (lembro com inefável estima nostálgica a metade da revista do jornal empastada com as fotos de corpo inteiro de infindos items do guarda-roupa da princesa Diana), obviamente, num golpe de asa imprevisto (who's laughing now?) saltou da barca para abrir seu novo estaminé.
O Expresso, aflito como quem não quer a coisa, segue senda maioritariamente descartável, muda de formato, baixa o preço, e por dois meses prodigaliza às massas Dvd's à borla com aquilo que no Quarteto se enfaixa nos cartazes como "filme de qualidade".
É verdade que há anos que a imprensa portuguesa faz questão de rumar em plano inclinado, mas é louvável, e por isso lhes estou grato, encenarem a derrapagem como se de uma bela comédia se tratasse.

Papermeter

Os sistemas sociais de interdependência têm destas coisas, só não esperava descobrir-me o centro nevrálgico de um. Eu explico. Graças a uma saudosa ana de amsterdam que soía visitar-me, suscitando inclusive dissertação sobre personagem buarqueano, tal sagrado nome ficou associado a este resto de queimada. Por tal facto se possibilitou (mas não explicava) que estranhamente, esta semana, começassem a surgir referenciados no sitemeter do pedaço entradas em busca pelo nome ana de amsterdam. Ora, eis que folheando a revista do Expresso da semana passada, em pleno hábito de não me deter numa só página (bom, houve um momento em que estaquei para verificar se no marketing desesperado do semanário já tinha mesmo entrado o estilo jornalístico de compincha de café, ao ler a frase em destaque "os nova-iorquianos são rijos"), me deparo com uma slim coluna de Rita Ferro Rodrigues, aparentemente dedicada à visita e referenciação de blogs. E o nome do blog do dia era, pois é, ana de amsterdam. Por estas vias (aren't the ways of society cute?) se configura este blog como involuntário indicador por excelência da repercussão social da dita coluna e respectivo sistema de referenciação. A Rita Ferro Rodrigues não se preocupe, pois, que poderá ter em tempo real os dados estatísticos necessários para tal avaliação, e não precisa nada de agradecer, uma jóia no valor de 1250 euros, mais 50 por cada pedido de informação (e estou a ser mais que benemérito, considerando as tabelas do INE) será mais que suficiente.
Apenas convém lembrar que não é por minha culpa que até agora it doesn't look that good, girl...

(simultaneamente têm cá aparecido convivas (para lá das hordas regulares que me salivam as bordas do monitor à cata de vídeos gratuitos de coroas transando, que vai não vai ainda será o estandarte orgulhoso do estaminé) à busca de informação sobre se o Carlos Paião terá sido enterrado vivo - não estava a par - , mas para esse paralelo e paranormal fenómeno de busca ainda não tenho explicação, e para não inquietar a Rita Ferro Rodrigues quanto aos possíveis efeitos temáticos da sua escrita não irei sobre-interpretar a correlação)

Bargain freak

O CD com o primeiro acto de uma como que vagamente encenação rock do David Thomas, com uma Pale Orchestra que inclui o Chris Cutler(!!!) e o Hammill(!!!!!) (e na versão americana parece que teve o Frank Black!! - they just freakin' had to meet...), por 1,49 € ?!?!?!?!

Perdoarão a frivolidade de ventosa de montras em saldos (which I am), mas para, cansado da dissimulação retórica, ser honesto, e o deixar transpirar, a caça à pechincha é realmente a única coisa that still makes me tick. Ficam pois informados da fixação temática que poderão não consultar nesta página no futuro próximo (who knows how far).

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

A virtude inconsequente

Leio na bula de um antibiótico ao acaso que necessitaria de uma dose menor do dito para curar gonorreia do que a que uso tomar para problemas a priori teoricamente menores.
É quando uma criatura está em baixo que lhe lembram que, com os mesmos custos pessoais, a sua vida podia ser bem mais recreativa.

3 - Quanto ao capítulo «Medici»

só se cuida dizer que «that joke isn't funny anymore». Mas no humor dorido de certos sobreviventes (why not?), Moretti sabe isso muito bem...

2 - Só se pode revisitar Stromboli não o fazendo

«- Há qualquer coisa de hipnótico, uma antiga ligação entre...
não te vires.
Não te vires!
Um grupo de americanos no abrigo.
Preciso que me faças um favor. Eu tenho vergonha.
Queria saber se a Sally Spectra disse ou não ao marido que espera um filho....
«[Da novela The Bold and the] Beautiful»...
porque na América já vão mais adiantados....
E também o que a Stephanie soube depois de ter posto um microfone em casa da nova mulher do ex-marido.»

1 - As duas faces de um corpo

Não, não... não é a teoria inane de civilização-de-overthinkers-on-futile-matters de que só temos um bom perfil, absolutamente irrelevante e redundante para quem só tens dois maus perfis, e a quem os ditos de you-can-improve-your-life-no-matter-how-rotten-miserable-it-is só cumprem função de gerador de impropérios.
É uma questão infinitamente mais intrigante e instigante.
Ao rever, nos Dvd's-do-Público-faz-de-conta-que-não-para-vender-na-Fnac, a entrada do Moretti nos bittersweet forties no seu Caro Diario (para a antologia dos anti-clichés de burgueses ex-esquerdistas "o que fizemos da nossa juventude?" fica, claro, a grande line «não, vocês diziam coisas parvas e tornaram-se feios, eu dizia coisas certas e tornei-me um quarentão esplêndido»), dizia eu, reparei epidermicamente num facto supreendente, a exigir elaboração.

Dei-me conta de que gosto muito do Moretti de frente...
e gosto muito de Moretti de trás (e este plano, com a dita sua mulher Silvia, é também uma belíssima esquiva declaração de amor)...
mas de maneira completamente diferente.

Isso, é notável (por exemplo, reminiscências keatoneanas(?), só emanam de trás). Ora conseguir configurar(-se) um personagem diferente dependendo apenas do lado de que se olha, não é coisa de somenos. Podeis vós, claro, pensar que isso é óbvio, crendo ser o vosso traseiro perfeitamente distinto do vosso facies. Francamente, eu não teria assim tantas certezas (mas posso estar a generalizar da minha experiência pessoal...)
Não é coisa pequena, a plurivocalidade de todos os ângulos da nossa postura vital, o corpo investido de sentido diverso nas várias contingências da sua apreensão, condição de permanente fonte de seductio. Verdade seja dita (não sendo eu dado a alienar pessoas por fetichismos corporais variegados), o sacana faz-me gostar dele (veja-se lá) até de perfil. E isso sim, ao invés dos corpos disciplinados para o descasque do Verão, é uma forma maior de plenitude corpórea...

Explicai-de-ze-me

Comprei há tempos uns Dvd's (coisa rara) decentemente baratos em promoção na Fnac (ainda lá estão, já um euro mais caros, que mercado tão volátil...), que não são senão os Dvd's da colecção Y do Público, com uns quantos menos euros em cima para escoar o stock. Mas por alguma razão comercial ou juridicamente complexíssima que me escapa, têm uns mal postados nacos de fita cola amarela atamancada no plástico a tapar as partes da capa que identificam a proveniência dos Dvd's como sendo da quinta do senhor José Manuel Fernandes.
Não é que não esteja habituado a, e me importe de, ser tomado por parvo. Faz parte das regras da maioria das arenas em que me movo, e eu sou indolente. Mas faz-me basta confusão, nos mais pequeninos exemplos, não conseguir reter aquela mínima barragem à falência apática no jogo social, que é, simplesmente, perceber... porquê??
Não seria Locke que dizia que era da mínima decência na vida em sociedade pelo menos fazerem-nos de parvos por algo de jeito? Detestaria pensar (não que faça diferença para lá disso), que já o fazem só para alimentar o hábito...

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Fim

Terminara finalmente, com suada diligência, conquanto sem estrépito visceral de glória, romanesco ou biográfico, um livro, pela primeira vez em mais meses em que as agregações numerárias tornam aceitável fragmentar um ano.
Por um minuto, esforçando uma significância na parda calmaria da luz de candeeiro com duas de três valências luminescentes fundidas, quase sentiu recrudescer a ilusão de poder ser uma criatura funcional.
A completude tem muito que se lhe diga (a finitude nem se fala).

Penitência (a much more private call it joke if you can/will)

Escrever cem vezes no quadro preto (now there's a metaphor):

Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto Basto

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

A means to an end

Certas considerações surgem na sensibilidade dos tabus discursivos como algo obscenas por aparentarem colocar a questão da medida de uma vida. Nesse quadro, não sei se já não é obsceno considerar que certas mortes em vida possam ser “redimidas” (lá está) por um epitáfio. Mas certamente tropeçamos no impropério abstracto quando consideramos a possibilidade de valer a pena viver certas mortes em vida por certos epitáfios.
Um cavalheiro de quem as criancinhas já não devem ouvir falar, ou que desdenharam nos LP’s dos paizinhos, de seu nome José Afonso, na sua volumetria estratosférica fez vibrar à anima a pergunta «quem cantarei?».
Não sei se o remanescente vibrante do sopro que nos assiste, já só empregue no objectivo mundo das coisas humanas a embaciar regularmente o metal do escoadouro, não é a calada pergunta, “quem nos cantará?”. (e para alguns bravos a resposta foi "eu mesmo" - sem leite Matinal, claro)
Não sei, nem me interessa (não é matéria de arrazoados), o que significa a sequer falta de sentido temporal e ontológico (como quem enojantemente se faz à abjecção) de pensar to live for to die for this*. Creio, no entanto, que só poderia acreditar plenamente em quem fosse capaz de assim amar uma ruína, e ser essa a medida estiolada de um resgate aos fins profetizados.

*
«I wish I lived in the Power and the Light
I wish it wasn't Saturday night
Cause I can't raise hell,
no I can't raise hell for two.

I wish I had a thousand bucks
I wish I was the Royal Trux
But mostly I wish, I wish I was with you.

When I was summoned to the phone
I knew in my bones that you had died alone.
We've never been promised there will be a tomorrow
So let's just call it "the death of an heir of sorrows"
The death of an heir of sorrows.

I have not avoided certainty
It has always just eluded me
I wish I knew I wish I knew for true.

I wish I had a rhinestone suit
I wish I had a new pair of boots
But mostly I wish, I wish I was with you.
We've never been promised there will be a tomorrow
So let's just call it "the death of an heir of sorrows"
The death of an heir of sorrows.»

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Semiologia à queima-roupa 4

Dizer que eu era um desperdício de vida foi tanto a elegia mais triste quanto o elogio mais prazenteiro que me fizeram.

Requiem negado a um Inspector

Face a isto, como direi?, sinto-me assim como se houvera sabido da morte do Pepe Carvalho da minha desesperança que não por suma interposta pessoa (pelo que, é pôr-se a pau, que na falta de um Montalbán vou-me a outro...).
E nesse particular, sinto-me também, diria que, como que tomado pelo furor da Kathy Bates(seria essa? confundo o nome das gordas e das modelos todas...), a marretar os pés do James Caan pelos tornozelos em ângulo recto de rigueur, caso o cavalheiro escritor não se dignasse a produzir uma "ressurreição" verosímil da sua (sua) personagem (no meu viewer's cut específico para este propósito retórico, bem entendido).
Sendo, for the time being, um pouco menos psicótico nos actos, e mais no fantasismo, concebo, evitando que esmurre o monitor (mas à cautela é não despistar-se na Serra da Estrela comigo na cercania), que, qual Laura Morante a deflectir uma captura na barreira policial de estrada simplesmente perguntando ao agente onde poderia encontrar um exemplar da Divina Comédia num Algarve despido de outros estímulos que não balneares, na mais justa inverosimilhança, verosímil para o estatuto de escrito, o Inspector Rousseau ressurja no pleno ennui de quem sustém o pé a pressionar o angst mesmo no limiar da tona de água do esgoto urbano, enquanto assiste ao esventramento ocasional no beco do outro lado da estrada com a placidez inexpressiva de quem seccionou, como que em recorte ontológico, com tesoura para cortar os pêlos do nariz, a palavra cinismo do dicionário enciclopédico oferecido por um tia gosmenta na juventude. (too much confessionalism?)
Afinal, tiros na cabeça, que raio, isso como eu ao pequeno-almoço.

(em caso de antecipação de, ou intromissão em, alguma planificação de narrative mastermind quanto aos destinos narrativos aqui inquiridos, apresentam-se as desculpas e pede-se o favor de ignorar o relambório expurgado - à confiança (everyone does (present company included)))

© Montalbán © Reiner © César Monteiro © Basto

sábado, 19 de agosto de 2006

No, I'M the invisible man


Dizem-me que armar altercação auto-depreciativa com livretes, é, na sinceridade do arroubo, passo inegável na demência.

Eu cá gosto.




(ainda que para o caso, à luz da ética de auto-depreciação que aqui se postula, possa ser defensável apontar-me como abuso querer ser mais que um "Man" de cada vez)

Semiologia à queima roupa 3

A propósito de uma interpelação por escrito que questionava formalmente uma decisão da sua (ainda que por anedota orçamental, poderia ser chamada de) entidade empregadora, a resposta da dita sugeria ter sido naquela empregue falta de correcção, ao arrepio da sua substância.
Um pedido de esclarecimento face-a-face com a direcção, para dissipar equívocos, resultaria, como se nada tivera sido dito, na negação de tais insinuações e na prossecução de business as usual.
Poucas semanas depois, gozando seus simulacros de férias em destino ignoto, seria depositada na sua caixa de correio, onde se quedaria expectante, o aviso de recepção que conduziria na estação dos correios, em percurso de requintes tortuosos, a uma carta quase anónima da sua entidade empregadora informando-o da, também pacífica, não renovação do seu contrato a termo, após mais anos que os que, em boa verdade, a retórica economicista trendy aconselha a manter um posto de trabalho.
Nesse dia apercebeu-se de que, funcionando por critérios operativos, que não por fechamentos semânticos, o léxico do elogio é mesmo infinito.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Dead End (2)

A consciência satura. Sabê-lo não dá vazão.

E tu, és copo cheio

ou cadáver adiado?

(com a vergonhosa vénia ao senhor Pessoa pela apropriação selectiva, porventura perdoável pelo encosto abardinado ao espírito que poderia assistir a quadras ao estilo popular)

terça-feira, 8 de agosto de 2006

That thing they call a legacy

Costuma ser sempre perversa, conquanto por vezes frutuosa (marketing-wise), a relação entre obra e criador. Para mais por entre as nuvens de haxe dos 60's a soprar para os 70's propícias à divagação mítica nevoenta para urbanitas desapossados de consciente colectivo com charme. E algures in-between se vão desenhado as devoções, ora mais confessadamente atreitas ao personalismo exacerbado a fixar idolatria, ora à exegese da pureza quasi-científica dos seus legados. Nas encruzilhadas que tal desenha, assim temos as heranças esquadrinhadas de tais como Brian Jones, a terem de ser peneiradas da imponderabilidade de dedo guru ou arrombo da percepção num arranjo; Barrett, a debater-se com legitimação psiquiátrica de um imaginário que pedia sim liberdade de camisas-de-força tipológicas; Morrison, a fertilizar cruzadamente música e mito até parecer o elogio dos inexplicáveis fulgores espasmódicos da sua arte ter de envergar calças de cabedal mal amanhadas no rabo burguês esforçadamente liofilizado.
Arthur Lee, no entanto, e possivelmente a despeito das suas intenções, ficou subsumido neste fruto incandescente da sua passagem terráquea. Quiçá danadamente (di-lo-ia?), tão terráquea, que se eximiu à morte lamentável que dá sepulturas no Pére-Lachaise e, consta, ainda estava para dar cenas algo passé no nosso Sudoeste (que raio de mito que se preze se associa a tal abardinice festivaleira? - já nem Woodstock, filhinhos). A verdade é que who cares? O disco gira, impoluto de juízos transitórios que o atem a um nome, face, narrativa espúria e divagação. Não dá grandes epitáfios, nem arroubos que aquiesçam em mal esconder a devoção. Mas às vezes é pelo melhor. A persona de um homem não tem que estar à medida da sua autoria. Para que a autoria também não se presuma sempre a medida de um homem (premissa vagamente humanista, altamente proto-egotista, of course - always seeding alibis, baby).

sábado, 5 de agosto de 2006

Esgotamento verboso

Já não se suportava ler.
Vozes cridas pressurosas, paradoxalmente apenas em eco distante ressoando, sugeriam buscar ajuda.
No confinamento de seu orçamento, ficava-se por buscar um dicionário de sinónimos.
No confinamento de interminável momento, ficava-se.

Crónica possível de um fim do mundo

Mirando os mundos desenhados em emanação dos possíveis no corpo da mexicana, na criança deitada na enxúndia, Holden, com um trago, confirma-os devindos impossíveis. E com moedas mal jogadas, pesarosas, para cima da mesa, na realidade desencantada do amor já só concebível como transacção da carne, sagra nos ecos do túgurio a decisão da marcha sacrificial de declarar com estrondo o estrebuchar do mundo que habitava. Borgnine e Holden sorriem(-se) no microcosmos do afecto calado que os une (particularmente Borgnine a Holden, por quem gritará; por acaso?, sendo aquele que à altura não disfrutava dos prazeres da carne com as prostitutas ao dispôr) na mesma ligação que leva Robert Ryan, traído por Holden, a já só poder opôr-se mortalmente a ele, em perseguição, na outra face da persistência da mesma união (mesmo na sua dissolução: "o que conta não é a promessa mas sim a quem a fazes"). Antes que tal apocalíptico ciclo se feche, the wild bunch acorda silente na acção de levar e assumir a sua condição social moribunda às suas últimas consequências ("why not?"). Os quatro homens tomam o passo de resgatar o companheiro cativo na boca do lobo. Mas aqui não há heróis, há homens ligados por um sistema de honra com suas regras particulares. Uma certa expendability nessas regras tomava lugar, como no abandono do corpo de um companheiro que apenas atrasaria a fuga. Salvar agora outro companheiro, Angel, não é acto bom, é leitmotif ritual para a sagração da morte.

"Angel" (no coincidence) conformava um espaço social em aberto para a existência destes homens, na sua dedicação social a formas colectivas de justiça (como a subsistência da sua comunidade nativa) ameaçadas pela anárquica institucionalização de novas formas de poder como as que made America (as corporações, companhia de caminhos de ferro; governos, exércitos e guerrilhas e pequenos senhores da guerra na crescente institucionalização da guerra pelo território; tudo criando um terreno de luta sem tréguas ou tergiversações pelos seus interesses, lançando condenados contra criminosos, sacrificando populações). Dedicação mais ampla que pudesse subsumir o subentendimento de honra que antes bastava unir dois homens. Robert Ryan, na sua perseguição do antigo companheiro e seu bando, pela traição do elo que os unia, ou pela liberdade da sua pena de prisão (derivada daquela traição) pelo homem plenipotenciário da companhia de caminhos de ferro, expressa o fim da linha para esta existência de agregação individual, na perversão autofágica e instrumental do que unia os homens nela enredados.

Contudo, sendo uma elegia, não se filma plenamente o apocalipse. Que a honra se pudesse converter noutro modo de vida, nos tempos em que a vontade de um homem só já se não basta, era outra história, que Angel prometia (e não protagonizou, mas semeou), e que Robert Ryan e Edmond O'Brien (perseguidor e perseguido (re)unidos na face da morte ritual dos companheiros) deixam por saber como se irá escrever.

Mas aqui se descrevia a morte do western como o conhecíamos, e essa descrição sim, plena, porque incorporava no mesmo gesto estético os dois tempos dessa morte: narrativamente, naquele tempo histórico da América, em que os homens deixam de se conjugar nos termos do seu livre-arbítrio; meta-narrativamente, nas condições sociais do cinema americano a entrar na década de 1970's, com o género fenecido esteticamente às mãos da transformação do seu contexto de recepção e a perda das suas virtualidades metafóricas ou reflexivas. Mas mais simbólico e sincrético ainda, era tudo isso estar inscrito nas rugas de William Holden (facto a que a sua apenas breve passagem fordiana assistia).

Young cantou "It's better to burn out than to fade away". Num certo sentido, Peckinpah filmou-o assim.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Oh, I'll say it again: "just call me mr. pitiful"

Arduamente dirigindo-me a Sines para presumivelmente usufruir dos 3 dias de concebivelmente férias que um corpo-dolente-profissional-não-dignamente-subsistente se pode outorgar, ao chegar procuro poiso para repousar (mal e porcamente, virtudes orçamentais) as ossadas das estouvadas caminhadas que as episódicas sacudidelas fora do casulo incitam quase em contra-reacção, mais uma vez em incompatibilidade com a devida planificação e estabilidade.
No último telefonema de cabine in loco da investigação por leito e latrina (primazia para a segunda), um velhote renitente finalmente afirma ter um quarto disponível, «mas onde é que você está? Está em Sines? Já vem a caminho (só depois percebi que era em Porto Covo - o previdente ataca outra vez...)? Mas demora quanto? Mas afinal quer que o guarde ou não? Está bem, mas despache-se, qu'isto...». Preço minimamente aceitável para condições de pensão-casa-familiar. Vamos a isso.
Chegado com o desembaraço aceitável, o cavalheiro lá mostra quarto, sim senhor, serve, não sou esquisito.
De repente, estaca e mira-me nos olhos com seriedade antecipada de suspeição, meio descrente: «Mas...não trouxe a mulher?... É sozinho?». «Sim, sou». Meneia a cabela ligeiramente, como quem se depara com um desconcerto às expectativas incorporadas, e solta então complacente «ah, então paga menos... não quero enganá-lo... se é sozinho...».
Nunca me tinha propriamente sucedido (embora lhe suspeite razoabilidade social) encontrar expressões de dó pelo celibato aparentemente não voluntário, mas compensações financeiras, essa é nova.
Curioso como as reminiscências (e os actos correspondentes) de uma configuração pré-figurada de presunção dos seres e suas formas de acção num mundo cerzido de relações podem configurar um efeito perverso nos incumprimentos à regra que lamentam: tenho muita pena, mas se o quadro de solteirão inusitado me poupar cinco euros na renda, temo bem que a solidão organizada me cimente tal contingente condição na expectativa de um outro futuro promissor, na carteira.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

O Discurso do Método e As Paixões da Alma reunidos num só volume! - (or striving for a metaphor)

Death 'n company

«Ele deixou escapar uma exclamação confusa, ruborizou-se de alto a baixo, sacudiu-me a mão com toda a força… - e no segundo imediato, já sozinho na câmara do navio, fiquei a ouvi-lo subir a escada da escotilha, cuidadosamente, degrau atrás de degrau, com um medo mortal de suscitar a ira brusca do nosso comum adversário, que era amarga sina sua trazer, com plena consciência disso, dentro do peito vulnerável
(Conrad, «A Linha de Sombra»)

O saber é constitutivo da sina. Nomeia a sentença e impregna do seu presságio e piedoso reconhecimento, agora escancarado no tempo, o tecido das acções e relações que incorporavam ao escoar descomprometido do que as carnes sentiam poder dispensar do rubro fluido.
Os adquiridos colectivos recobrem tanto as externalidades que estilhaçam em cada corpo... Não é questão, que raio, sopesar tanto persistir ancorado; é tão somente um corpo não mais poder morrer a vida em paz, apenas maré de possibilidades, e apiedar na quietude um quasi-fútil cerco, sem nunca barrar de tanta lâmina o alcance... Alimentar o albatroz para cuidar da certeza do seu poiso, e os olhos devirem servidores absolutos dos gestos que o cumpram. Estagnados, absurda esquiva afinal cumprindo destino antecipado.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Olhando ou ressentindo o entretém de um bocejo

Não há muitos sinónimos para sofrer. O verbo pode conjugar um lago quase sem fundo mas impõe limitações à vitalidade de Heraclito.
Até por aí, o estertor é cansativo para o mundo.

À sua escala e ambição

...but an ass-print is.

As if (not as such)

Aos 10 meses de existência, este blogue atingiu as 6375 visitas (cerca de 16 111 page views, das quais cerca de 16100 minhas - humm...), apesar de os textos terem sido acima de tudo patéticos e às vezes francamente uma merda. Obrigado pela piedade.

Por razões diversas, a coisa ameaça arrastar-se até Setembro (esperançadamente talvez só até Setembro)

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Home improvements (in those dark days)

«De discos assim se pode facilmente dizer que é incipiente, diletante, inconsistente, mera recolecção de esquissos inacabados de um trejeito melódico que alguém trauteou ao ressentir a sombra assoberbante de um plátano na prazenteira decadência de vogar em malaise urbana, ou, ao inverso, ao contemplar a fímbria de luz que entre dois prédios agracia por 5 minutos ao dia no Inverno quando se dispõe solarengo a sardinheira dependurada pelo olvido dos gestos na esquina do aparador na sala, e que achou que seria boa ideia guardar no gravador caseiro para esgravatar inspiração passada em dias de aridez anímica. Ah, pequeno pormenor, o estuporado dilentante que soprou como quem não quer a coisa estes débeis apontamentos de canção, e para não desperdiçar a limitada vitalidade das nossas cordas vocais teve o desplante de deixar que os ornassem com guitarrita aqui para a febre orgão acolá para a imersão trompete no entretanto para a evocação e sim até batidas à papo-seco incluídas no pacote do estúdio, e já agora os editassem em CD e, porque não?, com umas fotos de plantas em vasos no livrete, porque de facto who are we kidding? isto é tudo muito chapadinho lá de casa, é Stuart (com licença, A.) Staples, em primeiro registo a solo, em pausa (hopefully) de Tindersticks (a desmemória ou ignorância da derme sempre precariamente cicatrizada exige mesmo que se mencione os Tindersticks? Claro que não. A anti-séptica derme ao raio qu’a parta. Nós sim, exigimo-lo, o que é diferente, e é questão). Ah, pois, faltava isso. E percebe-se melhor o “estuporado”, não? Pois, é que há uns pulhas impenitentes a sobreviver ao desalmado calendário da previsão, que apenas por acasos da fortuna não permaneceram sempre guardados na caixa dos segredos de umas quantas almas, e que mesmo na insuportável e descarada lei do menor esforço, para os suados proletários de um verso, porra, um só, que comova sacos lacrimais alheios, num espreguiçar melódico, numa frase repetida como imperceptível ostinato a somar-se aos ainda ignotos dias que virão, na limpidez que a poeira da mal-tratada faringe e o tartamudear da vizinhança com o mezcal paradoxalmente imprimem ao vibrato, e no timbre de cetim puído dos corpos e copos que sorveu sem nódoa volvidos tacto e textura, enleiam o espaço de uma divisão e a congregam para cingir o corpo do acalento ao amargor que se recorda das noites feridas no exterior. Não é daí que vem em primeira instância o lucky dog, mas não é nada inverosímil.Este disco não se quer defendido.
Este disco é alheio a méritos, deméritos, elogios e detractores. Este disco boceja indiferente na cara de correntes, classificações, híbridos compósitos de lhe achar um lugar para o descartar do mundo e arrumar na prateleira. Este disco não se quer dissecado faixa a faixa, ó aquela é Tindersticks em desencabrestamento a armar ao pingarelho em apagados dedilhares de sax e guitarra, se a frase que o antecipou não nos estivesse ainda a marcar a pulsação; ó e aquela é aquela soul branca low-fi com excrescência de intermezzo, a não assumir e subsumir a elipse na repetição incansável em desenvoltura hínica sotto voce nos metais, que nos acolha ao sonho a preto e branco; ó ó e aquele truque da hesitação no retomar do harpejo de piano como filho pródigo tresmalhado que retoma a medo memorial e dedos vacilantes as teclas do piano da infância sepultado no pó dos sotãos nevermind o facto de ser das declinações mais simples e estupidamente (porque simples) belas da debilidade humana que há muito se não imprimiam num rodela de música; eh pá, e não é que continua a ornar os murmúrios com farripas de piano, e o desamparo devém sempre renovado... Oh santa paciência, que ele não quer ofício! Este disco está-se impudicamente a borrifar, não se quer avaliado, não se quer dito, não se quer falado. Apenas quer-se.Não sei se me faço entender. Mas também, logicamente, nos termos da estrita partilha epidérmica deste entendimento, I just don’t care

Dead End

Quando fenecer é a única forma de provar um ponto de vista.

sábado, 15 de julho de 2006

«Wouldn't you miss me at all?»

A morte é dia de arrumar recordações e passados. Carimbar trajectos com o selo redutor de um sentido sobrepujante. Com crónicas de morte anunciada, a coisa é mais fácil e expedita. Syd Barrett tinha epitáfio escrito há décadas, e os escribas da morgue só esperavam indiferentes que o senhor se dignasse a entregar o corpo à encomenda antecipada. "Génio" e "louco". Ou o "génio louco"? Pequenas efabulações, de fontes ignotas, eram impressas de vez em quando, a forçar a imagética da clausura quotidiana de um alienado, a dar consistência à classificação pré-formatada. Absolutismos e reducionismos para demarcar bem o campo: houve Pink Floyd sem Barrett? Houve Barrett sem Pink Foyd? O entretém dos exegetas da distinção auditiva.
O que me atinge como a maior singularidade de ouvir Barrett ainda hoje, principalmente hoje, é que provavelmente é da música mais despida de cálculo que já nos assaltou. Em tempos em que, provavelmente com justeza, a genuinidade das intenções, o cinismo de um arranjo, são esquadrinhados para dizer da entrega segura dos nossos amparos a uma voz, ouvir Barrett é uma espécie de ablução. Nos momentos mais libertos do que se conceba como produção, soa como se nada fosse pensado para ter um efeito determinado, concebido e antecipado para extrair uma reacção ao auditor. Criação descomprometida do que num cérebro ciranda. Que o cérebro fosse aquele, claro, é o que o salva da confrangedora redundância. Como se uma criança (daquelas inocentes, se ainda há disso) cantasse despudoradamente da fantasia que experiencia em corpo adulto. É isso que o torna tão desequilibrado. É isso que o torna tão desarmante.
Lembro-me de assistir, jovenzito, à conversa de dois would-be melómanos, em que, començando um a entoar o «Astronomy Domine», o outro o interpela escarninho «ainda ouves isso?!». Em vez da defensiva justificação, o trauteador deveria claramente retorquir no tom equiparado «Tu não?!». «Astronomy Domine» é não só uma canção bela até ao espanto, é não só uma canção perfeita em tempos de dissolução formal, é provavelmente a canção-farol que congrega fulgurante e absoluta num só corpo todos idiomas musicais que se acoitaram sob o que em diferentes espaços-tempos se convencionou chamar psicadélico. E se com os Pink Floyd a música de Barrett envergava fulgor formal, não quer dizer que no vagabundo trejeito em que emergem os seus resquícios musicais a solo o universo de candura ensandecida (como é doloroso ouvir o desespero começar a ensombrecer a ideia de um país das maravilhas) fosse outro...
Há uma canção que, sabe-se lá porquê (embora pudesse saber), ora por vez me vem à mente, chamada «The Gnome», pura descrição de fantasia terrestre descomprometida de intenções.
Agora que penso nisso (é obscena a actualização contabilística da memória acorrentada às campas) trauteá-la pode ter sido dos poucos prazeres impolutos que conheci.
E agora vou limpar da face o requintado projéctil salivar que Barrett, felino mais visionário que todos os redutores de real, louco mais sabido que as presunções populares de proto-psiquiatrias, antecipadamente lançou a quem pretendesse fixar-lhe epitáfio:

Deixa-me um irreprimível sorriso nos lábios a ideia de um morto nos levar a melhor.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Mistaken Identity

Eu sei que é uma questão linguisticamente pacífica (a senhora polissemia), mas em rigor sempre discordei do emprego da expressão "life's a bitch". Metáfora por metáfora, a ser alguma coisa essa matéria inapreensível que paradoxalmente nos impregna e contamina até aos ossos descarnados, convenhamos que em bom inglês dir-se-ia mas é "life's a pimp", porque, pela minha parte, nos fluidos movimentos em que procuramos atabalhoadamente sustentá-la no seu esquivo e imperativo vogar, a ser alguma coisa, convenhamos, I can only be her bitch.

Cartão Jovem

Conquanto nunca tendo particularmente beneficiado, quando foi tempo, dos descontos institucionais consignados a essa duvidosa categoria de "jovem", sendo a minha política orçamental de aquisição de livros e cds orientada pelo gosto acantonado à condicionante "o que é que está em promoção?", perturba-me profundamente ter de pagar full price por qualquer consumo cultural ao mirar as tabelas de desconto ao lado no preçário.
Quanto mais não seja (para dissipar a muito sensatamente presumível inveja e ressentimento de ausência de uma inserção privilegiada nas ofertas sociais), parece-me óbvio que o intervalo etário dos beneficiários do Cartão Jovem devia ter actualizadamente como limite superior a idade em que estes quarentões deixarem de fazer música.
A burocracia foi feita para não entender nada...

«Como se tivesse sido ontem, em 1994 novos e duradouros tempos se configuraram no projecto musical dos Sonic Youth. A sua marca sempre fôra clara e visível, e na senda de Glenn Branca outorgaram ao rock um inquisitividade estrutural imediatamente reconhecível, que a expressão exploração sónica espelha na perfeição, fazendo jus à nomenclatura dessa juventude.

O questionar e a expansão dos limites da canção (sim, ainda canção) e dos pilares sonoros do rock, constituíram a sua empresa como pináculo singular, que conseguiram manter frutuosa por largos anos, apesar de as técnicas básicas parecerem estar já delineadas quase desde o início: não se enganem os que se ficam pelos motes do imediato, pois que a busca sónica se aplicou em exercícios, se reconhecíveis em certa metodologia ou estilo, sempre diversos na configuração das estruturas a questionar por dentro – “Sister” já não era “Evol”, como não foram repetições de nada “Daydream Nation”, “Goo” ou “Dirty” (quem ouve esses álbuns como se do mesmo se tratasse, tem o fundamental da questão a monte). Se oscilaram entre a conformação às possibilidades estritas inscritas na estrutura de uma canção, ou se a desmantelaram para dar outras vozes às peças de Lego que as constituíam, os resultados também sempre foram impressivos na sua própria materialização, e não na reiteração de um paradigma (nessa fruição também residindo a permanência da relevância estética).

Mas aqui, a um pouco menos juventude, decide tornar-se adequadamente um pouco menos sónica, a indignar certas gentes somente carentes de assalto à guitarra armada. Na verdade, aquela juventude tornava-se era sónica noutras vias. A experimentação descarna-se, e torna a canção esqueleto. Para quem suspeitasse que por baixo da distorção, reverberação ão ão, tremolos duais de guitarras em contraponto melódico a avaliarem da possível sua fecundação, não havia sobeja matéria estrutural que organizasse a expressão, desenganem-se. Despidas, desornamentadas, cada gesto neste disco se fez cru e preciso no registo do que faz uma canção inconformada (e a inicial “Winner’s Blues”, linha melódica singular de apenas guitarra acústica acompanhada, “mas isto é um disco dos Sonic Youth?!” perguntam, é todo um programa e um teaser no mesmo gesto cultural).

O que antes era ataque armado e corpo esfacelado no pavimento agreste de distorção, virou ameaça velada na elipse da perenidade do atentatório ruído. Nesse registo, “Bull in the Heather” e “Skink” entram directamente para os anais. “Doctor’s Orders”, bela e mais simples canção, deixa igualmente que o espaço da desenvoltura do formato se dissemine num low-fi de rumores inquietantes no breu que parece confirmar a nova compleição da agregação sónica. Quando a tempestade eléctrica desce, perfura a noite transmutada em espaço silente de premonições e não mais de escancarada revolução, como em “Tokyo Eye”. Nem de propósito, o grosso do disco assemelha-se a um desfilar de haikus sonoros, que de mais esparsa matéria conferem maior singularidade ao seu enunciado.

E porque de beleza mais esconsa (para os sónicos acólitos) fala agora esta moçada, é nos recantos que se vai descobrindo o espigão que nos alerta para a sua continuada sabedoria. No final da primeira volta de “Bone”, os espamos de distorção a deixarem quase oculto o facto de a canção estar a terminar (como terminará, sem enganos, na segunda volta) em surpreendente, repousado da provação, acorde maior. Ou na recuperação da cadência imparável de “In the mind of the bourgeouis reader”, a finta rítmica a trocar-nos as voltas.

Mas mais que esses pormenores, mais fundo nas raízes, mais depurado na audição, a sageza da gestão das densidades sonoras ressalta para quem julgasse que para fazer matéria do que lhes fez carreira bastava ligar o amplificador. Este pessoal é pleno senhor dos seus crescendos. Mas é nessa maior depuração (que consegue permanecer sujíssima, não obstante) que as guitarras passam a desafiar-se no novo laconismo da certeira conjugação, na interrogação do inesperado, que o minimalismo disfarçado sugere (nos insidiosos meios tons das escalas e em riffs, por uma vez, subsónicos). O silêncio ganha espaço, o espaço ganha a amplitude, já não da reverberação que o atulha e lhe expande os limites perceptíveis, mas do eco que se não vislumbra senão no retorno do ignoto confinamento do formato: experimental, pois claro. No Star(s). Jet Set e Trash? É preciso soletrar a(s) ironia(s)?

Os Sonic Youth equilibram-se na estreiteza de um desenho a lápis fino e cerrado, para demonstrar a justeza de um percurso mais além dos mapas prescritos, retendo-se, no entanto, na geografia do lugar que pôde ditar o sentido da dilatação do som das estruturas e da apreensão cerebral. Intacta, e mais secreta, se mantém pois a inquietação. Este álbum representava supostamente a nova vida pacificada dos sónicos de meia-idade, pausados em experimentalismo menos exigente nas carnes e na tensão arterial. E de facto, a terminar com canção em solarengos acordes maiores (“mas isto é um disco dos Sonic Youth?!” escandalizam-se), de “Sweet Shine” despudorado no título... ah a doçura da meia-idade. E no entanto, no entanto, essa nova vida só confirma que a sageza dos tempos sempre esteve com eles.

O futuro continuava em frente. A geração era questão de pormenor.

Admiráveis putos.»

sábado, 1 de julho de 2006

Estrangement

Ressinto sempre um hiato de empatia intransponível quando alguém me diz (em geral com a repulsa mal-desfarçada que não tardará a invectivar "desliga essa merda") que certa música "é deprimente".
A música já me fez muitas coisas, parte delas inconfessáveis.
Já me alegrou, já me entreteve, já me confortou, já me assustou, já me inquietou, já me entediou, já me adormeceu, já me excitou, já me exasperou, já me afinou, já me gingou, já me aspergiu, já me irritou, já me ufanou, já me domesticou, já me depauperou, já me arrebitou, já me insulou, já me atrasou, já me cantou, já me indispôs, já me ancorou, já me atardou, já me propulsionou, já me devastou, já me prosseguiu... (hmm, wishful work in progress)
Agora, deprimir-me?... não... não vejo...
A felicidade (ou o mais eficaz construto da adequação imponderada - por vezes diligentemente, passe a produtiva contradição), deve ser um lugar muito estranho.

Tempo de bola, tempo de bloga

É curioso como empestar a blogosfera com posts poderia configurar uma forma simbolicamente perfeita de protesto quanto ao forçado empestamento colectivo que a bola empresta a estes dias, não fôra o caso de ser um protesto absolutamente estéril nos seus efeitos controlados pelos receptores.
É bem triste verdade que as ditaduras são em grande medida uma questão de dispositivo.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Ganhámos o campeonato!!

não...
eu porfio e porfio, mas mesmo para quem careça de inflamar o peito com feitos expurgados das "bocas do inferno" da nação, a metáfora empalidece na face gloriosa da verdadeira notícia:
os Gaiteiros de Lisboa têm novo disco!!!
Lançamento, hoje, em concerto no CCB.
Perpetuação, todos os dias vindouros, no exíguo reino dos sons que nos ultrapassam e perenes se entranham, na alquimia que se enraíza em, transcendendo, imaginários e húmus reconhecíveis e a reconhecer.
Descaindo um pouco mais o discurso (o O'Neill que aguente), porque implicativo is how I feel:
Ai Portugal, se fosses um disco dos Gaiteiros, deixavas-te de merdas...

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Aviso à navegação

Como se pode começar a vislumbrar (não ler o que precede este aviso sem o tomar em conta), em solidariedade com o descabelamento colectivo instituído com o mundialito, os meus níveis de auto-censura estarão num all-time low.
Agradecimentos institucionais ou pessoais não serão necessários. I do it for the people.

Making amends

Afora algumas boas almas solidárias, ando a ser acossado pela minha incúria no apoio à selecção nacional. Pelo que tentei. Esforçadamente. Diligentemente. Eu que em curto exílio estudantil britânico não evitava um estrépito suplementar na espinha e na fonte de comoção quando punha a cassete dos Gaiteiros de Lisboa no pequeno leitor que me amparou.
Mas que querem, como sabemos, nestas coisas o corpo e o coração mandam, como os fervorosos adeptos da simbolização inane denunciada pela hobsbawmianamente desvelada invenção de tradições para a integração nacional bem sabem, e eu, no meu resto decrépito de corpo e cérebro, no meu pobre imaginário anómico, confesso: eu bem ouço e repito, "Força Portugal!", mas, no fundo bem fundo do bom nacionalista que devo ser (e como tal, cônscio de que para unir a nação qualquer merda, e de preferência qualquer merda, basta), creio que a imagem que me sai foge um pouco ao guião...
Mas se a desmiolada agremiação é que de lei, pois seja, como bom capacho, serei solidário, e com a pátria urro:

FORÇA, PORTUGAL!!

Apropriação Social da Tecnologia

Há uns tempos fui surpreendido por uma incursão inesperada da automação no universo de consumo cultural português, com potencial significativo, se considerarmos certa vulgarização do acesso a produtos culturais que se tem vindo a fazer por via do hábito social sedimentado e categorizado de «ir à FNAC».
Endereçando-me por rara vez à FNAC do Colombo, sou, ao dirigir-me para a caixa, interpelado por sorridente funcionária, que me quer ensinar a despachar eu próprio o pagamento das minhas compras, para tal disponibilizando a loja uns novos tamancos mecânicos no qual o próprio consumidor pode registar e pagar os seus consumos. Como não consigo resistir a uma carinha laroca (pronto, confesso, também não consigo resistir às menos larocas) (pronto, confesso, vou com todas) (OK!!! PRONTO! Eu IRIA com todas, se ALGUMA fosse comigo! Irra!!... Satisfeitos?!) lá me submeti à demonstração.
Contudo, posteriormente, tentando enjeitar a sensorialidade de repulsa que me dava lidar com aquele resto de cenário do «Metropolis», pus-me a elaborar um momento sobre a tessitura de transformações que tal poderia configurar:
- uma certa proletarização de certas vias de consumo cultural (queres livros mais baratos?, já havia a versão, "atira-os ao molho para o caixote e os badamecos que vasculhem", agora é cada um se amanhe com as suas compras, regista, paga, enfarda – dou-me agora conta que o enfarda era descrição suficiente para todas as operações, waste of time – dou-me agora conta que perdi mais tempo a dizer que perdi mais tempo – agora aprendi a lição, calo-me – e o calar faz perder mais tempo – portanto o término do discurso é sempre um artefacto enquanto o sopro expira - hummm – e denunciar isto como infantilidade participa da infantilidade, pelo que o silêncio do delete é a única marca possível de certa sobriedade... curiosos os limites discursivos da própria sobrediscursividade... bem me parecia que silence is better – mas pronto, já agora acabo...)
- mais uma pequena desumanização do processo social de consumo
- mais uma repartição e complicação burocrática do erro e correcção no processo (logo na primeira “experiência” cobram-me um euro a mais por um artigo: lá tem o cliente que se dirigir a um outro departamento – desta feita humano, quem diria, que isto com a máquina não há desvios processuais. Efeito provável e esperemos que não esperado: o cliente pensar se o euro justifica o pastel)
- mais um espaço de empregabilidade em dissolução.
Mas principalmente fez-me estacar mentalmente a obscena ironia de tornar parte das tarefas de uma funcionária explicar aos clientes como utilizar o processo que a tornará excedentária.
Claro que a quase tudo se pode conceder um lado positivo (em geral egocêntrico), pelo que logo pensei que assim posso comprar os mui conspícuos volumes kinky da Taschen, desembaraçado o obstáculo de ter que enfrentar a potencial reprovação velada do humano na caixa.
Fora tal apropriação instrumental, contudo, temo que a minha resposta futura a tal apelo a solidificar a máquina será a da resistência possível, se necessário com libidinal (conquanto infrutífera) verve afiançando: «eu gosto mesmo é de operadores de caixa».
Purr purr.
cof cof (bola de pêlo - ao vivo soa melhor)

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Agora é que avisam (não que fosse candidato...)

Nightfall

Apanhei-o um destes dias nas ocasionalmente generosas madrugadas (apenas e só as madrugadas) televisivas, e há, digamos que, um procedimento estilístico (viva o film noir) que muito me apraz na primeira meia-hora ou assim. É que apesar de mais tarde verificarmos, ilustrado de forma quase beatífica, que os "bons" e os "maus" estão perfeitamente delimitados, sem zonas intrínsecas de sombra ontológicas (nada de complexidades psicológicas, portanto), nessa primeira parte, essa identificação não é possível, porque a percepção começa por estar organizada em torno das situações e da acção dos personagens descontextualizadas. Como a entrada no filme é logo com o enjeu de film noir da perseguição e da atribuição da culpa instalado, não há situamento narrativo (nem grande sugestão simbólica) que determine o papel de cada um nesse intrincado (que será progressivamente desvelado precisamente com recurso a flashbacks que sustentarão essa verdade narrativa, até então velada). Assim sendo, na primeira parte, aquilo que é a necessidade de identificação dos personagens vai sendo eludida em função dos equívocos que alimenta o olhar "neutro" da câmara ao seu estar em situação, sem discurso de intenções, sem demonstrações simbólicas. De alguma forma, colocando a clarividência ontológica na dependência contingente da percepção. Ponto de vista que é, na verdade, reforçado exactamente pela unilinearidade moral dos próprios personagens, ancorando a ideia de que mesmo os mais impolutos seres podem ser sempre situacionalmente ajuízados como o seu inverso. A ontologia ou a colocação moral de uma pessoa, antes de qualquer psicologia ou metafísica, é pois evidenciada primeiro que tudo como uma questão estílistica, por assim dizer, cinematograficamente, ou mais generalizadamente, como uma questão de percepção e colocação contingente nas arenas do quotidiano, sempre terreno de lavrar equívocos. Como na cena em cima, em que apesar da aparente transparência visual/simbólica do carácter dos presentes, a "natureza" dos personagens é posta em causa pela situação em que o acaso os junta.
Qualquer coisa como: quem nós somos é onde e como estamos.
Adoro filosofias de como quem não quer a coisa.

Tourneur Isn't (Just) Cat People

«- Yesterday my biggest problem was how I was gonna break a date with a fellow I know, for tonight.
Of course I could cal him up and tell him I can't make it: I'm on my way to Wyoming in a pair of field boots... with a man that's wanted for murder.

- If I left you here they'd find you in no time.

- Even if they didn't, I'd still wanna go with you... you're the most wanted man I know. »

domingo, 11 de junho de 2006

(Ceci n'est pas une boîte de commentaires 2)
A bola sob as oliveiras

Lembrei-me de um comentário (sim, comentário... é patético, não contem os caracteres) que deixei numa caixa benquista, num tempo em que não me debatia com o corpo à porta de casa aberta. Vem mesmo a calhar (por mais que uma razão, que sensibilizam o dedo para o copy paste), logo, refresque-se-lhe as faces e vire postada.
Aí vai:

Por vezes penso que gostaria de gostar de ver futebol. Mas lembro-me que não deveria. Repressão civilizacional a la Freud? Hardly. Até porque se tornou fashionable (para lá de, curioso, cada vez mais culturalmente fascizóide e obtuso dever nacional). Apenas reconhecimento de que os construtos sociais que conformam os prazeres não são inevitabilidades, e a matéria subjectiva em que se enformam não é inocente e inconsequente. E o desporto institucionalizado e competitivo é (grande novidade) largamente de uma perversidade singular, tão mais declarada quanto discursos de boas intenções cada vez mais enxameiam seus processos de legitimação. Cumpre funções sociais? Talvez. Mas teorias do conflito e válvulas de escape também são uma bela Maria vai com elas, e lá por isso os adeptos bem podiam ir para o mesmo efeito partir pedra para a Arrábida, que diminuía a poluição, e gostavam mais do país, sem o colorir de chauvinismo dependurado à janela (tamanha devoção: recordo uma vizinha com rancor a arrancar o dito cujo ainda a anunciada final malograda do Euro 2004 não tinha terminado).
E claro, construto agora, construto sempre. Mas, fincando pé nos arquétipos e lembrando aquele onde viveria Ulisses, podemos ajuízar melhor do pé na bola com o valor de uma peladinha no caminho para Ítaca, ao ser desafiado pelos Feaces (um arremedo jeitoso de Liga dos Campeões, se dotados da visão insuspeita de Tirésias, para não nivelarmos por baixo):

Euríalo (qual Pauleta qual carapuça): «Não, estrangeiro, a mim não dá impressão de seres um homem conhecedor de contendas atléticas - das que praticam homens.»(...)
Ulisses: «Encolerizaste o coração no meu peito, falando de modo desabridoe sem medires as palavras. Não sou inexperto em contendas atléticas, como tu afirmas; mas entre os melhores me contava, quando podia confiar na minha juventude e nos meus braços. Mas agora domina-me a dor e a desgraça. Sofri muito nas guerras dos homens como nas ondas do mar. Mas mesmo assim, apesar disso, participarei nos vossos jogos. Pois provocaste-me com o teu discurso e feriste-me o coração.»

Boa parte dos viés do reconhecimento (e desqualificação) social pelo desporto estão lá, como cá. E o humano herói não resiste a provar-se (e a dar uma coça nos adversários, ora pois, a esmurrada fotocópia Schwarzengeriana não veio do nada). Mas o seu valor relativo, no dever-ser, a que alguma sensatez que da sombras das oliveiras descai se soube alcandorar (e desgraçadamente o valor absoluto hoje legitima) em tais terras solarengas também lá está. Convenhamos que seria irrazoável irmos todos saquear Tróia (ah pois, não era só simpáticos velhinhos pederastas de túnica a apanhar fresco com um enleante silogismo nos lábios) para aprender a lição (consta que se tornou um pouco inviável). Mas podemos ler o tio Homero. Afinal, até a literatura pode ter funções insuspeitas.

Os nomes do elitismo (cerrado temático, ainda na bola...)

Já não o é, de longe, com virtualmente todas as elites sociais a apregoarem a sua devoção futebolística, de selecção ou clube, mas mesmo quando o futebol era desdenhado pelas elites sociais, isso não equivale logicamente a uma associação liminar da repulsa pelo desporto organizado a uma manifestação de elitismo (real ou representado).
Considerando que não são só as elites a poder produzir enunciados teoricamente elitistas, a minha propalada desconsideração por desportos organizados, tais como futebol, não é de forma elitista nos seus intentos. O problema do apodo elitista é que assume um realismo presente no qual a demarcação de uma devoção de massas só cumpre um efeito presente possível, que é a própria distinção social. Mas há que ver nessa demarcação a possibilidade de um desejo de transformação social, que pode tornar um enunciado realisticamente elitista num enunciado utopicamente populista.
Pela minha, parte, não tenho dúvida quanto aos meus intentos: não suporto futebol, anuncio-o, e muito gostaria que as massas concordassem comigo (as buzinas que insuportavelmente acompanham o meu teclar e desejaria silenciadas constituindo prova cabal).

(since we're into sports...) Pavlovianamente anti-sociobiologia (get it? ah ah...)

De repente fiquei perplexo, face ao facto despido: que estranha essencialização naturalizante sustentará a divisão sexual também nas competições de xadrez? Nem no emprego da racionalidade num intricado cerrado de parâmetros estratégicos e analíticos (ridícula "descrição", mas enfim) um homem e uma mulher se podem medir como iguais? Ou (smart move) (get it? ahhh) será precisamente para prevenir a possibilidade de alguém presumir algo a partir dos resultados? É delicioso e tenebroso paradoxo, o facto social de a biologia ser um alçapão sem fundo (tanto quanto, até este resulta um enunciado naturalizante - it wins again).

Just tryin' to feel a bit special... (indicador provocante entalado nos lábios, while you're at it)

...presumindo ser o único português a português a postar durante malfadado jogo da selecção de Portugal no Mundial de Futebol (lamento a exaustividade, mas os estranhos à demência não têm nada que mimar a familiaridade com as suas nomenclaturas)...
E já agora, que presumo estar para aqui sozinho postando (contribuindo para tornar a ocasião minimamente produtiva ontologicamente), convenhamos que não havendo esferas isolantes de indiferença, os rapazinhos até ganhavam uma grama da minha estima se fizessem o obséquio de perder com Angola (hã, não estou completamente a leste, salvo seja). Se o argumento é o da recompensa simbólica associada à ideia de nacionalidade, convenhamos que era o mínimo que se podia fazer, e certamente seria mais dignificante que qualquer outro resultado daquela estiolada ou perversa (a primeira hipótese é melhor) confluência de vontades.

Hmmm, estou a ouvir o diabólico sound-system com que a câmara municipal me atormenta os dias manhãs e noites há tempos... porque raio é que é sempre brasileiro o animador das hostes? Já tornaram requisito para a autorização de residência a abnegação de outras fidelidades nacionais de torcida? Diacho, torcer por Portugal incluso no pacote cultural da política migratória (the subtle one), e a Amnistia Internacional calada? Afinal a política de afinidade cultural também pode ter inscrita daninha letra miúda...

Só este exasperante cenário para me dar para postar. Acho que vou aproveitar a rara conjuntura para tentar ver o Mallick na insuportável grande superfície do burgo. Talvez não haja nenhuma cavalgadura para fazer o favor de ostensivamente mascar pipocas nos meus tímpanos, e se a sala não barrar os fragores da multidão, talvez desta emane um aliviante fade-out de desilusão.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Unhalfbricking, ou Forcefully keeping in mind there is a world beside there is a kingdom, (overquoting)

Quando se deposita o último bloco na clausura incorporada e o Waters entoa em implacável sumiço "Goodbye cruel world", the wall ainda vai a meio.

(non-Rock-in-Raio-qu'o-parta-related)

sexta-feira, 2 de junho de 2006

To move within a frame

A(s) prova(s) do(s) silêncio(s)

Buscava o mais possível a sobreposição transparente dos movimentos vitais a tabelar nas esquinas gramaticais no papel. Mas cedo se lia, na consciência mais presumivelmente próxima dos sentidos que procurara decalcar na linguagem, na incompletude do seu narrar aposta ao resíduo visceral e mnemótico. Rebuscou técnicas e páginas, penas e estratégias. Da seca recolecção do facto epidérmico, à depuração sensitiva ou cognitiva, declinou a saciedade de verdade à memória de quem quer remanescer presente. E ao atardar e retornar às presenças esconsas que grafava dos passados que transmutados vogavam tormentosos à fixidez de um registo, ressentia que era nos silêncios alvos entre os signos e as regras de os significar, que os confessionalismos possíveis sempre se acolitavam, ao abrigo de quem os presumira desnudar, dos dois lados da fronteira. Equívoco e líquido esquivo, reencontrou inverso conforto, assim permanecendo ao abrigo da invía visceral verdade da pequena liberdade de da sua língua não ser cativo.