sexta-feira, 19 de agosto de 2016
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
We have no more beginnings: Mister Ed
Com um grito medonho se dirigiu aos cavalos de seu pai:
"Xanto e Bálio, famigerados filhos de Podarga!
De outra maneira pensai em trazer salvo o vosso cocheiro
para cá da chusma dos Dânaos, quando nos saciarmos da guerra,
e não o deixeis lá morto, como fizestes com Pátroclo!"
Respondeu-lhe debaixo do jugo o cavalo de céleres patas,
Xanto; de repente baixara a cabeça e toda a crina caía
solta da coleira junto do jugo até tocar no chão.
De fala o dotara a deusa, Hera de alvos braços:
"Pois desta vez te salvaremos, ó possante Aquiles.
Mas perto está o dia em que morrerás. Culpados não
seremos nós, mas um deus poderoso e o Fado tremendo. (...)"
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Les beaux esprits
sábado, 20 de fevereiro de 2016
The ÜberUte that could have been
Bom, é capaz de já ser tempo de começar a arrumar um pouco melhor a casa. Sim, "camaleão", já sabemos, tudo bem. Mas como as metamorfoses não se equivalem, nem a mudança é um valor em si mesmo, pela minha parte, acima de todas, sói estar o fogacho brechtiano deste exasperantemente breve (talvez por isso imaculado, coisa estranha até ao seu património mais historicamente "importante") EP (até na capa nunca esteve com melhor aspecto, à homenzinho), simultaneamente uma espécie de canto do cisne e de ápice de carreira (até nisso, um move irrepreensível), e obviamente peça virtualmente desaparecida da sua discografia, naquela gestão criminosa do historial de tipos estupidamente prolíficos entalados pelo apelo de massas (qualquer coisa vagamente aproximável a o melhor Dylan de certas décadas ter ficado refundido em arquivos e respectivos bootlegs, cuja reabilitação oficial, não por acaso, se tornou a partir de dada altura o seu filão discográfico por excelência). Vamos ver quanto tempo se terá de continuar a esperar para ter uma reedição (nem um cd ranhoso para amostra) do Baal nas mãos, que não o vinil com que me deparei e açambarquei sofregamente (as lojas de vinil são uma selva darwiniana) em Dezembro passado (por que olhais para mim assim, ominosos?... Que vício metafísico).
Cantem-se, em querendo, todas as loas aos afãs proteanos, com certeza; mas eu cá, se o apanhasse a jeito nesta paragem, furava-lhe alegremente os pneus, atirava à socapa os malões com as fatiotas camaleónicas para o riacho (gender-bending sem a bilha a jogo é pra bananas), prendava-o com uma Pilsner refrescante e um monte de feno recheado de teutónic@s roliç@s (em jeito de pepitas de chocolate (branco)), e persuadia-o, emulando aquela velha nonchalance germânica, a deixar-se ficar por estas cercanias pelos tempos vindouros.
Aproveite-se, de boleia, para esclarecer que o Heroes é das canções mais sobrevalorizadas de sempre. É um bocado lamentável indexar preguiçosamente a posteridade do moço (chamar velho a alguém com o nome Bowie soa curiosamente a oxímoro, for some reason) a coisas dessas com outras tão melhores por onde escolher. Um pouco mais de esforço, vá. Eu ajudo:
sábado, 2 de janeiro de 2016
sábado, 19 de dezembro de 2015
Nuclear si ¡Por supuesto! Nuclear si ¿Como no?
Por falar em great opening lines. Que paroxístico bálsamo para o estiolar da vida deparar com coisas destas quando nos enfiamos no cinema à toa só para não regressar a casa em hora de ponta. Quer dizer, musicalmente (que, por uma vez, é o que menos me interessa) isto soa bastante menos curioso aqui do que ouvido no "El Futuro", por alguma razão; talvez fosse outra versão; talvez um efeito de contexto (não que lá soasse excepcional ou coisa que o valha, mas sempre indiciava a bondade da ocorrência do pós-punk como molde musical no seu tempo, que, a não ter existido, teria de ser (re)inventado, o que, como sabemos, dá sempre merda). De qualquer forma, logo com aquele intróito, a letra, essa sim (que faria bem melhor figura nuns walking dead do que aquelas xaropadas indie que ora por vez lá apanho a insuflar de pathos de pechisbeque uma série, ironicamente, tão cheia de si), apela imediatamente ao pequeno niilista que, check, continuo a albergar sob a bonomia do meu exterior bolachudo, aguardando tenazmente a sua deixa para me irromper peito afora.
As devidas gracias, pois, ao Luis López Carrasco, seja ele quem for, pela selecção, a trazer ao de cima o pior de mim, e já agora pelo objecto fílmico que a compreende. Não serei a pessoa do mundo com mais pachorra para filmes conceptuais (não que também ande com particular disposição para o comum da geringonça (peço desculpa, voltei a jantar ao som de telejornais) narrativa; não sei bem o que passa comigo), e sua tendência para servir pescadinhas auto-referenciais de rabo-na-boca em becos sem saída (cuidado, não pisem no pleonasmo metafórico), mas por isso mesmo é sempre uma surpresa muito agradável deparar com um dispositivo cinematográfico capaz de se abrir à vida, e isso na exacta medida em que exerce materialmente a consciência de que ela seja, em última análise, inapreensível; traço evanescente suspenso do fim da história, coisa para mais sem qualquer pedigree apocalíptico de pronunciamentos bíblicos; apenas a banalidade quotidiana do que incessantemente some em trânsito, como nunca tendo existido, entre cada ocaso e aurora (deprimido, eu, será? nahhh).
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Estava aqui para me suicidar, mas nem eu tenho problemas destes
«Voyage to England projected. No money; must get it. Have to be operated first: circumcision. It is of no advantage to go to foreign countries with such an evil not remedied.»
sábado, 1 de agosto de 2015
superbocksuperquê?
Bem mais episódico que uma lua azul, e acrescido dos limites da esperança de vida humana, o excelente Michael Mantler, com as suas inconfundíveis toadas em tom menor (que conseguem a misteriosa proeza de manter o meu interesse por meio século de pessimismo harmónico em circuito fechado), is in town, a revisitar (ênfase no prefixo) uma das suas maiores obras, para quem esteja disposto a conceder que um pouco de estrutura de quando em quando não atrofia necessariamente o jazz (sem nada contra o soltar free da franga), como o hexâmetro não sendo propriamente o estrangular da poesia.
Como (e apenas porque) já tenho o meu bilhete, também podeis vir; eu deixo.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
We have no more beginnings: Realpolitik
Sei desde há pouco tempo que um inimigo só deve odiar-se na medida em que poderá de novo ser nosso amigo, e, quanto a quem é amigo, quero servi-lo e ajudá-lo, pensando que ele não se manterá assim para sempre.
sábado, 13 de junho de 2015
We have no more beginnings: Grexit
«Quando por vezes me escaparam algumas destas expressões e também quando, com a fúria, me vinham lágrimas aos olhos, logo apareciam os sábios senhores que entre vós, alemães, tanto gostam de se fazer ouvir, os desgraçados para quem o sofrimento de uma alma não é senão pretexto para sentenças e, fazendo-se passar por bons, diziam-me condescendentemente: não te lamentes, age!»
quarta-feira, 22 de abril de 2015
quinta-feira, 9 de abril de 2015
We have no more beginnings: Trophy wife
"A ti não te está destinado, ó Menelau, vindo de Zeus,
morrer em Argos criadora de cavalos, nem encontrar o teu fim.
Mas os imortais te mandarão para a Planura Elísia,
no extremo da terra, onde está o louro Radamanto.
Aí se oferece aos homens uma vida mais fácil.
Não neva, não há grande invernia, nem chuva.
Mas as brisas do Zéfiro sopram sempre ligeiras,
vindas do Oceano, para refrescar os homens.
Isto porque possuis Helena, e para eles és genro de Zeus."
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Double bill
Ninguém acrescentará ou diminuirá a minha força ou a minha fraqueza. Um autor está entregue a si mesmo, corre os seus (e apenas os seus) riscos. O fim da aventura criadora é sempre a derrota irrevogável, secreta. Mas é forçoso criar. Para morrer nisso e disso. Os outros podem acompanhar com atenção a nossa morte. Obrigado por acompanharem a minha morte.
sábado, 7 de março de 2015
We have no more beginnings: Happy end
Este prazer não é próprio da tragédia, mas sim, essencialmente, da comédia: aqui, os que na história tradicional são ferozes inimigos, como Orestes e Egisto, saem, no fim, amigos, e ninguém mata ninguém.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Quando pensava que o meu contentamento com o presente director da Cinemateca não podia ser maior
«trata-se da já célebre "história dos preservativos" que Jack Arnold várias vezes teve o prazer de narrar. Perante a impossibilidade de conseguir por simples ampliação o efeito das monstruosas gotas de água (que caem sobre Scott Carey quanto este está, na cave, reduzido ao tamanho de insecto), Arnold lançou mão de um insólito mas perfeitíssimo recurso: nada mais nada menos do que preservativos cheios de água que, ao caírem, depois de ampliados, davam a exacta imagem de gotas gigantes que, no fim, rebentavam em redor do actor. E quando, no fim da rodagem, o gabinete de produção notou que uma das parcelas do orçamento dizia respeito à compra de 1 500 dos "ditos cujos", Arnold achou mais convincente retorquir: "É que a rodagem foi de tal modo extenuante que, uma vez terminada, resolvemos todos fazer uma festa especial..."»
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
We have no more beginnings: the eighteen hundred year itch
«exibia uma beleza perfeita num corpo nu e completamente despido, a não ser por um pequeno véu de seda que lhe sombreava a púbis admirável. Aliás, um ventito curioso bafejava-a, por vezes, com amorosa lascívia, afastando o véu para deixar à vista a flor da sua tenra idade»
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
We have no more beginnings: Trash talk
«Antes o Simeonte fluirá às arrecuas e o Ida se perfilará
sem folhagem, e a Aqueia prometerá auxílio a Tróia,
do que, caso a minha inteligência cesse de zelar por vós,
a esperteza do bronco Ájax trará proveito aos Dánaos.»
We have no more beginnings: No pun intended
«O rei Latino, já envelhecendo,
governava umas terras e cidades
que longuíssima paz adormecera.
Nascera ele de Fauno e de Maricas,
a ninfa laurentina, sendo Fauno
um dos filhos de Pico, o que dizia
que era mesmo Saturno o deus seu pai.»
domingo, 12 de outubro de 2014
We have no more beginnings: Peace out
«(...) Omi, perdida de admiração por aquele homem, austero entre todos, cochichou com a sua voz aguda, tão alto que todos podiam ouvi-la:
-É ele! É ele!
E, não se importando com o embaraço das mulheres, declamou alto e bom som:
Barca perdida no mar
À mercê das ondas
Diz-me em que porto
Pensas atracar
Para eu te ir buscar
"Barca que vai e vem e volta sempre para a mesma dama! que mau gosto!"
Intrigado, Yugiri pensou quem poderia ser aquela dama que se expressava ali de forma tão crua e, divertido, ao perceber que devia ser a jovem de quem lhe tinham falado, respondeu:
Mesmo balouçado
Ao sabor dos ventos
O bateleiro indeciso
Decerto não passará
Por costas indesejáveis
Dizem que estas palavras a calaram.»
sábado, 11 de outubro de 2014
We have no more beginnings: Masterchef Roma
«Assim aumente eu em riqueza – não de peso! – como tudo isso
o meu cozinheiro o fez de um porco. Não pode haver homem de mais valia. Basta
quereres, e ele de uma barriga de porca fará um peixe, de um toucinho um pombo,
de um pernil uma rola, de uma almôndega uma galinha. De forma que, graças à
minha carola, foi-lhe dado um nome todo janota; na verdade, chama-se Dédalo. E
como tem boa catadura, trouxe-lhe de Roma, como presente, umas facas de ferro
da Nórica.»
We have no more beginnings: Enhanced interrogation
"Agora é a melhor altura para interrogar os estrangeiros,
perguntando quem são, uma vez que já se deleitaram com comida.
Ó estrangeiros, quem sois? (...)"
We have no more beginnings: Slapstick
«Ora quando estava prestes a chegar aos prémios,
Foi então que Ajáx escorregou (pois Atena o prejudicara)
no local onde estava o esterco dos bois de fortes mugidos,
que em honra de Pátroclo matara Aquiles de pés velozes.
E com o esterco dos bois ficou cheia sua boca e narinas.
Assim sendo, o sofredor e divino Ulisses pegou na bacia,
visto que chegara primeiro; e o glorioso Ajáx ficou com o boi.
De pé a segurar com as mãos o chifre do boi campestre,
cuspiu o esterco e assim disse no meio dos Argivos:
"Ah, foi a deusa que me prejudicou os pés, ela que sempre
está ao lado de Ulisses como uma mãe a ajudá-lo."
Assim falou; e aprazivelmente todos se riram dele.»



















































