quarta-feira, 21 de junho de 2006

Apropriação Social da Tecnologia

Há uns tempos fui surpreendido por uma incursão inesperada da automação no universo de consumo cultural português, com potencial significativo, se considerarmos certa vulgarização do acesso a produtos culturais que se tem vindo a fazer por via do hábito social sedimentado e categorizado de «ir à FNAC».
Endereçando-me por rara vez à FNAC do Colombo, sou, ao dirigir-me para a caixa, interpelado por sorridente funcionária, que me quer ensinar a despachar eu próprio o pagamento das minhas compras, para tal disponibilizando a loja uns novos tamancos mecânicos no qual o próprio consumidor pode registar e pagar os seus consumos. Como não consigo resistir a uma carinha laroca (pronto, confesso, também não consigo resistir às menos larocas) (pronto, confesso, vou com todas) (OK!!! PRONTO! Eu IRIA com todas, se ALGUMA fosse comigo! Irra!!... Satisfeitos?!) lá me submeti à demonstração.
Contudo, posteriormente, tentando enjeitar a sensorialidade de repulsa que me dava lidar com aquele resto de cenário do «Metropolis», pus-me a elaborar um momento sobre a tessitura de transformações que tal poderia configurar:
- uma certa proletarização de certas vias de consumo cultural (queres livros mais baratos?, já havia a versão, "atira-os ao molho para o caixote e os badamecos que vasculhem", agora é cada um se amanhe com as suas compras, regista, paga, enfarda – dou-me agora conta que o enfarda era descrição suficiente para todas as operações, waste of time – dou-me agora conta que perdi mais tempo a dizer que perdi mais tempo – agora aprendi a lição, calo-me – e o calar faz perder mais tempo – portanto o término do discurso é sempre um artefacto enquanto o sopro expira - hummm – e denunciar isto como infantilidade participa da infantilidade, pelo que o silêncio do delete é a única marca possível de certa sobriedade... curiosos os limites discursivos da própria sobrediscursividade... bem me parecia que silence is better – mas pronto, já agora acabo...)
- mais uma pequena desumanização do processo social de consumo
- mais uma repartição e complicação burocrática do erro e correcção no processo (logo na primeira “experiência” cobram-me um euro a mais por um artigo: lá tem o cliente que se dirigir a um outro departamento – desta feita humano, quem diria, que isto com a máquina não há desvios processuais. Efeito provável e esperemos que não esperado: o cliente pensar se o euro justifica o pastel)
- mais um espaço de empregabilidade em dissolução.
Mas principalmente fez-me estacar mentalmente a obscena ironia de tornar parte das tarefas de uma funcionária explicar aos clientes como utilizar o processo que a tornará excedentária.
Claro que a quase tudo se pode conceder um lado positivo (em geral egocêntrico), pelo que logo pensei que assim posso comprar os mui conspícuos volumes kinky da Taschen, desembaraçado o obstáculo de ter que enfrentar a potencial reprovação velada do humano na caixa.
Fora tal apropriação instrumental, contudo, temo que a minha resposta futura a tal apelo a solidificar a máquina será a da resistência possível, se necessário com libidinal (conquanto infrutífera) verve afiançando: «eu gosto mesmo é de operadores de caixa».
Purr purr.
cof cof (bola de pêlo - ao vivo soa melhor)

15 comentários:

Eduardo disse...

Eu próprio já tive uma ou duas experiências traumáticas com máquinas desse género no Continente. Pensei, na altura, em escrever sobre elas, mas preferi recalcar, mesmo sabendo o preço que poderei ter de pagar por semelhante cobardia, um dia mais tarde. Creio que não serão um grande sucesso, por várias razões que não explorarei de momento. Mas fiquei contente por ver alguém ultrapassar os medos e falar do assunto publicamente. Obrigado, Yester, em nome de todos nós.

julinho disse...

No Contenente?! A praga está a adquirir tamanha proporção?
Quer dizer, isto apesar de também achar que a coisa não vá conhecer grande sucesso, por razões que não seria capaz de explorar, mas também porque depois de plantarem as traquitanas na catedral Colombo, não seguiram (pelo menos por enquanto) com o procedimento para as outras 2 Fnacs que conheço.
Quanto à saudação da minha intrepidez, confesso que efectivamente ainda tremo com a minha corajosa investida nesses reputadamente temerosos registos de uma no-man's-land retórica. Mas particularmente agracia-me o facto de, sabendo nós que o "todos nós" que incorporas na saudação são tu, é não só um gesto de insuspeita generosidade, como um mais que justificado emprego do majestático pelo orador. Consequentemente, obrigado eu a vós.
(salamaleques, salamaleques)

Eduardo disse...

Não; Yester, nós não é eu. Há mais como eu, simplesmente somos difíceis d detectar. Mas um dia levantar-nos-emos e aí, aí meu caro, o mais provável é que não aconteça nada.

julinho disse...

Eh, o tempo das colectivizadas também já era. For what it's worth, desconhecendo esses outros como tu (espero que não propriamente clones, porventura apenas algo modesto como feitos à sua imagem e semelhança, enfim, agrafados, em certas hermenêuticas), acho que a tua subvelação por sublevar se tem mostrado já benfazejamente profícua. Pelo que fico na dúvida, de esperar benefícios maiores desses possíveis dias levantados, ou de preferir a bizarra bonança que vou divisando.
E porque estou estranhamente qualquer coisa que já me está a passar, permita-me aproveitar a coasião para que lhe diga que a "renovação" do "coiso lá de cima" (aguardo rectificação terminológica) do Agrafo está uma belezura diária (ia dizer catita, mas não, neste caso não, o catita tem su sitio).

Eduardo disse...

Lá está você com essas coisas outra vez...

Bruno disse...

Excelente textículo, com este cintilante simbólico: "Mas principalmente fez-me estacar mentalmente a obscena ironia de tornar parte das tarefas de uma funcionária explicar aos clientes como utilizar o processo que a tornará excedentária."

"volumes kinky da Taschen"?! Como se sabe, esse kinky é bem visto pelas operadoras e jogam em favor da reputação do comprador. A inibição central que assim se elide nos espaços fnac é na compra dos livros de auto-ajuda de toda a espécie. "como deixar de fazer xixi no banho", "como para de lamber a tampa de iogurte" "como deixar de cortar as unhas dos pés com os dentes", coisas dessas

Bruno disse...

Mas Eduardo, para a tal colectivizada vós poderíeis fundar um movimento que pela primeira vez coligasse sindicatos e consumidores em favor dos operadores de caixa. Seria um movimento com tanto ao maior impacto social que o da comissão de utentes da Pt contra a taxa de activação. Pensai nisso.

Samuel Jerónimo disse...

Volumes kinky da Taschen?
Não estará por certo a pensar no Tom of Finland? Se sim aprenda o segredo: apronte-se da forma mais hetro possível (pelo santo, corte o bigode!) e faça um ar de quem se interessa verdadeiramente por arte; por certa, a menina da caixa irá pensar que você é uma pessoa liberal e cheia de histórias para contar; não se acanhe, use de todas as suas artes e convide-a para um café ainda nessa semana. O sítio para se tomar café é bastante importante; não escolha um sítio trambiqueiro, mas também não recorra ao luxo (ou ficará com menos dinheiro para comprar artigos “culturais” e seduzir outras raparigas, segundo este pequeno esquema, totalmente homologado).
Prefira um sítio com uma paisagem bonita: se ficar sem conversa pode sempre relaxar com a paisagem e dizer: “Este sítio é mesmo muito bonito”.

julinho disse...

Caro Eduardo, não te preocupes, já parei.

julinho disse...

Caro Bruno, as inibições que nos assombram os gestos de inscrição do self no quotidiano são obviamente variáveis consoante os rigores culturais dos estereótipos atribuídos à nossa simbólica existência pública e das convenções e aceitabilidades mais ou menos genéricas que queiramos considerar. O que é dizer que as inibições de cada um aclaram as zonas de sombra de alimento secreto do nosso eu, que procuramos evitar trazer à luz da censura das convenções à natureza pública desse self adstritas. Creio pois que entre o kinkye os livros de auto-ajuda, poderíamos presumir ficarem os nossos diferentes inconfessáveis constitutivos assim tristemente ou valorosamente expostos - mas também consoante o self já incorpore essa já de si elusiva ideia de desnudamento, pelo que mesmo esse desnudamento estrutural, pelo menos pelo discurso deste medium, ficará sempre resguardado... Tristeza dos naturistas da alma...

julinho disse...

Caro Samuel, Tom de FInland? Credo! Não há bilha que aguente tamanho arcaboiço. Definitivamente, antes o equívoco bigode.

Eduardo disse...

Yester: obrigado. Acho.

julinho disse...

Eduardo: será de facto mais avisado nutrir os "acho". Habitam-me contradições e recidivas.

Eduardo disse...

Já tinha percebido...

julinho disse...

Era caso para isso...