domingo, 11 de junho de 2006

Just tryin' to feel a bit special... (indicador provocante entalado nos lábios, while you're at it)

...presumindo ser o único português a português a postar durante malfadado jogo da selecção de Portugal no Mundial de Futebol (lamento a exaustividade, mas os estranhos à demência não têm nada que mimar a familiaridade com as suas nomenclaturas)...
E já agora, que presumo estar para aqui sozinho postando (contribuindo para tornar a ocasião minimamente produtiva ontologicamente), convenhamos que não havendo esferas isolantes de indiferença, os rapazinhos até ganhavam uma grama da minha estima se fizessem o obséquio de perder com Angola (hã, não estou completamente a leste, salvo seja). Se o argumento é o da recompensa simbólica associada à ideia de nacionalidade, convenhamos que era o mínimo que se podia fazer, e certamente seria mais dignificante que qualquer outro resultado daquela estiolada ou perversa (a primeira hipótese é melhor) confluência de vontades.

Hmmm, estou a ouvir o diabólico sound-system com que a câmara municipal me atormenta os dias manhãs e noites há tempos... porque raio é que é sempre brasileiro o animador das hostes? Já tornaram requisito para a autorização de residência a abnegação de outras fidelidades nacionais de torcida? Diacho, torcer por Portugal incluso no pacote cultural da política migratória (the subtle one), e a Amnistia Internacional calada? Afinal a política de afinidade cultural também pode ter inscrita daninha letra miúda...

Só este exasperante cenário para me dar para postar. Acho que vou aproveitar a rara conjuntura para tentar ver o Mallick na insuportável grande superfície do burgo. Talvez não haja nenhuma cavalgadura para fazer o favor de ostensivamente mascar pipocas nos meus tímpanos, e se a sala não barrar os fragores da multidão, talvez desta emane um aliviante fade-out de desilusão.

2 comentários:

laranja disse...

companheiro, eu lhe percebo embora me não possa queixar do mesmo. sabe?, é que eu gosto de futebol. ainda assim me deixe dizer-lhe que qualquer superfície insuportável se torna imediatamente menos insuportável quando exibe Malick. não acha não? nem um só pouco não?
saudações para você caro vizinho

julinho disse...

Ah bicho, agradeço a compreensão, mas não precisa se colocar do outro lado da esquina. Se me sentar em frente do ecrã sem a insuportável patine das agregações e chauvinismos que as quatro linhas convocam, até consigo não me entediar completamente. Mas como disse mais lá para cima, aquela gente, aqueles méritos, e o enquadramento social absurdo e perverso que alimenta esse prazer, não me valem o tempo e a emoção, e não os consigo dissociar, e não acho que os devesse dissociar. Percebo o engajamento nelas como actividades humanas na sua especificidade cativante, acho até que pode produzir bons efeitos em certas almas (até há gente que escreve o seu melhor a propósito de futebol, apesar do risco de irradiar o leitmotif para uma soberba absolutista do mote para legitimar a coisa), mas é loucura normalizada e socialmente validada e instigada as formas que boa parte desse engajamento tomam. E essa parte é tamanha, que eu simplesmente não aceito participar.
Quanto à grande superfície, escapa-me essa defesa do pedaço, mas francamente não sei. Tinha uma amiga que defendia que cinema-Cinema não devia ser visto na televisão. Como cinéfilo feito no pequeno ecrã, discordo plenamente, apesar de concordar com o argumento (só que a amplitude socializadora da difusão televisiva sobrepuja, para mim, o coarctar da verdadeira experiência cinematográfica). Mas para o caso de Mallick, por exemplo, eh pá não sei, mesmo esquecendo que o eventual mérito de ele lá estar não é propriamente da grande superfície. Colocando-me agora em absolutismo que creio poderes ter em empatia, há certas experiências que para mim carecem da solenidade do ritual. Música-Música e cinema-Cinema. Mallick ao som de pipocas, desculpa, acho que não concebo. E não é só pelo meu instintivo atavismo sensório e socializante de não suportar epidermicamente o som de mascar pipocas e não ter conhecido tal prática no cinema da minha infância, de repente importada com requintes sádicos. Mas como prática sádica estimulada ou possibilitada por esses espaços, e concebivelmente não impeditiva, para quem nela consegue participar ou a ela se adapta, de ser surpreso pelo que, em momentos epifânicos que consigam romper com o manto alienante de práticas congregadas que nos desviam (ah pois) da interpelação estética, nos assalta do ecrã (como eu fui no pequeno ecrã), suponho que no estado das coisas esse problema devém apenas meu, e tenho eu que me gingar para o contornar. Pelo talvez um pouco, só, sim. But not for me.
Saudações para si pois, caríssimo, mas apenas parciais, apenas porque espero segunda via mais fulfilling, if you catch my drift. Hasta.