sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Mistaken Identity 2

Escusando, para benefício da minha self-made prophecy eremita, um convite de polidez para a passagem de ano (dada a exposição do meu ensimesmado cenário doméstico para a efeméride), alinhavo o argumento jocoso de circunstância, de que preferia passá-la, como sempre, agarrado à almofada a chorar. A minha amiga não sorri. Retorque meio pressurosa, ma non troppo, como quem reconhece um sintoma num quadro patológico, com um cândido (oposto a céptico), menos interrogativo que reiterativo, «a sério?».
Quando as nossas ficções personalísticas ameaçam substituir-nos o que retemos como a nossa plausibilidade ontológica primeira, nos quadros interactivos, podemos descobrir-nos reféns do que damos corpo como plausível, ou tranquilamente confirmar-nos bem sucedidos produtores identitários. Para os primeiros, desdobra-se a questão de saber se a persona era uma máscara que se tornou demasiado verosímil (tornando-nos os nossos próprios body snatchers), ou a superfície que julgávamos velar e afinal reflecte o que jaz. Para os últimos, pode inquirir-se se, na verdade, seremos realmente reféns da plausibilidade da nossa ficção social, ou antes da própria ontologia que apenas presumimos precedê-la, no resguardo securitário da identidade própria, de ter que presumir saber quem se é.
Poderá configurar indestrinçável charada existir entre espelhos ambulantes e deles se refractar a nossa imagem. Saber se as nossas ficções são menos ou mais constitutivas do que somos, do que a nossa identidade. Saber se será mais real a inexistência de humidez na minha fronha, ou a plausibilidade de o meu travesseiro ser credor do que não aspergi. Portanto, a única questão que restaria, à luz da dicotomia primeira, seria saber se se intende persistir e subsumir-se à presumível personagem, ou se é possível e/ou desejável regressar e ater-se à pressuposição matricial de ser uma pessoa.
Escrevê-lo e não saber, poder, ou querer decidir, será a primeira de todas as irresoluções de ano novo: no fim de contas, o melhor dado ontológico que já me conheci.

13 comentários:

Anónimo disse...

Embora não tenha percebido nada, a mim aconteceu-me algo muito semelhante. O que não deixa de ser curioso. As duas coisas, quero eu dizer. A reacção da amiga é que já não teve candura nenhuma, mas isso são outros 500.

julinho disse...

Oh pá, desculpa, não consigo mentir mais: era eu, dressed in rag. Estava traumatizado com este acontecimento, e a única forma que achei de letting off steam foi fazer outra pessoa (ou persona) passar pelo mesmo (apesar de nunca ter sido praxado). Agora lá por eu ter sido menos cândido(a), escusavas de me ter dado um bofetão. E não me venhas dizer que tinhas topado que era um gajo, ou mesmo eu. Uma gaja feia, quando muito. O que também não é desculpa. Bruto, pá...

Anónimo disse...

És um gajo capaz de destruir uma boa conversa antes de ela começar.

julinho disse...

Dois bofetões já é abuso. I'm not that kinda gall, you know? Para além de que, devendo na plausibilidade de pelo menos um dos meus guiões públicos estar eu a derramar lágrimas sobre a minha almofada, agir sobre uma conversa em qualquer fase do seu ciclo de vida já é mais do que o mundo espera de mim.

Anónimo disse...

Tentativas de reanimação. Bah.

julinho disse...

Ai filho, estás tão caprichoso. Was it something I did (bad, bad boy!)? Terei que ficar sem saber que sevícias psicológicas (ou outras) a tua amiga te infligiu a propósito de que formulação personalística tenhas emitido? Que maneira de acabar 2006... Fits right in.
Anyway, bom ano, palerma.

Anónimo disse...

Palhaço.

julinho disse...

obrigado...

Anónimo disse...

Obrigado? Eu estava corrigir o "palerma", ó anormal!

julinho disse...

Whatever you say, kid... Whatever-you-say...

Anónimo disse...

O que salva o pósfacio destes diálogos, deliciosos, é a inverosimilhança narrativa, personna-listicamente falando, que os sustenta. A menos que a coerência ficcional aqui encetada, vos acompanhe para fora das caixas comentários e vos subsuma naquilo que seria uma coerência mais "acabada". Hilariante, contudo.

Bruno S. Martins

julinho disse...

Salva-o de quê? E qual posfácio (qual nabos na púcara?)?
Ao invés da tua premissa, fora das caixas de comentário as árvores não caem. A plenitude da prolixidade interpretativa e correlativa invenção discursiva (por alguns, por vezes, também chamada "foder o próximo") o exige. Por isso também, para todos os efeitos, no descomprometimento de marcos narrativos (o estatuto de ficção sendo precário) a anular certeza e antecipação, pode perguntar-se antes: quem disse que era para rir?...

Anónimo disse...

«inverosimilhança narrativa, personna-listicamente falando»? Ó pá, desculpa lá, mas essa foi demais para mim. Desconfio que nunca mais tenho lata para vir aqui posfaciar.