quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O anagrama que mereces

Daqueles golpes de asa que cunham simbolicamente a distinção de um bl(og)ue na dissoluta colheita que orna a montra do que uns chamam blogosfera, a arte anagramática de linkagem na Pastoral Portuguesa é um exemplo de primeira água. Suspeitaria, aliás, que receber um link da Pastoral com o seu constitutivo anagrama, como quem recebe um retrato a óleo sem ter pago pela encomenda, poderia devir proporção não insubstantiva das motivações de blogueiros lusófonos em incensar o seu autor, caso a sua artesania escrita não bastasse. Cuide-se, no entanto, para lá do frívolo egotismo de ver os resultados, como quem passa 25 euros para a mão de cartomante de quem se não espera húmus para alimentar a crença mas o ritual minimamente orquestrado que dê pasto para reminiscência em interlúdio spooky de uma ruminante dinner party, que há aí algo de uma muito pia (pois claro) atenção ao outro, rara nessa coisa automatizada de contabilista ressequido que é anexar links à coluna da direita na esperança de um retorno na volta do correio.
Os efeitos dessa generosa personalização, claro, também à primeira vista se plasmam à visão cartomante, com cada feliz visado (e começa a perpassar algo de chosen one) a acusar a certeira recomposição anagramática da sua identidade blogosférica (como que não havendo coincidências, tudo estar escrito desde o início, yada yada yada). Mas também aí, cuidada (enfim, não é preciso procurar muito) atenção às minudências de mundivisão que apascenta a Pastoral, pode justificar que se afigure que ali, como no subreptício império de Trystero, certamente não há coincidências. O que, na abjecção que me calhou em sorte e me tolhe (não obstante o grato toque de distinção - deixem-me iludir-me), despertando o desalento da consciência e o derradeiro afago de presumir que haja, de facto, sentido na pergunta "what does it mean?", é uma forma parvamente verborreica (porque na abjecção é o que resta) de dizer: he "pynched" me good.

(in a little "pynch" back, assinala-se que, mesmo não sendo o caso, para quem quisesse exercer ressabiamentos pelo desvelar ingrato do anagrama que merece - caso agonístico de cuidado com o que se deseja - , acima de tudo, a quem se perde por narcisos negros (e fordianos umbrais, while we're at it) sempre tudo se perdoa)

4 comentários:

cj disse...

clister ?!?
bem, eu faço-te o jeito e vou ser mais simpárico.
toma lá este da minha autoria:

see my art andy

(podes mudar a ordem às palavras inclusive)

julinho disse...

eh pá, prebendas não de um, mas dois artesãos anagramáticos (and one from mars): how privileged can a guy be?
a ordem das palavras parece-me bem (nem lhe concebo outra, tão inepto para essa arte sou), a única questão a suscitar a delícia do enigma anagramático (notar que já o clíster é pungentemente dry-sty, não uma qualquer merda) é qual será a minha arte, e quem será o andy (as portas intepretativas que se abrem...). Mas isso, claro, já é problema meu... e do andy, coitado.

cj disse...

...estou em crer que nos 60's havia muita gente a dizer isso...para apadrinhar qualquer coisa, fosse talento puro ou um qualquer desempenho...
e como aqui vive o "yesterday man"...

julinho disse...

ahhh, o "pynch" tinha um véritable twist envolto e subentendido, que naturalmente ficou mais uma vez por entender já que desconhecia por completo a expressão. Quite an elaborate touché... Aliás, mesmo com seu quê de barroco. Penitencio-me pela soma nula dos meus desempenhos (yes, poor andy, still) não me conceder a graça anagramática de expressar retributivamente a gratidão: nada como um subtilmente opíparo apodo (no bom sentido, claro) para desanuviar o possível dos dias.