sexta-feira, 9 de março de 2007

The criticgoer

No hábito de ler textos, em geral do Bénard (Folhas da Cinemateca oblige), após o visionamento de certos filmes, percebe-se que, mesmo com uma memória invejadamente prodigiosa, quem escreva tanto sobre cinema o faça a partir do recurso a essa memória; e por vezes a mesma produz imagens, ligações, que não se encontram na película, mas são já a recriação da mesma a partir da visão encarnada em que se foi enformando na nossa percepção total do filme. Lembrei-me disso ao ler uma citação de Deleuze, postada pela Cristina, em que fala sobre Stromboli (o filme), sobre o confronto fenoménico da Bergman com a ilha geografia e seus modos habitados. Na última parte diz «Et plus tard après l’admirable séquence du thon, de la pêche au thon, un marin voudra lui faire toucher un thon; elle le touchera très très timidement». Ora, se bem me lembro (e devia, revi-o há dias), o Deleuze, na sua rememoração analítica, está a plasmar duas sequências diferentes: a primeira quando o marido traz um peixe (que não era atum) para casa, após a primeira faina em que arranja emprego e se deixa explorar para poder "providenciar" as "necessidades" da esposa, que, após a saída dele, vai tocar, de facto, muito ao de leve no peixe, quase com a estranheza de ressentir a textura dessa coisa tão brutamente real; a segunda quando ela assiste de facto à faina do atum em crescendo de horror visual, que surpasse sequer a plausibilidade de aprofundar tactilmente o terror da sangria. Como se a visão/imagem, não o tacto, fosse a instância máxima de confronto com o real.
Não que esta rectificação interesse, por si, realmente (muito menos para a proposição que Deleuze quer sustentar). Não que eu tenha mais certeza factual que aquela de que desconfio na frase de Deleuze. Não que o cinema não se faça igualmente dos nossos raccords subjectivos, para os quais cronologia e encastramento situacional podem tornar-se quase empecilhos na primordial floração de um sentido pessoal e "libertável" do referente. Não que um filme (e não se careceria o fantasma de Baudrillard para ratificação sentenciosa) não seja tão ou mais filme nesse rearranjo não contingente (como tal, não erróneo) dos seus elementos em função da visão que lhe assiste (da qual o rearranjo subjectivo dos seus elementos pode hipoteticamente ser mais respeitadora ainda que a sua incepção prática), que a sua mais detalhada e factual descrição. Não que se pretenda privar e desautorizar os autores na intencionalidade do gesto. Não que a intencionalidade do gesto seja auto-suficiente na erecção estética, que o autor não seja um construto que extravasa a factualidade de cada filme. Não que o exercício crítico não seja também de ampliação analítica e interpretativa das margens de significação de um filme para a história, para a estética, para as subjectividades, no quadro de um idioma expressivo específico. Não que o sumo exercício crítico não seja também a polinização de um filme para que mais filmes nele, e dele, possam ser legíveis e possíveis. É em parte por isso que cresci a gostar quase tanto de crítica de cinema, como de cinema propriamente dito; a acolher a crítica como cinema. Com a mesma dissensão e deslumbre particulares em potência - com cinema e crítica que nos interessam, e cinema e crítica que não nos interessam (há que querer ler e escolher), consoante a concepção que vamos nutrindo (processualidade oblige) sobre o que quer que sejam. Com a mesma necessidade constitutiva.

2 comentários:

cristina disse...

Tens razão, Deleuze enganou-se. Na cena da pesca do atum ela não toca em nenhum peixe, vê-se apenas no seu rosto, como se o tivesse feito, repulsa e enjoo.

Na versão que tenho cá em casa do filme esse plano de que falas em que Karin toca muito ao de leve no peixe depois do marido sair também não existe mas talvez seja defeito da cópia (que não é lá grande coisa).

Estas partidas (reconstrutivas) da nossa memória são muito interessantes, assim como o teu texto.

julinho disse...

É, isso garantiria: a própria violência daquele quase rito, a água ensanguentada a borrifar-lhe a cara com os movimentos espasmódicos dos peixes no seu estertor (que sequência...), não permitiria qualquer outra aproximação àquela matéria, e no plano seguinte, ao acostarem à praia, rejeita novamente o marido, que lhe pergunta se não gostou, bem como todo o universo em que aquela experiência faz sentido, assimilando tudo como horrificamente estranho a si. O toque a receio no peixe, inquirição duvidosa, não poderia estar na mesma estação que esse horror declarado e determinado. Agora, na verdade, o que faria jus a este emaranhado e reconstrução rememorada, seria precisamente que eu também me tivesse enganado na matéria de facto, e a pluralização de visões de um filme (nos dois sentidos) reconstruísse Stromboli's diferentes na cabeça (na fatalidade das encostas, no atrito inerente à fuga). Até porque "sou capaz de jurar" que vi esse plano. "Estou mesmo a vê-la", a aproximar-se do bicho com esse medo e repulsa e cutucá-lo, como se, como em tantas instâncias dessa mensuração de toda a relação com esse mundo a partir da confrontação com a sua matéria mais matéria (e a tua visão posterior dessa visão da Bergman, é muito bonita), directamente sensitiva, despida (as "coisas", as "coisas" que Rossellini sempre guardou na boca e no credo) a presença impositiva daquele peixe na mesa, e o aquilatar das qualidades da sua existência epitomizassem a sua relação com a totalidade que metaforiza e operacionaliza, no mesmo movimento. Um pequeno toque, e a repulsa venceu a aproximação. É que agora "estou mesmo a vê-la"... Stromboli in my mind...