terça-feira, 26 de setembro de 2006

Paperjoke 2

O «Sol», confirmei em exemplar alheio, é efectivamente, pelo menos nesta sua incepção, um Expresso recauchutado para consumo mais populista, e em com boa parte dos homens de confiança(?) do arquitecto (chamei-lhe engenheiro da última vez... admissão de ignorância e penitência) Saraiva.
O jornal em si é um objecto algo trapalhão, amontoando secções como se fosse um diário, o que é descalabro estilístico e funcional num semanário. O populismo tem-te não caias, e mesmo amadorismo, ressuma no grafismo atamancado de jornal com aquele je-ne-sais-quoi que o torna perfeito para entregar umas folhas ao esvoaçar balnear, na organização temática (a tenebrosa secção "mundo real", ou a proliferação de mini-frivolidades e "conselhos"), inclusive nos títulos: pérolas de escola jornalística clássica, eficaz e assepticamente descritivas, como «Assim é fácil pagar a taxa» (sobre taxas moderadoras - o governo agradecerá o entusiasmo) ou «Cinema gay para todos».
Se até os diários aceitáveis dedicam suplementos semanais ao domínio cultural, o «Sol» empacota numas poucas páginas mal-amanhadas do próprio jornal umas referências anódinas e a pontapé a filmes (apenas um "crítico", meia dúzia de linhas para meia dúzia de filmes, sistema de classificação com símbolos metereológicos... "Sol", estão a ver? hein? hein?) e livros. Considerando o corpulento caderno cultural do Expresso que Saraiva deixou para trás, a opção de público-alvo e orientação editorial do jornal fica escarrapachada.
Já as revistas de ambos os semanários estão ao mesmo nível de crónica social e historietas pseudo-edificantes ou pseudo-sociológicas arrancadas ao fundo do tacho (com o pormenor curioso de terem ambas as revistas tido por director um homem que só me lembro de escrever uma coluna fascinante do Expresso, desde há anos, dedicada à crónica de espaços de lazer nocturnos, com fotos de socialite ao lado, para quarentões com o gosto retrógrado de sorver Johnnie Walkers óne da rockes, esbugalhados pelas luzes estroboscópicas e com danos no ouvido interno de tanto enfardarem no canal auditivo o Chris de Blurgh), mas o Expresso é capaz de aqui levar a medalha da semana com a sua sessão de fotos de corpo inteiro da Floribella, a fugir da camisa-de-forças de proto-ícone-sei-lá-de-que-estádio-psico-evolutivo-primevo-piagetiano para a de would-be-petite-gamine-pseudo-fatalle(?!!). Para "Única", "Tabú" e meio... (não, não sei, nem é para saber o que isso quer dizer...).
Cereja no topo do bolo de lama, a exibir a rasteirice que tanto nos apraz, impressa no canto superior do Sol está a boca à competição com Dvd's grátes pela antiga morada do Expresso (qu'isto a concorrência não está para afabilidades de nem tão velhas lealdades e fair-play): «Um Jornal que vale por si - Este semanário não oferece brindes nem faz promoções». Entretanto, acusando por defeito a boca, uns consumidores resmoneavam na tabacaria cá do bairro perante a justificação da casa de aparentemente o Expresso ter produzido/distribuído(?) menos Dvd's que exemplares do jornal, tecnicamente intrujando a expectativa dos consumidores ávidos de borlas.
Surpresa, surpresa, o Público também parece não querer perder a onda da visibilidade conferida pelas lutas intestinas na imprensa do pardieiro nacional, e dedica no Mil-Folhas uma página inteira a um romance de que só falta escrever tintim por tintim ser uma retinta merda, que não é senão a terceira prosa ficcional do arquitecto Saraiva. Honra seja feita, a crítica é hilariante.
É facto que com material deste, é escusado comentador, mas torna-se fácil compreender como um fenómeno de organização de discurso impresso em jornal como "As Farpas" queirosianas e de Ramalho Ortigão nunca poderiam ter lugar no jornalismo dos nossos dias. As farpas hodiernas estão cravadas na subtileza gestionária que permite a sua disseminação em qualquer domínio da política editorial.
It's all downhill with a laugh, me boys...

2 comentários:

LF disse...

Fantástico texto.
Também eu escrevi sobre o tema (embora sem todo este brilhantismo), num post intitulado Sol e Sombra

www.fumo-sem-fogo.blogspot.com

julinho disse...

Lisonja mais que imerecida, mas, que diabo, não sou bicho para me escusar a qualquer simpatia. Retribuo-a, aliás, concordando com o "Sol e Sombra": partilho dessa memória do Expresso, que hoje já só reconheço no caderno cultural, sendo, desde logo (e principalmente, desde sempre), do que conheço, um dos dois únicos jornais que ainda se acometem a ter alguém com saber, olhar e escola crítica para escrever a sério sobre cinema - ainda que também nesse departamento tenham cortado, ao formatar a generalidade das críticas a um espaço que mal dá para escrever o título do filme... É penoso ter que ver um antigo jornal de referência ir delapidando as poucas coisas que ainda nos fidelizam, e pôr-nos a cada semana a ponderar "até quando?", principalmente quando os "novos valores" precisamente não surgem para ocupar esses espaços de referência que vão ficando vagos...