sábado, 26 de novembro de 2005

Someone else needs to get out of the closet

As polémicas sobre homossexualidade espoletadas por acontecimentos que assaltam o espaço público tomaram um cariz cíclico. Não estava para me chatear com este último ciclo, mas apercebi-me de um facto preocupante.
Tornou-se comum as posições assumida ou implicitamente conservadoras face ao carácter público da vivência social da homossexualidade (desde o plano cultural ao jurídico) tomarem como argumento central das suas contestações às pretensões anti-discriminatórias relativas a tais temáticas, o queixarem-se de que, hoje em dia, com o “politicamente correcto” a permear e vigiar todas as margens do discurso, já não é possível fazer um crítica honesta e descomprometida a qualquer acção ou proposição emanada do universo (seja lá o que isso for) da homossexualidade, sem que tal crítica não seja vilmente censurada pelas boas consciências desse novo e terrível normativo discursivo, que, consta, rezaria qualquer coisa como "nas bichas não se toca" (também não sei lá porque razões: pode ser por medo de outras coisas).
Ora, tendo lido o artigo do Miguel Sousa Tavares, sobre o “caso” de Gaia (ou o “caso” do “caso”, para ser exaustivo), e posteriormente auscultando os vários comentários e reacções que se ouviram por essa blogosfera (e outras esferas) fora, tudo por gente que obviamente até tem muitos amigos homossexuais, tive pôr a mão na consciência libertina (cerceando-a) e reconhecer: eles têm razão.
Meus caros, culturalmente, a luta contra a discriminação pela orientação sexual dos indivíduos deu alguns (alguns) (em parte formais, em parte informais) frutos para uma vivência mais igualitária dos cidadãos de algumas sociedades democráticas. Mas temos que reconhecer, neste ponto do caminho, que essas conquistas tiveram os seus efeitos perversos (não é jogo de palavras…). Que novas opressões se erigiram com estas pretensões emancipatórias, fazendo vingar as suas dimensões particularistas, e não a igualdade cidadã que supostamente reclamam. Sim, é verdade, meus concidadãos, sob a capa mentirosa da não-discriminação uma nova e mais ignóbil discriminação foi erigida, insidiosa: a discriminação dos homófobos(?).
Reparem como as argumentações, neste caso, para criticar a contestação que se fez da suposta discriminação implícita no “caso” (do “caso”), regra geral, têm que se rodear de toda uma série de cautelas, explícitas ou implícitas. Têm que afirmar que fizeram um soul-searching aprofundado para concluírem que não os tinge sentimento homofóbico, e como tal podem pronunciar-se de forma puramente intelectual sobre o caso em questão; ou têm que lançar uma proposição de simpatia face aos, lá aos coisos, os outros, os homo; ou têm que escudar a sua argumentação não na afirmação de valores (pois não se pode “ser contra” os pobres homossexuais), mas no exercício de lógica, política, social e/ou jurídica.
Através desta lógica de argumentação, o que se verifica é que os homófobos da nossa praça estão a sofrer agruras retóricas insuportáveis, para poderem defender subtilmente a sua justa causa. Mais ou menos como os nossos artistas anti-fascistas enganavam o lápis-azul, certamente. O que é pior, porque torna a coisa patética, é que they’re not fooling anyone, e gastam nessa operação truncada o capital de seriedade intelectual que podem aplicar produtivamente em outros assuntos em que não tenham que negar o sentimento que não ousa dizer o seu nome (ahhh... senão para o negar, claro).
Por isso, pequena (ou grande, parece) massa de gente afinal pseudo-emancipatória, apelo ao vosso sentido civilizacional: deixem-nos sair do armário, e ser assumidos homófobos livremente e em paz.
Não é vida decente ter que esconder nas saias da retórica tão sofrido segredo por toda uma existência.

4 comentários:

Eduardo disse...

Tu és um gajo com piada. A sério.

julinho da adelaide disse...

Muito raramente, com muito trabalho (o que é avesso à minha disposição mórbida e indolente, ambas), e à distância. A sério.
E a tua do calhau (para entrarmos na do «tu é que és», «não, tu é que és») teve muito (mas muito) mais (elaborada) piada. A sério.

(Já lá vou abaixo, mais tarde, que agora nã posso, tenho que ir à vida que resta.)

Eduardo disse...

Ora...

julinho disse...

Aro...